{"id":126503,"date":"2025-11-20T10:28:13","date_gmt":"2025-11-20T13:28:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=126503"},"modified":"2025-11-20T10:28:13","modified_gmt":"2025-11-20T13:28:13","slug":"gertrudes-de-jesus-uma-mulher-negra-a-frente-do-movimento-abolicionista-em-pernambuco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2025\/11\/20\/gertrudes-de-jesus-uma-mulher-negra-a-frente-do-movimento-abolicionista-em-pernambuco\/","title":{"rendered":"Gertrudes de Jesus, uma mulher negra \u00e0 frente do movimento abolicionista em Pernambuco"},"content":{"rendered":"<p><strong>Tr\u00eas mil pessoas podem ter fugido de barco do Recife com ajuda de Gertrudes e clube de abolicionistas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong><br \/>\nPor Mariama Correia<\/p>\n<p>direitos humanos escravid\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\nEsta reportagem faz parte do Projeto Escravizadores, investiga\u00e7\u00e3o exclusiva da Ag\u00eancia P\u00fablica. Acompanhe aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando anoitecia, as embarca\u00e7\u00f5es deslizavam sorrateiramente pelo Rio Capibaribe, no Recife. Elas estavam abarrotadas de pessoas escravizadas fugidas, escondidas debaixo de feixes de palha. O destino final era o Cais do Porto, de onde homens, mulheres e crian\u00e7as seguiam para outras prov\u00edncias, principalmente o Cear\u00e1, que j\u00e1 tinham abolido a escravid\u00e3o em mar\u00e7o de 1884.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Recife cresceu seguindo o curso das \u00e1guas do Capibaribe, uma estrada fluvial que servia para transporte e por onde se escoava mercadorias, principalmente o a\u00e7\u00facar produzido nos engenhos. No final do s\u00e9culo 19, o rio tornou-se tamb\u00e9m uma rota secreta para as fugas de escravizados. Estima-se que, ao menos, tr\u00eas mil escravizados teriam fugido pela rota do rio entre 1884 e 1888, com ajuda de movimentos abolicionistas, sobretudo o Clube do Cupim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa associa\u00e7\u00e3o secreta e ilegal, fundada na capital pernambucana, era formada por ativistas de v\u00e1rios lugares do pa\u00eds. A maioria eram homens brancos abastados, com grande influ\u00eancia na sociedade, mas havia tamb\u00e9m mulheres negras libertas, embora a participa\u00e7\u00e3o delas nos movimentos abolicionistas tenha sido relegada pela historiografia oficial. O fato \u00e9 que, ainda que n\u00e3o sejam apontadas como protagonistas, as mulheres negras, escravizadas ou libertas, estiveram na linha de frente da luta contra a escravid\u00e3o no Brasil. Uma delas foi Gertrudes Maria de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria dela foi mapeada pelos pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriana Santana, Arthur Danillo Castelo Branco e Jos\u00e9 Bento Rosa da Silva. Eles apontam que Gertrudes de Jesus era \u201cparte do primeiro escal\u00e3o de auxiliares, os chamados \u2018internos\u2019 do Clube do Cupim\u201d e \u201ca \u00fanica mulher negra reconhecidamente abolicionista a aparecer em uma fotografia no in\u00edcio do s\u00e9culo 20\u201d. O registro \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o de 14 de maio de 1910 do Jornal Pequeno, que circulava no Recife. Ela \u00e9 a \u00fanica mulher da foto entre nove homens, que aparecem atr\u00e1s de uma miniatura da jangada da organiza\u00e7\u00e3o, um s\u00edmbolo de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa hierarquia, ela estava acima de mulheres brancas de elite, que eram auxiliares externas. Era provavelmente t\u00e3o importante quanto os mais destacados auxiliares internos, todos homens, frequentemente mencionados na documenta\u00e7\u00e3o e nas fotografias\u201d, explica Santana.<\/p>\n<figure id=\"attachment_126504\" aria-describedby=\"caption-attachment-126504\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Club-do-cupim-a.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-126504 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Club-do-cupim-a.