{"id":126470,"date":"2025-11-16T15:33:13","date_gmt":"2025-11-16T18:33:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=126470"},"modified":"2025-11-16T15:33:13","modified_gmt":"2025-11-16T18:33:13","slug":"envelhecimento-o-grande-desafio-do-brasil-no-seculo-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2025\/11\/16\/envelhecimento-o-grande-desafio-do-brasil-no-seculo-21\/","title":{"rendered":"Envelhecimento: o grande desafio do Brasil no s\u00e9culo 21"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem de 2025, o envelhecimento ensejou densas reflex\u00f5es dos jornalistas mais experientes do Brasil 247<\/strong><\/p>\n<div class=\"InlineWidget InlineWidget--editorial marginTop20\"><\/div>\n<div class=\"article__text\" style=\"text-align: justify;\" data-cy=\"articleBody\">\n<p><b>247 \u2013\u00a0<\/b>A escolha do tema da reda\u00e7\u00e3o do ENEM 2025, &#8220;Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira&#8221;, jogou luz sobre um dos maiores dilemas estruturais do pa\u00eds: o Brasil est\u00e1 envelhecendo em ritmo acelerado, sem que sua estrutura social e econ\u00f4mica tenha acompanhado essa velocidade. O que deveria ser motivo de celebra\u00e7\u00e3o, pois viver mais \u00e9 uma conquista civilizat\u00f3ria, confronta-se com a precariza\u00e7\u00e3o do futuro e a persist\u00eancia de uma &#8220;doen\u00e7a social silenciosa e persistente: o etarismo&#8221;.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio de incerteza previdenci\u00e1ria e falha na assist\u00eancia coloca a na\u00e7\u00e3o diante de um gargalo que amea\u00e7a o pr\u00f3prio desenvolvimento. O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, alerta para o &#8220;novo mundo do trabalho&#8221; digital e afirma que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasil247.com\/entrevistas\/pochmann-brasil-tem-uma-geracao-de-trabalhadores-que-pode-nao-se-aposentar\"><em><b>o Brasil tem \u201cuma gera\u00e7\u00e3o de trabalhadores que pode n\u00e3o se aposentar\u201d<\/b><\/em><\/a>, indicando que a ideia tradicional de previd\u00eancia foi atacada ao longo dos anos por reformas neoliberais.<\/p>\n<p>O jornalista, pesquisador e geront\u00f3logo Jorgemar Felix refor\u00e7a o risco econ\u00f4mico da ina\u00e7\u00e3o, dizendo que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasil247.com\/entrevistas\/o-envelhecimento-sem-cuidado-pode-ser-um-grande-gargalo-para-o-futuro-da-economia-brasileira-diz-jorgemar-felix\"><em><b>\u201co envelhecimento sem cuidado pode ser um grande gargalo para o futuro da economia brasileira\u201d<\/b><\/em><\/a>, e que &#8220;a falha em suprir o cuidado de longa dura\u00e7\u00e3o pode ser um garrote para a economia brasileira, impedindo o crescimento econ\u00f4mico\u201d. Segundo os colunistas do\u00a0<i>Brasil 247<\/i>, uma das empresas menos etaristas do Brasil, e que valoriza o talento de seus veteranos, o desafio urgente \u00e9 sair do paradoxo de um pa\u00eds que idolatra a juventude e, ao mesmo tempo, torna o envelhecer com dignidade um privil\u00e9gio, expondo a &#8220;invisibilidade dos idosos&#8221;.<\/p>\n<p>A urg\u00eancia, portanto, \u00e9 reconhecer que &#8220;O respeito aos idosos \u00e9 o espelho de uma sociedade que compreende o pr\u00f3prio futuro&#8221; e que, apesar de o Brasil ter uma grande base legal avan\u00e7ada para os direitos dos idosos, o desafio \u00e9 &#8220;tirar essas leis do papel&#8221;. Diante da inevitabilidade de que o \u201cenvelhecimento \u00e9 a \u00fanica certeza democr\u00e1tica da exist\u00eancia humana\u201d, o Brasil 247 lan\u00e7a esta reportagem especial, reunindo reflex\u00f5es essenciais de alguns dos maiores jornalistas do Brasil. Leia abaixo:<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_d7e4a13eeddc87e62bfd4a89f042942cb12ffdd602eca63d2160189cf09330c6.jpg\" alt=\"faixa-autores\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Luis Pellegrini<\/b><\/h2>\n<h5><b>Envelhecimento: a \u00fanica certeza democr\u00e1tica<\/b><\/h5>\n<h5><b>O respeito aos idosos \u00e9 o espelho de uma sociedade que compreende o pr\u00f3prio futuro<\/b><\/h5>\n<p>Envelhecer \u00e9 inevit\u00e1vel. Mas envelhecer com dignidade \u00e9 uma escolha coletiva. O Brasil precisa decidir se quer ser uma na\u00e7\u00e3o que teme o passar do tempo ou uma sociedade que o celebra, reconhecendo que, ao proteger os seus idosos, protege tamb\u00e9m o seu pr\u00f3prio futuro.<\/p>\n<p>Ao longo da minha carreira, tive o privil\u00e9gio de encontrar v\u00e1rios centen\u00e1rios, homens e mulheres, todos eles seres de exce\u00e7\u00e3o em termos de luz, for\u00e7a e energia pessoais. Hoje, quero me referir a apenas um: a italiana Rita Levi-Montalcini, Pr\u00eamio Nobel de Medicina, que entrevistei em Roma em 2009. Rita acabara de completar cem anos, e fui visit\u00e1-la na bel\u00edssima cobertura em que morava, no centro hist\u00f3rico de Roma.<\/p>\n<p>Era uma tarde quente, e ela estava no terra\u00e7o, protegida por um toldo, sentada atr\u00e1s de uma grande mesa de trabalho. Levantou-se ao me ver chegar e, sorrindo, disse em portugu\u00eas quase sem sotaque: \u201cSalve, brasileiro! \u00c9 voc\u00ea que vai me fazer matar a saudade que sinto do Rio de Janeiro?\u201d. Rita visitou o Rio de Janeiro em 1952, ap\u00f3s a guerra, para realizar pesquisas no Instituto de Biof\u00edsica, a convite de Carlos Chagas Filho, onde continuou seus estudos que levariam \u00e0 descoberta do Fator de Crescimento Nervoso (NGF). Foi o in\u00edcio do trabalho cient\u00edfico que a levou ao Pr\u00eamio Nobel, em 1986. O Brasil deixara nela mem\u00f3rias especiais.<\/p>\n<p>A primeira coisa que observei foi uma pilha de pastas com textos e apostilas sobre a mesa. Eram trabalhos e teses de alunos que ela orientava para mestrados, doutorados e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es. E a primeira pergunta foi: \u201cA senhora completou cem anos de vida e continua trabalhando?\u201d. E ela: \u201cSim, n\u00e3o quero que meu c\u00e9rebro apodre\u00e7a\u201d. Perguntei: \u201cO trabalho impede que isso aconte\u00e7a?\u201d. Rita retrucou: \u201cClaro, este \u00e9 talvez o ponto central de tudo que fiz na vida e que acabou me dando o Nobel. O c\u00e9rebro \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que praticamente n\u00e3o envelhece, desde que seja mantido em atividade. A pregui\u00e7a, tanto a f\u00edsica quanto a mental, \u00e9 a maior inimiga da longevidade cerebral. Voc\u00ea sabia que \u00e9 mentira que as c\u00e9lulas do c\u00e9rebro n\u00e3o se reproduzem? Elas se reproduzem \u2014 e como! Basta que voc\u00ea n\u00e3o deixe esse \u00f3rg\u00e3o dormir o sono dos vagabundos mentais\u201d. A conversa foi longe, sempre nesse tom bem-humorado de quem est\u00e1 de bem com a vida.<\/p>\n<p>Testemunhos como esse de Rita s\u00e3o, creio eu, mais do que nunca, fundamentais nesta fase hist\u00f3rica de uma humanidade que se torna cada vez mais velha. A quest\u00e3o do envelhecimento se torna central, a ponto de ser, agora, uma das perguntas mais discutidas do Enem.<\/p>\n<blockquote><p>Nosso pa\u00eds n\u00e3o foge \u00e0 regra nesse fen\u00f4meno do envelhecimento das popula\u00e7\u00f5es. Sim, o Brasil envelhece \u2014 e envelhece depressa. Segundo o IBGE, mais de 15% da popula\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 tem mais de 60 anos e, em menos de tr\u00eas d\u00e9cadas, seremos um pa\u00eds com mais idosos do que crian\u00e7as.<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa mudan\u00e7a demogr\u00e1fica, fruto do sucesso de pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica e da queda nas taxas de natalidade, deveria ser celebrada como um avan\u00e7o civilizat\u00f3rio. No entanto, por tr\u00e1s dos n\u00fameros, esconde-se um desafio que o pa\u00eds ainda reluta em enfrentar: como garantir um envelhecimento digno, ativo e respeitado?<\/p>\n<blockquote><p>A precariedade das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas aos idosos revela o despreparo estrutural do Estado diante da nova realidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>Hospitais e centros de conviv\u00eancia especializados s\u00e3o escassos, o atendimento geri\u00e1trico \u00e9 insuficiente e os programas de assist\u00eancia frequentemente sobrevivem \u00e0 base de or\u00e7amentos simb\u00f3licos. A previd\u00eancia, por sua vez, segue sendo tratada apenas sob a \u00f3tica fiscal, e n\u00e3o como uma quest\u00e3o social e de cidadania. A promessa constitucional de amparo e dignidade na velhice continua distante do cotidiano da maioria.<\/p>\n<p>Mas o problema n\u00e3o \u00e9 apenas institucional \u2014 \u00e9 tamb\u00e9m cultural. O preconceito contra o envelhecimento, o chamado etarismo, persiste como uma forma silenciosa de exclus\u00e3o. Em uma sociedade que cultua a juventude e a produtividade, o idoso muitas vezes \u00e9 visto como um estorvo, um peso para a fam\u00edlia ou para o sistema. A publicidade raramente o representa com protagonismo, e o mercado de trabalho o descarta antes mesmo que ele possa escolher parar. Essa l\u00f3gica cruel, que valoriza a apar\u00eancia e a velocidade em detrimento da experi\u00eancia e da sabedoria, empobrece o tecido humano da sociedade.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20180417210412_5ad6476d79b75f0108dfce06jpeg.jpg\" alt=\"Zygmunt Bauman\" width=\"1500\" height=\"1000\" \/><figcaption>Zygmunt Bauman(Photo: Divulga\u00e7\u00e3o)Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p>Como j\u00e1 advertia o soci\u00f3logo Zygmunt Bauman, vivemos em uma \u201csociedade l\u00edquida\u201d, que descarta tudo o que n\u00e3o se encaixa no ideal de efici\u00eancia e consumo. O envelhecer, nesse contexto, \u00e9 quase um ato de resist\u00eancia \u2014 um lembrete de que o tempo, a mem\u00f3ria e a experi\u00eancia ainda t\u00eam valor.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 urgente, portanto, uma mudan\u00e7a de mentalidade. O envelhecimento n\u00e3o deve ser encarado como fardo, mas como uma nova fase da vida que merece pol\u00edticas integradas de sa\u00fade preventiva, inclus\u00e3o digital, lazer e conviv\u00eancia social. Cuidar dos idosos \u00e9 cuidar do futuro de todos n\u00f3s \u2014 afinal, o envelhecimento \u00e9 a \u00fanica certeza democr\u00e1tica da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<h2><b>Luis Pellegrini tem 81 anos e \u00e9 jornalista desde os 16.<\/b><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_7ea4b4dd36dca87387e7f131462e0d8776d65cce1d10ad8cde3d940fc5a8c1ee.jpg\" alt=\"faixa-autores\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Denise Assis<\/b><\/h2>\n<h5><b>Idosos consomem e sustentam fam\u00edlias, mas s\u00e3o transparentes no Brasil<\/b><\/h5>\n<h5><b>Tema do Enem exp\u00f4s a invisibilidade dos idosos e a hipocrisia de uma sociedade que depende deles, mas finge n\u00e3o v\u00ea-los<\/b><\/h5>\n<p>Mais que uma escolha de tema para a reda\u00e7\u00e3o do Enem deste ano, \u201cPerspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira\u201d foi um ato pol\u00edtico. Obrigou os jovens \u2014 tanto os ricos e brancos, que saltaram dos carr\u00f5es dos pais para a sala de provas, quanto os pretos, pobres e perif\u00e9ricos, que chegaram ao exame a bordo de \u00f4nibus sem ar-condicionado ou metr\u00f4 \u2014 a refletirem sobre um contingente da popula\u00e7\u00e3o que eles mal veem, mal olham: os idosos. No m\u00e1ximo, para praguejar quando, na corrida para algum compromisso, est\u00e3o em seus caminhos, mais lentos porque a pressa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 fundamental. Ao optar pelo tema, a juventude foi obrigada a refletir sobre o \u201cavulso\u201d em suas vidas. Sim, os idosos est\u00e3o fora da linha de montagem e, portanto, avulsos.