{"id":123414,"date":"2025-05-22T23:38:27","date_gmt":"2025-05-23T02:38:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=123414"},"modified":"2025-05-23T15:06:51","modified_gmt":"2025-05-23T18:06:51","slug":"os-colares-de-vo-doceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2025\/05\/22\/os-colares-de-vo-doceu\/","title":{"rendered":"Os colares de V\u00f3 Doc\u00e9u"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Li e irei reler o livro de Fernando Eleodoro, \u201cOs Colares de V\u00f3 Doceu\u201d. Li-o em raz\u00e3o da autoria que recomenda o autor, grande conhecedor da literatura, graduado nesse saber, professor testado por gera\u00e7\u00f5es, homem de sensibilidade acurada. Isso foi a motiva\u00e7\u00e3o inicial da leitura do livro. Do autor havia lido outros romances, que se encontram injustamente in\u00e9ditos, com destaque para\u00a0<em>\u201cAc\u00e1cias Azuis\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou reler Os Colares em raz\u00e3o de sua qualidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De in\u00edcio, o leitor observa que o romance est\u00e1 estruturado quase totalmente em di\u00e1logos e que seus cap\u00edtulos s\u00e3o curtos. A certa altura ele j\u00e1 pode entender (e ao final confirmar) que o di\u00e1logo estruturador do livro diz respeito ao sentido do conte\u00fado marcado por prop\u00f3sitos de igualdade, liberdade e aceita\u00e7\u00e3o da dignidade das pessoas. Estabelece-se o di\u00e1logo entre pr\u00f3ximos, mesmo que alguns estejam socialmente distantes. O conjunto de cap\u00edtulos fortemente dialogados, ao inv\u00e9s de abusar o leitor, provoca-lhe a vontade de prosseguir na leitura, tem efeito de movimentar o texto (para isso a linguagem adotada contribui muito) e de fazer com que a apresenta\u00e7\u00e3o de cada personagem esteja em sua pr\u00f3pria fala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O linguajar nos di\u00e1logos, vai al\u00e9m do simples coloquialismo. O leitor atento verificar\u00e1 que, assim como aqueles, a linguagem adotada n\u00e3o \u00e9 gratuita (flui bem naturalmente) e se relaciona com o mesmo sentido de elogio da igualdade, liberdade e respeito \u00e0 dignidade das pessoas. Muitas vezes essa linguagem alcan\u00e7a o n\u00edvel da carnavaliza\u00e7\u00e3o: a chamada linguagem vulgar, o uso de palavras consideradas obscenas, cujo significado \u201coculto\u201d est\u00e1 no uso igualit\u00e1rio do idioma, a partir de baixo, nivelador dos falantes na igualdade desses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carnavaliza\u00e7\u00e3o iguala as pessoas na liberdade de falar, na transgress\u00e3o da norma culta ou normal (falar da forma proibida, expressar o baixo cal\u00e3o). Assim, esse uso livre da linguagem tem o sentido de fazer confluir, igualar. Ao inv\u00e9s de desqualificador, o cal\u00e3o (essa palavra j\u00e1 \u00e9 fruto do preconceito lingu\u00edstico) assume papel igualmente de aproximar (falar a mesma l\u00edngua). Os falantes est\u00e3o em liberdade no uso da l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Est\u00e3o carnavalizados.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A igualdade vocabular entre os falantes n\u00e3o estabelece identidade, mas indica proximidade e amizade \u00e0s vezes profunda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No desenvolvimento do enredo, personagens bem individualizadas, podem substituir umas \u00e0s outras, em algum momento. O primeiro plano com o jovem que abre o romance com gesto agressivo que, logo, percebe-se ser comportamento brincalh\u00e3o e amigo. Esse n\u00e3o sai do foco do primeiro plano, mas pode dividi-lo com um ou outro (av\u00f4, av\u00f3, pai, irm\u00e3, auxiliar). Isso importa na garantia do di\u00e1logo e, depois, na constru\u00e7\u00e3o de objetivo comum, com coincid\u00eancias e supera\u00e7\u00e3o de diverg\u00eancias. Pode-se exemplificar isso com o fato de personagem (principal?) ser visto como \u201cum gauche na vida\u201d, por colocar, em plano importante, a emo\u00e7\u00e3o e a amizade, ser considerado permanente crian\u00e7a, pessoa que ainda n\u00e3o cresceu. Ora trata-se de personagem masculino emocionalmente bem resolvido. O autor o concebe como igual ao av\u00f4 paterno, igualmente