{"id":118992,"date":"2024-03-30T14:05:27","date_gmt":"2024-03-30T17:05:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=118992"},"modified":"2024-03-30T22:27:24","modified_gmt":"2024-03-31T01:27:24","slug":"cronica-apurando-descobri-como-meu-pai-foi-raptado-ao-me-buscar-em-creche-e-torturado-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2024\/03\/30\/cronica-apurando-descobri-como-meu-pai-foi-raptado-ao-me-buscar-em-creche-e-torturado-na-ditadura\/","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA Apurando, descobri como meu pai foi raptado ao me buscar em creche e torturado na ditadura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 30 de setembro de 1975, meu pai n\u00e3o chegou \u00e0s 18h, como fazia todos os dias, para me buscar na creche da Bela Vista, na rua Humait\u00e1, regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo conhecida como Bixiga. Eu havia acabado de completar 2 anos.\u00a0A cerca de 600 metros do local, na rua Conselheiro Ramalho, perto da avenida Brigadeiro Lu\u00eds Ant\u00f4nio, Edwaldo Alves Silva, hoje \u00e0s v\u00e9speras dos 80 anos, foi sequestrado pelas for\u00e7as da ditadura militar instaurada no Brasil de 1964 a 1985.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o sabia desses acontecimentos at\u00e9 a semana passada. Pesquisando locais de tortura para reportagem da Ag\u00eancia P\u00fablica, encontrei o depoimento escrito por meu pai em maio de 1976 para uma junta de ju\u00edzes militares, parte do acervo do projeto Brasil: Nunca Mais Digital. Era sua apela\u00e7\u00e3o ao Supremo Tribunal Militar (STM), questionando sua senten\u00e7a condenat\u00f3ria por \u201cpr\u00e1ticas subversivas\u201d. Ele foi enquadrado na Lei de Seguran\u00e7a Nacional (LSN) que vigorava \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da tortura tamb\u00e9m nunca foi um tabu na minha casa, mas as poucas vezes que questionei diretamente meu pai percebi ser um assunto delicado, que preferia n\u00e3o abordar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVou te falar s\u00f3 uma coisa, eles tinham o afogamento, que era enfiar sua cabe\u00e7a na \u00e1gua at\u00e9 voc\u00ea quase afogar. Nas primeiras vezes, me debatia para tirar a cabe\u00e7a da \u00e1gua, para respirar. No final, me debatia para que eles n\u00e3o a tirassem da \u00e1gua para o supl\u00edcio acabar de uma vez\u201d, chegou a dizer numa das vezes, encerrando a conversa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sabia, claro, do passado de resist\u00eancia da fam\u00edlia, de sua milit\u00e2ncia no Partido Comunista Brasileiro (PCB) at\u00e9 os primeiros anos da d\u00e9cada de 1980. Inclusive, sempre me orgulhei e fui influenciada por sua luta pela democracia e pela justi\u00e7a social. Tinha ci\u00eancia de sua pris\u00e3o e mem\u00f3rias de minhas visitas a ele ainda no c\u00e1rcere, mas, em especial, sobre sua tortura desconhecia os detalhes \u2013 justo eles, onde o diabo mora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei a ter em m\u00e3os o livro Brasil: nunca mais (editora Vozes, 1985), que traz tr\u00eas par\u00e1grafos extra\u00eddos desse mesmo depoimento, j\u00e1 impressionantes. Por\u00e9m, o arquivo tem 11 p\u00e1ginas. Percebi que ele foi sutil, e talvez complacente com a filha. Os fragmentos de hist\u00f3ria que ouvi da minha m\u00e3e, de alguns familiares e at\u00e9 amigos, estudiosos dos \u201canos de chumbo\u201d do regime militar, foram preenchidos, como um quebra-cabe\u00e7a, pelo documento<strong>.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Comunismo, r\u00e1dio nas alturas e a cadeira do drag\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele fim de tarde de setembro, meu pai foi abordado por homens armados, e teve a cabe\u00e7a coberta por um capuz preto, antes de ser colocado em um carro, \u201cprovavelmente um Volkswagen\u201d, relatou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele foi jogado no banco de tr\u00e1s com um homem apertando seu pesco\u00e7o. A viagem percorreu cerca de 35 km at\u00e9 o bairro Parelheiros, no sul da capital paulista. Aos 31 anos, ele entrava em um dos mais violentos espa\u00e7os criados durante a ditadura militar: a Fazenda 31 de