{"id":123677,"date":"2025-06-09T00:54:37","date_gmt":"2025-06-09T03:54:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=123677"},"modified":"2025-06-09T00:54:37","modified_gmt":"2025-06-09T03:54:37","slug":"o-pt-e-a-armadilha-da-unidade-sem-hegemonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2025\/06\/09\/o-pt-e-a-armadilha-da-unidade-sem-hegemonia\/","title":{"rendered":"O PT e a armadilha da unidade sem hegemonia"},"content":{"rendered":"<p>Por Herberson Sonkha<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No cora\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT) de Vit\u00f3ria da Conquista, for\u00e7a pivotal da esquerda brasileira, um debate crucial se desenrola: como construir unidade partid\u00e1ria sem diluir o projeto socialista? Edwaldo Alves, em texto recente, prop\u00f5e uma resposta: valorizar o Processo Eleitoral Direto (PED) \u2013 mecanismo interno de elei\u00e7\u00e3o \u2013 e adotar uma postura equidistante do &#8220;ecletismo vazio&#8221; e do &#8220;hegemonismo&#8221;. Sob a superf\u00edcie dessa proposta aparentemente sensata, por\u00e9m, espreita um risco: a reprodu\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas que minam a capacidade revolucion\u00e1ria do PT, disfar\u00e7adas sob o manto da pluralidade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Liberdade ou<br \/>\nfragmenta\u00e7\u00e3o? O dilema das Tend\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alves celebra a liberdade de &#8220;tend\u00eancias internas&#8221; \u2013 agrupamentos com vis\u00f5es distintas dentro do partido \u2013 como express\u00e3o m\u00e1xima da democracia. Contudo, essa defesa acr\u00edtica ignora um alerta fundamental. Como ensinou Antonio Gramsci, sem um direcionamento ideol\u00f3gico claro, a diversidade pode degenerar em dispers\u00e3o das lutas prolet\u00e1rias. Lenin foi ainda mais incisivo: a democracia interna n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo, mas um meio para unificar a classe oper\u00e1ria. Quando se transforma em palco de disputas faccionais, perde sua raz\u00e3o de ser. Permitir que tend\u00eancias proliferem sem um eixo program\u00e1tico comum \u00e9 abrir as portas ao liberalismo pol\u00edtico dentro de um partido que deveria ser instrumento de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O PED: Democracia real ou ritual burocr\u00e1tico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A exalta\u00e7\u00e3o do PED como garantia de &#8220;proporcionalidade democr\u00e1tica&#8221; merece um exame materialista. O mecanismo, em tese, permite ampla participa\u00e7\u00e3o. Mas qual \u00e9 seu conte\u00fado concreto? Como argumenta Georg Luk\u00e1cs, a verdadeira democracia interna socialista exige mais que procedimentos: demanda a integra\u00e7\u00e3o entre consci\u00eancia de classe e centralismo democr\u00e1tico. Se o PED se reduz a uma disputa por cargos e influ\u00eancia \u2013 onde grupos competem por votos sem confrontar projetos de classe distintos \u2013, ele se torna um simulacro. Um exemplo hipot\u00e9tico ilustra o risco: candidaturas que prometem &#8220;renova\u00e7\u00e3o&#8221; sem romper com alian\u00e7as com setores burgueses, usando o PED para legitimar um desvio reformista.<\/p>\n<p>O equ\u00edvoco fatal: O que \u00e9 hegemonia, afinal?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cerne do problema reside na incompreens\u00e3o de Alves sobre hegemonia. Ele a confunde com &#8220;hegemonismo&#8221; \u2013 uma domina\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e autorit\u00e1ria. Aqui, o artigo comete seu maior erro te\u00f3rico. Como elaborou Gramsci, hegemonia n\u00e3o \u00e9 for\u00e7a bruta partid\u00e1ria: \u00e9 a capacidade da classe trabalhadora, atrav\u00e9s de sua vanguarda, de construir lideran\u00e7a cultural e pol\u00edtica por consenso. Envolve disputar narrativas nas escolas, nos sindicatos, na m\u00eddia, articulando um bloco hist\u00f3rico com outros setores oprimidos. Rejeitar a hegemonia nesse sentido gramsciano \u00e9 renunciar \u00e0 batalha decisiva: a da constru\u00e7\u00e3o de uma nova vis\u00e3o de mundo anticapitalista. Alves, ao reduzir tudo a &#8220;disputa de cargos&#8221;, esvazia o conceito de seu potencial transformador.