{"id":121454,"date":"2024-11-12T00:26:01","date_gmt":"2024-11-12T03:26:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=121454"},"modified":"2024-11-12T00:26:01","modified_gmt":"2024-11-12T03:26:01","slug":"o-banquete-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2024\/11\/12\/o-banquete-da-morte\/","title":{"rendered":"O \u201cBanquete da morte\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Um amigo meu perguntou quantos \u00edndios participaram do chamado \u201cbanquete da morte\u201d, tramado pelo explorador e fundador da Vila Imperial da Conquista, Jo\u00e3o Gon\u00e7alves da Costa, que depois de uns entreveros com os nativos l\u00e1 pelos idos de 1790 resolveu dar uma farra de muita comida e bebida para acalmar os \u00e2nimos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0A princ\u00edpio os \u00edndios desconfiaram da generosidade incomum do Jo\u00e3o, mas ap\u00f3s longas conversa\u00e7\u00f5es e encontros, os mongoi\u00f3s, que eram seus aliados mais pr\u00f3ximos, convenceram as outras tribos a aceitarem o convite. Essa intermedia\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil e demandou um bom tempo. Suas aldeias n\u00e3o ficavam perto daqui.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Uns falam em lenda e outros em verdade, mas vou contar como aconteceu toda hist\u00f3ria porque estava aqui na \u00e9poca e, como jornalista correspondente do jornal A Tarde, fiz a cobertura dessa trag\u00e9dia, tendo ao lado meu colega companheiro fot\u00f3grafo Jos\u00e9 Silva, o famoso \u201cZ\u00e9\u201d dos estilingues certeiros e bom no manejo das lentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Meu amigo, foi por volta de 1803\/06, n\u00e3o me lembro agora a data certa, numa noite fat\u00eddica de s\u00e1bado naquelas imedia\u00e7\u00f5es da hoje Pra\u00e7a Tancredo Neves, antiga Borboletas. Tudo ainda era floresta naqueles arredores que, com o passar dos anos, o homem, sem piedade, desmatou e depredou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0As brigas entre Jo\u00e3o Gon\u00e7alves, mongoi\u00f3s, imbor\u00e9s-patax\u00f3s estavam acirradas, coisa feia como se diz no popular. Era morte para todo os lados. Depois de um acordo, muitos \u00edndios come\u00e7aram a atrair os soldados do conquistador para dentro das matas e l\u00e1 davam cabo dos cabras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Com seus planos diab\u00f3licos e maquiav\u00e9licos, Jo\u00e3o Gon\u00e7alves decidiu oferecer um tremendo banquete para selar nova paz. A not\u00edcia se espalhou por todos os cantos e eu soube do fato tomando uns gor\u00f3s brabos com uns \u00edndios mais chegados, na oca do \u201cKai Duro\u201d, localizada no p\u00e9 da serra. Era um tipo boteco. A cacha\u00e7a, com tira-gosto de ca\u00e7as, era de derrubar at\u00e9 os mais chegados a uma birita quente, do tipo tequila mexicana.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Sei que j\u00e1 est\u00e3o querendo saber quantos \u00edndios foram ao banquete, mas tenham calma que digo mais na frente. Como rep\u00f3rter, n\u00e3o bicava com o Jo\u00e3o. Fatalmente ser\u00edamos barrados pelos seus guardas, cerca de 70. Foi a\u00ed que eu e o \u201cZ\u00e9\u201d tivemos a ideia de trajarmos como \u00edndio, com todos apetrechos e pinturas. A festa era de arromba, ou de tiros e porretes!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0O \u201cKaiap\u00f3\u201d, que nos preparou, alertou que o esquema ia dar problema e confus\u00e3o, mas jornalista tem que ser destemido e se disfar\u00e7ar nas horas certas para ir em busca da informa\u00e7\u00e3o. Bem, o boato se alastrou e muitos nativos (imbor\u00e9s-patax\u00f3s) alertaram que a festa n\u00e3o passava de uma emboscada do temido Jo\u00e3o, mas na hora de comer e beber na base do 0800, a turma cai dentro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Quando o sol despediu do dia com seu poente rajado cor de sangue e a noite entrou com seu breu, os \u00edndios, pouco a pouco, foram se achegando com suas lan\u00e7as, flechas e tacapes. O Jo\u00e3o, que n\u00e3o era nada besta, recebeu a todos gentilmente e pediu para ningu\u00e9m entrar armado. Afinal de contas, aquela noite era para celebrar a paz. No entanto, ele mandou seus homens esconder suas espingardas no mato, ali por perto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Pois \u00e9 gente, eu e o \u201cZ\u00e9\u201d ficamos de longe s\u00f3 espiando o movimento e esperando a hora exata de entrar na cabana do comandante sanguin\u00e1rio. Por precau\u00e7\u00e3o, escolhemos a aproxima\u00e7\u00e3o de um grupo maior para nos misturarmos no bolo e, foi assim, que conseguimos nosso feito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Cara chato e sacana que fica com arrodeios e n\u00e3o revela logo a quantidade de \u00edndios \u2013 deve estar imaginando o leitor. Isso \u00e9 um dado principal para abertura da mat\u00e9ria, e a\u00ed ele fica fazendo o tal \u201cnariz de cera\u201d. Vi um soldado cochichar no ouvido do explorador e avisar que estavam entrando penetras. Aquilo me deu arrepios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0&#8211;\u00a0 Conhe\u00e7o voc\u00eas de algum lugar, n\u00e3o me s\u00e3o estranhos. Qual tribo pertencem? Quis saber o Jo\u00e3o, todo sisudo e com jeito de matador- vingador. S\u00f3 em olhar para o portuga j\u00e1 dava um frio na barriga.