{"id":127348,"date":"2026-01-13T13:12:31","date_gmt":"2026-01-13T16:12:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=127348"},"modified":"2026-01-13T13:13:48","modified_gmt":"2026-01-13T16:13:48","slug":"a-retorica-oficial-ja-desmentida-por-documentos-apresentados-por-estudantes-movimento-negro-e-organizacoes-sociais-revela-se-uma-farsa-discursiva-a-servico-de-um-projeto-excludente-que-ecoa-valore","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/01\/13\/a-retorica-oficial-ja-desmentida-por-documentos-apresentados-por-estudantes-movimento-negro-e-organizacoes-sociais-revela-se-uma-farsa-discursiva-a-servico-de-um-projeto-excludente-que-ecoa-valore\/","title":{"rendered":"A ret\u00f3rica oficial, j\u00e1 desmentida por documentos apresentados por estudantes, movimento negro e organiza\u00e7\u00f5es sociais, revela-se uma farsa discursiva a servi\u00e7o de um projeto excludente, que ecoa valores e pr\u00e1ticas da extrema-direita derrotada nas urnas, mas ainda presente nas estruturas locais de poder"},"content":{"rendered":"<p>Por Joilson Bergher. Arte como trincheira: est\u00e9tica, mem\u00f3ria e resist\u00eancia na defesa dos estudantes quilombolas de Vit\u00f3ria da Conquista\/Bahia.<br \/>\n_<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ensaio analisa o fechamento da Casa de Estudantes Quilombolas Dandara dos Palmares, em Vit\u00f3ria da Conquista, como um ato pol\u00edtico de exclus\u00e3o racial travestido de decis\u00e3o administrativa. Ao retirar de jovens negros e quilombolas a possibilidade concreta de perman\u00eancia no ensino superior, o poder p\u00fablico municipal atinge diretamente pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. O texto convoca a arte \u2014 na m\u00fasica, na poesia, nos saraus, nas artes visuais e nas performances \u2014 como linguagem de den\u00fancia, mem\u00f3ria e resist\u00eancia, capaz de romper o sil\u00eancio burocr\u00e1tico e tornar p\u00fablica uma injusti\u00e7a estrutural. Defender essa casa \u00e9 afirmar a educa\u00e7\u00e3o como direito e a cidade como espa\u00e7o de vida, diversidade e dignidade, onde no sentido [adorniano], trata-se de impedir a repeti\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie sob formas aparentemente racionais, administrativas e legalizadas.<br \/>\n___<br \/>\nA tentativa \u2014 ou efetiva\u00e7\u00e3o \u2014 do fechamento da Casa de Estudantes Quilombolas Dandara dos Palmares, vinculada ao cursinho pr\u00e9-vestibular, n\u00e3o \u00e9 um ato administrativo neutro, tampouco um problema meramente burocr\u00e1tico. Trata-se de uma disputa pol\u00edtica e simb\u00f3lica sobre quem pode ou n\u00e3o acessar o ensino superior no Brasil. Quando o Poder P\u00fablico Municipal, detentor da tutela dos im\u00f3veis, escolhe ignorar a fun\u00e7\u00e3o social dessa casa, ele opera contra uma pol\u00edtica hist\u00f3rica de repara\u00e7\u00e3o racial, desmontando, na pr\u00e1tica, um dos poucos instrumentos que garantem a perman\u00eancia de estudantes negros e quilombolas na universidade. A ret\u00f3rica oficial, j\u00e1 desmentida por documentos apresentados por estudantes, movimento negro e organiza\u00e7\u00f5es sociais, revela-se uma farsa discursiva a servi\u00e7o de um projeto excludente, que ecoa valores e pr\u00e1ticas da extrema-direita derrotada nas urnas, mas ainda presente nas estruturas locais de poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio que a arte emerge n\u00e3o como ornamento, mas como trincheira. A contribui\u00e7\u00e3o dos artistas \u2014 do zine \u00e0 m\u00fasica, da poesia ao violoncelo, da flauta \u00e0 bateria, dos saraus \u00e0s artes visuais \u2014 consiste em romper o sil\u00eancio imposto pela burocracia e transformar o conflito em narrativa p\u00fablica. A arte tem a capacidade de traduzir dados frios e documentos t\u00e9cnicos em experi\u00eancia sens\u00edvel, alcan\u00e7ando tanto quem domina o debate pol\u00edtico quanto quem dele foi historicamente afastado. Ao dar rosto, voz e corpo aos estudantes quilombolas, a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica