{"id":127345,"date":"2026-01-13T13:06:20","date_gmt":"2026-01-13T16:06:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=127345"},"modified":"2026-01-13T13:06:20","modified_gmt":"2026-01-13T16:06:20","slug":"como-a-injustica-na-mobilidade-urbana-produz-desigualdade-socioespacial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2026\/01\/13\/como-a-injustica-na-mobilidade-urbana-produz-desigualdade-socioespacial\/","title":{"rendered":"Como a injusti\u00e7a na mobilidade urbana produz desigualdade socioespacial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pedro da Cunha Rego Logiodice e Mariana Giannotti 30 de Setembro de 2025 (atualizado 30 de Setembro de 2025)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta pesquisa, publicada no Urban Studies, investiga como os sistemas de mobilidade urbana injustos em cidades do Sul Global n\u00e3o apenas refletem, mas ativamente (re)produzem as desigualdades socioespaciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os resultados interessam a formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas, urbanistas e gestores de transporte que buscam sistemas mais justos. S\u00e3o tamb\u00e9m relevantes para pesquisadores de estudos urbanos, ci\u00eancias sociais e geografia, al\u00e9m de movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es que atuam por direito \u00e0 cidade e justi\u00e7a racial \u2013 oferecendo evid\u00eancias concretas para fundamentar suas demandas e propostas de transforma\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1<br \/>\nA QUAL PERGUNTA A PESQUISA RESPONDE?<br \/>\nA pesquisa investiga como os sistemas de mobilidade urbana injustos em cidades do Sul Global n\u00e3o apenas refletem, mas ativamente (re)produzem as desigualdades socioespaciais. O estudo analisa empiricamente a interdepend\u00eancia entre regimes de mobilidade privilegiados e precarizados no transporte p\u00fablico, demonstrando como as vantagens de alguns grupos \u2013 menores custos tarif\u00e1rios e maior oferta de transporte \u2013 s\u00e3o sustentadas pelas desvantagens de outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A an\u00e1lise incorpora recortes de classe e ra\u00e7a para compreender como esses marcadores sociais informam a composi\u00e7\u00e3o de cada um desses regimes de mobilidade urbana. Para investigar essa din\u00e2mica, o artigo prop\u00f5e um novo arcabou\u00e7o te\u00f3rico: a \u2018Injusti\u00e7a Relacional da Mobilidade Urbana\u2019 (Relational Urban Mobility Injustice Framework \u2013 RUMI).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2<br \/>\nPOR QUE ISSO \u00c9 RELEVANTE?<br \/>\nEnquanto o debate sobre justi\u00e7a no transporte tradicionalmente foca na distribui\u00e7\u00e3o desigual de recursos e oportunidades, esta pesquisa prop\u00f5e uma mudan\u00e7a paradigm\u00e1tica ao revelar os mecanismos operacionais que (re)produzem tais desigualdades em cidades do Sul Global. O artigo demonstra que a precariedade no deslocamento \u2013 com tarifas elevadas e superlota\u00e7\u00e3o \u2013 vivenciada por grupos historicamente marginalizados, n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia apenas de disfun\u00e7\u00f5es do sistema de transporte, mas constitui condi\u00e7\u00e3o estrutural para a manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao adotar a espolia\u00e7\u00e3o como chave anal\u00edtica, a pesquisa revela como as desigualdades no transporte transcendem falhas de planejamento e operam como elemento funcional em sistemas de mobilidade urbana moldados pelo legado colonial, pelo racismo estrutural e pela segrega\u00e7\u00e3o socioespacial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3<br \/>\nRESUMO DA PESQUISA<br \/>\nO estudo prop\u00f5e o RUMI, um novo enquadramento te\u00f3rico que classifica a mobilidade urbana em quatro regimes interdependentes: mobilidade privilegiada, imobilidade volunt\u00e1ria, imobilidade for\u00e7ada e mobilidade prec\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para aplicar esse arcabou\u00e7o, a pesquisa analisou o transporte p\u00fablico da cidade de S\u00e3o Paulo atrav\u00e9s do registro de cerca de 13 milh\u00f5es de transa\u00e7\u00f5es com o Bilhete \u00danico, examinando tarifas e superlota\u00e7\u00e3o nas viagens dos hor\u00e1rios de pico da manh\u00e3 e tarde, cruzando esses dados com informa\u00e7\u00f5es demogr\u00e1ficas de classe e ra\u00e7a por zona de origem e destino. A an\u00e1lise demonstra como marcadores de classe e ra\u00e7a determinam, em grande