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20221020141056_14a61a13f882e5c5b12688740ba503f6510c96c07645cf7b4e7887a643a91565.jpg\" alt=\"Paulo Guedes\" width=\"1280\" height=\"600\" \/><figcaption>Paulo Guedes(Photo: REUTERS\/Ueslei Marcelino)REUTERS\/Ueslei Marcelino<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em um pa\u00eds embrutecido pela passagem do tuf\u00e3o Jair Bolsonaro pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica \u2014 per\u00edodo em que os direitos do cidad\u00e3o foram ignorados ou reduzidos \u2014, um dos aspectos vilipendiados pelo seu ministro da Fazenda, Paulo Guedes, era o dos benef\u00edcios destinados aos aposentados. Costumava pregar aos quatro ventos, principalmente para plateias jovens, que o governo deveria desatrelar os proventos destinados aos aposentados do c\u00e1lculo do reajuste do sal\u00e1rio m\u00ednimo. E fazia quest\u00e3o de sublinhar em sua fala que os jovens estavam \u201csustentando vagabundos\u201d. Em seguida, exaltava os benef\u00edcios dos que optam, hoje, por serem \u201cempreendedores\u201d, omitindo a informa\u00e7\u00e3o \u2014 rec\u00e9m-revelada em pesquisa do IBGE \u2014 de que essa parcela precarizada n\u00e3o chegou a lugar algum, a n\u00e3o ser arcar com os gastos da escolha e n\u00e3o ter tempo para si.<\/p>\n<blockquote><p>O que Paulo Guedes n\u00e3o contava a seus ouvintes \u00e9 que os \u201cvagabundos\u201d de hoje foram os ativos de ontem.<\/p><\/blockquote>\n<p>E que, enquanto trabalhavam \u00e0 exaust\u00e3o, sustentavam os estudos dos jovens que hoje est\u00e3o no mercado de trabalho \u2014 arcando com impostos para que se formassem em escolas p\u00fablicas e universidades gratuitas. Ou n\u00e3o \u00e9 assim que a roda gira? Ao incentiv\u00e1-los a deixar de contribuir \u2014 \u00e9 isso o que acontece com os aut\u00f4nomos, na maioria das vezes \u2014, jogam na eternidade da vida laboral os que hoje chegam ao limiar determinado como \u201cidoso\u201d, os maiores de 65 anos.<\/p>\n<blockquote><p>E somos muitos. De acordo com o \u00faltimo Censo Demogr\u00e1fico, o de 2022, o total de pessoas com 65 anos ou mais no pa\u00eds chegou a 10,9% da popula\u00e7\u00e3o, com alta de 57,4% em rela\u00e7\u00e3o a 2010, quando esse contingente era de 7,4%. \u00c9 o que revelam os resultados do universo da popula\u00e7\u00e3o do Brasil, desagregada por idade e sexo, daquele censo.<\/p><\/blockquote>\n<p>De acordo com t\u00e9cnicos do Instituto, o Estatuto do Idoso define como idosa a pessoa de 60 anos ou mais. O corte de 65 anos e al\u00e9m foi utilizado na an\u00e1lise do IBGE para tornar poss\u00edvel a compara\u00e7\u00e3o com dados internacionais e com outras pesquisas que utilizam essa faixa et\u00e1ria, como as de mercado de trabalho. Toda essa \u201cnumer\u00e1lia\u201d aponta para uma realidade j\u00e1 percebida e estudada por estat\u00edsticos: o aumento da popula\u00e7\u00e3o de 65 anos ou mais, em conjunto com a diminui\u00e7\u00e3o da parcela da popula\u00e7\u00e3o de at\u00e9 14 anos no mesmo per\u00edodo (que passou de 24,1% para 19,8%), evidencia o franco envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<blockquote><p>Ao longo do tempo, a base da pir\u00e2mide et\u00e1ria foi se estreitando devido \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da fecundidade e dos nascimentos que ocorrem no Brasil. Essa mudan\u00e7a no formato da pir\u00e2mide et\u00e1ria passa a ser vis\u00edvel a partir dos anos 1990, e a pir\u00e2mide et\u00e1ria do Brasil perde claramente seu formato piramidal a partir de 2000. O que se observa ao longo dos anos \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o jovem, com aumento da popula\u00e7\u00e3o em idade adulta.<\/p><\/blockquote>\n<p>Certamente, os encarregados de corrigir as reda\u00e7\u00f5es n\u00e3o dever\u00e3o encontrar essa profus\u00e3o de dados nos milh\u00f5es de textos que passar\u00e3o pela banca examinadora. Impactados pela surpresa do tema \u2014 muitos apostavam em meio ambiente \u2014, esses meninos ser\u00e3o obrigados a nos ver, a nos considerar como parte dessa sociedade que se movimenta sem que eles percebam, e que tamb\u00e9m consome. No Brasil, a \u201ceconomia prateada\u201d gera R$ 1,6 trilh\u00e3o por ano. E esse volume continuar\u00e1 aumentando, de acordo com a ag\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e marketing norte-americana FleishmanHillard.<\/p>\n<p>Saibam, jovens estudantes, que 34% dos idosos contribuem com as despesas das casas. S\u00e3o 38% respons\u00e1veis principais pela renda da fam\u00edlia, complementando o que ganham com outras atividades para dar conta do or\u00e7amento no final do m\u00eas, quando s\u00e3o \u201caproveitados\u201d no mercado de trabalho, e 28% sustentam sozinhos a casa toda, com netos, noras e filhos.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o somos os \u201cestorvos\u201d, como dizia Paulo Guedes, apesar de muitas vezes \u201ctransparentes\u201d para a maioria jovem da popula\u00e7\u00e3o. Em breve, seremos maioria. E como essa juventude lidar\u00e1 com esse dado inarred\u00e1vel?<\/p><\/blockquote>\n<p>O pa\u00eds caminhou para esse quadro a partir de 1965, com a cria\u00e7\u00e3o da BEMFAM \u2014 Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil \u2014, entre os anos 1965 e 1980, no \u00e2mbito da XV Jornada Brasileira de Obstetr\u00edcia e Ginecologia, no Rio de Janeiro, um congresso com a apar\u00eancia de lutar pelo \u201cplanejamento familiar\u201d, quando, na verdade, atuou para a esteriliza\u00e7\u00e3o de mulheres pobres, principalmente no Nordeste. Aliadas a essas a\u00e7\u00f5es, as constantes campanhas dos governos de direita pela conscientiza\u00e7\u00e3o da necessidade de redu\u00e7\u00e3o da taxa de fecundidade levaram a que, desde os anos 1990, o n\u00famero de nascimentos venha caindo.<\/p>\n<p>Ao fazer a pergunta acima, uma imagem me vem \u00e0 mente. Num domingo qualquer, quando fazia o trajeto entre minha casa e uma feirinha, deparei-me com policiais em torno de uma lona preta, na esquina onde eu precisava passar. \u201cO que houve?\u201d, quis saber, na minha curiosidade habitual de rep\u00f3rter. \u201cUma senhora se jogou. Os vizinhos falaram que ela vivia sozinha e que os filhos e os netos a abandonaram. Nunca a visitavam\u201d.<\/p>\n<p>Ali, aquecida pelo sol de outono, a realidade do envelhecimento ilustrou para mim, da forma mais concreta poss\u00edvel, o que pode ser envelhecer no Brasil. Os n\u00fameros acima preenchem o nosso conhecimento, mas a imagem daquela lona preta, que arremata este texto, nos fala de algo muito mais forte: a falta de afeto e de respeito por essa parcela que insiste em viver, mas \u00e0s vezes desiste.<\/p>\n<h2><b>Denise Assis tem 71 anos e 50 anos de atividade profissional como jornalista.<\/b><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_05edede6c343626d029a7776837e029de437eb7b3515d040e2616caeba879d47.jpg\" alt=\"Tereza Cruvinel\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Tereza Cruvinel<\/b><\/h2>\n<h5><b>Etarismo, preconceito universal em alta<\/b><\/h5>\n<h5><b>Este n\u00e3o \u00e9 um problema econ\u00f4mico ou pol\u00edtico. Trata-se apenas de mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da estupidez e da mesquinharia humanas<\/b><\/h5>\n<p>Mais uma vez, ao escolher o tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem, os educadores do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira) provocaram nossos jovens a refletirem e escreverem sobre temas contempor\u00e2neos de alta relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Talvez nem todos os que discorreram na prova de domingo sobre \u201cPerspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira\u201d tenham abordado a quest\u00e3o do etarismo, ou idadismo, o preconceito contra pessoas idosas. Afinal, o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira traz desafios tamb\u00e9m para os sistemas previdenci\u00e1rio e de sa\u00fade, bem como para a assist\u00eancia social. Cada vez mais, as fam\u00edlias empurram seus idosos para as institui\u00e7\u00f5es de acolhimento, sejam p\u00fablicas ou privadas.<\/p>\n<p>Se o etarismo, ao contr\u00e1rio dos progn\u00f3sticos, n\u00e3o tiver sido um dos aspectos privilegiados pelos estudantes em suas reda\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 sinal de que estamos ainda piores do que pensamos. Sinal de que este preconceito e seus efeitos nefastos ainda s\u00e3o muito ignorados pelos mais jovens. Quando o mal n\u00e3o \u00e9 percebido, n\u00e3o \u00e9 combatido e tende a se agravar.<\/p>\n<blockquote><p>No entanto, o etarismo \u00e9 o preconceito mais abrangente, de alcance mais universal \u2014 mais que o racismo e o machismo. Ele n\u00e3o atinge as pessoas pela cor da pele, pela etnia, pelas caracter\u00edsticas f\u00edsicas, pelo status econ\u00f4mico-social, pela religi\u00e3o, pelo g\u00eanero ou pela orienta\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 universal porque ocorre em diferentes sociedades, embora seja mais agudo em pa\u00edses com menor \u00edndice de desenvolvimento humano (IDH).<\/p><\/blockquote>\n<p>Suas consequ\u00eancias tamb\u00e9m s\u00e3o vastas. Idosos s\u00e3o discriminados quando buscam trabalho, apesar de frequentemente carregarem uma experi\u00eancia que seria positiva para a empresa. Enxotados do mercado de trabalho quando ainda poderiam contribuir para a gera\u00e7\u00e3o de riqueza, ser\u00e3o um peso econ\u00f4mico para suas fam\u00edlias ou para o Estado.<\/p>\n<p>A discrimina\u00e7\u00e3o profissional e o isolamento social, juntamente com os estere\u00f3tipos negativos sobre ser idoso \u2014 s\u00e3o lentos, desatualizados, incapazes, chatos e feios \u2014, levam \u00e0 depress\u00e3o e a outras doen\u00e7as f\u00edsicas e mentais, ao decl\u00ednio cognitivo e \u00e0s enfermidades precoces.<\/p>\n<p>Os \u201cvelhos sem previd\u00eancia\u201d do Brasil v\u00e3o se encostar no BPC ou v\u00e3o se tornar \u201cvelhos de rua\u201d. J\u00e1 tivemos as crian\u00e7as, agora temos uma vasta popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua, com destaque para os idosos. E mesmo em fam\u00edlias mais abastadas, eles s\u00e3o ostracizados e cada vez mais s\u00e3o internados em casas de repouso pagas.<\/p>\n<p>Os idosos s\u00e3o tratados como cidad\u00e3os de segunda classe, que j\u00e1 n\u00e3o pertencem completamente ao mundo contempor\u00e2neo, e por isso n\u00e3o s\u00e3o positivamente representados na m\u00eddia e nas imagens sociais. Nem para vender cosm\u00e9ticos \u201canti-aging\u201d a publicidade se vale de mulheres-modelos mais velhas. Aos idosos s\u00e3o dirigidas express\u00f5es depreciativas e, mesmo se isso n\u00e3o \u00e9 verbalizado, recebem um tratamento paternalista: s\u00e3o tratados com aquela postura de tutela destinada aos incapazes e \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20240626130636_e8bc7b2d1f17f965e4d189346cbf3473285ec6c7f12e665e6826be28fb1d3ac3.jpg\" alt=\"Mulheres idosas no Brasil\" width=\"656\" height=\"390\" \/><figcaption>Foto: Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil &#8211; EBC(Photo: Foto: Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil &#8211; EBC)Foto: Marcelo Camargo\/Ag\u00eancia Brasil &#8211; EBC<\/figcaption><\/figure>\n<p>Se um idoso pede ao filho ou neto que o ensine a fazer uma opera\u00e7\u00e3o no celular, o mais jovem pega o aparelho e faz a coisa pedida. N\u00e3o lhe ensina, pressupondo a incapacidade de aprender. Isso \u00e9 fato corrente.<\/p>\n<p>Numa conex\u00e3o com o machismo, o etarismo maltrata especialmente as mulheres. Ao longo de toda a vida laboral, n\u00f3s enfrentamos a inferioridade salarial em rela\u00e7\u00e3o aos homens, embora hoje tenhamos at\u00e9 uma lei proibindo isso. Na maturidade, somos mais discriminadas que eles no acesso ao trabalho, v\u00edtimas da falsa ideia de que perdemos produtividade mais cedo. Nas profiss\u00f5es que valorizam muito os atributos est\u00e9ticos, muito cedo perdemos competitividade, por mais competentes que sejamos.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo as pol\u00edticas p\u00fablicas tendem a se preocupar mais com a mulher em idade reprodutiva, relegando a segundo plano aquelas que j\u00e1 cruzaram a linha da menopausa. A preven\u00e7\u00e3o dos c\u00e2nceres de mama e \u00fatero, por exemplo, foca especialmente nas mais jovens, embora as mais velhas tamb\u00e9m sejam alvo dessas doen\u00e7as, al\u00e9m da osteoporose, da hipertens\u00e3o, da hiperlipidemia e de outros males que chegam mais tarde.