{"id":121219,"date":"2024-10-15T09:49:32","date_gmt":"2024-10-15T12:49:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=121219"},"modified":"2024-10-15T09:49:32","modified_gmt":"2024-10-15T12:49:32","slug":"quem-sao-os-baianos-acusados-de-escravizar-mulheres-desde-a-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2024\/10\/15\/quem-sao-os-baianos-acusados-de-escravizar-mulheres-desde-a-infancia\/","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o os baianos acusados de escravizar mulheres desde a inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>Mulher mantida em trabalho escravo\u00a0Cr\u00e9dito: Pixabay<\/p>\n<p><em><strong>Fam\u00edlias inclu\u00eddas na lista suja do trabalho escravo usaram desculpa parecida para explicar motivo de n\u00e3o pagarem sal\u00e1rio<\/strong><\/em><\/p>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"linha-fina-17w1aga1rk\" class=\"component--linha-fina\">Fam\u00edlias inclu\u00eddas na lista suja do trabalho escravo usaram desculpa parecida para explicar motivo de n\u00e3o pagarem sal\u00e1rio<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"assinatura-padrao--secondary-dzavzhcbm2\" class=\"component--assinatura assinatura-padrao\">\n<ul class=\"image-container\">\n<li class=\"image-item\">\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/midias.correio24horas.com.br\/2024\/02\/07\/80x80\/fernanda-santana-2006600.jpg\" alt=\"Foto do(a) author(a) Fernanda Santana\" width=\"45px\" height=\"45px\" \/><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<ul class=\"text-container\">\n<li class=\"text-item\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernanda Santana<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-m6rwdr9st4\" class=\"component--paragrafo\">Aos 53 anos, uma mulher teve que aprender a viver a pr\u00f3pria vida. \u00c0s v\u00e9speras da terceira idade, ela n\u00e3o sabia nem ler \u2014 o que, diante de tudo o que ainda precisava aprender, at\u00e9 poderia ser visto como o menor dos seus problemas. Abandonada pela fam\u00edlia na inf\u00e2ncia, e alojada por um casal do bairro da Federa\u00e7\u00e3o, em Salvador, ela desconhecia tudo que n\u00e3o fosse a rotina dos Jaqueira Cruz.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia foi inclu\u00edda, na \u00faltima semana, na\u00a0<a class=\"link\" href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/minha-bahia\/saiba-o-que-caracteriza-trabalho-escravo-e-onde-denunciar-0924\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lista suja do trabalho escravo<\/a>\u00a0elaborada pelo Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (MTE) para expor quem s\u00e3o os empregadores acusados de submeter trabalhadores a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o. Junto aos Jaqueira Cruz, est\u00e3o os Spagnuolo e os Peluso Loureiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O MTE atualiza duas vezes ao ano o cadastro e, agora, a Bahia responde por 69 dos 727 empregadores brasileiros (entre eles famosos, como<a class=\"link\" href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/brasil\/cantor-leonardo-paga-r-225-mil-em-indenizacao-a-trabalhadores-resgatados-em-fazenda-1024\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0o cantor Leonardo<\/a>) acusados de escravizar pessoas &#8211; 35% s\u00e3o empregadores dom\u00e9sticos.<\/p>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-bloqb8kaoq\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">A pena para quem submete trabalhadores \u00e0 situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o \u00e9 de 2 a 8 anos de reclus\u00e3o. Mas, hoje, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m preso em regime fechado, na Bahia, pela raz\u00e3o de negar sal\u00e1rio, f\u00e9rias e descanso a algu\u00e9m &#8211; alguns dos elementos que configuram trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-m9kisko91i\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Desde 2020, as den\u00fancias relacionadas ao tema s\u00f3 crescem no Brasil: a quantidade de queixas enviadas ao Disque 100, do Minist\u00e9rio de Direitos Humanos, cresceu 64% (3.430) em 2023, quando 35 pessoas foram resgatadas na Bahia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-h3ej61bjsa\" class=\"component--paragrafo\">&#8220;Aos