{"id":128941,"date":"2026-04-23T14:44:10","date_gmt":"2026-04-23T17:44:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=128941"},"modified":"2026-04-23T17:07:54","modified_gmt":"2026-04-23T20:07:54","slug":"plural-e-o-jardim-de-epicuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/04\/23\/plural-e-o-jardim-de-epicuro\/","title":{"rendered":"Plural e o Jardim de  Epicuro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Afonso Silvestre<\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>Tive a honra de participar da IV Feira Cultural Plural, ocorrida recentemente, idealizada pela m\u00e9dica e fil\u00f3sofa Rosa Aurich. A feira ocupou os espa\u00e7os do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima durante dois dias inteiros, reunindo artistas, pensadores, estudantes e jovens iniciantes nas linguagens das artes. Livros, m\u00fasica, teatro, cinema, moda, culin\u00e1ria, artes visuais e feira de artesanato, tudo convivendo num mesmo espa\u00e7o, com esp\u00edrito de partilha e cria\u00e7\u00e3o. A Plural \u00e9 uma experi\u00eancia viva de cultura, feita de encontros e trocas que ultrapassam os limites da arte como produto.<\/strong><br \/>\n<strong>Participei de uma mesa sobre as mem\u00f3rias da Serra do Periperi, tema que atravessa a hist\u00f3ria e a identidade de Vit\u00f3ria da Conquista. Conversamos sobre a import\u00e2ncia simb\u00f3lica e ambiental da Serra, \u00e1guas, vegeta\u00e7\u00e3o, fauna e sua presen\u00e7a como marco de pertencimento coletivo. Estiveram \u00e0 mesa o mediador Elton Becker (historiador e radialista), Gilvandro Oliveira (historiador e escultor), Arm\u00eanio Santos (m\u00e9dico e escritor), Jeremias<\/strong><br \/>\n<strong>Mac\u00e1rio (jornalista e escritor) e Itamar Aguiar (antrop\u00f3logo e pesquisador das tradi\u00e7\u00f5es locais). Foram expressos diferentes pontos de vista, compondo um debate rico em mem\u00f3ria e afetos.<\/strong><br \/>\nEm certo momento, Rosa Aurich me disse algo que ressoou. \u201cA Plural \u00e9 um jardim de Epicuro.\u201d A imagem \u00e9 precisa e poderosa. Epicuro, fil\u00f3sofo grego do s\u00e9culo IV a.C., criou um jardim onde se reuniam amigos para pensar, conversar e cultivar o prazer sereno da exist\u00eancia. Era um ref\u00fagio, mas n\u00e3o um isolamento. Tratava-se de um espa\u00e7o de liberdade interior e de conviv\u00eancia. Chamar a Feira Plural de jardim de Epicuro \u00e9 reconhecer nela um<br \/>\nterrit\u00f3rio de pensamento e afeto, um lugar em que o fazer art\u00edstico se mistura \u00e0 reflex\u00e3o sobre quem somos e como queremos viver em sociedade. A feira prop\u00f5e uma est\u00e9tica do encontro. E, no contexto de Vit\u00f3ria da Conquista, isso tem um peso que deve ser levado em considera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAinda n\u00e3o se consolidou uma tradi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura capazes de refletir a riqueza simb\u00f3lica do povo. As causas s\u00e3o hist\u00f3ricas. Desde os tempos de forma\u00e7\u00e3o, a cidade foi marcada por um tipo de progresso comercial e patriarcal, vindo dos tropeiros, da Rio-Bahia e da ascens\u00e3o de fam\u00edlias tradicionais pouco ligadas \u00e0s artes ou mesmo, at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o. Esse tra\u00e7o moldou uma vida p\u00fablica voltada mais \u00e0 economia do que \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Some-se a isso um crescimento urbano r\u00e1pido e desordenado, sem que houvesse planejamento cultural ou valoriza\u00e7\u00e3o do sens\u00edvel como dimens\u00e3o do desenvolvimento.