<\/p>\n<p>Muitas s\u00e3o as formas de invisibiliza\u00e7\u00e3o impostas \u00e0 mulher na terceira idade, apesar de todas as conquistas que tivemos nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Temos direitos garantidos e temos for\u00e7a e coragem para lutar pelos que se apresentam como necessidades novas. Conquistamos a liberdade e a independ\u00eancia, temos ampliado nosso papel e protagonismo em tantas \u00e1reas, mas, quando a idade chega, enfrentamos a invisibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela decorre das desigualdades de g\u00eanero que ainda persistem e da falta de pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas. E, ainda quando elas conseguem preservar o protagonismo social ou profissional, tornam-se elementos econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos, profissionais ou familiares, mas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o vistas como mulheres no que diz respeito \u00e0 vida sexual e afetiva.<\/p>\n<p>Prevalece a falsa ideia de que o sexo \u00e9 inexistente, proibido ou desnecess\u00e1rio na terceira idade das mulheres, um estigma decorrente da associa\u00e7\u00e3o da sexualidade exclusivamente \u00e0 juventude, quando, em verdade, ela toma formas e necessidades diversas nas diferentes fases da vida.<\/p>\n<blockquote><p>Enquanto os homens mais velhos, principalmente se t\u00eam boa renda, s\u00e3o aceitos por mulheres bem mais jovens para relacionamentos afetivos, \u00e0s mulheres maduras \u00e9 negada a possibilidade de reconstru\u00edrem seus relacionamentos quando ficam vi\u00favas ou se separam (frequentemente porque o marido apaixonou-se por outra bem mais jovem).<\/p><\/blockquote>\n<p>O etarismo e suas manifesta\u00e7\u00f5es delet\u00e9rias, infelizmente, v\u00e3o acentuar-se no Brasil se n\u00e3o o combatermos intensamente agora, pois o percentual da popula\u00e7\u00e3o idosa ainda vai aumentar muito. Este \u00e9 um dado demogr\u00e1fico que o IBGE j\u00e1 tornou indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>Entre os anos 2000 e 2023, os idosos passaram de 8,7% para 15,6% da popula\u00e7\u00e3o \u2014 ou de 15 milh\u00f5es para 33 milh\u00f5es, em n\u00fameros absolutos.<\/p>\n<p>Em 2021, o Brasil tinha 14,7% da popula\u00e7\u00e3o com 60 anos ou mais, ou 31,23 milh\u00f5es em n\u00fameros absolutos. O aumento foi de 39% quando comparado aos nove anos anteriores. At\u00e9 2030, o Brasil dever\u00e1 ter a quinta popula\u00e7\u00e3o mais idosa do mundo.<\/p>\n<p>Em 2070, as pessoas com mais de 60 anos representar\u00e3o 75,3% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos problemas advir\u00e3o dessa inflex\u00e3o demogr\u00e1fica e teremos que encontrar solu\u00e7\u00f5es na hora certa. O etarismo, entretanto, temos que come\u00e7ar a combater agora. Este n\u00e3o \u00e9 um problema econ\u00f4mico ou pol\u00edtico. Trata-se apenas de mais uma manifesta\u00e7\u00e3o da estupidez e da mesquinharia humanas.<\/p>\n<h2>Tereza Cruvinel tem 70 anos e 44 anos de atividade como jornalista profissional.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_b517c7c7c5aca50843cfe36ae53150ade39819ac95e09d0cfcb49d61de92ffea.jpg\" alt=\"Florestan Fernandes J\u00fanior\" width=\"400\" height=\"100\" \/><\/figure>\n<h2><b>Florestan Fernandes J\u00fanior<\/b><\/h2>\n<h5><b>O desafio de envelhecer com dignidade no Brasil<\/b><\/h5>\n<h5><b>O envelhecimento acelerado da sociedade imp\u00f5e um grande desafio: superar o etarismo, o preconceito com base na idade<\/b><\/h5>\n<p>O tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem deste ano, \u201cPerspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira\u201d, n\u00e3o poderia ser mais oportuno. Os dados do Censo do IBGE apontam para um crescimento significativo da popula\u00e7\u00e3o idosa no pa\u00eds. As pessoas com mais de 60 anos representam hoje cerca de 16% dos 212 milh\u00f5es de habitantes, e as proje\u00e7\u00f5es indicam que, em 2040, a chamada \u201cterceira idade\u201d corresponder\u00e1 a um quarto da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>O envelhecimento acelerado da sociedade imp\u00f5e um grande desafio: superar o etarismo, que \u00e9 o preconceito com base na idade. No Brasil, a maioria dos idosos vive com aposentadorias irris\u00f3rias, insuficientes para garantir uma vida digna e saud\u00e1vel, justamente no momento em que os cuidados com a sa\u00fade se tornam mais necess\u00e1rios. Al\u00e9m disso, conseguir um emprego para complementar a renda \u00e9 tarefa quase imposs\u00edvel. A discrimina\u00e7\u00e3o et\u00e1ria no mercado de trabalho refor\u00e7a a exclus\u00e3o social e aprofunda desigualdades hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds que valoriza a juventude como sin\u00f4nimo de produtividade e sucesso, o idoso muitas vezes \u00e9 visto como um peso, e n\u00e3o como algu\u00e9m que acumulou saberes e experi\u00eancias fundamentais. Esse olhar excludente desumaniza e empobrece a sociedade como um todo. O etarismo n\u00e3o apenas marginaliza, mas tamb\u00e9m afeta diretamente a sa\u00fade mental e f\u00edsica dos mais velhos, podendo causar depress\u00e3o, solid\u00e3o e decl\u00ednio cognitivo.<\/p>\n<blockquote><p>Mais do que garantir pol\u00edticas p\u00fablicas de amparo, \u00e9 urgente construir uma cultura que valorize o envelhecimento como parte natural e rica da vida. Respeitar e incluir o idoso \u00e9 respeitar a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria da sociedade brasileira, um pa\u00eds que, inevitavelmente, est\u00e1 envelhecendo e precisa aprender a envelhecer com dignidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>Nas comunidades ind\u00edgenas, o paj\u00e9, o mais velho da tribo, \u00e9 reverenciado por sua sabedoria, por carregar o conhecimento ancestral, a tradi\u00e7\u00e3o oral e os costumes de seu povo. O respeito ao tempo vivido \u00e9 o que mant\u00e9m a mem\u00f3ria coletiva e orienta o futuro.<\/p>\n<blockquote><p>Nesse sentido, vale lembrar que o presidente Lula, ao completar 80 anos, simboliza essa for\u00e7a da experi\u00eancia. Ele \u00e9 um exemplo vivo de que a idade n\u00e3o \u00e9 um limite, mas um legado.<\/p><\/blockquote>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251027041056_893b76e0d714295ae40de2a42eb185341d98b49a6a1c4fab5bd30a75dbc2ff35.jpg\" alt=\"Luiz In\u00e1cio Lula da Silva celebra seu anivers\u00e1rio\" width=\"3600\" height=\"2400\" \/><figcaption>Luiz In\u00e1cio Lula da Silva celebra seu anivers\u00e1rio(Photo: Ricardo Stuckert \/ PR)Ricardo Stuckert \/ PR<\/figcaption><\/figure>\n<p>O \u201cpaj\u00e9\u201d da tribo Brasil segue sendo, com sua trajet\u00f3ria, um dos chefes de Estado mais respeitados do mundo, prova de que o envelhecer pode ser tamb\u00e9m um ato de resist\u00eancia, sabedoria e renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Florestan Fernandes J\u00fanior tem 72 anos e iniciou sua carreira jornal\u00edstica em 1976, no Jornal da Tarde.<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251115151140_f422c634f93ff064da9a815327b8db70e40780be24d530cabdc5ef5c5c9110c9.jpg\" alt=\"Hildegard Angel\" width=\"800\" height=\"200\" \/><figcaption>Hildegard Angel(Photo: Ilustra\u00e7\u00e3o \/ 247)Ilustra\u00e7\u00e3o \/ 247<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Hildegard Angel<\/h2>\n<h5>O be-a-b\u00e1 da velhice<\/h5>\n<h5>Uma das prerrogativas de se estar velho \u00e9 acertar pelo menos uma quest\u00e3o do \u00faltimo Enem<\/h5>\n<p>\u00c0s vezes me surpreendo, quando me tratam com os cuidados e a defer\u00eancia que se deve a um velho. Se eu n\u00e3o tivesse espelho em casa, at\u00e9 me esqueceria do detalhe. Nas ultimas d\u00e9cadas, repetidamente, pedi para n\u00e3o me chamarem de \u201csenhora\u201d \u2013 n\u00e3o me sentia como tal. Agora, aceito, com um misto de conformidade e bom humor, como se por dentro risse de quem assim me considera.<\/p>\n<p>Certo, ando meio distra\u00edda, e confesso minha dificuldade com as senhas, cada vez mais numerosas, e para acompanhar o ritmo das mudan\u00e7as das regras nos aplicativos que frequento. Uma gin\u00e1stica que fa\u00e7o com regularidade \u00e9 a mental. Ela me confere a habilidade de improvisar e dar meu jeito no trato com a tecnologia digital. Quem j\u00e1 nasceu e cresceu nela, n\u00e3o precisa do \u201cjeitinho\u201d, \u00e9 pena.<\/p>\n<p>Uma das prerrogativas de se estar velho \u00e9 acertar pelo menos uma quest\u00e3o do \u00faltimo Enem: \u201cOs desafios do envelhecimento e o etarismo\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Quanto mais envelhe\u00e7o, mais eu me conven\u00e7o de que a velhice n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o, \u00e9 op\u00e7\u00e3o. Os que resistem ao decl\u00ednio psicol\u00f3gico, mesmo sofrendo de algum decl\u00ednio f\u00edsico, vivem bem. S\u00e3o felizes. N\u00e3o h\u00e1 desafio, h\u00e1 uma disposi\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de envelhecer.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ontem, fui ao anivers\u00e1rio de um amigo, 80 anos, no Clube dos Macacos, no Jardim Bot\u00e2nico. Lotou com cabe\u00e7as, barbas e barbichas brancas. Nenhuma cirurgia pl\u00e1stica, nenhum tra\u00e7o de botox. Vidas plenas, rostos e corpos assumidos. N\u00e3o eram corpos nem rostos, eram condecora\u00e7\u00f5es por servi\u00e7os prestados ao Brasil. Neles estavam impressos sonhos e lutas, que viraram livros de mem\u00f3ria e Hist\u00f3ria, se tornaram teses, c\u00e1tedras, disserta\u00e7\u00f5es. Se havia desafio para aquela turma da esquerda no anivers\u00e1rio de Agostinho Guerreiro \u2013 o sobrenome o explica \u2013 era a escadaria de acesso.<\/p>\n<p>Contudo, os que militaram durante a ditadura militar, foram \u00e0s ruas, ca\u00edram na clandestinidade, trocaram de identidade, reuniram-se em aparelhos, pegaram ou n\u00e3o em armas, foram presos, torturados, perderam seus companheiros, partiram para o ex\u00edlio, sobreviveram, retornaram e reconstru\u00edram suas vidas escalaram a escadaria numa boa. Eu, que n\u00e3o fiz nada disso, fui salva pelo corrim\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as pesquisas sobre a velhice que fiz esta semana para escrever este texto, que inclu\u00edram das obras de Machado, Clarice e L\u00facio ao memorando do Departamento de Estado dos EUA \u00e0s suas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas no exterior para que sejam negados vistos aos obesos, doentes e\u00a0<b>idosos<\/b>, todo esse conhecimento reunido n\u00e3o me deu a resposta, que encontrei ali, na escurid\u00e3o do Clube dos Macacos, entre palmeiras centen\u00e1rias e vibrantes amigos quase centen\u00e1rios, numa entusiasmada confraterniza\u00e7\u00e3o adolescente \u2013 o t\u00f4nico da juventude \u00e9 abra\u00e7ar causas e sonhos que valham o pre\u00e7o da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>E vivam os 80 anos de Agostinho, Dulce Pandolfi e todos os presentes \u00e0quela festa, que virou texto, que vai virar livro. Muito obrigada por mais esta li\u00e7\u00e3o. Os bancos escolares n\u00e3o fecham as portas para quem n\u00e3o se fecha a eles.<\/p>\n<p><b>* Dulce Pandolfi \u00e9 aquela presa pol\u00edtica que foi usada como &#8220;modelo&#8221; pelos militares em suas &#8220;li\u00e7\u00f5es de tortura&#8221; aos novatos torturadores.<\/b><\/p>\n<h2>Hildegard Angel tem 76 anos e trabalha ininterruptamente desde os 18.<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_e540004883bf223e67d05364032bbda113d05a0807c0b095d26431c0d3438843.jpg\" alt=\"Miguel Paiva\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Miguel Paiva<\/b><\/h2>\n<h2><b>Envelhecer no Enem e no Brasil<\/b><\/h2>\n<h5><b>Esta \u00e9 a perspectiva melhor que pode existir. Criar condi\u00e7\u00f5es para que o envelhecimento venha de modo suave e gratificante<\/b><\/h5>\n<p>Dia desses, fazendo\u00a0<i>O Barato da Idade<\/i>\u00a0na TV247, que tem tudo a ver com esse tema, perguntei \u00e0 M\u00e1rcia Carmo, nossa correspondente em Buenos Aires, se era verdadeira a minha impress\u00e3o de que a Argentina \u00e9 um pa\u00eds mais idoso que o Brasil, nos h\u00e1bitos, na cultura e no respeito aos mais velhos. Ela concordou, apesar de o presidente Milei gostar e cantar rock and roll. A cultura argentina \u00e9 menos transform\u00e1vel que a nossa, menos influenci\u00e1vel, menos sujeita \u00e0s varia\u00e7\u00f5es, resultado de uma coloniza\u00e7\u00e3o mais europeia, mais conservadora.<\/p>\n<p>Isso serve de introdu\u00e7\u00e3o ao tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem deste ano e deste artigo, que fala das perspectivas do envelhecimento no Brasil. Colocar \u201cperspectivas\u201d e \u201cenvelhecimento\u201d na mesma frase j\u00e1 \u00e9 um desafio. O envelhecimento pressup\u00f5e, sobretudo, a diminui\u00e7\u00e3o de perspectivas.