{"id":127528,"date":"2026-01-26T12:19:18","date_gmt":"2026-01-26T15:19:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=127528"},"modified":"2026-01-26T12:19:18","modified_gmt":"2026-01-26T15:19:18","slug":"o-evangelho-da-politica-segundo-o-diabo-como-figura-do-mal-absoluto-afeta-seu-voto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/01\/26\/o-evangelho-da-politica-segundo-o-diabo-como-figura-do-mal-absoluto-afeta-seu-voto\/","title":{"rendered":"O evangelho da pol\u00edtica segundo o diabo: como figura do mal absoluto afeta seu voto"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Personifica\u00e7\u00e3o do mal, diabo atravessou religi\u00f5es e regimes at\u00e9 se tornar recurso recorrente do tabuleiro pol\u00edtico<\/p>\n<p>Por Por Duda Sousa<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">No princ\u00edpio era o verbo. O coisa ruim, no entanto, faz sucesso desde ent\u00e3o como adjetivo. A primeira men\u00e7\u00e3o da personifica\u00e7\u00e3o do mal na B\u00edblia crist\u00e3 \u00e9 a serpente, outra que nunca teve a melhor das imagens, no primeiro livro de G\u00eanesis. A figura do \u201cadvers\u00e1rio\u201d, o acusador diante de Deus, s\u00f3 tem vez no primeiro cap\u00edtulo do livro de J\u00f3, o paciente, e sequer recebe nome em todo o Velho Testamento.\u00a0\u201cO diabo \u00e9 uma figura que carrega mil\u00eanios de medo acumulado\u201d, explica o psic\u00f3logo e p\u00f3s graduando em psican\u00e1lise pela PUC Goi\u00e1s Eduardo Afonso. \u201cEla opera antes do pensamento\u201d. E n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que se acredite na exist\u00eancia dele para que se produzam efeitos.\u00a0\u201cBasta reconhecer o peso simb\u00f3lico da acusa\u00e7\u00e3o. O medo vem antes da raz\u00e3o. E o \u2018diabo\u2019 sabe disso h\u00e1 muito tempo\u201d, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201cele\u201d quem sabe. No domingo de junho de 2025, na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo, diante de bandeiras e celulares erguidos, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) subiu em um caminh\u00e3o de som para evocar o inimigo antigo. \u201cO n\u00famero de pessoas que apoiam o Bolsonaro cresceu e ultrapassou as pessoas que apoiam o satan\u00e1s do Lula\u201d, disse, arrancando gritos. Era a repeti\u00e7\u00e3o de um ritual secular, em que advers\u00e1rios pol\u00edticos s\u00e3o empurrados para fazer as vezes de pr\u00edncipe do mal. Ali, o imagin\u00e1rio milenar do diabo se fez. Mais uma vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A persona encarnada atravessa s\u00e9culos sem perder a utilidade.\u00a0A proposta \u00e9 despir o advers\u00e1rio pol\u00edtico de hist\u00f3ria, alian\u00e7as e contradi\u00e7\u00f5es e incubi-lo de um papel mais simples e mais eficiente: o do inimigo que n\u00e3o se discute, apenas se enfrenta.\u00a0No jogo eleitoral, o movimento cumpre fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. \u201cChamar algu\u00e9m de corrupto gera indigna\u00e7\u00e3o. Chamar de diab\u00f3lico gera p\u00e2nico\u201d, diz Afonso, que destaca ainda como o medo engaja r\u00e1pido, o debate empobrece, mas a ades\u00e3o cresce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos momentos seguintes a uma a\u00e7\u00e3o do governo paulista na Cracol\u00e2ndia, em S\u00e3o Paulo, o deputado federal Jos\u00e9 Medeiros (PL-MT) declarou, no plen\u00e1rio da C\u00e2mara dos Deputados: \u201cum monte de gente do PSOL e do PT e at\u00e9 o diabo do padre, porque ele se diz padre, protestaram\u201d. N\u00e3o \u00e9 um caso isolado.