<br \/>\nAinda assim, alguns gestores plantaram sementes. R\u00e9gis Pacheco, entre 1939 e 1946, por exemplo, teve um papel pedag\u00f3gico ao demarcar o espa\u00e7o p\u00fablico, introduzir uma ideia de cidade e diferen\u00e7as entre p\u00fablico e privado. Mais tarde, Jadiel Mattos incluiu em seu Plano Diretor (1976) um projeto de integra\u00e7\u00e3o entre Cultura e Educa\u00e7\u00e3o, um n\u00facleo cultural urbano, que previa a \u00e1rea hoje ocupada pela Escola Normal e o Centro de Cultura, e se estendia at\u00e9 a rotat\u00f3ria da Ol\u00edvia Flores. O projeto n\u00e3o se completou. Parte do terreno foi vendida posteriormente e, com o tempo, o sonho de um eixo cultural se desfez. A Biblioteca P\u00fablica Municipal, s\u00edmbolo dessa descontinuidade, perdeu seu espa\u00e7o original para o mercado de autom\u00f3veis e foi parar, literalmente, no Brejo.<br \/>\nEsses epis\u00f3dios ilustram uma quest\u00e3o mais ampla: a dist\u00e2ncia entre o desejo dos artistas e o desejo institucional da cidade. Enquanto o poder p\u00fablico se dispersava em a\u00e7\u00f5es fragmentadas, sem planejamento ou justificativa, entre elas at\u00e9 mesmo venda de terrenos, as pessoas ligadas \u00e0 arte e \u00e0 reflex\u00e3o continuaram a produzir, muitas vezes sozinhas,<br \/>\nsustentadas apenas pelo sentido daquilo que fazem. O escultor Caja\u00edba \u00e9 um emblema disso. Criou com as pr\u00f3prias m\u00e3os um museu na Serra do Periperi, na tentativa de preserv\u00e1-la pela for\u00e7a da comunidade. Sua morte, anos depois, marcou tamb\u00e9m o fim de um ciclo de esperan\u00e7a que o poder p\u00fablico n\u00e3o soube compreender. O uso da Serra, que<br \/>\ndeveria ser para preserva\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria, acabou sendo tomado politicamente em atos de assentamento de pessoas, sem planejamento e a troco de votos.<br \/>\nEntre os anos de 1964 e meados de 1990, com, talvez, uma ou duas interrup\u00e7\u00f5es, houve uma sucess\u00e3o de governos, n\u00e3o apenas conservadores, mas reacion\u00e1rios e retr\u00f3grados. Naquele per\u00edodo, a cidade acumulou d\u00edvidas impag\u00e1veis, depreciou e dilapidou seus bens, e o governo municipal ficou conhecido como um \u201cgoverno de tretas\u201d, sem pagar sal\u00e1rios e sem credibilidade no com\u00e9rcio.<br \/>\nAp\u00f3s este per\u00edodo, durante cerca de 20 anos, Conquista acumulou grande quantidade e sorte de conhecimentos sobre si, seu passado e mem\u00f3ria, atrav\u00e9s da visibilidade dada a comunidades tradicionais e costumes folcl\u00f3ricos que estavam sendo afastados do meio urbano. Modernizou-se, e tamb\u00e9m modernizaram-se as formas de gest\u00e3o, inclusive da cultura. Novos espa\u00e7os capazes de abrigar manifesta\u00e7\u00f5es e planejamento de pol\u00edticas criaram uma consci\u00eancia do territ\u00f3rio.<br \/>\nA pr\u00f3pria Universidade contribuiu com esta condi\u00e7\u00e3o, produzindo conhecimento, participando dos governos e promovendo extens\u00e3o dos seus saberes at\u00e9 as comunidades. Depois deste per\u00edodo para a consolida\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cultura, um prefeito ainda desejou realizar atos em prol da preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria simb\u00f3lica e material, e este<br \/>\ntrabalho chegou a ser iniciado. Infelizmente, ap\u00f3s produ\u00e7\u00e3o extensa, a gest\u00e3o seguinte interrompeu a a\u00e7\u00e3o e o que foi produzido se perdeu. Embora se tenha tentado consolidar essa heran\u00e7a simb\u00f3lica, quando pol\u00edticas come\u00e7am, mas n\u00e3o se mant\u00eam, a cidade se fragmenta novamente, e o que foi aprendido se perde no sil\u00eancio institucional.