<\/p>\n<p>Os argentinos ainda cultuam \u2014 e muito \u2014 o peronismo, que nos \u00faltimos tempos envelheceu demais, mas carrega no bojo elementos importantes justamente para a estabilidade social, como o sindicalismo. Nada mais velho e, portanto, fora de moda aqui no Brasil. Aliado \u00e0 aposentadoria, ao sistema de sa\u00fade, ao regime tradicional de trabalho, fomos rejuvenescendo no mau sentido, na forma e nas solu\u00e7\u00f5es sociais, na presen\u00e7a do Estado cada vez mais distante. O idoso hoje se v\u00ea afastado de qualquer solu\u00e7\u00e3o mais ampla.<\/p>\n<p>No filme\u00a0<i>O \u00daltimo Azul<\/i>, de produ\u00e7\u00e3o recente brasileira, os idosos s\u00e3o levados para uma esp\u00e9cie de col\u00f4nia porque causam muitas despesas aos mais jovens. N\u00e3o servem mais \u00e0 sociedade. Este, na realidade, \u00e9 o mote geral do que vem acontecendo. Apesar de muitos idosos continuarem a produzir \u2014 e bem \u2014, e comprovamos isso no programa\u00a0<i>O Barato da Idade<\/i>, a sociedade no Brasil n\u00e3o s\u00f3 os segrega como desvaloriza seu legado. A experi\u00eancia perde sua import\u00e2ncia e, junto com a meritocracia e o empreendedorismo, as caracter\u00edsticas da juventude prevalecem. Os resultados s\u00e3o outros, \u00e9 claro, mas a mentalidade \u00e9 esta.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/2025111016114_f166f1196323a97eddee3f4227fba2ea1f1291f6ed92f1eaf5f611bed236fc7f.jpg\" alt=\"ilustracao\" width=\"1280\" height=\"704\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o\u00a0(Photo: Miguel Paiva)Miguel Paiva<\/figcaption><\/figure>\n<p>Est\u00e1 no jovem a produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o mais a revolu\u00e7\u00e3o ou a transforma\u00e7\u00e3o de antes. As perspectivas do envelhecimento n\u00e3o passam por qualquer transforma\u00e7\u00e3o. Passam pela manuten\u00e7\u00e3o desta estrutura, que s\u00f3 facilita os ganhos de mercado e anula totalmente qualquer possibilidade de planejamento de bem-estar social que possa privilegiar os mais velhos.<\/p>\n<blockquote><p>O mundo virou um lugar para os mais jovens, mas sem planos na cabe\u00e7a. E a\u00ed temos outra contradi\u00e7\u00e3o: jovens e transforma\u00e7\u00f5es podem e devem viver na mesma frase. S\u00e3o caracter\u00edsticas t\u00edpicas. Mas, dentre as transforma\u00e7\u00f5es esperadas, n\u00e3o est\u00e3o as que melhoram a perspectiva de vida dos mais velhos. Todos os jovens ser\u00e3o idosos um dia. E isto \u00e9 uma vit\u00f3ria. Significa que chegaram l\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta \u00e9 a melhor perspectiva que pode existir: criar condi\u00e7\u00f5es para que o envelhecimento venha de modo suave e gratificante. Estamos cada dia mais longe disso e, talvez, para isso tenhamos que ressuscitar coisas antigas, como bem-estar social e aposentadoria. N\u00e3o vejo outra maneira de fazer da velhice um momento feliz.<\/p>\n<h2>Miguel Paiva tem 75 anos e \u00e9 jornalista desde 1967.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_625c5c40da98f5da59dc4351b317b2f91652d2665b2164c6c22fd65a3c679edc.jpg\" alt=\"Mario Vitor Santos\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Mario Vitor Santos<\/b><\/h2>\n<h2><b>A reda\u00e7\u00e3o do Enem aponta para a op\u00e7\u00e3o real e concreta para combater o etarismo: Lula<\/b><\/h2>\n<h5><b>&#8220;Lula acima de tudo personifica a ideia de que o amor por uma causa renova e rejuvenesce, afasta o tempo, a solid\u00e3o e a depress\u00e3o&#8221;<\/b><\/h5>\n<p>&#8220;Perspectivas acerca do envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o brasileira&#8221; foi o tema da reda\u00e7\u00e3o do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n<p>O tema remete imediatamente para o agravamento da situa\u00e7\u00e3o de dificuldades econ\u00f4micas vivida pelos velhos de agora, agravada imensamente pela realidade especial de envelhecer sob a hegemonia das ideias neoliberais.<\/p>\n<p>Remete tamb\u00e9m para aquele que representa um modelo de possibilidades para usar como alternativa ao neoliberalismo. A trajet\u00f3ria, os compromissos e, principalmente, a candidatura \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o de Lula s\u00e3o a grande esperan\u00e7a de reverter a situa\u00e7\u00e3o de extrema dificuldade que vive a grande maioria dos idosos e a perspectiva ainda mais sombria que aguarda os idosos de amanh\u00e3.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251109111156_2824068992e57af5122621967d5e0455541cdd64e9f5d4796d6f8b8c5dbf7102.jpg\" alt=\"08.11.2025 - Parque da Cidade - Bel\u00e9m (PA) - O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva na COP30\" width=\"3000\" height=\"1999\" \/><figcaption>08.11.2025 &#8211; Parque da Cidade &#8211; Bel\u00e9m (PA) &#8211; O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva na COP30\u00a0(Photo: Ricardo Stuckert\/PR)Ricardo Stuckert\/PR<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aos 80 anos, Lula \u00e9 o idoso que se fez necess\u00e1rio, \u00fanico e insubstitu\u00edvel. \u00c9 a exce\u00e7\u00e3o da exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra, em seu desafio, quase deboche, \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es da idade. Exemplo de sucesso, autoestima e autocuidado, Lula n\u00e3o se oferece apenas. Ele se revela indispens\u00e1vel. Muito mais atende a um clamor de um pa\u00eds que, uma vez mais, v\u00ea nele a chance de um futuro melhor. Lula \u00e9 o idoso essencial. Lula \u00e9 a luta de classes encarnada. Ele \u00e9 o tipo ideal que desmente o descarte dos corpos vividos \u2014 descarte praticado pelo capitalismo e tornado credo pelo neoliberalismo.<\/p>\n<blockquote><p>Lula \u00e9 a possibilidade de revers\u00e3o do modelo neoliberal. Este inviabiliza a previd\u00eancia social decente e universal e o Sistema \u00danico de Sa\u00fade, cujo aperfei\u00e7oamento \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio, especialmente para os idosos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ser\u00e1 necess\u00e1rio, se Lula for eleito, fazer uma reviravolta no garrote da informalidade que condena os atuais e futuros idosos \u00e0 velhice indigna. \u00c9 tarefa de afirma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds mobilizar os trabalhadores para desmontar os diversos gargalos que estrangulam, num projeto deliberado, a Previd\u00eancia Social.<\/p>\n<blockquote><p>S\u00f3 a vit\u00f3ria de Lula dar\u00e1 oxig\u00eanio a essa refunda\u00e7\u00e3o, pelo servi\u00e7o p\u00fablico de qualidade, da verdadeira cidadania.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se algu\u00e9m tem condi\u00e7\u00e3o de afastar essa sombra \u2014 a da precariza\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia e do SUS \u2014 que paira sobre o presente e o futuro de todos, \u00e9 Lula. Qualquer outro candidato apressar\u00e1 a devasta\u00e7\u00e3o imprevidente.<\/p>\n<p>Lula, acima de tudo, personifica a ideia de que o amor por uma causa renova e rejuvenesce, afasta o tempo, a solid\u00e3o e a depress\u00e3o. Ser\u00e1 ele a\u00a0<i>avis rara<\/i>\u00a0e uma inspira\u00e7\u00e3o para que todos, em especial os mais velhos, mas tamb\u00e9m os velhos de amanh\u00e3, partam com todo o vigor para derrotar o etarismo. Se este, afinal, recuar, n\u00e3o ser\u00e1 a primeira ruptura de tabus de uma gera\u00e7\u00e3o rebelde que, ao chegar a sua vez, acostumou-se a impor novos h\u00e1bitos.<\/p>\n<h2>Mario Vitor Santos tem 70 anos e \u00e9 jornalista desde 1980.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_4c5e3568dd2fa7385c252ddb8be9abbb355f22ccaa6a807697b50c6b159dd4f7.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Reinaldo Carvalho\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Jos\u00e9 Reinaldo Carvalho<\/b><\/h2>\n<h5><b>Valorizar o idoso em uma sociedade etarista que cultua a juventude<\/b><\/h5>\n<h5><b>Crescimento acelerado da popula\u00e7\u00e3o idosa exp\u00f5e falhas estruturais, desigualdade e preconceito etarista no pa\u00eds<\/b><\/h5>\n<p>Em boa hora, o tema da reda\u00e7\u00e3o do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) deste ano foi \u201cPerspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira\u201d. Oxal\u00e1 isto ajude a criar um clima favor\u00e1vel e uma eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social para o combate \u00e0 viola\u00e7\u00e3o dos direitos da popula\u00e7\u00e3o idosa e ao etarismo.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 envelhecendo em um ritmo sem precedentes. Ao que tudo indica, sem preparo suficiente para lidar com as consequ\u00eancias deste processo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que o n\u00famero de pessoas com 60 anos ou mais saltou de 19,6 milh\u00f5es em 2010 para mais de 32 milh\u00f5es em 2022, o equivalente a cerca de 15% da popula\u00e7\u00e3o. Em pouco mais de uma d\u00e9cada, o pa\u00eds dever\u00e1 ter mais idosos do que crian\u00e7as. Esta transforma\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, que nas na\u00e7\u00f5es europeias levou mais de um s\u00e9culo, est\u00e1 ocorrendo em pouco mais de 30 anos no Brasil, sem que a estrutura social e econ\u00f4mica tenha acompanhado a mesma velocidade.<\/p>\n<p>Trata-se de um fen\u00f4meno estrutural e inevit\u00e1vel: a taxa de fecundidade caiu, a expectativa de vida aumentou e o perfil populacional se desloca rapidamente para as faixas et\u00e1rias mais elevadas. O que deveria ser motivo de celebra\u00e7\u00e3o, pois viver mais \u00e9 uma conquista civilizat\u00f3ria, depara-se com uma s\u00e9rie de deforma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas e psicossociais, tornando-se n\u00e3o um fen\u00f4meno caracter\u00edstico de pujan\u00e7a social, mas de fragilidade. O pa\u00eds que idolatra a juventude parece n\u00e3o saber o que fazer com sua pr\u00f3pria velhice. E no centro deste paradoxo est\u00e1 uma doen\u00e7a social silenciosa e persistente: o etarismo, o preconceito baseado na idade.<\/p>\n<h2><b>Envelhecimento e exclus\u00e3o<\/b><\/h2>\n<p>O avan\u00e7o da longevidade tem efeitos profundos sobre o sistema de sa\u00fade, a previd\u00eancia e o mercado de trabalho. O envelhecimento populacional aumenta a press\u00e3o sobre o SUS, que precisa lidar com doen\u00e7as cr\u00f4nicas e m\u00faltiplas, exigindo acompanhamento cont\u00ednuo e infraestrutura adequada. A Previd\u00eancia, por sua vez, enfrenta desequil\u00edbrios financeiros.<\/p>\n<blockquote><p>No mercado de trabalho, a exclus\u00e3o \u00e9 brutal. Milhares de idosos s\u00e3o empurrados para a informalidade, enfrentam dificuldades de recoloca\u00e7\u00e3o e sofrem com a precariza\u00e7\u00e3o. Muitos sobrevivem com aposentadorias insuficientes, incapazes de cobrir despesas b\u00e1sicas como moradia, alimenta\u00e7\u00e3o e medicamentos. O resultado \u00e9 o empobrecimento de uma parcela crescente da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o poucos os que caem na mis\u00e9ria.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os idosos tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas de invisibilidade. Sua experi\u00eancia, sabedoria e capacidade de contribui\u00e7\u00e3o social s\u00e3o sistematicamente desvalorizadas em nome de uma cultura que exalta a produtividade e a apar\u00eancia jovem. Em um pa\u00eds onde a juventude \u00e9 vendida como privil\u00e9gio, valor e virtude, a velhice acaba sendo tratada como defeito e o envelhecimento como atestado de fracasso individual.<\/p>\n<h2><b>O abismo entre a lei e a realidade<\/b><\/h2>\n<p>Desde 2003, o Brasil possui uma legisla\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada para a prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o idosa: o Estatuto da Pessoa Idosa. O texto garante prioridade no atendimento, assegura benef\u00edcios sociais, criminaliza maus-tratos e estabelece o direito a um envelhecimento digno. No papel, trata-se de um marco civilizat\u00f3rio. Na pr\u00e1tica, contudo, sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 desigual e frequentemente ignorada.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o, a falta de or\u00e7amento espec\u00edfico e o desconhecimento generalizado sobre os direitos assegurados tornam o Estatuto, em muitos casos, uma promessa vazia. A efetividade da lei depende da vontade pol\u00edtica de governos locais e da capacidade de articula\u00e7\u00e3o da sociedade civil.