\u00a0Apenas em 2025, o termo diabo e suas varia\u00e7\u00f5es foram citados 51 vezes, segundo registros das notas taquigr\u00e1ficas da C\u00e2mara levantados pela\u00a0<strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diabo \u00e9 a forma mais comum ouvida nos discursos, seguida de perto por dem\u00f4nio, al\u00e9m de capeta e satan\u00e1s. Mais da metade do uso desses voc\u00e1bulos se deu por parlamentares do Partido Liberal (PL), 52,9%, enquanto a outra metade de registros tiveram autoria em pronunciamentos de deputados de outros 10 partidos, incluindo PSD, MDB e PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a cientista pol\u00edtica da Universidade Federal do Paran\u00e1 Kelly Prudencio\u00a0a evoca\u00e7\u00e3o da figura do mal indica uma mudan\u00e7a profunda no padr\u00e3o do conflito pol\u00edtico, no sentido de que o advers\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o seria com quem se disputa poder, mas algu\u00e9m que precisa ser eliminado simbolicamente e o uso passa longe de ser casual ou meramente ret\u00f3rica.\u00a0\u201cA efic\u00e1cia, nesse caso, diz respeito \u00e0 conquista do voto\u201d, resume. Segundo ela, quando a constru\u00e7\u00e3o da imagem pol\u00edtica passa pela apresenta\u00e7\u00e3o de um inimigo p\u00fablico, algu\u00e9m descrito como amea\u00e7a moral ou espiritual, isso indica desconfian\u00e7a nas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NZHm1x-hqUP9axFbyKnF93-LS9BauM9AJPdiOhjisV5riXNO-tK1hQprtfPgKQTRHf6-0rgvuBDfWjgXzX9nNKOW4tbbWWHViGpcLQ=s0-d-e1-ft#https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/01.gif\" alt=\"\" width=\"421\" height=\"497\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse cen\u00e1rio, Prudencio afirma que o discurso religioso ganha centralidade porque promete solu\u00e7\u00f5es fora da pol\u00edtica, sem negocia\u00e7\u00e3o ou contraponto. \u201c\u00c9 uma resposta simples para frustra\u00e7\u00f5es profundas, especialmente em contextos de desigualdade, desemprego e descr\u00e9dito na classe pol\u00edtica\u201d, o que ela descreve como um empobrecimento deliberado do debate. \u201cQuando h\u00e1 demoniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 debate, h\u00e1 apenas embate\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem necessidade de doutrina ou igreja, a figura do capeta circula livremente por discursos pol\u00edticos, redes sociais e palanques improvisados. \u201cO diabo sempre reaparece em momentos de crise e incerteza\u201d, lembra o historiador da Universidade Federal do Cear\u00e1 Pierre Grangeiro. Minorias, opositores e grupos vulner\u00e1veis voltam a ocupar o lugar da amea\u00e7a. \u201cA diferen\u00e7a \u00e9 a velocidade, a\u00a0 demoniza\u00e7\u00e3o agora se espalha em segundos, sem media\u00e7\u00e3o institucional\u201d, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mecanismo continua politicamente eficaz. \u201cQuando voc\u00ea transforma algu\u00e9m em diab\u00f3lico, elimina a possibilidade de di\u00e1logo\u201d, afirma o psic\u00f3logo Eduardo Afonso, antes de concluir: \u201cN\u00e3o \u00e9 mais um advers\u00e1rio, \u00e9 um inimigo metaf\u00edsico.\u00a0O diabo funciona como proje\u00e7\u00e3o coletiva. N\u00e3o vem de fora, emerge dos medos e desejos que n\u00e3o se quer reconhecer [\u2026] O diabo \u00e9 o vil\u00e3o perfeito. N\u00e3o responde processo. N\u00e3o precisa provar culpa. Basta acusar\u201d.<\/p>\n<div><img class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_Nal4tItOOvRmHcm_tiufWBAAMWraak0l-gUjImPPbOkYMz8JmHatMzL-F16Qts6_bnqrNZLf61ojnum-7b9XJZGHlpfAB-DQQdEgO-aoHAS8saBsdw=s0-d-e1-ft#https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/27179342\/thumbnail\" alt=\"cards visualization\" width=\"100%\" data-bit=\"iit\" \/><\/div>\n<div>\n<div><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=ba697474b9&amp;e=ac4471583d\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u%3D47bdda836f3b890e13c9f416d%26id%3Dba697474b9%26e%3Dac4471583d&amp;source=gmail&amp;ust=1769524689733000&amp;usg=AOvVaw0BVUjIB21kJOZikRq644HR\"><strong>Dados abertos do levantamento (baixar)<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NZR4nx8SUJpiNePBPYFEzl5resq18tfUrL7vHm-5LXZ-jI7ekmPVAgL-g-7B0mcYBReSGfWc_mNmYcDG44YGD-63ICs8bB0xryBemVW-3HKlvAvi5FdOuZKhLwCTju9cWwR6agywotWAUy-F_LoTu32OswYWQFuUJYxGdQ=s0-d-e1-ft#https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Design-sem-nome-1.png?resize=640%2C123&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"123\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<h2><strong>Capeta, o