humaniza a luta e impede que ela seja reduzida a um \u201ccaso administrativo\u201d, expondo seu verdadeiro conte\u00fado: a nega\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a arte cumpre um papel fundamental de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria e de produ\u00e7\u00e3o de contra-hegemonia. Em uma cidade onde gestores acolheram publicamente expoentes da extrema-direita \u2014 inclusive figuras associadas \u00e0 viol\u00eancia pol\u00edtica e ao ataque direto \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas \u2014, os artistas s\u00e3o chamados a construir uma pedagogia est\u00e9tica da resist\u00eancia. Cada can\u00e7\u00e3o, poema, performance ou interven\u00e7\u00e3o urbana afirma que a cidade n\u00e3o \u00e9 propriedade de um governo de ocasi\u00e3o, mas territ\u00f3rio de m\u00faltiplas vozes, hist\u00f3rias e pertencimentos. A defesa da Casa Dandara dos Palmares, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas uma pauta estudantil: \u00e9 uma disputa sobre o significado de Vit\u00f3ria da Conquista e sobre qual projeto de sociedade se deseja afirmar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, ao convocar a arte para esse debate, convoca-se tamb\u00e9m a universidade, a escola, os espa\u00e7os culturais e a sociedade civil a assumirem posi\u00e7\u00e3o. A neutralidade, aqui, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel: o sil\u00eancio favorece a exclus\u00e3o. A arte, quando aliada \u00e0 luta dos estudantes quilombolas, cumpre sua fun\u00e7\u00e3o mais radical e necess\u00e1ria \u2014 a de desnaturalizar a injusti\u00e7a e reencantar o mundo com a ideia de que educa\u00e7\u00e3o, cultura e repara\u00e7\u00e3o racial s\u00e3o direitos, n\u00e3o concess\u00f5es. Defender essa casa \u00e9 defender a possibilidade de futuro para jovens negros que, sem ela, seriam novamente empurrados para fora dos espa\u00e7os que historicamente lhes foram negados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancia Te\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dial\u00e9tica do Esclarecimento: Fragmentos Filos\u00f3ficos. Tradu\u00e7\u00e3o: Guido Ant\u00f4nio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. (1\u00aa edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3: Dialektik der Aufkl\u00e4rung, 1947).<\/p>\n<p>ADORNO, Theodor W.<br \/>\nEduca\u00e7\u00e3o e Emancipa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Wolfgang Leo Maar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[Observa\u00e7\u00f5es]. As obras aqui usadas pra embasar o ensaio analisa como a raz\u00e3o instrumental e os discursos administrativos podem ser usados para legitimar pr\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o. Em especial, o conceito de ind\u00fastria cultural ajuda a compreender como narrativas oficiais e slogans de governo tentam naturalizar injusti\u00e7as sociais, esvaziando conflitos pol\u00edticos reais e apresentando decis\u00f5es excludentes como meras \u201cnecessidades t\u00e9cnicas\u201d. No contraponto, Adorno atribui \u00e0 arte cr\u00edtica um papel emancipador: ela rompe a falsa neutralidade do poder, revela contradi\u00e7\u00f5es sociais e devolve voz aos sujeitos historicamente silenciados. Essa leitura dialoga diretamente com a luta dos estudantes quilombolas, ao compreender a arte como forma de resist\u00eancia \u00e9tica, pol\u00edtica e pedag\u00f3gica frente \u00e0 barb\u00e1rie travestida de gest\u00e3o.<br \/>\n__<br \/>\nJoilson Bergher\/Produtor de algum conhecimento na \u00e1rea de \u00c1frica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Joilson Bergher. Arte como trincheira: est\u00e9tica, mem\u00f3ria e resist\u00eancia na defesa dos estudantes quilombolas de Vit\u00f3ria da Conquista\/Bahia. _ Este ensaio analisa o fechamento da Casa de Estudantes Quilombolas Dandara dos Palmares, em Vit\u00f3ria da Conquista, como um ato pol\u00edtico de exclus\u00e3o racial travestido de decis\u00e3o administrativa. 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