medida, o regime de mobilidade \u2013 privilegiado ou prec\u00e1rio \u2013 que a cidade proporciona a cada pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4<br \/>\nQUAIS FORAM AS CONCLUS\u00d5ES<br \/>\nDemonstrando a contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do arcabou\u00e7o RUMI para reinterpretar a an\u00e1lise da desigualdade na mobilidade urbana, a pesquisa conclui que o sistema de transporte p\u00fablico na cidade de S\u00e3o Paulo opera de forma a perpetuar a opress\u00e3o de grupos sociais. As conclus\u00f5es mostram que:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Custo da tarifa: Nas regi\u00f5es onde o gasto m\u00e9dio com transporte p\u00fablico fica entre R$6 e R$9, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 predominantemente branca e pertencente \u00e0 classe social alta. J\u00e1 nas \u00e1reas com gastos superiores a R$18, todas as zonas s\u00e3o habitadas majoritariamente por popula\u00e7\u00e3o negra e pertencentes \u00e0 classe social baixa. Essa disparidade resulta da combina\u00e7\u00e3o entre uma pol\u00edtica tarif\u00e1ria que penaliza as baldea\u00e7\u00f5es e a oferta deficiente do sistema de transporte nas periferias, que for\u00e7a m\u00faltiplas transfer\u00eancias entre \u00f4nibus e trilhos no deslocamento ao destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Superlota\u00e7\u00e3o: Em viagens sem superlota\u00e7\u00e3o, mais de 89% dos passageiros v\u00eam de zonas habitadas por popula\u00e7\u00e3o predominantemente branca e de classe m\u00e9dia\/alta. J\u00e1 entre as viagens com superlota\u00e7\u00e3o prolongada (mais de 30 minutos di\u00e1rios), todas t\u00eam sua origem em zonas predominantemente habitadas por popula\u00e7\u00e3o de classe baixa, sendo cerca de 60% majoritariamente por popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interdepend\u00eancia: A pol\u00edtica tarif\u00e1ria e a oferta de transporte beneficiam desproporcionalmente moradores de \u00e1reas centrais, que fazem menos transfer\u00eancias entre modos de transporte em seus deslocamentos. A popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica \u2013 majoritariamente negra e pertencente \u00e0 classe social baixa \u2013 subsidia esse privil\u00e9gio ao arcar com custos tarif\u00e1rios maiores e receber menor oferta de \u00f4nibus e infraestrutura metroferrovi\u00e1ria. O estudo evidencia como a mobilidade privilegiada de uns se conecta estruturalmente com a precariza\u00e7\u00e3o de outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5<br \/>\nQUEM DEVERIA CONHECER SEUS RESULTADOS?<br \/>\nOs resultados interessam diretamente a formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas, urbanistas e gestores de transporte que buscam sistemas mais justos. S\u00e3o igualmente relevantes para pesquisadores de estudos urbanos, ci\u00eancias sociais e geografia, al\u00e9m de movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es que atuam por direito \u00e0 cidade e justi\u00e7a racial \u2013 oferecendo evid\u00eancias concretas para fundamentar suas demandas e propostas de transforma\u00e7\u00e3o urbana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6<br \/>\nREFER\u00caNCIAS<br \/>\nKowarick, L. (1979) Urban Spoliation. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<\/p>\n<p>Preston, J. and Raj\u00e9, F. (2007) Accessibility, mobility and transport-related social exclusion.<\/p>\n<p>Journal of Transport Geography 15(3): 151-160.<\/p>\n<p>Sheller, M. (2018) Mobility Justice: The Politics of Movement in an Age of Extremes. London: Verso Books.<\/p>\n<p>Young, IM. (1990) Justice and the Politics of Difference. Princeton, NJ: Princeton University Press.<\/p>\n<p>Pedro Logiodice \u00e9 engenheiro civil e mestre em transportes pela Escola Polit\u00e9cnica da Universidade de S\u00e3o Paulo (Poli-USP), pesquisador vinculado ao LabGEO e ao CEM (Centro de Estudos da Metr\u00f3pole).<\/p>\n<p>Mariana Giannotti \u00e9 professora de geoprocessamento da Poli-USP, onde coordena o LabGEO, e pesquisadora do CEM (Centro de Estudos da Metr\u00f3pole), onde coordena projeto sobre desigualdades socioespaciais relacionadas ao transporte urbano.<\/p>\n<p>Link para mat\u00e9ria: https:\/\/pp.nexojornal.com.br\/academico\/2025\/09\/30\/como-a-injustica-na-mobilidade-urbana-produz-desigualdade-socioespacial<br \/>\n\u00a9 2026 | Todos os direitos deste material s\u00e3o reservados ao NEXO JORNAL LTDA., conforme a Lei n\u00ba 9.610\/98. 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