funcion\u00e1rio-padr\u00e3o quase sempre desprovido de DNA<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 poucos s\u00e9culos, o diabo ainda n\u00e3o tinha biografia, mas j\u00e1 ocupava um dos lados do tabuleiro. Apesar de s\u00f3 receber nome no evangelho do Novo Testamento crist\u00e3o, antes disso, o mal j\u00e1 ensaiava apari\u00e7\u00f5es na tentativa humana de dar sentido ao caos. \u201cAs primeiras personifica\u00e7\u00f5es do mal n\u00e3o surgem para punir pessoas, mas para explicar o que foge ao controle humano\u201d, afirma o historiador Pierre Grangeiro. Ele explica que guerras, doen\u00e7as e cat\u00e1strofes precisavam de uma narrativa, pois o sofrimento exigia uma causa. At\u00e9 ent\u00e3o, o diabo ainda n\u00e3o era indiv\u00edduo, era hip\u00f3tese.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi na antiga P\u00e9rsia, no s\u00e9culo VII antes de Cristo, que o dem\u00f4nio come\u00e7ou a ganhar contornos n\u00edtidos. O profeta Zoroastro, fundador do Masde\u00edsmo (religi\u00e3o que pode ter sido a primeira monote\u00edsta do mundo), descreveu Arim\u00e3 como o princ\u00edpio das trevas, em oposi\u00e7\u00e3o a Mazda, o princ\u00edpio da luz. Ali, o mundo passou a ser concebido enquanto dicotomia num campo de for\u00e7as irreconcili\u00e1veis. \u201c\u00c9 uma estrutura mental que atravessa s\u00e9culos\u201d, ressalta Grangeiro.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_Nb_oiIuo7udES3_6pexD_YcUHvbvxwozNnmGnWD1oJ960ScVwRRaJq4KGQdWHEsGbWmttjtobBEYpYvXaGoyyKdZ5eciEShMB8fHoc=s0-d-e1-ft#https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/02.gif\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"532\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">No juda\u00edsmo antigo, o diabo permaneceu discreto. Segundo o te\u00f3logo da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica Edin Sued Abumanssur, \u201csatan\u00e1s\u201d n\u00e3o designava um ser, mas uma fun\u00e7\u00e3o. Era o acusador, o opositor ocasional, algu\u00e9m que surgia quando necess\u00e1rio. \u201cO mal ainda n\u00e3o tinha identidade\u201d, resume. N\u00e3o havia inferno organizado, nem personagem dedicado \u00e0 perversidade. O diabo era um cargo tempor\u00e1rio, n\u00e3o uma carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com o cristianismo que ele finalmente assume protagonismo. Influenciado por tradi\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas judaicas e por textos como o Livro de Enoque, o diabo ganha nome, rosto e ambi\u00e7\u00e3o. Deixa de ser circunst\u00e2ncia e passa a ser agente, quando, segundo Grangeiro, \u201co mal se transforma em entidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, o diabo tornou-se indispens\u00e1vel para organizar comportamentos, justificar puni\u00e7\u00f5es e explicar a desobedi\u00eancia. Ele n\u00e3o apenas existe, trabalha.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NZv-UBP8LZeQyDTg1fyjBLt2cjm8BSSEqTAbIIMLvvwuY5pA2s_U7ZonxlG1-yU0xh3p-iXwBVd2wO4OHki6UmG84zu6I4DREB_bylrU75AecAnKzmhJZIE9GFhkXqKCedvhGbVBF8rfKRxXkgR-8_sLABZAF6I=s0-d-e1-ft#https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/separador_04.png?resize=640%2C123&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"123\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<h2><strong>No fato e no direito: o dem\u00f4nio importado para as Am\u00e9ricas<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 durante a Idade M\u00e9dia, e, ironicamente, pelo fato de a Igreja Cat\u00f3lica se consolidar como principal poder pol\u00edtico e simb\u00f3lico da Europa, que o diabo atravessa a fronteira da cren\u00e7a e entra no direito. \u201cA partir do s\u00e9culo XII, o dem\u00f4nio se torna uma categoria jur\u00eddica\u201d, diz Pierre Grangeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mulheres acusadas de