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"384\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-126504\" class=\"wp-caption-text\">Manchete sobre o Clube do Cupim no Jornal Pequeno<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nO Clube do Cupim era uma rede que corroia as estruturas da escravid\u00e3o por dentro, organizando fugas, liberta\u00e7\u00f5es e trabalhos para os ex-escravizados. Os chamados \u201ccupins\u201d se comportavam como espi\u00f5es: se comunicavam em linguagem codificada, adotavam pseud\u00f4nimos, e conseguiam burlar a pol\u00edcia e a justi\u00e7a com agentes secretos infiltrados em diversas esferas da sociedade, incluindo \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A casa de Gertrudes, que ficava em uma \u00e1rea central da cidade, funcionava como um entreposto do Clube do Cupim, segundo Santana. Os canoeiros, geralmente homens negros libertos que ajudavam outros cativos, precisavam conhecer bem o tra\u00e7ado sinuoso do rio e tomar cuidado porque a pol\u00edcia montava postos secretos no curso das \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u201cA casa dela era uma \u2018panela\u2019, ou seja, um local que escondia os escravizados at\u00e9 a hora do embarque final. Ela fazia parte do cora\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o. Era l\u00edder de um quilombo urbano\u201d, explica. \u201cPor ser negra e n\u00e3o ter tantas condi\u00e7\u00f5es materiais como mulheres brancas que participavam do Clube do Cupim, ela corria muito mais riscos em abrigar escravizados na sua casa\u201d, acrescenta Santana.<\/p>\n<p>As fugas realizadas pelo rio eram \u00e9picas. O embarque era feito a partir das \u201cpanelas\u201d, esconderijos espalhados pelas cidades, do interior \u00e0 capital, que abrigavam os escravizados. Os planos de fuga eram \u201csussurrados entre os cativos e os cupins, a conspira\u00e7\u00e3o noturna das senzalas\u201d, escreve o pesquisador Felipe Azevedo e Souza, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que registra as estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p>\u201cExistem registros de que os escravizados custeavam parcialmente as despesas das fugas e h\u00e1 todo um anedot\u00e1rio sobre os diferentes expedientes utilizados pelos escravizados para desaparecer. Alguns sumiram na agita\u00e7\u00e3o dos dias de carnaval, uma outra embebedou seu senhor. Os disfarces tamb\u00e9m eram comuns \u2013 Miquelina, mucama de um casar\u00e3o na Madalena [bairro da zona norte da cidade], saiu de sinh\u00e1, com vestido \u00e0 francesa, chap\u00e9u, sapatos lustrados e p\u00f3 de arroz,\u201d descreve Azevedo e Souza.<\/p>\n<p>No jornal A Prov\u00edncia, de 21 de maio de 1918, uma cr\u00f4nica descrevia o dia em que os cocheiros de uma casa funer\u00e1ria precisaram simular um cortejo f\u00fanebre, levando escravizados dentro de caix\u00f5es e disfar\u00e7ados em trajes de luto at\u00e9 as embarca\u00e7\u00f5es. A \u201clegend\u00e1ria jangada\u201d\u00a0dos cupins, como citou o Jornal do Recife de 13 de maio de 1890,\u00a0realizou muitas outras fa\u00e7anhas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_126506\" aria-describedby=\"caption-attachment-126506\" style=\"width: 438px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/jornal.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-126506 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/jornal.jpg\" alt=\"\" width=\"438\" height=\"544\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-126506\" class=\"wp-caption-text\">Trecho do Jornal do Recife, edi\u00e7\u00e3o de 1890<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nA \u00faltima grande fuga protagonizada pela associa\u00e7\u00e3o secreta aconteceu em 23 de abril de 1888, quando foram embarcados 119 escravizados de uma s\u00f3 vez. O grupo saiu \u00e0 noite, em uma canoa de capim, do bairro do Po\u00e7o da Panela, zona norte da cidade, um reduto abolicionista onde ficava a casa do pol\u00edtico Jos\u00e9 Mariano, que abrigava escravizados fugidos junto com sua esposa Oleg\u00e1ria da Costa Gama, conhecida como dona Olegarinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O casal branco \u00e9 reverenciado at\u00e9 hoje entre os principais ativistas do abolicionismo pernambucano, com homenagens pela cidade, como\u00a0nome de lugares p\u00fablicos, como o Cais Jos\u00e9 Mariano, e exposi\u00e7\u00f5es em museus. Do Po\u00e7o da Panela, segundo os registros hist\u00f3ricos, o barco desceu at\u00e9 a Capunga, atualmente a \u00e1rea do bairro das Gra\u00e7as, que fica pr\u00f3ximo ao centro da cidade, sendo rebocados por dois botes at\u00e9 o cais e, de l\u00e1, para a liberdade.