<\/p>\n<p>No campo da sa\u00fade, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) \u00e9 universal, mas enfrenta limita\u00e7\u00f5es severas. A falta de profissionais especializados em geriatria, a car\u00eancia de programas de reabilita\u00e7\u00e3o e a dificuldade de acesso a exames e medicamentos afetam diretamente a qualidade de vida dos idosos. Servi\u00e7os de cuidado de longa dura\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas de apoio a cuidadores familiares ainda s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es, restritas a poucas cidades.<\/p>\n<blockquote><p>A rede de assist\u00eancia social tamb\u00e9m revela lacunas. Muitos munic\u00edpios n\u00e3o possuem centros de conviv\u00eancia, programas de inclus\u00e3o digital ou espa\u00e7os de socializa\u00e7\u00e3o voltados \u00e0 terceira idade. Isto agrava a solid\u00e3o, o isolamento e a sensa\u00e7\u00e3o de abandono que marcam o envelhecer no Brasil.<\/p><\/blockquote>\n<h2><b>O etarismo\u00a0<\/b><\/h2>\n<p>O etarismo \u00e9 a face mais cruel deste cen\u00e1rio. Ele se manifesta em gestos cotidianos, piadas, olhares e pol\u00edticas que marginalizam quem envelhece. Est\u00e1 nas empresas que evitam contratar pessoas acima dos 50 anos, na m\u00eddia que retrata o idoso como incapaz, na ind\u00fastria da beleza que vende juventude como mercadoria e at\u00e9 no discurso m\u00e9dico que identifica o envelhecimento como doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Este preconceito tem efeitos devastadores. Mina a autoestima, favorece a depress\u00e3o, aprofunda o isolamento e desumaniza o envelhecer. Muitos idosos acabam confinados em casa, privados do conv\u00edvio social e sem perspectiva de reintegra\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma velhice solit\u00e1ria, em um pa\u00eds que ainda n\u00e3o aprendeu a valorizar a experi\u00eancia e o tempo.<\/p>\n<p>Mais do que uma quest\u00e3o cultural, o etarismo \u00e9 uma forma de exclus\u00e3o social que refor\u00e7a desigualdades e fere princ\u00edpios b\u00e1sicos de cidadania. Ao negar o valor dos mais velhos, a sociedade nega parte de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e compromete o futuro coletivo.<\/p>\n<h2><b>A urg\u00eancia de mudar mentalidades e pol\u00edticas<\/b><\/h2>\n<p>Superar esta realidade exige mais do que boas inten\u00e7\u00f5es: requer uma profunda transforma\u00e7\u00e3o de mentalidade e a\u00e7\u00e3o efetiva do Estado. O combate ao etarismo deve come\u00e7ar pela educa\u00e7\u00e3o e pela comunica\u00e7\u00e3o, com campanhas p\u00fablicas que mostrem o envelhecimento como uma etapa natural e plena da vida. \u00c9 preciso desmontar a ideia de que produtividade tem idade e de que o valor de uma pessoa se mede por sua apar\u00eancia ou capacidade f\u00edsica.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251004091012_0a2cb5a7dfcb16836b4059e84706b4c9cca902af0e3c7b086ec999e021506167.jpg\" alt=\"sus-sistema-unico-saude\" width=\"1280\" height=\"766\" \/><figcaption>SUS &#8211; Sistema \u00danico de Sa\u00fade\u00a0(Photo: Ag\u00eancia Brasil )<\/figcaption><\/figure>\n<p>Diante do aumento do n\u00famero de idosos e das defici\u00eancias na promo\u00e7\u00e3o de direitos deste segmento populacional, torna-se urgente desenvolver pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes em fornecer uma adequada assist\u00eancia m\u00e9dica; proporcionar oportunidades para transmitir suas experi\u00eancias, bem como para atualizar e renovar seu aprendizado. Aos idosos deve ser assegurada a oportunidade de contribuir com a sociedade. Isto requer a ado\u00e7\u00e3o de leis efetivas e a realiza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas garantidoras de direitos espec\u00edficos, bem como o amplo envolvimento de toda a sociedade nos esfor\u00e7os para cuidar dos idosos. Por meio de pol\u00edticas e orienta\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, o Estado deve empenhar-se na cria\u00e7\u00e3o de um ambiente social favor\u00e1vel \u00e0 vida do idoso em todas as dimens\u00f5es, inclusive a vida associativa, a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em distintas esferas e o amplo acesso aos bens culturais. A cria\u00e7\u00e3o de redes de apoio, a participa\u00e7\u00e3o em grupos e a reivindica\u00e7\u00e3o por seus direitos s\u00e3o formas de construir uma velhice mais ativa e menos solit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nesse sentido, \u00e9 imperativo fortalecer o SUS para o atendimento geri\u00e1trico com foco na aten\u00e7\u00e3o integral;criar uma rede de prote\u00e7\u00e3o social que inclua centros de conviv\u00eancia, programas de cuidado domiciliar e suporte aos cuidadores familiares; incentivar a inclus\u00e3o produtiva do idoso, com pol\u00edticas de emprego e empreendedorismo adaptadas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o et\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel assegurar a efetiva implementa\u00e7\u00e3o do Estatuto da Pessoa Idosa, com or\u00e7amento garantido, mecanismos de fiscaliza\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00f5es exemplares a quem violar seus princ\u00edpios. O Estado, a sociedade e as fam\u00edlias devem compartilhar a responsabilidade pelo cuidado, reconhecendo o envelhecimento como parte essencial da vida humana.<\/p>\n<h2><b>Envelhecer \u00e9 conquista\u00a0<\/b><\/h2>\n<p>A longevidade \u00e9 uma das maiores vit\u00f3rias da humanidade. Mas, para que ela n\u00e3o seja vista como fardo, doen\u00e7a ou pecado, o pa\u00eds precisa transformar o modo como enxerga o envelhecer. Um Brasil que aspira ao desenvolvimento e \u00e0 prosperidade deve ser capaz de oferecer dignidade, autonomia e reconhecimento a todos, independentemente da idade.<\/p>\n<p>Envelhecer n\u00e3o \u00e9 um desvio nem deforma\u00e7\u00e3o, mas evolu\u00e7\u00e3o do ser humano. \u00c9 um direito, um ciclo da vida que deve ser vivido com plenitude e respeito. Valorizar os idosos \u00e9 valorizar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria nacional e preparar o futuro de um pa\u00eds que, inevitavelmente, ser\u00e1 cada vez mais velho, mas pode ser tamb\u00e9m mais justo, s\u00e1bio e humano.<\/p>\n<h2>Jos\u00e9 Reinaldo Carvalho tem 70 anos e \u00e9 jornalista desde 1979.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_f689d9f80aba6f573f7518b899f6f0a6e75ab221a103e00c9c19a2e6da728d9f.jpg\" alt=\"Lejeune Mirhan\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Lejeune Mirham<\/b><\/h2>\n<h2><b>Envelhecer no Brasil<\/b><\/h2>\n<h5><b>Gostaria que a imensa maioria dos idosos e das idosas do nosso Brasil pudesse ter a oportunidade de envelhecer como eu tive<\/b><\/h5>\n<p>Parece que o tempo corre diferente em momentos distintos de nossas vidas. Quando somos crian\u00e7as e jovens, e at\u00e9 mesmo em certa fase da vida adulta, ele parece passar mais lentamente. Mas, a partir de um certo momento, quando nos damos conta de que a velhice chegou \u2014 e ela vem para ficar \u2014, a velocidade do tempo parece se acelerar. H\u00e1 at\u00e9 estudos que mostram esse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Ainda \u201coutro dia\u201d, em dezembro de 2006, eu completava 50 anos. Comemora\u00e7\u00e3o modesta, com a filha amada, praticamente rec\u00e9m-formada, a ex-esposa e grande amiga, uma cunhada (j\u00e1 falecida), a m\u00e3e saudosa e um grande amigo. E s\u00f3 isso. \u00c9poca de festas simples e modestas. Mas hoje j\u00e1 me dou conta de que estou prestes a completar quase 70 anos (em dezembro do ano que vem). E l\u00e1 se v\u00e3o quase 20 anos \u2014 que passaram como um jato.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o tem sido f\u00e1cil. Imagino que para a maioria do povo brasileiro. At\u00e9 sinto-me privilegiado por ter conseguido me formar, fazer um mestrado, tornar-me professor universit\u00e1rio. Sempre com dois empregos e ambos fora da cidade em que escolhi para morar e constitu\u00ed fam\u00edlia \u2014 Campinas (trabalhei 30 anos em S\u00e3o Paulo e 22 anos em Piracicaba, na Unimep).<\/p>\n<p>N\u00e3o posso reclamar. Completarei 69 anos no dia 22 de dezembro pr\u00f3ximo. Com uma sa\u00fade boa no geral, ainda que tenha tido muitos sustos ao longo da vida, sempre salvo pela ci\u00eancia. Tomo todos os cuidados de praxe e as medica\u00e7\u00f5es recomendadas pelos m\u00e9dicos. Sei bem que as mulheres vivem mais porque se cuidam, v\u00e3o mais aos m\u00e9dicos. Tamb\u00e9m fa\u00e7o isso. N\u00e3o descuido da sa\u00fade. O segundo casamento me presenteou com uma esposa que zela pelos meus h\u00e1bitos alimentares e n\u00e3o descuida desse aspecto de nossa vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se envelhecer em um pa\u00eds como o Brasil pode ter um padr\u00e3o geral. \u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o. Imagino que a imensa maioria dos e das idosas viva com maior dificuldade do que aquelas com as quais me deparei nas quase sete d\u00e9cadas de vida que levei at\u00e9 agora. A imensa maioria dos idosos depende quase que exclusivamente do Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u2014 SUS, um dos melhores do mundo, diga-se de passagem.<\/p>\n<p>No entanto, por circunst\u00e2ncias de vida e profissionais, sempre pude ter acesso ao sistema complementar de sa\u00fade, que \u00e9 um sistema privado. Que n\u00e3o cuida da sa\u00fade de verdade, pois eu s\u00f3 procuro os m\u00e9dicos quando me encontro doente. Minha saudosa m\u00e3e, que faleceu em junho passado, aos 91 anos, era paciente do SUS. O sistema cuidava de verdade de sua sa\u00fade. Ligavam para nossa casa alertando quando ela deveria comparecer ao posto para as consultas de rotina etc.<\/p>\n<p>Trabalho desde os 21 anos. Como filho egresso de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia baixa, ingressei tarde no mercado de trabalho. Aposentei-me tarde tamb\u00e9m. Ao todo, trabalhei 41 anos. Mas penei para comprovar 35 anos de recolhimento previdenci\u00e1rio. Nessas mais de quatro d\u00e9cadas trabalhadas houve 72 meses de \u201cburacos\u201d, sem recolhimentos. Descuidos de um jovem, \u00e0 \u00e9poca, que n\u00e3o pensava que um dia o futuro chegaria e aqueles meses fariam muita falta.<\/p>\n<p>Envelhecer no Brasil \u00e9 ser tamb\u00e9m av\u00f4. E acho que fui av\u00f4 mais ou menos no tempo certo. Aos 58 anos, minha filha me presenteou com meu primeiro neto e, quatro anos depois, veio o segundo \u2014 hoje ambos com 12 e 8 anos, respectivamente. Ador\u00e1veis e inteligentes crian\u00e7as. Leitoras vorazes como a m\u00e3e e o av\u00f4. Adoram a minha imensa biblioteca e, todas as semanas, quando v\u00eam \u00e0 nossa casa ou quando vou \u00e0 deles, me mostram a p\u00e1gina em que se encontram nos livros que est\u00e3o lendo naquela semana. S\u00e3o motivos de muito orgulho para nossa pequenina fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o criamos nossa filha sob nenhuma religiosidade. Nenhuma mitologia ou divindade esteve presente em sua vida at\u00e9 o tempo em que ela dependia dos pais para a forma\u00e7\u00e3o de sua consci\u00eancia. Depois que ela \u201clevantou seu pr\u00f3prio voo\u201d, as escolhas mudaram de posi\u00e7\u00e3o, ainda que eu sinta que nunca tenham se alterado substancialmente.<\/p>\n<p>Isso vale para a minha vida pessoal. Desde meus 18 anos, quando me tornei comunista e abracei o materialismo dial\u00e9tico como filosofia de vida e o materialismo hist\u00f3rico como forma de an\u00e1lise da sociedade, n\u00e3o tive a absoluta necessidade de religiosidade em minha vida cotidiana. Ao contr\u00e1rio, tenho feito de minha exist\u00eancia uma vida de estudos, leituras e pesquisas sobre os mais diversos ramos da ci\u00eancia. Orgulho-me de minha biblioteca, que re\u00fane 22 \u00e1reas de conhecimento entre os mais de 10 mil livros que j\u00e1 adquiri nestes 50 anos acumulando esse objeto de desejo cotidiano.