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Como j\u00e1 era noite, despistamos. &#8211; O senhor deve estar se enganando, somos da tribo \u201cKai\u00e7ara\u201d, daquelas bandas de Jos\u00e9 Gon\u00e7alves e Caetanos. Ele fez de conta que acreditou e virou as costas. Por falar nisso, pela minha contagem, naquelas alturas j\u00e1 haviam adentrado no recinto cerca de 110 \u00edndios, mais ou menos. A noite prometia! J\u00e1 tinha muita gente chumbada e cambaleando.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Depois do ritual da dan\u00e7a e de fumar o cachimbo da paz, todos se sentaram para o grande banquete na folha da bananeira. Comidas e bebidas ex\u00f3ticas em fartura! L\u00e1 pela meia noite, todo mundo j\u00e1 estava cheio do pau. Como est\u00e1vamos de trabalho, eu e o Z\u00e9 evitamos beber e ficamos atentos a qualquer imprevisto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Mo\u00e7o, n\u00e3o lhe conto! L\u00e1 pelas tantas, quando a bebedeira j\u00e1 havia invadido o c\u00e9rebro dos convidados, os guardas do Jo\u00e3o entraram pipocando. Foi a\u00ed que a gente, como muita sorte, escapuliu pelos fundos. Ganhamos a floresta e fomos parar na sucursal onde hoje \u00e9 a rua Dois de Julho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0O \u201cZ\u00e9\u201d, com sua estrat\u00e9gia matreira, tirou a maior parte das fotos. \u2013 Vamos cair fora dessa zorra \u201cZ\u00e8\u201d, antes que o fogo sobre para n\u00f3s! Foi um massacre dos diabos, mas ainda se salvaram uns 20 \u00edndios na correria desatada, justamente aqueles que n\u00e3o eram muito dados a beber. Assim se deu o t\u00e3o propalado \u201cbanquete da morte\u201d, banhado de muito sangue e tirania.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0No outro dia, mandamos a mat\u00e9ria escrita \u00e0 m\u00e3o e as fotos no lombo dos burros dos tropeiros que cortavam esse sert\u00e3o, passando pelo povoado de Jequi\u00e9 at\u00e9 o litoral de Itaparica e de l\u00e1 seguiram de barco at\u00e9 o peri\u00f3dico. A reportagem saiu quase um m\u00eas depois, mas, mesmo assim, era coisa quente e furo jornal\u00edstico de primeira.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0O Jo\u00e3o ficou tiririca da vida, espumando de raiva e sabia que tinha sido a gente, mas n\u00e3o podia fazer muita coisa, pois o seu rei de Portugal (ol\u00e1, meu caro portuga Lu\u00eds Alt\u00e9rio!) lhe deu uma tremenda comida de rabo. Ficamos jurados de morte e, pouco tempo depois, A Tarde nos transferiu para Ilh\u00e9us.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Tempos depois nos acertamos e at\u00e9 fizemos diversas entrevistas com o Jo\u00e3o, j\u00e1 velho e cansado de guerra, l\u00e1 em sua fazenda em Manoel Vitorino. Sobre esse lend\u00e1rio do al\u00e9m-mar, que fundou o arraial, hoje com quase 400 mil habitantes, falamos no pr\u00f3ximo papo, isto se voc\u00eas quiserem.\u00a0 <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0Um amigo meu perguntou quantos \u00edndios participaram do chamado \u201cbanquete da morte\u201d, tramado pelo explorador e fundador da Vila Imperial da Conquista, Jo\u00e3o Gon\u00e7alves da Costa, que depois de uns entreveros com os nativos l\u00e1 pelos idos de 1790 resolveu dar uma farra de muita comida e bebida para acalmar os \u00e2nimos. \u00a0\u00a0A princ\u00edpio os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":107025,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[88,105],"tags":[4876,1507],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121454"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=121454"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121454\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":121455,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/121454\/revisions\/121455"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/107025"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=121454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=121454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=121454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}