<\/p>\n<p>Os perigos ocultos: Subjetividade e o<br \/>\notimismo acr\u00edtico<\/p>\n<p>Dois outros deslizes revelam um afastamento perigoso do materialismo hist\u00f3rico:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ilus\u00e3o subjetivista: Ao afirmar que a pol\u00edtica nasce da &#8220;subjetividade, desejos pessoais e concep\u00e7\u00f5es&#8221;, Alves resvala no idealismo. Marx foi claro: a pol\u00edtica \u00e9 express\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es materiais da base econ\u00f4mica. Supervalorizar a subjetividade dilui a luta de classes em um jogo de inten\u00e7\u00f5es individuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Renova\u00e7\u00e3o Sem Programa: Celebrar a vit\u00f3ria de M\u00e1rcia Viviane como simples &#8220;renova\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 insuficiente. Rosa Luxemburgo advertiu que a renova\u00e7\u00e3o sem compromisso program\u00e1tico pode levar a novas formas de autoritarismo ou ao reformismo. O que importa \u00e9 qual projeto a renova\u00e7\u00e3o representa.<br \/>\nO otimismo acr\u00edtico de que &#8220;qualquer resultado fortalecer\u00e1 o partido&#8221; soa como wishful thinking. Como Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros demonstrou, sem uma cr\u00edtica viva ao capitalismo, estruturas partid\u00e1rias podem ser cooptadas pelo sistema que pretendem destruir.<\/p>\n<p>Um caminho marxista: Para al\u00e9m da democracia formal<\/p>\n<p>O PT n\u00e3o precisa abandonar o PED ou a democracia interna. Precisa ressignific\u00e1-los \u00e0 luz de sua miss\u00e3o hist\u00f3rica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pluralidade dirigida: As tend\u00eancias devem debater programas, n\u00e3o apenas estrat\u00e9gias eleitorais, sob um eixo marxista comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Centralismo democr\u00e1tico reimaginado: Integrar a vitalidade das bases com dire\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, como prop\u00f4s Lenin, evitando tanto o burocratismo quanto a dispers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hegemonia cultural como projeto: Adotar a hegemonia gramsciana: construir consenso anticapitalista na sociedade civil atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, cultura e comunica\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ancoragem materialista: Reafirmar que a pol\u00edtica do PT emerge das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo brasileiro, n\u00e3o de meras vontades subjetivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renova\u00e7\u00e3o com conte\u00fado: Avaliar candidaturas pelo seu compromisso com um programa socialista concreto, n\u00e3o por slogans de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00edtica permanente: Manter o PT como espa\u00e7o de cr\u00edtica radical ao capital, evitando sua redu\u00e7\u00e3o a uma m\u00e1quina eleitoral social-liberal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A encruzilhada hist\u00f3rica<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta de Alves, bem-intencionada, corre o risco de levar o PT a uma armadilha: confundir unidade aparente com for\u00e7a real, e democracia processual com emancipa\u00e7\u00e3o. A verdadeira unidade n\u00e3o nasce do ecletismo ou do medo da hegemonia, mas da constru\u00e7\u00e3o paciente de uma dire\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica capaz de liderar o povo brasileiro numa alternativa ao capitalismo. Renunciar a essa tarefa em nome de uma &#8220;unidade&#8221; despolitizada \u00e9 o caminho mais seguro para a irrelev\u00e2ncia hist\u00f3rica. O futuro da maior for\u00e7a de esquerda da Am\u00e9rica Latina depende de sua capacidade de reafirmar, sem ambiguidades, seu projeto hegem\u00f4nico socialista. O PT merece mais que unidade; merece um rumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Gramsci (Cadernos do C\u00e1rcere) sobre hegemonia e dire\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vladimir Lenin (O Que Fazer?, Sobre a Unidade do Partido) sobre vanguarda e centralismo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Karl Marx (Pref\u00e1cio \u00e0 Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica) sobre base material e superestrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rosa Luxemburgo (A Revolu\u00e7\u00e3o Russa) sobre democracia e revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Georg Luk\u00e1cs (Ontologia do Ser Social) sobre consci\u00eancia de classe e organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros (Para Al\u00e9m do Capital) sobre a cr\u00edtica estrutural\u00a0ao\u00a0capitalismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Herberson Sonkha No cora\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT) de Vit\u00f3ria da Conquista, for\u00e7a pivotal da esquerda brasileira, um debate crucial se desenrola: como construir unidade partid\u00e1ria sem diluir o projeto socialista? 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