Mar\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm r\u00e1dio ligado a alto volume abafava meus gritos. Arrancaram-me a roupa e inteiramente nu, fui dependurado no pau-de-arara\u201d, descreveu. Fiz a primeira pausa. Precisava respirar. Fui conferir: ainda era a p\u00e1gina tr\u00eas. \u201cAplicaram-me choques no corpo inteiro [\u2026]; recebi fort\u00edssimos choques el\u00e9tricos na boca, nariz e ouvidos ao introduzirem neles fios el\u00e9tricos\u201d. A descri\u00e7\u00e3o se refere ao primeiro de 37 dias de torturas constantes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118993\" aria-describedby=\"caption-attachment-118993\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Edwaldo-e-Ludimila9.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118993 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Edwaldo-e-Ludimila9.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"208\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118993\" class=\"wp-caption-text\">O pai de Ludmila foi preso no dia 30 de setembro de 1975, quando ela tinha dois anos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pai de Ludmila foi preso no dia 30 de setembro de 1975, quando ela tinha dois anos<br \/>\nNo momento da pris\u00e3o, a Opera\u00e7\u00e3o Radar (1974 a 1976) estava no auge e seu objetivo era desarticular ou, como descrevem documentos da \u00e9poca, \u201cneutralizar\u201d o PCB. Em S\u00e3o Paulo, pelo menos 11 membros do partido foram alvos da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os espa\u00e7os clandestinos de tortura e morte como a Fazenda 31 de Mar\u00e7o eram bem oportunos para as \u201copera\u00e7\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o\u201d do regime ditatorial. O im\u00f3vel foi cedido aos militares para atividades clandestinas pelo empres\u00e1rio Joaquim Rodrigues Fagundes, posteriormente condecorado pelo Ex\u00e9rcito com uma distin\u00e7\u00e3o de nome ir\u00f4nico: a Medalha do Pacificador. No local, era dispensada a preocupa\u00e7\u00e3o com o verniz de legalidade que se tentava camuflar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPara se ter uma ideia do meu estado, a minha primeira impress\u00e3o era que eu estava escutando meus pr\u00f3prios gritos. Mas, logo voltando \u00e0 realidade, percebi que outras pessoas, tal como eu, eram v\u00edtimas daquele aut\u00eantico inferno.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, de 2014, se tem conhecimento de apenas mais uma pessoa, o advogado e ex-deputado estadual do Rio de Janeiro Affonso Celso Nogueira Monteiro, que saiu viva da Fazenda 31 de Mar\u00e7o, al\u00e9m do meu pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu, na cela ao lado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos intervalos entre espancamentos e choques, para que os torturadores pudessem descansar, meu pai voltava para o pau de arara. Nesse \u00ednterim, ele descreveu como um interrogador tentava aumentar o envolvimento dele com o PCB e comprometer mais pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVisando-me amedrontar e confundir, diziam que os gritos que eu escutava, eram da minha esposa ao ver minha filha de dois anos ser torturada. No decorrer das torturas ininterruptas, em total estado de desespero f\u00edsico e mental, comecei realmente a admitir que minha esposa e filha estavam em poder daqueles homens.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o consigo imaginar crueldade maior com um pai. Quando liguei para inform\u00e1-lo que havia encontrado o depoimento e pedir sua anu\u00eancia para compartilh\u00e1-lo, a possibilidade de eu estar sendo realmente torturada foi sua primeira recorda\u00e7\u00e3o. \u201cFoi um dos piores momentos que passei naquele lugar\u201d, disse ao telefone.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118994\" aria-describedby=\"caption-attachment-118994\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ludmila-crianca9.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118994 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ludmila-crianca9.