bruxaria, hereges, curandeiros, judeus e dissidentes passam a ser vistos como corpos \u201ccontaminados\u201d. O diabo aprende ali uma de suas li\u00e7\u00f5es mais duradouras: quando o mal vem de fora, a viol\u00eancia parece leg\u00edtima. \u201cEle permitia punir sem culpa\u201d, resume o historiador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a expans\u00e3o colonial, o diabo embarca rumo \u00e0s Am\u00e9ricas, onde assume novas fei\u00e7\u00f5es. Pr\u00e1ticas religiosas de origem africanas e ind\u00edgenas passam a ser demonizadas, e corpos negros, associados ao pecado e \u00e0 desordem moral. \u201cA demoniza\u00e7\u00e3o foi central para legitimar a escravid\u00e3o, era uma justificativa f\u00e1cil para os governantes. A quem questionasse, bastava falar que aquele ser era do diabo\u201d, afirma Grangeiro. Ao transformar o outro n\u00e3o apenas em objeto a ser possu\u00eddo, mas em uma exist\u00eancia aliada ao mal a ser controlada, o colonizador se absolvia. O chicote vinha acompanhado de ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NYFXyJI1iE6H1L6j5COKG4u5B2YYURkR6Pc4fNsIJzZE3zGNtmw9QmSUyEw_YFOQ9cV9wVuIjGQ59ztdDW1VyloPhJaDvQHhQW6BHY=s0-d-e1-ft#https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/03.gif\" alt=\"\" width=\"405\" height=\"301\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo 20, o diabo troca de forma mais evidente o vocabul\u00e1rio religioso pela linguagem pol\u00edtica, mas preserva sua fun\u00e7\u00e3o. No nazismo, judeus s\u00e3o descritos como amea\u00e7a existencial, corruptora, quase sobrenatural. \u201cO antissemitismo nazista se alimenta diretamente da tradi\u00e7\u00e3o medieval de demoniza\u00e7\u00e3o\u201d, explica o historiador. Ao transformar um povo inteiro em encarna\u00e7\u00e3o do mal, o regime cria as condi\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas para o exterm\u00ednio. N\u00e3o se matavam pessoas, combatia-se o \u201cmal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante a Guerra Fria, o diabo passa a atender por outro nome: comunismo. O discurso anticomunista mobiliza imagens apocal\u00edpticas semelhantes \u00e0s religiosas. O inimigo \u00e9 descrito como ateu, destruidor da fam\u00edlia, corrosivo da ordem moral. Na Am\u00e9rica Latina, essa narrativa ajuda a justificar golpes de Estado, persegui\u00e7\u00f5es e ditaduras. Quando o advers\u00e1rio se torna diab\u00f3lico, a democracia vira detalhe negoci\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1983, Ronald Reagan chamou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de \u201cimp\u00e9rio do mal\u201d. N\u00e3o era apenas ret\u00f3rica. Ao recorrer a imagens morais absolutas, Reagan refor\u00e7ava a ideia de que o conflito n\u00e3o era pol\u00edtico, mas existencial. O comunismo deixava de ser uma ideologia discut\u00edvel e tamb\u00e9m passava a ser uma amea\u00e7a metaf\u00edsica. O diabo, mais uma vez, fazia o trabalho sujo.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NbqOxeWfc4P5w2sTZrqlCV7mTgK0-ZqD9ntkD9qeA-7N1zqWMfkVbGoDQdAztmLEE7OgqNNDuBQLL0vKe07Y1ibJtkbULzKPgURVT0fdVeHS4CclglmaKNKIrum5tA7UDGOR3JqUXYt_mrRARZGFGnM5v_ioyu4=s0-d-e1-ft#https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/separador_03.png?resize=640%2C123&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"123\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<h2><strong>N\u00e3o sei, s\u00f3 sei que foi assim: quando o diabo virou pop<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o diabo contempor\u00e2neo ganha novos contornos e usos. No Brasil, lembra o te\u00f3logo Edin Sued Abumanssur, a cultura popular frequentemente retirou do dem\u00f4nio o poder absoluto. Na literatura de cordel, ele aparece enganado, ridicularizado, derrotado por personagens pobres e astutos. O medo \u00e9 reescrito como narrativa control\u00e1vel. O diabo continua presente, mas j\u00e1 n\u00e3o domina a hist\u00f3ria.