poucos vem ocorrendo um processo de desnaturaliza\u00e7\u00e3o, pela sociedade brasileira, da super explora\u00e7\u00e3o da trabalhadora dom\u00e9stica; que as pessoas est\u00e3o tomando consci\u00eancia da ilegalidade dessas condutas e da import\u00e2ncia de denunciar&#8221;, avalia a auditora-fiscal do trabalho Liane Dur\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-ym987wbmer\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Nos casos de resgate de trabalhadores dom\u00e9sticos, no entanto, nota-se como as v\u00edtimas \u201cficam mais tempo em condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o, comparados aos trabalhadores resgatados em outras atividades\u201d, completa ela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-0e67vbtv3a\" class=\"component--paragrafo\">\u201cEsse tempo extenso de explora\u00e7\u00e3o, inclusive, afasta uma conclus\u00e3o que poderia ser tirada de forma desavisada, de que esses casos de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico s\u00e3o recentes. Com certeza n\u00e3o, essas explora\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o sendo iniciadas agora\u201d, avalia Dur\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-z1wujdr8nm\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">As fam\u00edlias flagradas por fiscaliza\u00e7\u00f5es de auditores fiscais do trabalho e do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) apresentaram uma justificativa em comum: a empregada, na vers\u00e3o delas, era &#8220;da fam\u00edlia&#8221; e por isso n\u00e3o recebia sal\u00e1rio. O pretexto afetivo que surge nas inspe\u00e7\u00f5es em resid\u00eancias, no entanto, n\u00e3o pode ser usado para explorar e negar direitos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-jczyuvsah3\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA fiscaliza\u00e7\u00e3o de trabalho sempre apura essa mistura ret\u00f3rica da natureza das rela\u00e7\u00f5es: as pessoas est\u00e3o trabalhando e sendo pesadamente exploradas, com uso desse subterf\u00fagio cruel que apela para o fato de que a pessoa, de fato, sente algum afeto pelo explorado, mas ela \u00e9 quem est\u00e1 se dando muito mal, sem acesso a outras formas de socializa\u00e7\u00e3o\u201d, explica o professor de Economia da Universidade Federal da Bahia Vitor Filgueiras, que pesquisa o tema e coordena o projeto Vida P\u00f3s-resgate, uma parceria com o MPT voltada para v\u00edtimas de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<h2 id=\"intertitulo-dwowvywn2b\" class=\"component--intertitulo\">As fam\u00edlias que est\u00e3o na &#8216;lista suja&#8217;:<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<h2 id=\"intertitulo-579zbp3ioi\" class=\"component--intertitulo\">Fam\u00edlia Spagnuolo: a explora\u00e7\u00e3o de uma nativa da Ilha de Itaparica<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-7fp6kl70yr\" class=\"component--paragrafo\">A fam\u00edlia Spagnuolo gostava de veranear e celebrar datas comemorativas na casa da Ilha de Itaparica. No anivers\u00e1rio de 74 anos de Giovani, o dono da casa com a esposa, Noemia Correia, os dois precisaram de ajuda para organizar a festa. Depois de pedir refer\u00eancias, o casal conheceu J\u00e9ssica* (nome fict\u00edcio), uma nativa de 32 anos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-qmgefre4qb\" class=\"component--paragrafo\">Os patr\u00f5es disseram gostar tanto dos servi\u00e7os de J\u00e9ssica naquele dia que dispensaram o antigo caseiro para encarreg\u00e1-la, a partir dali, tamb\u00e9m de limpar a piscina e aparar a grama. A nativa passou, ent\u00e3o, a trabalhar diariamente em casa. Recebia R$ 20 por dia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<div id=\"imagem-a9n3dkgw6j\" class=\"component--imagem\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-7nqgv2ndxa\" class=\"component--paragrafo\">Em 2017, J\u00e9ssica recebeu a proposta de dividir o m\u00eas entre a Ilha e o bairro de Vila Laura, em Salvador. Noemia, servidora p\u00fablica aposentada, estava com c\u00e2ncer e demandava aten\u00e7\u00e3o extra. Conforme o estado de sa\u00fade da patroa piorava, mais tempo J\u00e9ssica passava longe de casa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-i832hx4flk\" class=\"component--paragrafo\">A