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"231\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118994\" class=\"wp-caption-text\">Com 2 anos, Ludmila foi levada pela m\u00e3e, Z\u00e9lia, para viver em Belo Horizonte, uma fuga horas depois do pai ser raptado em S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 2 anos, Ludmila foi levada pela m\u00e3e, Z\u00e9lia, para viver em Belo Horizonte, uma fuga horas depois do pai ser raptado em S\u00e3o Paulo<br \/>\nNa verdade, eu estava segura. Desde o primeiro dia, minha m\u00e3e, Z\u00e9lia Pizarro, percebendo o ocorrido, pediu ajuda a um irm\u00e3o e fomos para Belo Horizonte ainda na madrugada. Voltamos, pois ela sabia que denunciar o desaparecimento o mais r\u00e1pido poss\u00edvel poderia salvar a vida do marido. Para isso, buscou ajuda de dom Paulo Evaristo Arns, que j\u00e1 era arcebispo metropolitano de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na sa\u00fade, na doen\u00e7a e na ditadura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meus pais se conheceram no IBGE, contratados para trabalhar no Censo 1970. Com uma beleza cl\u00e1ssica, a mo\u00e7a de fam\u00edlia tradicional mineira se encantou com o \u201cborogod\u00f3\u201d do colega, inteligente, cheio de hist\u00f3rias e um pouco pretensioso, segundo ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tinha acabado de chegar de uma viagem \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, de cora\u00e7\u00e3o partido. Deixou uma namorada dinamarquesa, lind\u00edssima, segundo o pr\u00f3prio, por l\u00e1. Casaram-se em 1972. Cerca de um ano depois, nasci.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rapidamente, aprenderam a lidar com as atividades do partido. Com o recrudescimento da persegui\u00e7\u00e3o, minha m\u00e3e contava que tudo era \u201ccronometrado\u201d. Se o marido n\u00e3o chegasse na hora, j\u00e1 tinha orienta\u00e7\u00f5es claras de como proceder.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118995\" aria-describedby=\"caption-attachment-118995\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/casamento9.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118995 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/casamento9.png\" alt=\"\" width=\"308\" height=\"228\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118995\" class=\"wp-caption-text\">Z\u00e9lia e Edwaldo, pais de Ludmila, casaram-se em 1972 e tiveram sua filha um ano depois<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Z\u00e9lia e Edwaldo, pais de Ludmila, casaram-se em 1972 e tiveram sua filha um ano depois<br \/>\nCom o desaparecimento, minha m\u00e3e moveu o mundo para encontr\u00e1-lo. Acionou \u00f3rg\u00e3os de prote\u00e7\u00e3o e de direitos humanos, a Igreja, amigos, familiares e advogados. Ela chegou a me confidenciar que n\u00e3o se permitiu \u201cderramar uma \u00fanica l\u00e1grima\u201d enquanto n\u00e3o o encontrasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi uma fortaleza armada, segurando as pontas da casa, da filha ainda beb\u00ea, desafiando o poder do Estado pelo marido. Acabaram se separando em 1981, mas, do jeito deles, foram amigos at\u00e9 a morte dela, em 2020, v\u00edtima da covid-19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fragmentos de um passado \u201cescondido\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos 14 anos, ingressei no ensino m\u00e9dio, no tradicional Col\u00e9gio Estadual Central, de Belo Horizonte, por onde passaram do escritor Fernando Sabino \u00e0 ex-presidente Dilma Rousseff.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1988, nos primeiros anos da redemocratiza\u00e7\u00e3o, a estrutura do col\u00e9gio ainda era autorit\u00e1ria e militarizada. Professores se gabavam em sala de aula de ser militares, ou membros do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), aposentados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabei me envolvendo no movimento estudantil, na cria\u00e7\u00e3o de um jornal mural de estudantes e no grupo de alunos empenhados em reabrir o gr\u00eamio, desativado pela repress\u00e3o. Foi a gota d\u2019\u00e1gua para dona Z\u00e9lia. Em um s\u00e1bado, ela resolveu me contar o que ela e meu pai haviam passado entre 1975 e 1977. Sua vers\u00e3o tinha partes censuradas, hoje eu sei. Nem por isso, menos marcante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118996\" aria-describedby=\"caption-attachment-118996\" style=\"width: 320px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcante9.