{"id":124808,"date":"2025-08-08T01:02:30","date_gmt":"2025-08-08T04:02:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=124808"},"modified":"2025-08-08T01:02:30","modified_gmt":"2025-08-08T04:02:30","slug":"como-nao-e-possivel-ser-um-pais-livre-soberano-e-democratico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2025\/08\/08\/como-nao-e-possivel-ser-um-pais-livre-soberano-e-democratico\/","title":{"rendered":"Como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser um pa\u00eds Livre, Soberano e Democr\u00e1tico?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Por Herberson Sonkha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vit\u00f3ria da Conquista (BA) &#8211; Ningu\u00e9m atravessa cinco d\u00e9cadas de vida entre o labor cotidiano, a leitura atenta, a escrita comprometida e a milit\u00e2ncia social sem forjar em si um olhar cr\u00edtico e profundo sobre as contradi\u00e7\u00f5es do Brasil e do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 li que todos os imp\u00e9rios ru\u00edram \u2014 e ruir\u00e3o tamb\u00e9m aqueles que se julgam eternos. Como nos mostra Eric Hobsbawm, na obra A Era dos Extremos (1994), a hist\u00f3ria moderna \u00e9 marcada pela ascens\u00e3o e queda de imp\u00e9rios sustentados pela domina\u00e7\u00e3o colonial e pela pilhagem das periferias globais\u00b9. J\u00e1 li sobre dois sistemas (o Antigo e o Medieval) que colapsaram para dar lugar a outros, demonstrando que as transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas s\u00e3o guiadas por lutas de classe, rupturas nas estruturas produtivas e conflitos pol\u00edticos de fundo, como analisa Karl Marx em O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte\u00b2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 li sobre a escravid\u00e3o moderna e vi como ela foi sistematicamente utilizada como forma de acumula\u00e7\u00e3o de capital. A pilhagem de riquezas durante a Era dos Imp\u00e9rios \u2014 fundamento da modernidade capitalista \u2014 consolidou a Europa como centro de poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico mundial\u00b3. Esse processo, amplamente descrito por Hobsbawm em A Era do Capital (1975), serviu de base para a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que se alimentou do ouro, da prata, do a\u00e7\u00facar, do algod\u00e3o e do sangue escravizado das col\u00f4nias americanas, africanas e asi\u00e1ticas\u2074.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vi surgir o trabalho livre no Brasil, formalmente institu\u00eddo apenas em 1888, como uma reconfigura\u00e7\u00e3o da ordem escravocrata \u2014 como analisa Jacob Gorender em O Escravismo Colonial (1978)\u2075. A aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o significou liberta\u00e7\u00e3o, mas a exclus\u00e3o de milh\u00f5es de negros da cidadania. Florestan Fernandes refor\u00e7a que, em vez de integra\u00e7\u00e3o social, os ex-escravizados foram lan\u00e7ados \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o, constituindo uma subclasse explorada no interior da nova ordem capitalista\u2076.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa riqueza acumulada no Brasil colonial, atrav\u00e9s do trabalho for\u00e7ado, resgatou a Europa da sua crise de escassez de metais preciosos no s\u00e9culo XVI. Do a\u00e7\u00facar ao caf\u00e9, do ferro ao a\u00e7o \u2014 como analisa Caio Prado J\u00fanior em Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo (1942)\u2077 \u2014 o Brasil foi mantido como economia de exporta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, estruturada para servir ao capital estrangeiro e \u00e0s elites agr\u00e1rias e industriais internas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vi todas as tentativas de constru\u00e7\u00e3o republicana, de 1889 a 1989, serem capturadas pelas elites. Nelson Werneck Sodr\u00e9, em Hist\u00f3ria da Burguesia Brasileira (1964), revela como o projeto republicano no Brasil nunca rompeu com a domina\u00e7\u00e3o das classes propriet\u00e1rias, sendo a Rep\u00fablica uma forma moderna da velha estrutura de poder colonial\u2078.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas fam\u00edlias constitu\u00edram oligarquias locais e nacionais, reproduzindo a desigualdade e a opress\u00e3o. Como explica Jess\u00e9 Souza em A Elite do Atraso (2017), tais elites operam pela manuten\u00e7\u00e3o de uma \u201cral\u00e9 estrutural\u201d, explorando e culpabilizando os pobres enquanto monopolizam privil\u00e9gios\u2079. Milh\u00f5es de brasileiros foram e continuam sendo empurrados para a morte simb\u00f3lica e literal pela aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, enquanto as elites desfrutam dos frutos da riqueza nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vi essas elites manterem o custo de vida manipulado para favorecer sua acumula\u00e7\u00e3o, impondo \u00e0 classe trabalhadora uma realidade de sobre-explora\u00e7\u00e3o\u00b9\u2070. Essa din\u00e2mica \u00e9 o que Ruy Mauro Marini identificou como caracter\u00edstica central da depend\u00eancia latino-americana: a extra\u00e7\u00e3o de mais-valia intensiva e extensiva sobre os trabalhadores do Sul Global\u00b9\u00b9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, o Brasil \u00e9 um pa\u00eds economicamente concentrado: os 10% mais ricos det\u00eam mais de 75% da renda e do patrim\u00f4nio, enquanto a maioria absoluta vive com menos de 25% do que ela pr\u00f3pria produz\u00b9\u00b2. Isso n\u00e3o \u00e9 