jornada de trabalho come\u00e7ava \u00e0s 6h e s\u00f3 terminava por volta das 20h30. Era a hora em que Giovani, engenheiro civil de um \u00f3rg\u00e3o municipal, estava de volta do servi\u00e7o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-oszbgg721j\" class=\"component--paragrafo\">O filho de italianos, que ainda \u00e9 dono de dois pr\u00e9dios na Federa\u00e7\u00e3o, e a esposa nunca pagaram sal\u00e1rio para J\u00e9ssica. Os R$ 150 mensais prometidos foram depositados s\u00f3 nos primeiros meses. Folga tamb\u00e9m n\u00e3o existia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-bgipmqllg6\" class=\"component--paragrafo\">J\u00e9ssica s\u00f3 tinha descanso quando os patr\u00f5es sa\u00edam, raridades em que ela aproveitava para voltar para casa. Em Salvador, ela n\u00e3o tinha amigos, nem familiares. Os patr\u00f5es diziam que ocupavam esses pap\u00e9is &#8211; e que por isso n\u00e3o pagavam sal\u00e1rio. Eram &#8220;fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-h9cbcb9f9h\" class=\"component--paragrafo\">Durante a pandemia, um vizinho desconfiou da situa\u00e7\u00e3o de J\u00e9ssica. O homem estranhava ver aquela mulher, na \u00e9poca gr\u00e1vida, fora de casa, respons\u00e1vel pelas compras.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-0mj2jkpvq0\" class=\"component--paragrafo\">\u201cFoi a\u00ed que ela foi contando a hist\u00f3ria dela, e ele entrou em contato comigo\u201d, conta a advogada Caroline Pinho. \u201cMas demorou um ano para que ela reconhecesse a gravidade.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-bz00aifpvg\" class=\"component--paragrafo\">Um dia, J\u00e9ssica arrumou a mochila, pegou a filha (que estava com 2 anos) e voltou para ilha. O pretexto da viagem era a suposta celebra\u00e7\u00e3o do anivers\u00e1rio da menina. A advogada de J\u00e9ssica, ent\u00e3o, iniciou o processo judicial contra a fam\u00edlia e acionou o MPT e o MTE. Durante a fiscaliza\u00e7\u00e3o, os \u00f3rg\u00e3os identificaram trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-o818qmt48g\" class=\"component--paragrafo\">Em agosto deste ano, o juiz do trabalho acatou a den\u00fancia do MPT e condenou os Spagnuolo ao pagamento de R$ 100 mil de indeniza\u00e7\u00e3o por dano moral. O valor \u00e9 destinado a a\u00e7\u00f5es de combate ao trabalho escravo organizadas pela institui\u00e7\u00e3o. O processo trabalhista movido por J\u00e9ssica ainda est\u00e1 em curso.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-qyept1lxov\" class=\"component--paragrafo\">Noemia faleceu em maio deste ano, e a a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 respondida pelos tr\u00eas herdeiros dela e Giovanni.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-ca41m6sb9f\" class=\"component--paragrafo\">Hoje, J\u00e9ssica vive do Bolsa Fam\u00edlia (R$ 600) e n\u00e3o pensa em retornar ao trabalho dom\u00e9stico. No ver\u00e3o, ela quer aproveitar o fluxo na ilha para vender comida na praia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<h2 id=\"intertitulo-8ie0cz223u\" class=\"component--intertitulo\">Fam\u00edlia Loureiro: condenada por escravizar mulher por 44 anos<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-dehu49j3ho\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Os &#8220;Peluso Loureiro&#8221; s\u00e3o um sobrenome conhecido no sul da Bahia, principalmente entre Canavieiras, Itabuna e Porto Seguro. Os precursores dessa fam\u00edlia s\u00e3o italianos e portugueses que chegaram ao Brasil no fim do s\u00e9culo 19 e deixaram herdeiros em posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas importantes, como fazendeiros.