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20250511060516_0fa4b17b9be36d0e3983ef980e3204967db8f501727bb8dddef113ebf71a0de5.jpg\" alt=\"idosos-cuidadores\" width=\"1280\" height=\"766\" \/><figcaption>idosos-cuidadores(Photo: Ag\u00eancia Brasil)Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Por fim, sei que nem todos os que envelhecem registram suas vidas e os momentos hist\u00f3ricos nos quais se situam nas sociedades em que est\u00e3o inseridos, mas sempre escrevi e registrei fatos e dados. Publiquei centenas, talvez milhares de pequenos artigos e ensaios em dezenas de \u00f3rg\u00e3os. E, de 2003 para c\u00e1, eis que me vi escritor, j\u00e1 agora com 23 obras publicadas \u2014 algumas como organizador, outras como coautor. E assim pretendo terminar meus dias neste planeta, at\u00e9 o momento em que retornarei \u00e0 poeira c\u00f3smica de onde todos viemos.<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o sabemos o dia de amanh\u00e3. A \u00fanica coisa que sei \u00e9 que a senda do envelhecimento \u00e9 impar\u00e1vel. Na parede de um dos corredores de casa h\u00e1 fotos de minha m\u00e3e beb\u00ea, da minha foto nessa condi\u00e7\u00e3o, da minha filha e dos meus netinhos. Tenho fotos de meus av\u00f3s, dos meus pais. O envelhecimento \u00e9 inevit\u00e1vel e todos devemos estar preparados para isso.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por certo, gostar\u00edamos de viver mais e em condi\u00e7\u00f5es melhores, com mais sa\u00fade. No meu caso, viver mais \u00e9 seguir lutando pelos mesmos ideais que abracei quando jovem, aos 18 anos, que continuam vivos e bastante acesos em mim \u2014 cuja chama espero que jamais se apague \u2014, quais sejam: termos uma sociedade justa e igualit\u00e1ria, o socialismo e o poder prolet\u00e1rio implantado no pa\u00eds. Al\u00e9m disso, sonho em escrever ainda muitos e muitos livros \u2014 ou, pelo menos, conseguir publicar os cinco que j\u00e1 est\u00e3o prontos e para os quais n\u00e3o existem recursos dispon\u00edveis ainda (rsrsrs).<\/p>\n<p>Gostaria que a imensa maioria dos e das idosas do nosso Brasil pudesse ter a oportunidade de envelhecer como eu tive. Nunca foi um mar de rosas. Sempre endividado, fazendo empr\u00e9stimos (era fregu\u00eas do penhor da Caixa&#8230;). Mas, felizmente, conseguimos superar tudo isso. Formamos uma filha excepcional, um exemplo de cidad\u00e3, de profissional como advogada e como m\u00e3e. Uma fam\u00edlia consciente politicamente. E uma segunda esposa, al\u00e9m de linda, tamb\u00e9m combativa e profissionalmente muito competente. Envelhecer assim, rodeado de pessoas conscientes e am\u00e1veis, cercado por livros e pregando pelos canais do YouTube a revolu\u00e7\u00e3o socialista todos os dias \u2014 n\u00e3o \u00e9 o que todos quer\u00edamos?<\/p>\n<h2>Lejeune Mirham tem 68 anos e trabalha desde os 19 anos de idade.<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_e920edec0494664b4060ea6da00afabb333357e428cc24e2cb1bae771b97cef5.jpg\" alt=\"Marcelo Auler\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Marcelo Auler<\/b><\/h2>\n<h5><b>O futuro incerto da terceira idade<\/b><\/h5>\n<h5><b>O envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o exp\u00f5e a falta de preparo do Brasil para garantir dignidade e sustento \u00e0 terceira idade<\/b><\/h5>\n<p>\u00c9 no dia a dia, na chamada rotina do cidad\u00e3o, que sentimos como a sociedade brasileira j\u00e1 n\u00e3o se mostra realmente preparada para a maior longevidade que a ci\u00eancia vem garantindo a todas e todos. Nas filas que se formam em um supermercado ou farm\u00e1cia, percebe-se com clareza certo \u201cdesprezo\u201d pela chamada terceira idade.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 2000, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira determinou o chamado \u201catendimento priorit\u00e1rio e preferencial\u201d a pessoas com 60 anos ou mais em diversas situa\u00e7\u00f5es. Teoricamente, tais cidad\u00e3os deveriam ser atendidos prioritariamente. Mas isso acaba n\u00e3o ocorrendo.<\/p>\n<p>Diante do crescimento da terceira idade, que implica um maior n\u00famero de idosos com atendimento preferencial, o\u00a0<i>jeitinho brasileiro<\/i>\u00a0inventou a chamada \u201cfila preferencial\u201d, que muitas vezes provoca uma demora ainda maior para quem deveria ter prioridade.<\/p>\n<p>Esse detalhe das filas nas lojas comerciais \u00e9 uma pequena amostra da falta de preparo da sociedade para algo inexor\u00e1vel: os idosos, muito em breve, ser\u00e3o mais numerosos do que os jovens ou mesmo os adultos com menos de 60 anos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o das filas ser\u00e1 fator de menor import\u00e2ncia diante de outros aspectos que se anunciam inexor\u00e1veis, tais como o \u201ccusto\u201d da terceira idade para a sociedade como um todo.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos dias atuais, s\u00e3o muitos os idosos que, mesmo tendo contribu\u00eddo com a Previd\u00eancia Social, n\u00e3o recebem aposentadorias suficientes para o pr\u00f3prio sustento. Dificuldade ainda maior enfrentam aqueles que, por motivos diversos, jamais adquiriram um im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Isso faz crescer o n\u00famero dos que hoje, por conta dos alugu\u00e9is nas grandes cidades, refugiam-se nas periferias (em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias) ou em cidades menores do interior. Distanciam-se de suas antigas conviv\u00eancias.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251113111120_7d779e2d7fa6c7965b6d118a7ad06b7391304c8998b3fbe6302a94c367b3b017.jpg\" alt=\"Marcelo Auler, o rep\u00f3rter, ao centro, durante a recente chacina na Vila Cruzeiro\" width=\"960\" height=\"1280\" \/><figcaption>Marcelo Auler, o rep\u00f3rter, ao centro, durante a recente chacina na Vila Cruzeiro(Photo: Brasil 247)Brasil 247<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p>Se at\u00e9 recentemente era comum encontrar aposentados que ajudavam no sustento dos familiares, hoje \u00e9 mais f\u00e1cil esbarrar em casos de idosos que se juntam aos filhos ou outros dependentes para somarem as rendas e, juntos, sobreviverem \u2014 ainda assim com dificuldades.<\/p><\/blockquote>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o que tende a piorar \u00e0 medida que percebemos que, a cada dia, o n\u00famero de contribuintes da Previd\u00eancia Social se reduz, na mesma propor\u00e7\u00e3o em que diminui a quantidade de trabalhadores com registro profissional.<\/p>\n<blockquote><p>A precariza\u00e7\u00e3o do trabalho provocar\u00e1, nas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, uma maior dificuldade de sobreviv\u00eancia. Muitos idosos n\u00e3o contar\u00e3o com aposentadorias suficientes para o sustento, nem ter\u00e3o chances em um mercado de trabalho que, a cada dia, fica mais automatizado e robotizado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Portanto, a sobrevida dos idosos no futuro precisa passar a ser uma preocupa\u00e7\u00e3o premente e permanente dos nossos governos. Est\u00e1 diretamente associada \u00e0 quest\u00e3o do trabalho precarizado, que vem sendo a op\u00e7\u00e3o para jovens e novos profissionais de um modo geral \u2014 mas n\u00e3o apenas isso.<\/p>\n<p>Pode depender ainda de novos programas sociais que incluam, por exemplo, fundos especiais em substitui\u00e7\u00e3o ou complementa\u00e7\u00e3o \u00e0 arrecada\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria, os quais garantam o sustento dos que tiverem rendas insuficientes.<\/p>\n<p>Ou seja, os que hoje se sentem incomodados com o tamanho das filas de \u201cpriorit\u00e1rios\u201d precisam se preocupar \u00e9 com os mecanismos que a sociedade ter\u00e1 para garantir, futuramente, a sobrevida dos idosos \u2014 entre os quais eles pr\u00f3prios poder\u00e3o estar inclu\u00eddos.<\/p>\n<h2>Marcelo Auler tem 70 anos de idade e 53 anos de jornalismo.<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251115061128_2a7715bcbbe7a5624ad5eeb9472198b1aec3a23457d34390f7d0a2d309511af8.jpg\" alt=\"Regina Zappa\" width=\"800\" height=\"200\" \/><figcaption>Regina Zappa(Photo: Ilustra\u00e7\u00e3o \/ 247)Ilustra\u00e7\u00e3o \/ 247<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Regina Zappa<\/h2>\n<h2>\u00c9 preciso olhar com cuidado para o momento mais completo da vida<\/h2>\n<h5>Com sorte, os jovens envelhecer\u00e3o. Com consci\u00eancia e pol\u00edtica, ir\u00e3o preparar um futuro onde haja respeito e dignidade para aqueles velhos que querem liberdade e autonomia<\/h5>\n<p>Assisti recentemente a um filme argentino chamado \u201c27 Noites\u201d, dirigido por Daniel Hendler, em que a atriz Marilu Marino interpreta uma senhora de 83 anos que \u00e9 internada em uma cl\u00ednica por suas filhas por 27 noites porque achavam que a m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es psiqui\u00e1tricas de viver s\u00f3. O filme \u00e9 baseado na hist\u00f3ria real de Nat\u00e1lia Cohen, artista e escritora argentina, uma mulher livre e independente, que \u00e9 internada contra sua vontade e com laudos psiqui\u00e1tricos question\u00e1veis.<\/p>\n<p>Liberdade, envelhecimento e autonomia, assim como a ideia de envelhecer com dignidade, s\u00e3o temas do filme que convidam \u00e0 reflex\u00e3o, sobretudo de uma gera\u00e7\u00e3o em que a velhice j\u00e1 \u00e9 uma realidade. Mas \u00e9 tamb\u00e9m importante que as gera\u00e7\u00f5es mais novas pensem no assunto. Por isso, me chamou a aten\u00e7\u00e3o quando uma amiga mais jovem com quem eu conversava domingo passado olhou uma mensagem no celular e me falou, com espanto: meu filho acabou de sair do Enem 2025 e disse que a prova de reda\u00e7\u00e3o foi sobre envelhecimento e etarismo.<\/p>\n<p>O fato do tema ter surgido em um ambiente acad\u00eamico, convidando os candidatos, a maioria jovens, a refletirem sobre o assunto \u00e9 extremamente importante. Afinal, a escrita obriga a pensar. &#8220;Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira&#8221;. O que ter\u00e3o os candidatos \u00e0 universidade escrito sobre um assunto t\u00e3o distante de sua realidade?<\/p>\n<p>Assistimos nas \u00faltimas d\u00e9cadas ao fortalecimento de movimentos importantes relacionados a preconceitos estruturais da nossa sociedade contra o negro, contra a comunidade LGBTQIA+, contra a mulher, mas o anti-etarismo ainda n\u00e3o se consolidou como um movimento da sociedade.<\/p>\n<p>Em 25 anos, dizem especialistas, vai dobrar a parcela de idosos no Brasil e isso vai pressionar ainda mais o pa\u00eds por um sistema de sa\u00fade que consiga tratar os idosos mais pobres, por um ambiente de trabalho que acolha aqueles que ainda est\u00e3o aptos a trabalhar, aproveitando toda sua experi\u00eancia, por uma sociedade consciente de que o cuidado com os mais velhos n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o social e humanit\u00e1ria dirigida a uma gera\u00e7\u00e3o, mas um desafio global. S\u00f3 com essa consci\u00eancia de toda a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 que se pode clamar pela ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e reclamar maior envolvimento do Estado.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251115061136_d1eb9f7bad7d0bdf9b7d56da7d45fca338931b472a135c84ab7905e0abbb914c.png\" alt=\"Cena do filme 27 noites\" width=\"1978\" height=\"1286\" \/><figcaption>Cena do filme 27 noites(Photo: Divulga\u00e7\u00e3o)Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sinto-me bem confort\u00e1vel com minha idade, j\u00e1 cheguei aos 70, tenho aposentadoria, mas ainda trabalho bastante em \u00e1reas que gosto e convivo com muitos companheiros da minha gera\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de gera\u00e7\u00f5es mais jovens, em um ve\u00edculo, o Brasil 247, que sabe valorizar a experi\u00eancia e o conhecimento dos mais velhos. O espelho talvez n\u00e3o corresponda \u00e0 imagem que temos de n\u00f3s mesmos quando a vida \u00e9 vivida com entusiasmo e alegria. Muitos de n\u00f3s nos sentimos ainda jovens e din\u00e2micos e capazes de viver com intensidade, como a personagem daquele filme argentino.<\/p>\n<p>O trabalho traz um sereno sentimento de satisfa\u00e7\u00e3o e a conviv\u00eancia com fam\u00edlia, amigos e colegas afasta a solid\u00e3o e fortalece a vontade de continuar.<\/p>\n<p>Mas penso nos milhares de idosos em nosso pa\u00eds que n\u00e3o tiveram a mesma oportunidade de envelhecer com seguran\u00e7a, amparados por um plano de sa\u00fade ou por um trabalho que caiba na sua maior fragilidade f\u00edsica ou por seu entorno social. \u00c9, sobretudo, para eles que serve a reda\u00e7\u00e3o do Enem. Serve para conscientizar os jovens da necessidade da implementa\u00e7\u00e3o das leis que defendem os direitos dos idosos. Sim, elas existem, como Estatuto do Idoso, de 2003, ou a pol\u00edtica Nacional do Idoso, lei de 1994, mas precisam funcionar.