<br \/>\nMais recentemente, o quadro agravou-se. Setores respons\u00e1veis pela cultura foram entregues a agentes com baixo preparo t\u00e9cnico. Recursos deixaram de ser aplicados e tiveram que ser devolvidos, outros sequer foram acessados por falta da qualidade t\u00e9cnica necess\u00e1ria. Projetos se perderam, o di\u00e1logo com a sociedade se enfraqueceu muito a partir<br \/>\ndo momento em que oitivas p\u00fablicas foram desrespeitadas, e o pr\u00f3prio Conselho de Cultura deixou de cumprir o papel de representa\u00e7\u00e3o. Demonstra desconhecimento sobre o pr\u00f3prio regimento, abriga cargos irregularmente e d\u00e1 suporte a express\u00f5es de ignor\u00e2ncia e falta de tato. A interrup\u00e7\u00e3o das transmiss\u00f5es de reuni\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o, ou mesmo das atividades anteriormente promovidas, foi feita sob a alega\u00e7\u00e3o do governo de \u201cverificar a legalidade\u201d desta a\u00e7\u00e3o de obrigatoriedade constitucional. Esse descompasso entre o talento dos criadores e a omiss\u00e3o administrativa cria uma ferida simb\u00f3lica: uma cidade cheia de artistas, mas \u00f3rf\u00e3 de pol\u00edtica cultural.<br \/>\nNo entanto, h\u00e1 movimento. H\u00e1 vida nas bordas, nos coletivos, nos espa\u00e7os aut\u00f4nomos e nas feiras independentes. A Feira Plural surge desse lugar que \u00e9 o da sociedade civil decidindo agir onde o poder p\u00fablico falha, ou at\u00e9 mesmo, como ocorre, agindo em seu lugar, nos espa\u00e7os deixados pela omiss\u00e3o. \u00c9 uma resposta est\u00e9tica e pol\u00edtica, mas sem<br \/>\nrancor, uma resist\u00eancia pela beleza, pol\u00edtica pela delicadeza. Um gesto coletivo que transforma o desamparo em cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo jardim de Epicuro da Plural, o artesanato, a poesia, a m\u00fasica e o pensamento se entrela\u00e7am como formas de autoconhecimento e liberdade. Cada participante \u00e9 convidado a pensar sobre si e sobre o mundo. N\u00e3o como quem foge, mas como quem pausa para respirar, obs<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">ervar atrav\u00e9s de um distanciamento axiol\u00f3gico e reconstruir.<br \/>\nEm tempos de pressa e ru\u00eddo, a Plural oferece o contr\u00e1rio. Disp\u00f5e um espa\u00e7o de escuta e conviv\u00eancia, onde a cultura n\u00e3o \u00e9 espet\u00e1culo, mas v\u00ednculo. E \u00e9 por isso que, de algum modo, o esp\u00edrito da Serra do Periperi atravessa tudo: cuidar dela \u00e9 tamb\u00e9m cuidar da cidade e da pr\u00f3pria mem\u00f3ria.<br \/>\nNo fim, a Feira Plural nos lembra que ainda \u00e9 poss\u00edvel cultivar jardins, mesmo quando tudo ao redor parece t\u00e3o \u00e1rido e incerto. Jardins de ideias, de amizade, de arte e esperan\u00e7a. E, quem sabe, de inspira\u00e7\u00e3o para que o Munic\u00edpio reencontre o caminho da escuta e se aproxime de quem produz com qualidade est\u00e9tica, t\u00e9cnica e humana.<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><em>Afonso Silvestre \u00e9 historiador, escritor e tradutor. Pesquisador de comunidades tradicionais, autor dos document\u00e1rios As Cores da Sagrada Fam\u00edlia (2024), sobre o branqueamento da pele dos santos; Om\u00f4 In\u00e3, os Filhos do Fogo (2025), sobre o cotidiano de um terreiro; e Mem\u00f3rias do Teatro em Conquista entre 1910 e 1920 (2025), sobre o teatro enquanto primeira manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica em Conquista. Foi coordenador e respons\u00e1vel pela moderniza\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o do Arquivo P\u00fablico Municipal (2012\u20132016) e Conselheiro de Cultura (2019\u20132021).<\/em><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afonso Silvestre Tive a honra de participar da IV Feira Cultural Plural, ocorrida recentemente, idealizada pela m\u00e9dica e fil\u00f3sofa Rosa Aurich. A feira ocupou os espa\u00e7os do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima durante dois dias inteiros, reunindo artistas, pensadores, estudantes e jovens iniciantes nas linguagens das artes. 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