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-guexkeeelj\" class=\"component--paragrafo\">Heny Peluso Loureiro, falecida no ano passado, era uma delas. Possu\u00eda uma fazenda e morava em Porto Seguro, pr\u00f3xima de dois filhos. Eles n\u00e3o eram, no entanto, seus \u00fanicos companheiros. Ao lado dessa senhora, estava, quase sempre, uma mulher\u00a0<a class=\"link\" href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/minha-bahia\/feita-de-escrava-por-44-anos-na-bahia-mulher-teve-utero-retirado-e-nao-podia-sair-de-casa-0924\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com quem n\u00e3o tinha parentesco<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-izy7ittjm0\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">No ano passado, auditores-fiscais do trabalho descobriram o que estava por tr\u00e1s dessa presen\u00e7a t\u00e3o constante de Maria (nome fict\u00edcio) na vida daquela fam\u00edlia. Uma den\u00fancia enviada ao MTE apontou que a mulher trabalhava em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-6zo3yf3osf\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a fiscaliza\u00e7\u00e3o realizada na casa e os relatos colhidos, os auditores-fiscais do trabalho constataram a exist\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o: Maria trabalhava ininterruptamente desde a inf\u00e2ncia na casa, sem direito a folga, f\u00e9rias, sal\u00e1rio, ou qualquer reconhecimento de v\u00ednculo trabalhista.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-jaqrmtadgi\" class=\"component--paragrafo\">Maria morou dos 7 aos 53 anos na casa de Heny. H\u00e1 a suspeita de que ela n\u00e3o seja brasileira e tenha sido deixada pelo pai, ainda pequena, em um abrigo em Canavieiras.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-f9rhzhgk0w\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Foi l\u00e1 que Heny conheceu a garota e a levou para casa, de acordo com familiares dos patr\u00f5es de Maria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-8fhdy2q67x\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Aquela senhora, no entanto, n\u00e3o registrou a garota, nem iniciou os tr\u00e2mites da ado\u00e7\u00e3o: emitiu uma certid\u00e3o de nascimento com nomes falsos de m\u00e3e e pai.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-lgsjtu0ma8\" class=\"component--paragrafo\">Maria cresceu junto aos filhos de Heny. Mas as diferen\u00e7as estavam postas. Eles, por exemplo, estudaram. Ela n\u00e3o. Em quatro d\u00e9cadas, ainda de acordo com o MPT, os patr\u00f5es cometeram diferentes infra\u00e7\u00f5es, como induzir Maria a se submeter a uma cirurgia de retirada do \u00fatero, ap\u00f3s o diagn\u00f3stico de um mioma.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-0b4pxt33ga\" class=\"component--paragrafo\">Na avalia\u00e7\u00e3o da advogada da v\u00edtima, Marta Barros, Maria n\u00e3o compreendeu qual era seu problema de sa\u00fade e o motivo de precisar retirar o \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-7mgkh1d0d3\" class=\"component--paragrafo\">Os patr\u00f5es, ainda conforme o MPT, chegarem a solicitar benef\u00edcios sociais em nome de Maria &#8211; o que levantou a suspeita da Prefeitura de Porto Seguro, depois de um cruzamento de dados, e provocou uma reviravolta na hist\u00f3ria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-y52lscenk1\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">No fim do m\u00eas passado, o MPT e os representantes do esp\u00f3lio da patroa e os dois filhos de Heny firmaram um acordo. No documento, homologado pela Justi\u00e7a do Trabalho, os empregadores n\u00e3o reconhecem culpa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-jsy411epnj\" class=\"component--paragrafo\">Na vers\u00e3o deles, a v\u00edtima era da fam\u00edlia e, por isso, n\u00e3o precisaria ser paga. Os patr\u00f5es ter\u00e3o que pagar R$\u00a0500 mil de indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"template--materia-comum\">\n<div class=\"grid-column-container center\">\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-xkvqvh6mmn\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Maria est\u00e1 trabalhando como empregada dom\u00e9stica e iniciou os estudos.\u00a0Os herdeiros n\u00e3o quiseram falar a respeito.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<h2 id=\"intertitulo-revgg1oauo\" class=\"component--intertitulo\">Fam\u00edlia Cruz: acusada de explorar mulher desde a inf\u00e2ncia<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<p id=\"paragrafo-nirx0bc54z\" class=\"component--paragrafo\" style=\"text-align: justify;\">Nos anos 80, uma professora recepcionou uma crian\u00e7a de 7 anos, em Salvador. A fam\u00edlia da garota, de Sergipe, n\u00e3o podia arcar com a cria\u00e7\u00e3o dela, que foi abandonada na casa de Edneia Cruz &#8211; no futuro, ela usaria essa hist\u00f3ria como pretexto para justificar o trabalho dom\u00e9stico realizado por quase cinco d\u00e9cadas, gratuitamente, pela sergipana.