bem resolvido, coloca-o em primeiro plano quase sempre, mas com altern\u00e2ncia, em menor tempo, com os demais personagens ou vendo-os assumir o plano maior (caso da irm\u00e3, do av\u00f4 paterno), em conjunto com outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O personagem que aos olhos dos familiares \u00e9 considerado pessoa que se recusa crescer, s\u00f3 ser\u00e1 visto como crescido quando assume um lugar na economia. Ser grande (adulto) para o capital \u00e9 estar num dos polos, explorado ou explorador. Quando surge uma forma aceit\u00e1vel de gerir empresa criada pelo rico av\u00f4 materno (aumento de sal\u00e1rio, benef\u00edcios, moradia para os trabalhadores), e incorporar no projeto de desenvolvimento da empresa outras pessoas pr\u00f3ximas \u00e0quele n\u00facleo, mas distantes quanto \u00e0 renda, o adulto-crian\u00e7a foi convencido de participar e transforma-se em homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento, j\u00e1 h\u00e1 um c\u00edrculo de pessoas que discutem e fazem propostas quanto \u00e0 gest\u00e3o da empresa do av\u00f4 materno.<br \/>\n<strong>Novos personagens surgem de forma coerente e firme<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama encaminha-se no sentido de mudan\u00e7a de hist\u00f3ria de vida de personagens, clima de nega\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e de g\u00eanero, e a constru\u00e7\u00e3o de uma vila oper\u00e1ria para moradia dos trabalhadores da empresa do av\u00f4 materno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto de vivendas (vila) destinado aos trabalhadores tem constru\u00e7\u00e3o custeada pela venda dos colares deixados por morte da vi\u00fava do rico industrial (av\u00f3 materna do personagem que \u201cdemorou de crescer\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que h\u00e1 uma simbologia forte no fato de serem os colares da av\u00f3 materna a fonte de custeio da vila com casas para oper\u00e1rios e outros equipamentos: colar sup\u00f5e a unifica\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 diverso e separado (contas, \u201cgotas\u201d, mi\u00e7angas), um m\u00faltiplo, para formar uma unidade, com utiliza\u00e7\u00e3o de uma amarra, um cord\u00e3o que, por sua vez, simboliza v\u00ednculo. Colar \u00e9 usado sobre o pesco\u00e7o, e sobre os seios, em contato \u00edntimo, e da\u00ed adv\u00e9m sua simbologia em rela\u00e7\u00e3o com sexo, com presen\u00e7a naturalmente no texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os Colares de V\u00f3 Doceu unem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Colares de V\u00f3 Doceu recusam nosso tempo: a hora dos bombardeios sobre hospitais, escolas, habita\u00e7\u00f5es, impunes, \u00e0s v\u00e9speras dos oitenta anos do crime cometido em Hiroshima e Nagasaki, com o lan\u00e7amento de bombas at\u00f4micas. N\u00e3o \u00e9 o romance desse \u00f3dio.<br \/>\n<span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Os Colares de V\u00f3 Doceu ser\u00e1 lan\u00e7ado por Fernando Eleodoro no pr\u00f3ximo dia 23, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, \u00e0s 19:00 horas.<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li e irei reler o livro de Fernando Eleodoro, \u201cOs Colares de V\u00f3 Doceu\u201d. Li-o em raz\u00e3o da autoria que recomenda o autor, grande conhecedor da literatura, graduado nesse saber, professor testado por gera\u00e7\u00f5es, homem de sensibilidade acurada. Isso foi a motiva\u00e7\u00e3o inicial da leitura do livro. Do autor havia lido outros romances, que se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":114216,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[87,71],"tags":[5623,5621,5624,5622],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123414"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=123414"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123414\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":123431,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123414\/revisions\/123431"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=123414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=123414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=123414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}