<\/p>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><img class=\"CToWUd a6T\" tabindex=\"0\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NY75CaJDfPovnyBqhzU1leO7OvPMwl0QgqY_Tp8bnHwwiyRL7xNwm2L7zyLQxnxDhyjRNS8Knjm3XvIERl4j0__6F8jpF14gzr7BY-x85yEp2eVov4=s0-d-e1-ft#https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/27148295\/thumbnail\" alt=\"cards visualization\" width=\"100%\" data-bit=\"iit\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div aria-hidden=\"true\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outros espa\u00e7os, essa domestica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica tamb\u00e9m se manifesta na cultura de massa contempor\u00e2nea. Em s\u00e9ries, filmes e romances, o diabo deixou de ser apenas antagonista e passou a ocupar o centro da narrativa. O inferno, ali, n\u00e3o \u00e9 um lugar f\u00edsico, mas uma condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. \u201cA cultura pop faz algo que a pol\u00edtica n\u00e3o consegue: humaniza o diabo\u201d, afirma o historiador Pierre Grangeiro. \u201cQuando o transforma em personagem complexo, retira dele a fun\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a absoluta e o aproxima do p\u00fablico\u201d, completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo no cinema, o diabo frequentemente aparece menos como origem do mal e mais como met\u00e1fora da ambi\u00e7\u00e3o humana, do desejo reprimido ou da transgress\u00e3o social. Para Abumanssur, esse deslocamento n\u00e3o elimina o personagem, apenas redefine sua fun\u00e7\u00e3o: \u201cQuando o diabo vira personagem de narrativa, ele deixa de servir ao medo e passa a servir \u00e0 reflex\u00e3o [\u2026] O mal j\u00e1 n\u00e3o vem de fora como entidade soberana, mas emerge das escolhas humanas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na express\u00e3o art\u00edstica, as regras e o pr\u00f3prio jogo s\u00e3o outros quando comparado ao campo pol\u00edtico, em que essa humaniza\u00e7\u00e3o raramente acontece. No fim, o uso da figura do diabo \u00e9 menos sobre religi\u00e3o do que sobre a dificuldade humana de lidar com conflitos, inclusive os pr\u00f3prios. Enquanto isso, o \u201cmal feito gente\u201d segue eficiente e dispon\u00edvel para cumprir, mais uma vez, seu eterno papel diab\u00f3lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure><img loading=\"lazy\" class=\"CToWUd\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/meips\/ADKq_NaskNbYKLnn0RWWwUKc7C8F9nU_k89GXCLwXZ_4YkaF17eowBj0UkQNEpkVw5Fag6trF8fSuq7e-Xa4AulV75hUTYMO68ZtKsbJC7njjeemzMJRFFko5OjhlTZRKNIRgAQEviZylST9I7pQO0iKJ3nM7AaYoXerOQaCKjyPsw=s0-d-e1-ft#https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Design-sem-nome-1-1.png?resize=640%2C123&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"123\" data-bit=\"iit\" \/><\/figure>\n<h3>Cr\u00e9ditos de imagens<\/h3>\n<div><a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=8ede5c6e19&amp;e=ac4471583d\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" 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P\u00fablica<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Personifica\u00e7\u00e3o do mal, diabo atravessou religi\u00f5es e regimes at\u00e9 se tornar recurso recorrente do tabuleiro pol\u00edtico Por Por Duda Sousa No princ\u00edpio era o verbo. O coisa ruim, no entanto, faz sucesso desde ent\u00e3o como adjetivo. A primeira men\u00e7\u00e3o da personifica\u00e7\u00e3o do mal na B\u00edblia crist\u00e3 \u00e9 a serpente, outra que nunca teve [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":127529,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[67,105],"tags":[1646,1336],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127528"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127528"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127528\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":127530,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127528\/revisions\/127530"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/127529"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}