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\">\n<div id=\"imagem-wx0kwp4txe\" class=\"component--imagem\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/midias.correio24horas.com.br\/2024\/04\/27\/a-coordenadora-geral-da-federacao-nacional-das-trabalhadoras-domesticas-fenatrad-luiza-batista-2086960-article.jpg\" alt=\"A coordenadora geral da Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas (Fenatrad), Luiza Batista\" width=\"600px\" height=\"359px\" \/><\/figure>\n<p>A coordenadora geral da Federa\u00e7\u00e3o Nacional das Trabalhadoras Dom\u00e9sticas (Fenatrad), Luiza Batista\u00a0Cr\u00e9dito: Carol Melo\/Fenatrad<\/p><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-ueavx84a8h\" class=\"component--paragrafo\">Desde crian\u00e7a, L\u00facia (nome fict\u00edcio) foi responsabilizada pelo asseio da casa e qualquer demanda que aparecesse, segundo o MPT. Enquanto crescia, a menina ganhava novas responsabilidades, como cuidar dos filhos da patroa na casa onde todos viviam, no bairro da Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-rfo6ayu9jd\" class=\"component--paragrafo\">As outras crian\u00e7as estudaram, mas ela n\u00e3o. A patroa, que ensinava em uma escola privada de Ondina, justificou o analfabetismo de L\u00facia como &#8220;falta de vontade&#8221; dela. Isso aconteceu em abril de 2022, quando a explora\u00e7\u00e3o contra e empregada foi denunciada. Ela tinha 53 anos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-2uydvxc6da\" class=\"component--paragrafo\">Os auditores-fiscais de trabalho perguntaram a L\u00facia sobre o que tinha acontecido nos 46 anos antes daquela fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-jc5jl1sl49\" class=\"component--paragrafo\">Em uma das quest\u00f5es, os servidores perguntaram: existe a possibilidade de um dia voc\u00ea acordar e n\u00e3o querer realizar as tarefas dom\u00e9sticas? &#8220;N\u00e3o&#8221;, ela respondeu, chorando.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-91kk726jas\" class=\"component--paragrafo\">Na vida em que passou dentro da casa dos patr\u00f5es, n\u00e3o sobrou espa\u00e7o para L\u00facia ter atividades e relacionamentos externos. Ela n\u00e3o tinha amigos, nem nunca namorou.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-7utmftlaz5\" class=\"component--paragrafo\">A casa da fam\u00edlia Cruz \u00e9 de dois pavimentos e tinha espa\u00e7o para todos da fam\u00edlia, mas L\u00facia n\u00e3o tinha um c\u00f4modo s\u00f3 para ela. Dividia o quarto com patr\u00f5es &#8211; os \u00faltimos foram a neta de Edineia e o namorado dela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-pnlnk86y6y\" class=\"component--paragrafo\">A mulher denunciada e seu marido, Francisco, ofereceram outra vers\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com L\u00facia, segundo ambos, era filial. &#8220;Sempre viveu de modo igualit\u00e1rio com os demais filhos&#8221;, afirmou para os auditores e, depois, no decurso do processo judicial movido contra ela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"container--component-block\" style=\"text-align: justify;\">\n<p id=\"paragrafo-ki0erudcbe\" class=\"component--paragrafo\">Em abril de 2024, um juiz penal condenou os dois acusados a tr\u00eas anos de reclus\u00e3o, mas em regime aberto. Agora, L\u00facia descobre a liberdade. Est\u00e1 noiva e trabalhando com carteira assinada.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"template--materia-comum\">\n<div class=\"grid-column-container center\">\n<div class=\"container--component-block\">\n<div id=\"single_bot_piano\">\n<div id=\"single_bot_piano\">\n<p class=\"banner-assine\" style=\"text-align: justify;\">Junte-se \u00e0 nossa comunidade de leitores comprometidos com o jornalismo local de qualidade.\u00a0<a href=\"https:\/\/assine.correio24horas.com.br\/v2\/cadastro\/645\/digital-anual-com-clube-correio\/etapa-1?utm_source=Site+Texto+fim+Mat%C3%A9rias+1+&amp;utm_medium=Site+Texto+fim+Mat%C3%A9rias+1+\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Assine agora<\/a>, apoie nossa equipe premiada e tenha acesso a an\u00e1lises exclusivas. 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