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118996 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/marcante9.png\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"228\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118996\" class=\"wp-caption-text\">Ainda adolescente, Ludmila acabou se envolvendo no movimento estudantil de seu col\u00e9gio<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda adolescente, Ludmila acabou se envolvendo no movimento estudantil de seu col\u00e9gio<br \/>\nSe a inten\u00e7\u00e3o era boa, a estrat\u00e9gia foi p\u00e9ssima. Para minha vers\u00e3o adolescente, o relato foi motiva\u00e7\u00e3o maior para me envolver com mais empenho na milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inferno parte 2: o \u201cinimigo\u201d ainda \u00e9 o mesmo<br \/>\nAp\u00f3s seis dias, alimentado apenas uma vez \u201ccom um prato de sopa rala\u201d e matando a sede quando era trazido \u00e0 consci\u00eancia com jatos de \u00e1gua fria, meu pai recebeu roupas novamente. Seria transferido para o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna de S\u00e3o Paulo (DOI-Codi\/SP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele conta em seu depoimento que, vendado e deitado no ch\u00e3o do carro que o transportava, variou entre a convic\u00e7\u00e3o de que seria morto e a esperan\u00e7a do fim do supl\u00edcio. Estava duplamente errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que entrou no barrac\u00e3o dos fundos da rua Tutoia, 921, na Vila Mariana, foi despido e apresentado \u00e0 cadeira do drag\u00e3o. Nela, o prisioneiro \u00e9 amarrado e recebe choques em v\u00e1rias partes do corpo ao mesmo tempo. Aquela foi sua rotina por 31 dias. N\u00e3o encontro palavras melhores do que as dele sobre o per\u00edodo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEscutam-se gritos de pavor, durante 24 horas por dia, choros de homens e mulheres. Vi velhos de 70 anos serem brutalmente espancados. Pais e filhos, esposas e esposos e irm\u00e3os serem torturados uns na frente dos outros, serem obrigados a torturarem-se uns aos outros. Alguns comparam aquele \u00f3rg\u00e3o ao inferno. Eu diria que essa palavra n\u00e3o consegue exprimir todo o horror que sentem aqueles que tiveram a infelicidade de entrar como prisioneiros naquela casa\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118997\" aria-describedby=\"caption-attachment-118997\" style=\"width: 324px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Transferido9.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118997 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Transferido9.png\" alt=\"\" width=\"324\" height=\"284\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118997\" class=\"wp-caption-text\">Edwaldo foi transferido ao DOI-Codi de S\u00e3o Paulo, um dos principais locais de tortura durante o regime<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s mais de 50 dias, a incomunicabilidade de Seu Edwaldo teve fim e minha m\u00e3e p\u00f4de chorar \u00e0 vontade quando o marido saiu do DOI-Codi. No entanto, considerado subversivo, ele foi enquadrado na Lei de Seguran\u00e7a Nacional e encaminhado ao Hip\u00f3dromo, um pres\u00eddio no Br\u00e1s, com presos pol\u00edticos e comuns. Receberia liberdade condicional apenas em 21 de janeiro de 1977.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No processo de apela\u00e7\u00e3o ao STM, h\u00e1 um breve resumo de cada \u201cr\u00e9u\u201d. Nesse processo, foram 76 indiciados. Meu pai \u00e9 descrito como \u201cdentro deste processo, com Bonfante Demaria [e Ant\u00f4nio] Bernardino dos Santos, a figura de maior atua\u00e7\u00e3o subversiva, cuja a\u00e7\u00e3o se fez sentir pelo Brasil todo\u201d. Seus crimes, arrolados, foram: participar de centros de estudantes e de atividades do partido, atuar como \u201csecret\u00e1rio de Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda\u201d (grifo deles) do PCB de Santos (SP) e oferecer palestras para universit\u00e1rios Al\u00e9m disso, passou mais de um ano estudando sociologia na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, entre 1968 e 1969 \u2013 talvez o mais grave de seus \u201ccrimes\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118998\" aria-describedby=\"caption-attachment-118998\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Edwaldo-e-Ludimila9-1.