{"id":125954,"date":"2025-10-09T15:41:00","date_gmt":"2025-10-09T18:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=125954"},"modified":"2025-10-10T07:29:43","modified_gmt":"2025-10-10T10:29:43","slug":"choram-marias-e-clarices","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2025\/10\/09\/choram-marias-e-clarices\/","title":{"rendered":"Choram Marias e Clarices"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Leitores, espero que muitos lembrem-se do verso acima. A voz de Elis Regina, inesquec\u00edvel, cantava-o no corpo daquela m\u00fasica de Aldir Blanc Mendes e Jo\u00e3o Bosco de Freitas Mucci: O b\u00eabado e o equilibrista, can\u00e7\u00e3o que se tornou uma esp\u00e9cie de hino da luta pela anistia.<br \/>\nClarice, dentre tantas Clarices, era a vi\u00fava de Vladimir Herzog, Valdo, jornalista, professor de jornalismo na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Arte da USP, e diretor de jornalismo da TV Cultura de S\u00e3o Paulo<br \/>\nNeste ano completam\u2013se 50 anos do assassinato covarde, frio e brutal, com requintes de crueldade, de Vladimir Herzog.<br \/>\n&#8220;Visitado\u201d no ambiente de seu trabalho, na TV Cultura de S\u00e3o Paulo, por agentes da ditadura militar, que queriam lev\u00e1-lo preso, Valdo, com aval de colegas, comprometeu-se a apresentar no dia seguinte (25 de outubro, s\u00e1bado, 1975) no DOI-CODI, Rua Durval Carvalhal, n\u00b0 1030, S\u00e3o Paulo, Capital, a fim de prestar depoimento.<br \/>\nNaquele ambiente sob controle do 2\u00b0 Ex\u00e9rcito, comandado pelo General Ednardo D&#8217;\u00c1vila Melo, Vladimir Herzog \u00e9 submetido a todo tipo de tortura f\u00edsica e psicol\u00f3gica.<br \/>\n\u00c9 assassinado. Dentro de alguns meses, o ato de covardia completa 50 anos. Era 1975 e nosso pa\u00eds vivia sob ditadura de Geisel cujo ministro do ex\u00e9rcito era o general Silvio Frota, aval da &#8220;linha dura&#8221;.<br \/>\nVlado, apesar de saber o que ocorria nos por\u00f5es da ditadura, apresentou-se confiante. Logo, conduzido a uma sala, foi despido, totalmente desarmado, m\u00e3os amarradas, sem condi\u00e7\u00f5es de reagir, por militares covardes (a tortura \u00e9 sempre ato de covardia), passou pelo ritual do sadismo cultuado nas casernas do regime e foi assassinado. Era um homem de 38 anos.<br \/>\nA covardia n\u00e3o se perfez apenas com a tortura. \u00c9 que, \u00e0 noite daquele dia, o 2\u00ba Ex\u00e9rcito distribuiu nota oficial veiculando a not\u00edcia de que Vladimir Herzog havia praticado suic\u00eddio. Utilizara uma tira de pano presa a uma grade de janela, na altura de 1,63 metro, inferior \u00e0 estatura de 1,70m da v\u00edtima.<br \/>\nFotos e laudo m\u00e9dico (esse apresentava como causa mortis &#8220;asfixia mec\u00e2nica por enforcamento&#8221;) foram providenciados pelos agentes militares. A Covardia continuava, associada \u00e0 mentira e ao cinismo.<br \/>\nA foto distribu\u00edda pelo por\u00e3o do regime n\u00e3o convenceu a ningu\u00e9m. Era farsa mal montada por aqueles que se julgavam impunes. Tentou-se disfar\u00e7ar com laudo m\u00e9dico vergonhoso. Clarice foi proibida de providenciar uma segunda autopsia.<br \/>\nMas ali, estava o momento, a covardia dos torturadores (pleonasmo: todo torturador \u00e9 covarde) trazia sua pr\u00f3pria prova da brutalidade que campeava pelo pa\u00eds afora, com a imagem daquele homem nascido em Osijek, na Iugoslavia, em 27 de junho de 1937, chegado ao Brasil, em companhia de seus pais, quando tinha 9 anos de idade, casado em 15.02.1964, com Clarice, com a qual teve filhos: Ivo e Andr\u00e9.<br \/>\nMas a covardia n\u00e3o parou por a\u00ed.<br \/>\nA Revista Veja foi proibida de publicar not\u00edcia sobre Vladimir Herzog e sua trajet\u00f3ria de vida. Tratava-se de impedir que o crime fosse conhecido. Nota curta noticiando o primeiro a pris\u00e3o e o outro a morte, sa\u00edram n\u2019 O Estado de S\u00e3o Paulo e n\u2019 O Globo, passado um dia, mencionando morte de um preso pol\u00edtico por suic\u00eddio. Somente na semana seguinte, as not\u00edcias come\u00e7aram a sair ainda com a vers\u00e3o da morte por suic\u00eddio.<br \/>\nDebalde tentaram esconder o crime. O Sindicato dos jornalistas telefonou a muitos noticiando-o. O corpo foi velado no vel\u00f3rio do Hospital Albert Einstein, no domingo. Na segunda-feira, mais de trezentos autom\u00f3veis acompanharam o cortejo f\u00fanebre at\u00e9 o Cemit\u00e9rio Israelita, onde Vladimir Herzog foi sepultado. N\u00e3o o foi na ala dos suicidas, numa demonstra\u00e7\u00e3o de que ningu\u00e9m acreditava na vers\u00e3o farsante de suic\u00eddio como causa da morte.<br \/>\nO sepultamento foi apressado. A pr\u00f3pria m\u00e3e de Herzog n\u00e3o pode ver o caix\u00e3o sendo depositado na cova, tal era a pressa.<br \/>\nApenas falaram um jornalista (Emanoel Martins), Ruth Escobar (atriz) e um padre cat\u00f3lico que rezou o pai nosso, no cemit\u00e9rio ap\u00f3s o sepultamento.<br \/>\nOs estudantes universit\u00e1rios da USP deflagaram greve, no mesmo dia do enterro, e nesse estado ficaram at\u00e9 o dia de sexta-feira para o qual foi programado um Culto Ecum\u00eanico.<br \/>\nNa sexta-feira, as Pol\u00edcias Militar e Civil interditaram a Pra\u00e7a de S\u00e9, e bloquearam v\u00e1rias avenidas, inclusive as sa\u00eddas da USP.<br \/>\nMas, mais 8.000 pessoas, furando obst\u00e1culos, conseguiram chegar \u00e0 Pra\u00e7a da S\u00e9 em cuja catedral, muito cheia, seria realizado o culto.<br \/>\nO rabino Henry Sobel, o reverendo Jaime Wright e Dom Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Metropolitano, realizaram o culto. Dom Helder C\u00e2mara, no recinto, n\u00e3o usou da palavra junto a esses religiosos.<br \/>\nAli, na catedral e na pra\u00e7a, aquelas mais de 8.000 pessoas expressaram com sua presen\u00e7a rep\u00fadio aos ditadores, e solidariedade, em grande sil\u00eancio. Sua presen\u00e7a dizia tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leitores, espero que muitos lembrem-se do verso acima. A voz de Elis Regina, inesquec\u00edvel, cantava-o no corpo daquela m\u00fasica de Aldir Blanc Mendes e Jo\u00e3o Bosco de Freitas Mucci: O b\u00eabado e o equilibrista, can\u00e7\u00e3o que se tornou uma esp\u00e9cie de hino da luta pela anistia. 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