{"id":127511,"date":"2026-01-23T09:38:18","date_gmt":"2026-01-23T12:38:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=127511"},"modified":"2026-01-23T09:39:01","modified_gmt":"2026-01-23T12:39:01","slug":"gestao-do-vazio-quando-a-cidade-escolhe-esquecer-a-propria-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/01\/23\/gestao-do-vazio-quando-a-cidade-escolhe-esquecer-a-propria-historia\/","title":{"rendered":"Gest\u00e3o do vazio: quando a cidade escolhe esquecer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por Joilson Bergher<\/strong><br \/>\n___<br \/>\nH\u00e1 cidades que escolhem a amn\u00e9sia como m\u00e9todo de governo. N\u00e3o por ignor\u00e2ncia, mas por conveni\u00eancia. Apagar a mem\u00f3ria \u00e9 mais simples do que enfrent\u00e1-la; silenciar a cultura custa menos do que sustent\u00e1-la; produzir cen\u00e1rios urbanos rende mais aplausos imediatos do que investir em consci\u00eancia hist\u00f3rica e legado. Conforme observa Halbwachs (2006), a mem\u00f3ria coletiva n\u00e3o se preserva espontaneamente: ela depende de estruturas sociais, institucionais e simb\u00f3licas que a sustentem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vit\u00f3ria da Conquista parece aprisionada a esse equ\u00edvoco deliberado. Alimenta-se de uma narrativa provinciana que tenta se apresentar como cosmopolita, ao mesmo tempo em que despreza seus pr\u00f3prios marcos simb\u00f3licos. Inventa nomes grandiloquentes para estruturas ordin\u00e1rias, como se a opera\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica fosse capaz de fabricar modernidade. Chamar terminal de \u00f4nibus de esta\u00e7\u00e3o n\u00e3o inaugura progresso algum; apenas exp\u00f5e o desejo pueril de parecer aquilo que n\u00e3o se \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obsess\u00e3o por uma Europa imaginada \u2014 uma suposta \u201cSu\u00ed\u00e7a baiana\u201d que jamais existiu \u2014 convive de forma contradit\u00f3ria com o abandono do que \u00e9 concreto: o sert\u00e3o da ressaca, a produ\u00e7\u00e3o cultural local, a mem\u00f3ria pol\u00edtica e art\u00edstica que conferiu relev\u00e2ncia hist\u00f3rica \u00e0 cidade. Tal nega\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio expressa aquilo que Choay (2006) define como a ruptura entre patrim\u00f4nio e projeto de futuro, quando a preserva\u00e7\u00e3o deixa de ser entendida como valor civilizat\u00f3rio e passa a ser tratada como obst\u00e1culo ao marketing urbano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada simboliza melhor esse colapso do que o abandono da casa de Glauber Rocha. N\u00e3o se trata de uma edifica\u00e7\u00e3o qualquer, mas de um patrim\u00f4nio cultural de alcance nacional e internacional. Glauber foi mais do que um cineasta; foi um intelectual radical do Terceiro Mundo, um int\u00e9rprete do Brasil profundo e um agente cultural inserido nos grandes debates pol\u00edticos e est\u00e9ticos do s\u00e9culo XX. Sua atua\u00e7\u00e3o dialogou diretamente com processos hist\u00f3ricos globais, inclusive com o mundo lus\u00f3fono no contexto das lutas anticoloniais intensificadas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em Portugal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Receber representantes estrangeiros enquanto o teto simb\u00f3lico dessa mem\u00f3ria desaba n\u00e3o \u00e9 apenas desleixo administrativo; \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Uma cidade que permite que seu maior nome cultural se degrade em ru\u00ednas afirma, de modo inequ\u00edvoco, que n\u00e3o valoriza nem passado, nem presente, tampouco futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Governos dessa natureza n\u00e3o empobrecem apenas o espa\u00e7o urbano; empobrecem o imagin\u00e1rio coletivo. Reduzem a cidade a obras pontuais, cal\u00e7adas novas e placas vistosas, enquanto esvaziam o sentido de pertencimento e continuidade hist\u00f3rica. Produzem marketing, n\u00e3o mem\u00f3ria; apar\u00eancia, n\u00e3o identidade. Como alerta Halbwachs (2006), quando os quadros sociais da mem\u00f3ria se rompem, o passado deixa de orientar o presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coaduno com essa assertiva: Vit\u00f3ria da Conquista n\u00e3o \u00e9 uma cidade ignorante. O que a amea\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de consci\u00eancia popular, mas a mediocridade de gest\u00f5es que confundem obra com legado e administra\u00e7\u00e3o com grandeza. Uma cidade que esquece seus artistas, seus processos hist\u00f3ricos e sua inser\u00e7\u00e3o no mundo escolhe, conscientemente, governar o vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o vazio, invariavelmente, cobra seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HALBWACHS, Maurice. A mem\u00f3ria coletiva. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CHOAY, Fran\u00e7oise. A alegoria do patrim\u00f4nio. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Esta\u00e7\u00e3o Liberdade; UNESP, 2006.<br \/>\n__<br \/>\nJoilson Bergher\/Leitor de algumas obras fundamentais para tentar compreender o Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Joilson Bergher ___ H\u00e1 cidades que escolhem a amn\u00e9sia como m\u00e9todo de governo. N\u00e3o por ignor\u00e2ncia, mas por conveni\u00eancia. 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