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118998 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Edwaldo-e-Ludimila9-1.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"208\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118998\" class=\"wp-caption-text\">Edwaldo Alves e seus filhos atualmente<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edwaldo Alves Silva, 79, retomou ao trabalho, sempre ligado ao planejamento e execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Na d\u00e9cada de 1980, desenvolveu projetos de urbaniza\u00e7\u00e3o via empresas p\u00fablicas do Estado de S\u00e3o Paulo, como a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) e a Terrafoto. Atuou em diversos munic\u00edpios como S\u00e3o Paulo, Ribeir\u00e3o Preto e Ca\u00e7apava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1989, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e participou nas duas administra\u00e7\u00f5es petistas em Santos, de Telma de Souza e de David Capistrano. Foi chefe de gabinete do vice-prefeito de Telma, Sergio S\u00e9rvulo, entre outros cargos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quase 30 anos, mudou-se para Vit\u00f3ria da Conquista (BA), onde vive at\u00e9 hoje com a esposa, Maione (57), e meu irm\u00e3o ca\u00e7ula, Pedro (24). Na cidade, colaborou para as cinco administra\u00e7\u00f5es do PT nas gest\u00f5es de Guilherme Menezes e Jos\u00e9 Raimundo Fontes. Al\u00e9m de mim e de Pedro, tem mais duas filhas, Luana Alves (30), vereadora na cidade de S\u00e3o Paulo pelo PSOL, e a enteada Jade (28), que vive em Macei\u00f3 (AL).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma inf\u00e2ncia \u201ccomunista\u201d durante a ditadura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio Bernardino dos Santos, o \u201csubversivo\u201d que distribu\u00eda panfletos contra o regime militar e o jornal Voz Oper\u00e1ria, publica\u00e7\u00e3o do PCB, tamb\u00e9m foi v\u00edtima de viol\u00eancias muito parecidas com as do meu pai, por\u00e9m, j\u00e1 tinha 65 anos. Ele me foi apresentado quando eu ainda era muito jovem, como v\u00f4 Bernardino. Sempre o considerei como tal e, acredito, era querida como neta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro era Em\u00edlio Bonfante Demaria, que eu conhecia como Bonfante e que me levou para conhecer o Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo, quando a filha bailarina se apresentou naquele palco. Bonfante era comandante da Marinha brasileira e uma refer\u00eancia no sindicalismo mar\u00edtimo. Viveu at\u00e9 fevereiro de 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa comunidade envolvia tamb\u00e9m Jayme Rodrigues Estrella J\u00fanior, o Cebola. Que me recordo como uma pessoa divertida e meio descabelada. Era amigo do meu pai desde os tempos de movimento estudantil na Baixada Santista. Desde 1996, ele d\u00e1 nome \u00e0 esta\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria de Santos (SP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m descobri, nas pesquisas para compreender o per\u00edodo da ditadura, que o casal de amigos dos meus pais, Fred e Leo, com quem \u201cformamos amizade de fam\u00edlia\u201d, tamb\u00e9m passaram pelo DOI-Codi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalista pernambucano Frederico Pessoa da Silva reencontrou meu pai na pris\u00e3o, mas j\u00e1 se conheciam de um curso na extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1968. Morreu de c\u00e2ncer aos 67 anos, em 2016, segundo obitu\u00e1rio da Folha de S.Paulo. O texto relembra que Fred nunca superou ter visto, durante as torturas, o estupro da esposa, Eleonora Machado Freire.<\/p>\n<figure id=\"attachment_118999\" aria-describedby=\"caption-attachment-118999\" style=\"width: 319px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/casal-509.