resultado do acaso: \u00e9 o projeto hist\u00f3rico das elites brasileiras, perpetuado pelas institui\u00e7\u00f5es do Estado, pela m\u00eddia olig\u00e1rquica e pelo sistema financeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fome, o desemprego, o analfabetismo, a precariza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da moradia n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias indesejadas, mas pilares da domina\u00e7\u00e3o. Louis Althusser, em seu estudo sobre os aparelhos ideol\u00f3gicos do Estado, mostra como institui\u00e7\u00f5es como o Parlamento operam para reproduzir a ideologia da classe dominante\u00b9\u00b3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, ficou evidente: a maioria dos deputados bolsonaristas neoliberais [de direita e extrema-direita] defendeu com fervor um pol\u00edtico de extrema-direita, corrupto, criminoso e lesa-p\u00e1tria \u2014 representante direto das elites. Um chantagista que tentou intimidar o STF, silenciar o governo federal e sacrificar o povo brasileiro ao se alinhar ao fascismo e ao controle imperialista dos EUA, impondo uma tarifa para subjugar o pa\u00eds aos interesses da fam\u00edlia Bolsonaro \u2014 principal articuladora da tentativa de golpe de 8 de janeiro, al\u00e9m de in\u00fameros crimes hediondos. A m\u00e1scara caiu. E o povo viu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 em disputa n\u00e3o \u00e9 apenas o poder formal, mas o futuro das riquezas nacionais: petr\u00f3leo, min\u00e9rios raros, \u00e1gua, biodiversidade, patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, terras ind\u00edgenas, patrim\u00f4nio cultural. Como aponta David Harvey em O Novo Imperialismo (2003), a l\u00f3gica contempor\u00e2nea do capital \u00e9 a \u201cacumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o\u201d \u2014 em que o Estado opera como agente da expropria\u00e7\u00e3o p\u00fablica em favor de interesses privados\u00b9\u2074.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 chegada a hora de realizar a verdadeira independ\u00eancia \u2014 aquela que 1822 e 1889 frustraram. Como defende Caio Prado J\u00fanior, n\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00e3o sem soberania econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica\u00b9\u2075. Essa nova independ\u00eancia deve ser forjada a partir da soberania alimentar, do trabalho digno, da justi\u00e7a social, da valoriza\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios, das matrizes africanas e dos povos perif\u00e9ricos urbanos e rurais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Soberania \u00e9 garantir sa\u00fade p\u00fablica gratuita, educa\u00e7\u00e3o emancipadora, moradia digna, transporte acess\u00edvel, seguran\u00e7a alimentar e preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Soberania \u00e9 a tomada de consci\u00eancia de classe e de identidade nacional popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil precisa romper com sua condi\u00e7\u00e3o neocolonial. \u00c9 hora de o povo brasileiro assumir seu destino, tomar as r\u00e9deas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil \u00e9 dos brasileiros e das brasileiras.<br \/>\nNada e ningu\u00e9m sobre n\u00f3s!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Hobsbawm, E. (1994). A Era dos Extremos: O breve s\u00e9culo XX, 1914\u20131991. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Marx, K. (1852). O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Hobsbawm, E. (1987). A Era dos Imp\u00e9rios: 1875\u20131914. Rio de Janeiro: Paz e Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. Hobsbawm, E. (1975). A Era do Capital: 1848\u20131875. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra.<\/p>\n<p>5. Gorender, J. (1978). O Escravismo Colonial. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica.<\/p>\n<p>6. Fernandes, F. (1978). A Integra\u00e7\u00e3o do Negro na Sociedade de Classes. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica.<\/p>\n<p>7. Prado J\u00fanior, C. (1942). Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo. S\u00e3o Paulo: Brasiliense.<\/p>\n<p>8. Werneck Sodr\u00e9, N. (1964). Hist\u00f3ria da Burguesia Brasileira. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/p>\n<p>9. Souza, J. (2017). A Elite do Atraso: Da escravid\u00e3o \u00e0 Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya.<\/p>\n<p>10. Marx, K. (1867). O Capital: Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica, Livro I. S\u00e3o Paulo: Boitempo.<\/p>\n<p>11. Marini, R. M. (1969). Subdesenvolvimento e Revolu\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar.<\/p>\n<p>12. Oxfam Brasil. (2023). Relat\u00f3rio sobre Desigualdade de Renda no Brasil. Dispon\u00edvel em: www.oxfam.org.br.<\/p>\n<p>13. Althusser, L. (1970). Ideologia e Aparelhos Ideol\u00f3gicos do Estado. Lisboa: Presen\u00e7a.<\/p>\n<p>14. Harvey, D. (2003). O Novo Imperialismo. S\u00e3o Paulo: Loyola.<\/p>\n<p>15. Prado J\u00fanior, C. (1966). A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira. S\u00e3o Paulo:\u00a0Brasiliense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Herberson Sonkha Vit\u00f3ria da Conquista (BA) &#8211; Ningu\u00e9m atravessa cinco d\u00e9cadas de vida entre o labor cotidiano, a leitura atenta, a escrita comprometida e a milit\u00e2ncia social sem forjar em si um olhar cr\u00edtico e profundo sobre as contradi\u00e7\u00f5es do Brasil e do mundo. 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