<\/p>\n<p><strong>Uma mulher negra que resistiu \u00e0 escravid\u00e3o e ao esquecimento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nOs pesquisadores da UFPE encontraram outros registros da participa\u00e7\u00e3o de Gertrudes de Jesus na linha de frente do clube abolicionista. \u201cAo narrar a passeata de despedida que o Clube do Cupim fez pelas ruas do Recife logo ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o, em 23 de maio de 1888, Fernando de Castro Paes Barreto, membro interno do Clube, citou que ap\u00f3s deixarem a casa de Dom Leonor Porto, os abolicionistas seguiram \u00e0 casa \u2018da mulata Gertrudes\u2019, auxiliar interna do Clube. Iam agradec\u00ea-la pelos servi\u00e7os prestados \u00e0 causa\u201d, descreveram em artigo, com base em documentos da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c[Ela] n\u00e3o apenas resistiu \u00e0 escravid\u00e3o, mas tamb\u00e9m ao esquecimento hist\u00f3rico, for\u00e7ando os abolicionistas brancos \u2013 respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o das narrativas e documentos sobre o movimento \u2013 a reconhec\u00ea-la como uma lideran\u00e7a fundamental e agente crucial na \u00e1rdua e prolongada miss\u00e3o de erradicar a escravid\u00e3o no Brasil\u201d, dizem os pesquisadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil, com destaque para a regi\u00e3o Nordeste, foi onde mais se registrou alforria de cativos nas Am\u00e9ricas. Depois que o tr\u00e1fico negreiro foi proibido, a Lei do Ventre Livre (1971), al\u00e9m de libertar os filhos de escravizadas nascidos no Brasil, reconheceu o direito dos cativos de juntarem dinheiro, alugar seus servi\u00e7os e comprarem sua pr\u00f3pria liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pesquisadores da UFPE destacam a preval\u00eancia de mulheres negras na atua\u00e7\u00e3o pela compra de alforrias e na busca por liberdade, seja delas mesmas ou das suas fam\u00edlias. Eles citam as mulheres de Feira de Santana, na ent\u00e3o Prov\u00edncia da Bahia, que entre os anos de 1850 e 1888 foram maioria entre as cartas de liberdade. Tamb\u00e9m uma an\u00e1lise de mais de 150 processos que tramitaram no Tribunal de Campinas, na Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, onde foi identificada a predomin\u00e2ncia feminina nos autos e a\u00e7\u00f5es por liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nEm Pernambuco, os pesquisadores afirmam que \u201ch\u00e1 consistentes provas documentais da a\u00e7\u00e3o direta de mulheres cativas, libertas e livres em processos de alforria e de coordena\u00e7\u00e3o de fugas de escravizados.\u201d Um dos casos que eles descobriram durante a pesquisa foi o da escravizada Josepha, indicada nos documentos da Justi\u00e7a apenas pelo primeiro nome e como \u201cex-escrava de Lu\u00eds da Costa Gomes\u201d, no distrito de S\u00e3o Bento, atualmente a cidade de S\u00e3o Bento do Una, na Zona da Mata pernambucana.<\/p>\n<figure id=\"attachment_126505\" aria-describedby=\"caption-attachment-126505\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Diario-de-Pernambuco.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-126505 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Diario-de-Pernambuco.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"272\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-126505\" class=\"wp-caption-text\">Di\u00e1rio de Pernambuco<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Josepha pedia pela liberta\u00e7\u00e3o de seus dois filhos, identificados apenas como Jo\u00e3o e Izidoro. Ela argumentava que, antes de ser alforriada, havia sido matriculada pelo antigo senhor como \u201cmulher sem filia\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, que n\u00e3o teria filhos. Assim, defendia que sua prole seria automaticamente livre, em fun\u00e7\u00e3o dessa aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es. Mas, seu pedido foi negado pela Justi\u00e7a. A senten\u00e7a foi publicada na edi\u00e7\u00e3o de 14 de outubro de 1887 do Diario de Pernambuco.