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-118999 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/casal-509.png\" alt=\"\" width=\"319\" height=\"239\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-118999\" class=\"wp-caption-text\">As lembran\u00e7as mais antigas de Ludmila s\u00e3o durante o c\u00e1rcere de seu pai<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lembran\u00e7as mais antigas de Ludmila s\u00e3o durante o c\u00e1rcere de seu pai<br \/>\nFoi nessa fam\u00edlia improvisada que cresci. Formada por idealistas, pol\u00edticos, jornalistas, homens e mulheres, provas vivas de como os clich\u00eas s\u00e3o poderosos: em tempos duros, seguiram o caminho da ternura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu pai, Bernardino e Bonfante Demaria estiveram no pres\u00eddio do Hip\u00f3dromo juntos. Nas visitas, minha m\u00e3e fazia quest\u00e3o de me levar. N\u00e3o sei se existe uma explica\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica para isso, mas minhas lembran\u00e7as mais antigas s\u00e3o de l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frequentei o Hip\u00f3dromo entre meus segundo e terceiro anos de vida. As recorda\u00e7\u00f5es s\u00e3o, acredite, muito felizes. Era o dia de ver meu pai. E ele sempre me recebia com um sorriso enorme. Era dia de dormir em um banquinho de madeira no seu colo e brincar no p\u00e1tio de piso vermelho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m me recordo de ver minha m\u00e3e ser revistada por agentes femininas e que, enquanto isso, eu deveria \u201cficar bem quietinha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pris\u00e3o, meu pai aprendeu pirografia em couro e fazia artesanato para presentear amigos e familiares. Quando completei 3 anos, ele me deu de presente um poema. Talvez uma tentativa de, enxergando a pot\u00eancia da vida na filha t\u00e3o nova, renovar a pr\u00f3pria esperan\u00e7a, exaurida e quase aniquilada por um aparato institucionalizado de terror e viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos trechos do poema diz: \u201cProvocaste dor, mas foste a dor que santifica, a dor viva que cria, que traz a alegria do povo, a minha Ludmila\u201d. Ainda tenho a pe\u00e7a em couro, em uma moldura retangular e, como a hist\u00f3ria que me uniu ainda mais \u00e0 do meu pai, marcada a fogo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/POEMA8.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-119003\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/POEMA8.png\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"315\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ludimila.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-119000\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ludimila.png\" alt=\"\" width=\"305\" height=\"280\" \/><\/a><br \/>\nLudmila Pizarro \u00e9 jornalista e atua em coberturas de direitos humanos, economia, ESG e neg\u00f3cios de impacto. Trabalhou em ve\u00edculos como Isto\u00c9 Dinheiro, portal iG e jornal O Tempo. Venceu os pr\u00eamios CDL\/BH (2019) e Abecip (2019)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ag\u00eancia P\u00fablica No dia 30 de setembro de 1975, meu pai n\u00e3o chegou \u00e0s 18h, como fazia todos os dias, para me buscar na creche da Bela Vista, na rua Humait\u00e1, regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo conhecida como Bixiga. Eu havia acabado de completar 2 anos.\u00a0A cerca de 600 metros do local, na rua Conselheiro Ramalho, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":118993,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[67,105],"tags":[3894,3895,713,3892,3893,937],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118992"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=118992"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118992\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":119004,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/118992\/revisions\/119004"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/118993"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=118992"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=118992"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=118992"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}