<\/p>\n<p>Com sorte, os jovens envelhecer\u00e3o. Com consci\u00eancia e pol\u00edtica, ir\u00e3o preparar um futuro onde haja respeito e dignidade para aqueles velhos que querem liberdade e autonomia, mas tamb\u00e9m para os que j\u00e1 n\u00e3o conseguem cuidar de si mesmos. Todas as fases da vida podem ser boas e cada uma tem suas dores e del\u00edcias. Cabe a todos n\u00f3s avan\u00e7ar com o processo civilizat\u00f3rio e permitir que as del\u00edcias superem as dores no momento mais completo da vida.<\/p>\n<h2><b>Regina Zappa tem 70 anos e quase meio s\u00e9culo de atividade profissional.<\/b><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_1b7cc166cea05a28dadf3b19491abe512e1ee25157de26540eee9d6e44c97433.jpg\" alt=\"Alex Solnik\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Alex Solnik<\/b><\/h2>\n<h5><b>Envelhecer? Sou contra!<\/b><\/h5>\n<h5><b>Felizes s\u00e3o as \u00e1rvores e as tartarugas<\/b><\/h5>\n<p>N\u00e3o sei de quem foi a ideia de que a gente tinha que envelhecer. Muitos atribuem a Deus; outros garantem que \u00e9 porque a Terra gira e, se ela parar, j\u00e1 viu: poderemos cair no abismo das trevas.<\/p>\n<p>Seja de quem for, foi uma p\u00e9ssima ideia.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou ser radical. Envelhecer um pouco at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 de todo ruim. Seria um t\u00e9dio a gente ter para sempre uns tr\u00eas anos de idade e viver entre chupetas e mamadeiras. A gente podia envelhecer at\u00e9 uns 30, 40, por a\u00ed. Cada um teria o direito de apertar um bot\u00e3o que faria com que n\u00e3o envelhecesse mais a partir da idade que quisesse.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou advogando em causa pr\u00f3pria. Defendo a tese para o bem de todos. Uma na\u00e7\u00e3o de velhos n\u00e3o serve para nada. Talvez por isso essa for\u00e7a superior (ou astral) decidiu que a solu\u00e7\u00e3o seria matar os velhos. E as velhas. Ficou velho? Morra!<\/p>\n<p>Mil\u00eanios depois, est\u00e1 na hora de reconhecer que foi uma solu\u00e7\u00e3o inadequada. Em vez de matar, mais inteligente seria barrar o envelhecimento antes de a pessoa virar um in\u00fatil.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem como fazer isso agora, mas, no tempo em que pessoas aparentemente comuns batiam grandes papos com Deus no alto das montanhas, havia como.<\/p>\n<p>Outra boa solu\u00e7\u00e3o seria aplicar aos seres humanos a mesma f\u00f3rmula das \u00e1rvores. Muitas delas, com mais de mil anos, est\u00e3o mais fortes do que nunca, continuam produzindo flores e frutos e n\u00e3o apresentam sinais de debilidade. Mas, em compensa\u00e7\u00e3o, nunca saem do lugar. Isso \u00e9 vida?!<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20190521070520_5ce38afa99731d5e155221e6jpeg.jpg\" alt=\"Popula\u00e7\u00f5es de tartarugas marinhas crescem no Brasil\" width=\"1280\" height=\"752\" \/><figcaption>Popula\u00e7\u00f5es de tartarugas marinhas crescem no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 quem inveje as tartarugas, que vivem duzentos anos numa boa. S\u00f3 que, durante duzentos anos, carregam a casa nas costas!<\/p>\n<p>Agora que In\u00eas \u00e9 morta, um conselho que lhes dou: n\u00e3o tenham pressa de envelhecer. N\u00e3o caiam na lenda de que, tal como vinho, quanto mais velho, melhor. Ou quanto mais velho, mais s\u00e1bio. N\u00e3o caiam na hist\u00f3ria de que \u201co velho diabo \u00e9 mais esperto n\u00e3o por ser diabo, mas por ser velho\u201d. E muito menos na empulha\u00e7\u00e3o de que \u00e9 \u201ca melhor idade\u201d. Ou a \u201cterceira\u201d. Como se houvesse uma \u201cquarta\u201d. Nem que andar de gra\u00e7a de \u00f4nibus e metr\u00f4 compensa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aconselho a pressionar deputados e senadores a destinarem verbas para pesquisas sobre \u201cenvelhecimento zero\u201d. Os cientistas que se virem! J\u00e1 inventaram tanta coisa, n\u00e3o custa inventar mais uma.<\/p>\n<p>N\u00e3o acho que, se as pessoas pararem de envelhecer, a Terra vai parar de girar.<\/p>\n<h2>Alex Solnik tem 76 anos e 60 de jornalismo.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_664f1b706923723dfaed493d3bad41fb14ee2d27a0c966d29c7c3df25cb78c89.jpg\" alt=\"Mois\u00e9s Mendes\" width=\"400\" height=\"100\" \/><\/figure>\n<h2><b>Mois\u00e9s Mendes<\/b><\/h2>\n<h5><b>A crueldade do tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem<\/b><\/h5>\n<h5><b>Adultos que n\u00e3o enxergam futuro para os jovens esperam que eles reflitam sobre o horror que os espera na velhice<\/b><\/h5>\n<p>Adultos maduros sempre acharam que os jovens nunca souberam e nunca quiseram saber o que poderia acontecer com a sua juventude no m\u00eas seguinte. Hoje, eles n\u00e3o desejariam saber o que est\u00e1 a esper\u00e1-los na semana que vem.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que acontece, mesmo que adultos maduros tenham um dia sido jovens desligados. S\u00e3o de muitos deles, desses adultos maduros, os textos que se repetem na internet, com abordagens jornal\u00edsticas ou acad\u00eamicas, ou meros palpites, informando que os jovens da gera\u00e7\u00e3o Z n\u00e3o querem saber do futuro imediato deles mesmos.<\/p>\n<p>Haveria inutilidade nesse esfor\u00e7o de tentar enxergar mais adiante com um m\u00ednimo de esperan\u00e7a ou otimismo. Uma frase s\u00edntese desse comportamento pode ser tirada das muitas declara\u00e7\u00f5es de jovens sobre o sentimento de desilus\u00e3o: dedique-se ao momento sem empenho, sonhos e fantasias, porque o amanh\u00e3 \u00e9 deprimente.<\/p>\n<p>A gera\u00e7\u00e3o Z, dos nascidos entre 1997 e 2012, estaria vendo cen\u00e1rios deprimentes porque seria a mais desencantada e depressiva das gera\u00e7\u00f5es do p\u00f3s-guerra. S\u00e3o, pelo clich\u00ea mais usado, os nativos digitais.<\/p>\n<p>Essa gera\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 pode ter quase trint\u00f5es, forma a maioria dos participantes do Enem hoje. Dos 4,8 milh\u00f5es de inscritos, bem mais da metade tem entre 16 e 19 anos de idade. S\u00e3o 2,6 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Eles foram provocados por esse apelo no tema da reda\u00e7\u00e3o: escrevam sobre \u201cPerspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira\u201d. O jovem foi convocado a refletir sobre pautas que os adultos maduros n\u00e3o conseguem resolver.<\/p>\n<p>O tema da velhice long\u00ednqua \u00e9 quase uma crueldade com quem n\u00e3o v\u00ea perspectiva de futuro para daqui a alguns meses. Mas pedem que eles falem dos idosos \u2014 porque ningu\u00e9m mais pode ser chamado de velho \u2014, olhando os que est\u00e3o ao seu redor nessa sociedade que maltrata a velhice.<\/p>\n<p>Voc\u00eas, que n\u00e3o pensam mais como seus pais e av\u00f3s pensavam, que n\u00e3o se dedicam com romantismo \u00e0 trajet\u00f3ria cl\u00e1ssica da forma\u00e7\u00e3o que levaria a alguma profiss\u00e3o e \u00e0 estabilidade \u2014 voc\u00eas devem nos dizer como enxergam a velhice.<\/p>\n<p>Coloquem-se na situa\u00e7\u00e3o dos idosos de hoje e tentem ver em perspectiva \u2014 porque essa \u00e9 a exig\u00eancia do tema da reda\u00e7\u00e3o \u2014 o que ser\u00e1 de voc\u00eas daqui a 40, 50 ou 60 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como fugir de uma pauta escamoteada por todos, do setor p\u00fablico \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, em todas as inst\u00e2ncias, em s\u00e9culos e em todas as d\u00e9cadas recentes. Mas n\u00e3o deixa de ser uma crueldade com os jovens.<\/p>\n<p>Gera\u00e7\u00f5es de adultos j\u00e1 a caminho da velhice, que cuidam dos velhos de forma prec\u00e1ria, quando cuidam, pedem que os jovens reflitam sobre a velhice, a individual e intransfer\u00edvel, e tamb\u00e9m sobre a velhice coletiva.<\/p>\n<p>Essa gera\u00e7\u00e3o jovem, que na maior parte do mundo branco n\u00e3o tem a mem\u00f3ria de guerras e de grandes traumas, \u00e9 convidada a antecipar um retrato cr\u00edtico da velhice que vem a\u00ed e que pode ser pior que a do s\u00e9culo 20 e da que se apresenta diante dos seus olhos hoje.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251109171128_44bef60f3541484ec8c71f9c7a6979c42f7ba8d3bf90fd9e09fc204a08df0ed0.jpg\" alt=\"enem\" width=\"2561\" height=\"1440\" \/><figcaption>Estudantes no primeiro dia de provas do Enem(Photo: Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil)Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>Dir\u00e3o que todos temos, no nosso entorno familiar ou de conhecidos pr\u00f3ximos, muitos jovens que subvertem esse perfil associado ao desencanto com o mundo desgovernado e desorientado das pessoas maduras. Mas n\u00e3o \u00e9 deles que estamos falando.<\/p>\n<blockquote><p>Pesquisas dizem que a gera\u00e7\u00e3o do Enem \u00e9, das \u00faltimas em sua fase jovem, a que mais est\u00e1 pronta para desistir da escola, do trabalho e dos apelos para que se aperfei\u00e7oe profissionalmente. Porque o futuro se escondeu atr\u00e1s de sombras formadas pelos adultos maduros.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas, mesmo assim, o Enem os convida ao sacrif\u00edcio de escrever sobre a velhice. O apelo para que reflitam pela escrita, que tamb\u00e9m \u00e9 mais sacrificante para eles, ganha o agravante de pedirem que parem e pensem na velhice.<\/p>\n<p>Metr\u00f4 e \u00f4nibus lotados, competi\u00e7\u00e3o sem sentido, rotina, um chefe inseguro e deprimido, uma carreira que n\u00e3o existe mais como diziam que existia \u2014 e o Enem pedindo que eles reflitam sobre a velhice, o Estatuto do Idoso, a solid\u00e3o, o etarismo, o abandono, a aposentadoria e a incapacidade do Estado, que j\u00e1 n\u00e3o cuida das crian\u00e7as, de cuidar dos seus velhos.<\/p>\n<p>O tema do Enem sugere que os jovens precisam compreender que a corre\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 errado e n\u00e3o funciona ser\u00e1 tarefa deles mais adiante.<\/p>\n<p>As gera\u00e7\u00f5es que falharam at\u00e9 agora se sentem no direito de dizer aos jovens que eles t\u00eam a miss\u00e3o de pensar no futuro como sendo um mundo de gente cada vez mais velha. E talvez muito pior do que o mundo que temos hoje.<\/p>\n<blockquote><p>Adultos maduros desse mundo cada vez mais discriminador, racista, armamentista e fascista esperam que os jovens digam pelo menos que, assim como est\u00e1, n\u00e3o pode ficar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa reda\u00e7\u00e3o que voc\u00eas leram at\u00e9 aqui \u00e9 de autoria de um idoso que fez, quando jovem, quase tudo o que a gera\u00e7\u00e3o Z pretende fazer ou n\u00e3o fazer, por a\u00e7\u00e3o ou por contempla\u00e7\u00e3o e in\u00e9rcia, porque tamb\u00e9m achava que o futuro \u00e9 deprimente.<\/p>\n<p>Mas voc\u00eas j\u00e1 sabem que os mais velhos est\u00e3o \u2014 e estar\u00e3o sempre \u2014 cobrando dos mais novos o que eles n\u00e3o conseguem melhorar, desentortar ou resolver. O mundo que os espera foi sendo constru\u00eddo pelos adultos de hoje.<\/p>\n<p>A velhice ser\u00e1 sempre um tema a ser largado no colo dos outros, inclusive na reda\u00e7\u00e3o do Enem.<\/p>\n<h2>Mois\u00e9s Mendes tem 72 anos e \u00e9 jornalista desde os 17 anos.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_c5d5f885db2991eb519199b34de394591674474ac01aeb1ef562420143bfea1a.jpg\" alt=\"Paulo Moreira Leite\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Paulo Moreira Leite<\/b><\/h2>\n<h5><b>Eu e a m\u00e1quina<\/b><\/h5>\n<h5><b>E foi assim que cheguei aonde estou, mais alegre e confort\u00e1vel do que imaginava, pronto para mais uma<\/b><\/h5>\n<p>Convocado a prestar um vestibular fora de \u00e9poca e de meus 72 anos, fiquei empacado diante do\u00a0<i>lap-top<\/i>\u00a0por horas a fio.<\/p>\n<p>Depois de muito disfar\u00e7ar para mim mesmo, decidi encarar o teclado e a tela deste\u00a0<i>lap-top<\/i>\u00a0cuja idade perdeu-se no tempo.<\/p>\n<p>Como \u00e9 f\u00e1cil imaginar, sua companhia foi de extrema utilidade para meu sustento, e at\u00e9 para alguma prosa pol\u00edtica junto a amigos e at\u00e9 companheiros e companheiras \u2013 sim, companheiros e companheiras \u2013 insepar\u00e1veis ao longo de uma exist\u00eancia alegre e tumultuada nesses tr\u00f3picos tropicais menos tristes do que imaginavam observadores jovens demais para empreitadas muito ambiciosas junto a nosso ocaso colonial.