<\/p>\n<p><strong>Vista dos solares da passagem da Madalena, em Recife<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nNas buscas documentais, os pesquisadores da UFPE encontraram ainda registros de uma outra Gertrudes, que tamb\u00e9m lutava pela liberdade em Pernambuco, nesse caso, da sua filha. A africana Gertrudes Ros\u00e1rio aparece em um processo judicial de 1890, acusada e presa pelo rapto de uma crian\u00e7a. Contudo, as pe\u00e7as processuais mostraram que o ato cometido por ela poderia ter sido enquadrado como uma tentativa de resgate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No depoimento, Gertrudes Ros\u00e1rio disse que tinha 21 anos e fazia servi\u00e7os dom\u00e9sticos. Segundo o pedido habeas corpus, ela tinha sido escravizada por uma fam\u00edlia e embarcada ao Par\u00e1, destino de muitos escravizados fugidos, deixando uma filha de quatro anos com os antigos senhores. Com a informa\u00e7\u00e3o de que a fam\u00edlia iria se mudar de Pernambuco para o Cear\u00e1, Ros\u00e1rio voltou ao Recife, mas, ao chegar, a fam\u00edlia teria se negado a devolver a crian\u00e7a. Assim, ela teria encarregado uma conhecida para buscar sua menina, que, por engano, teria levado a filha dos ex-senhores. Nos documentos resgatados pelos estudiosos, Gertrudes Ros\u00e1rio confirma que a menina n\u00e3o era sua filha. Ela chegou a ser julgada e foi absolvida, mas n\u00e3o se sabe se foi capaz de resgatar sua filha depois disso.<\/p>\n<p><strong>\u201cEsquecimento seletivo\u201d de mulheres negras na aboli\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nAl\u00e9m de Gertrudes de Jesus h\u00e1, segundo os estudiosos, outras mulheres mencionadas como s\u00f3cias auxiliares do Clube do Cupim. Oleg\u00e1ria Gama Carneiro da Cunha, esposa de Jos\u00e9 Mariano, que era uma auxiliar externa ficou conhecida por entregar suas joias para financiar a campanha de Joaquim Nabuco, reconhecido como um dos principais nomes do abolicionismo brasileiro, para deputado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTodos os relatos indicam que ela fez isso por vontade pr\u00f3pria, da mesma forma que teria empenhado seu anel de noivado para a compra de alforria de um jovem escravizado que sofria torturas num engenho\u201d, explica a pesquisadora Adriana Santana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do Clube do Cupim, operava no Recife a associa\u00e7\u00e3o Ave Libertas, exclusivamente feminina, fundada por senhoras da sociedade pernambucana, entre elas Leonor Porto. Juntos, os \u201ccupins\u201d e as s\u00f3cias do Ave Libertas promoviam a\u00e7\u00f5es planejadas e sincronizadas de fuga, um sistema coordenado e pulverizado que dificultava seu mapeamento e consequente repress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oleg\u00e1ria da Cunha se vinculou \u00e0 Ave Libertas aos 25 anos. Ela morreu aos 38, deixando v\u00e1rios registros documentais da sua participa\u00e7\u00e3o tanto em atividades como o financiamento das liberta\u00e7\u00f5es quanto no acolhimento de escravizados em casa quanto no aux\u00edlio das fugas por barco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santana observa que, enquanto lutavam pelo fim da escravid\u00e3o, essas mulheres tamb\u00e9m se posicinavam pelos seus direitos. Contudo, se para as mulheres brancas e ricas que se juntaram \u00e0 causa j\u00e1 foi negado o protagonismo da luta abolicionista pela historiografia, no caso das mulheres negras, o \u201cesquecimento \u00e9 seletivo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pesquisadores n\u00e3o encontraram informa\u00e7\u00f5es sobre o que aconteceu com Gertrudes de Jesus depois que a escravid\u00e3o foi abolida. Para Santana, \u201cmulheres negras do passado, como Gertrudes, tentavam burlar os silenciamentos com a\u00e7\u00f5es que s\u00f3 conseguimos enxergar hoje\u201d. \u201cElas jogaram uma mensagem ao futuro. Deixaram rastros em processos judiciais, em a\u00e7\u00f5es por liberdade, em atas de clubes abolicionistas, em men\u00e7\u00f5es t\u00edmidas nos jornais. Abriram terreno para a luta das mulheres negras, que, infelizmente, ainda encontram eco nas desigualdades, injusti\u00e7as, opress\u00e3o e omiss\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fim do tr\u00e1fico negreiro j\u00e1 tinha sido estabelecido em 1850 e, depois, a Lei do Ventre Livre (1871), al\u00e9m de estabelecer a liberdade para filhos de mulheres escravizadas, permitiu o direito de juntar dinheiro, de doa\u00e7\u00f5es ou do pr\u00f3prio trabalho, para a comprar a alforria.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Fonseca<br \/>\nENTRE EM CONTATO<\/p>\n<p>Mariama Correia<\/p>\n<p>Leia mais deste autor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas mil pessoas podem ter fugido de barco do Recife com ajuda de Gertrudes e clube de abolicionistas Ag\u00eancia P\u00fablica Por Mariama Correia direitos humanos escravid\u00e3o pol\u00edtica Esta reportagem faz parte do Projeto Escravizadores, investiga\u00e7\u00e3o exclusiva da Ag\u00eancia P\u00fablica. 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