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s dessa m\u00e1quina, aprendi a viajar pelo mundo, conversar com estranhos, estranhas e distantes, formulando frases e senten\u00e7as que, reconhe\u00e7o agora, protegiam o que me resta de lucidez em meio a tanta loucura e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>E foi assim que cheguei aonde estou, mais alegre e confort\u00e1vel do que imaginava, pronto para mais uma. Sempre.<\/p>\n<p>Alguma d\u00favida?<\/p>\n<h2>Paulo Moreira Leite tem 72 anos e atua<b>\u00a0desde os 16 anos.<\/b><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_5659f9b2efb8de9637ff95fea8666887ed72fb97d12dbfd29e14cd94a3de3798.jpg\" alt=\"Renato Aroeira\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Renato Aroeira<\/b><\/h2>\n<h5><b>Velhice<br \/>\nEnvelhecer \u00e9 muito bom, mas numa sociedade onde a imensa maioria \u00e9 destitu\u00edda de quase tudo, envelhecer com calma, sa\u00fade e paz acaba sendo mais um privil\u00e9gio<\/b><\/h5>\n<p>Fui instado a fazer o que 3,5 milh\u00f5es de brasileiros (quase todos muito jovens) fizeram h\u00e1 poucos dias, no Enem: escrever um texto sobre a velhice. &#8220;Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira&#8221; era o t\u00edtulo da prova. Tudo bem, tenho at\u00e9 o lugar de fala, sou idoso h\u00e1 11 anos (tenho 71).<\/p>\n<p>Antes de mais nada, envelhecer \u00e9 bom. A experi\u00eancia, as habilidades adquiridas, as lembran\u00e7as e hist\u00f3rias, filhos, netos&#8230; Mas, de um ponto de vista mais confessional, n\u00e3o \u00e9 sempre f\u00e1cil. O f\u00f4lego \u00e9 curto e o cansa\u00e7o, longo, pois o tempo e os anos de fumante cobram seu pre\u00e7o. As rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais lentas, o racioc\u00ednio idem, por causa da perda de elasticidade, de massa muscular, de neur\u00f4nios. Falta-nos paci\u00eancia. O tempo leva alguns amigos; a dist\u00e2ncia e as dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o afastam outros. A vis\u00e3o, a digest\u00e3o, a circula\u00e7\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o hep\u00e1tica, as articula\u00e7\u00f5es&#8230; tudo diminui ou piora, exceto a depend\u00eancia, que aumenta. A estat\u00edstica, nossa amiga na juventude, passa a ser nossa inimiga!<\/p>\n<p>N\u00e3o estou reclamando, longe disso. Envelhecer \u00e9 mesmo bom, e eu sou grato. Sou otimista, levo no humor, sigo o Zeca Pagodinho e deixo a vida me levar. Apenas constato que h\u00e1 problemas a resolver, cuidados a tomar&#8230; e alguns desses cuidados podem ser caros ou dif\u00edceis, mesmo inacess\u00edveis. Aqui chegamos ao assunto&#8230; as tais perspectivas. S\u00e3o v\u00e1rios aspectos (\u2019aspecto\u2019 vem do mesmo verbo grego que \u2018perspectivas\u2019) diferentes, desde o aumento da expectativa de vida e o investimento necess\u00e1rio para manter as aposentadorias por mais tempo, at\u00e9 o apoio social que o Estado precisa dar a seus cidad\u00e3os, especialmente os idosos. Transporte, cuidados cotidianos, sa\u00fade, afeto, alimenta\u00e7\u00e3o, lazer&#8230; Como em um meme, o que n\u00f3s, velhos, fazemos? Onde vivemos? O que comemos? O Estado liberal \u2014 v\u00e1 l\u00e1, o Mercado \u2014 abomina essas perguntas e essa discuss\u00e3o por motivos \u00f3bvios. Pra que gastar dinheiro com pessoas que, al\u00e9m de descart\u00e1veis, n\u00e3o produzem mais, na opini\u00e3o dele, o Mercado? Parte do etarismo que grassa na sociedade vem dessa irrita\u00e7\u00e3o do topo da pir\u00e2mide, desmontando e demonizando o pr\u00f3prio instituto da aposentadoria e, por consequ\u00eancia, seus benefici\u00e1rios.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251113191112_063f5b7305e10f507530207d0328c6d828a9083825c77fd471b73ecdd6f2dab1.jpg\" alt=\"O chargista Renato Aroeira\" width=\"2560\" height=\"1440\" \/><figcaption>O chargista Renato Aroeira(Photo: Renato Aroeira)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sim, envelhecer \u00e9 muito bom, mas numa sociedade onde a imensa maioria \u00e9 destitu\u00edda de quase tudo, envelhecer com calma, sa\u00fade e paz acaba sendo mais um privil\u00e9gio, mais um \u201clan\u00e7amento exclusivo\u201d. E, para o resto da sociedade, \u00e9 um problema s\u00e9rio. Queremos carinho, queremos respeito a n\u00f3s e \u00e0 nossa experi\u00eancia, mas queremos mais Estado. Queremos mais pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para essas pessoas que chegaram \u201cmeio que\u201d heroicamente at\u00e9 aqui. \u00c9 desumano e, francamente, \u00e9 muita burrice n\u00e3o cuidar direitinho de um ativo econ\u00f4mico\/social\/afetivo t\u00e3o grande&#8230; Isso mesmo, refiro-me a n\u00f3s, a velhitude do Brasil!<\/p>\n<h2>Renato Aroeira tem 71 anos e desenha profissionalmente desde os 12 anos de idade.<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20251114161116_7bcdc3ac5a3db6be15db87621aa0a70bef759db1ded72e76ab61a91acc49c059.jpg\" alt=\"faixa-autores\" width=\"800\" height=\"200\" \/><\/figure>\n<h2><b>Aquiles Lins<\/b><\/h2>\n<h5><b>No Enem, uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vai se aposentar reflete sobre o envelhecer<\/b><\/h5>\n<h5><b>Tema do Enem 2025 prop\u00f5e reflex\u00e3o sobre o envelhecimento e desafia jovens a pensar o futuro em um pa\u00eds que envelhece sem garantir cuidados<\/b><\/h5>\n<p>O tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem 2025 \u2014 \u201cPerspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira\u201d \u2014 convidou milh\u00f5es de jovens brasileiros a refletir sobre o que parece muito distante de sua pr\u00f3pria realidade: a velhice. Em um pa\u00eds que envelhece rapidamente, mas ainda cultua a juventude e desvaloriza a experi\u00eancia, o exame prop\u00f4s um debate urgente sobre o futuro que todos compartilhamos.<\/p>\n<p>Com 4,8 milh\u00f5es de inscritos, o Enem manteve sua tradi\u00e7\u00e3o de abordar quest\u00f5es sociais invisibilizadas, como o racismo, o capacitismo e o etarismo \u2014 este \u00faltimo, o preconceito contra a idade. A escolha do tema mostra sensibilidade e atualidade. Falar de envelhecimento \u00e9 falar de respeito, empatia e planejamento coletivo.<\/p>\n<p>E, nesse planejamento, tamb\u00e9m se abrigam contradi\u00e7\u00f5es profundas do nosso pa\u00eds e de como tratamos as vidas que envelhecem. Desde a Reforma da Previd\u00eancia de 2019, aposentadoria se tornou um horizonte cada vez mais distante e incerto. As novas regras institu\u00edram idade m\u00ednima de 65 anos para homens e 62 para mulheres, com ao menos 15 anos de contribui\u00e7\u00e3o. Para receber o benef\u00edcio integral, o trabalhador precisar\u00e1 contribuir por 40 anos \u2014 um cen\u00e1rio que, para boa parte dos brasileiros que enfrentam o desemprego e a informalidade, \u00e9 simplesmente inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os jovens estudantes brasileiros foram instados a discorrer sobre perspectivas que tamb\u00e9m envolvem a desigualdade social. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que envelhece antes de alcan\u00e7ar um padr\u00e3o m\u00e9dio de condi\u00e7\u00f5es de vida para sua popula\u00e7\u00e3o e que ainda n\u00e3o garante dignidade aos seus idosos \u2014 nem previdenci\u00e1ria, nem socialmente. Mas h\u00e1 sinais de mudan\u00e7a. O governo federal vem implementando a chamada Economia do Cuidado, que reconhece o valor econ\u00f4mico e social das atividades voltadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da vida e do bem-estar \u2014 cuidar de crian\u00e7as, idosos, pessoas com defici\u00eancia e doentes.<\/p>\n<p>Por meio da Pol\u00edtica Nacional de Cuidados e do Plano Nacional de Cuidados, o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social (MDS) busca institucionalizar o direito ao cuidado e combater as desigualdades de g\u00eanero, j\u00e1 que o trabalho de cuidar \u2014 remunerado ou n\u00e3o \u2014 recai majoritariamente sobre as mulheres. O programa Brasil que Cuida, por exemplo, apoia fam\u00edlias com idosos dependentes e valoriza trabalhadores e trabalhadoras do cuidado, reconhecendo que uma sociedade mais justa \u00e9 aquela que compartilha responsabilidades e valoriza quem sustenta a vida cotidiana.<\/p>\n<p>Essas pol\u00edticas representam um passo importante para o pa\u00eds que o Brasil est\u00e1 se tornando: um pa\u00eds que envelhece r\u00e1pido e que, se quiser ser verdadeiramente democr\u00e1tico, precisa aprender a cuidar. Cuidar dos outros e de si mesmo. Cuidar dos idosos de hoje e preparar o terreno para os de amanh\u00e3.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/cdn.brasil247.com\/pb-b247gcp\/swp\/jtjeq9\/media\/20250118210148_85b9b0cdb1a36f7c6ad5e9f8eda7f0f30a4a98f89bf1cfb1d45dcfdedc5d9e65.jpg\" alt=\"enem-estudantes-jovens\" width=\"1346\" height=\"600\" \/><figcaption>Estudantes que fizeram o Enem(Photo: Ag\u00eancia Brasil)Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p>Ao propor esse tema, o Enem convidou uma gera\u00e7\u00e3o a refletir sobre o pr\u00f3prio futuro \u2014 uma gera\u00e7\u00e3o que talvez n\u00e3o se aposente, mas que precisar\u00e1 lutar para envelhecer com dignidade. A reda\u00e7\u00e3o deste ano \u00e9 um espelho do Brasil que somos e um aviso sobre o Brasil que poderemos ser.<\/p><\/blockquote>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9: que pa\u00eds queremos construir, agora que estamos envelhecendo como na\u00e7\u00e3o? Seremos uma sociedade que descarta os mais velhos, como faz com tudo o que considera obsoleto, ou uma sociedade que reconhece neles a mem\u00f3ria viva da nossa hist\u00f3ria? Envelhecer \u00e9 inevit\u00e1vel; envelhecer com respeito deve ser um consenso da na\u00e7\u00e3o. E \u00e9 preciso come\u00e7ar a escolh\u00ea-lo desde j\u00e1.<\/p>\n<h2>Aquiles Lins tem 44 anos e pretende se aposentar em algum momento, mas n\u00e3o tem esta seguran\u00e7a.<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"section marginBottom30\">\n<div class=\"editor-box marginTop30\">\n<div class=\"editor-avatar\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.brasil247.com\/_next\/image?url=https%3A%2F%2Fcdn.brasil247.com%2Fpb-b247gcp%2Fswp%2Fjtjeq9%2Fauthors%2Fredacao-brasil-247_f53946593813387f74800e17080071cb9210dcf2.png&amp;w=256&amp;q=75\" srcset=\"\/_next\/image?url=https%3A%2F%2Fcdn.brasil247.com%2Fpb-b247gcp%2Fswp%2Fjtjeq9%2Fauthors%2Fredacao-brasil-247_f53946593813387f74800e17080071cb9210dcf2.png&amp;w=128&amp;q=75 1x, \/_next\/image?url=https%3A%2F%2Fcdn.brasil247.com%2Fpb-b247gcp%2Fswp%2Fjtjeq9%2Fauthors%2Fredacao-brasil-247_f53946593813387f74800e17080071cb9210dcf2.png&amp;w=256&amp;q=75 2x\" alt=\"Reda\u00e7\u00e3o Brasil 247 avatar\" width=\"110\" height=\"110\" data-nimg=\"1\" \/><\/div>\n<div class=\"editor-info\">\n<div class=\"editor-label\">Conte\u00fado postado por:<\/div>\n<div class=\"editor-name\"><a href=\"https:\/\/www.brasil247.com\/authors\/redacao-brasil-247\">Reda\u00e7\u00e3o Brasil 247<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tema da reda\u00e7\u00e3o do Enem de 2025, o envelhecimento ensejou densas reflex\u00f5es dos jornalistas mais experientes do Brasil 247 247 \u2013\u00a0A escolha do tema da reda\u00e7\u00e3o do ENEM 2025, &#8220;Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira&#8221;, jogou luz sobre um dos maiores dilemas estruturais do pa\u00eds: o Brasil est\u00e1 envelhecendo em ritmo acelerado, sem que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":126471,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[113,105],"tags":[275,7149,6367],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/126470"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=126470"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/126470\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":126472,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/126470\/revisions\/126472"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/126471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=126470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=126470"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=126470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}