{"id":118962,"date":"2024-03-28T10:14:19","date_gmt":"2024-03-28T13:14:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=118962"},"modified":"2024-03-28T10:14:19","modified_gmt":"2024-03-28T13:14:19","slug":"honestino-guimaraes-morto-pela-ditadura-sera-homenageado-com-diploma-da-unb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2024\/03\/28\/honestino-guimaraes-morto-pela-ditadura-sera-homenageado-com-diploma-da-unb\/","title":{"rendered":"Honestino Guimar\u00e3es, morto pela ditadura, ser\u00e1 homenageado com diploma da UNB"},"content":{"rendered":"<p><strong>Se estivesse vivo, Honestino completaria, nesta quinta (28), 77 anos de idade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2024-03\/honestino-guimaraes-morto-pela-ditadura-sera-homenageado-com-diploma#\">Ag\u00eancia Brasil &#8211;\u00a0<\/a>Quando as aulas na Universidade de Bras\u00edlia (UnB) come\u00e7aram em 1965, o novo aluno Honestino Guimar\u00e3es, do curso de geologia, se destacava. O rapaz loiro, de 18 anos de idade, de \u00f3culos de lentes grossas, olhos verdes e baixinho, chamava aten\u00e7\u00e3o por onde passava. Ele, que havia ingressado em primeiro lugar geral de toda a institui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era de se gabar. Ficou conhecido por ser carism\u00e1tico e engajado politicamente. Era inconformado com as injusti\u00e7as e com a extin\u00e7\u00e3o de liberdades desde o golpe militar do ano anterior. Se estivesse vivo, Honestino completaria, nesta quinta (28), 77 anos de idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Honestino nunca pegou em armas, mas seus protestos foram a \u201cacusa\u00e7\u00e3o\u201d para que, quase quatro anos depois, fosse preso e expulso da universidade em que um dia sonhou estudar. Faltavam poucas disciplinas (11 cr\u00e9ditos) para chegar ao diploma de ge\u00f3logo. Mas essa hist\u00f3ria do jovem que morreu em 1973 est\u00e1 prestes a ser reescrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso porque a universidade pretende reverter a expuls\u00e3o do estudante e entregar \u00e0 fam\u00edlia o diploma\u00a0<i>post mortem<\/i>\u00a0de Honestino. Isso pode ocorrer no pr\u00f3ximo dia 21 de abril (anivers\u00e1rio da UnB e de Bras\u00edlia). \u201c\u00c9 um ato de justi\u00e7a e de repara\u00e7\u00e3o. O que aconteceu com Honestino e com tantas pessoas naquela \u00e9poca foi brutal e inomin\u00e1vel. A fam\u00edlia, amigas e amigos de Honestino n\u00e3o puderam enterr\u00e1-lo. \u00c9 um dever da universidade fazer a sua parte\u201d, afirmou a atual reitora da institui\u00e7\u00e3o M\u00e1rcia Abrah\u00e3o, que \u00e9 professora de geologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFico sempre muito emocionada quando toco nesse assunto, mas ele foi, sem d\u00favidas, uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para todo o meu trabalho em prol dos direitos humanos aqui na universidade\u201d. A reitora explica que h\u00e1 um tr\u00e2mite interno para confirma\u00e7\u00e3o da homenagem p\u00f3stuma, o que inclui a aprova\u00e7\u00e3o pelo conselho do Instituto de Geoci\u00eancias. \u201cSeria incr\u00edvel fazer essa cerim\u00f4nia na data do anivers\u00e1rio da UnB\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">\u201cAluno brilhante\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os requerentes para a homenagem a Honestino, est\u00e1 um amigo dele de longa data, o economista Cl\u00e1udio Almeida. Ele explica o pedido de homenagem a Honestino teve inspira\u00e7\u00e3o ap\u00f3s decis\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) de\u00a0<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/direitos-humanos\/noticia\/2023-12\/usp-da-diploma-honorifico-a-estudantes-mortos-na-ditadura-militar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">garantir diplomas honor\u00edficos<\/a>, no final do ano passado, para Alexandre Vannucchi Leme e Ronaldo Mouth Queiroz, ambos mortos em 1973 pela ditadura militar. Eles foram alunos do Instituto de Geoci\u00eancias (IGc) e militantes do movimento estudantil da USP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cHonestino sempre foi um aluno brilhante. Quando estava na clandestinidade, os professores aceitavam que ele fizesse prova onde quer que fosse. \u00c9 uma homenagem muito justa, eu acho que tardia inclusive, mas que \u00e9 uma forma de reparar danos\u201d, acredita o amigo, colega desde o ensino m\u00e9dio em Bras\u00edlia. Cl\u00e1udio Amaral recorda que, embora a luta estudantil tenha se tornado prioridade na rotina, o rendimento no curso de geologia era muito importante para ele. \u201cEle fez e cursou at\u00e9 o final\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem tamb\u00e9m defendeu repara\u00e7\u00e3o para a imagem do universit\u00e1rio foi a pesquisadora Betty Almeida, bi\u00f3grafa do l\u00edder estudantil, com o livro\u00a0<i>Paix\u00e3o de Honestino<\/i>. \u201cEle se interessou por pol\u00edtica desde o ensino m\u00e9dio. Na universidade, esse interesse se ampliou e se desenvolveu. Ele assumiu uma posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a nas lutas do movimento estudantil, no enfrentamento da ditadura, que na \u00e9poca estava se acirrando\u201d, aponta a pesquisadora.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">\u201cEm defesa da universidade\u201d<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela avalia que Honestino quis tomar uma posi\u00e7\u00e3o de luta pela defesa da universidade p\u00fablica e gratuita. \u201cNaquela \u00e9poca, havia os chamados acordos MEC-USAID, que eram acordos para encaminhar a universidade para privatiza\u00e7\u00e3o e tornar o ensino adequado a interesses de mercado e n\u00e3o a interesses de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e desenvolvimento de pesquisa nacional\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a bi\u00f3grafa, os atos de mem\u00f3ria, verdade, justi\u00e7a e repara\u00e7\u00e3o ajudam a fazer com que a sociedade tenha conhecimento de que existiram essas pessoas. \u201cQue o Brasil viveu uma ditadura sanguin\u00e1ria que perseguiu seus opositores com ferocidade\u201d. Na UnB, al\u00e9m de Honestino, h\u00e1 mais dois desaparecidos, Ieda Delgado e Paulo de Tarso Silva. Segundo recorda Betty Almeida, os ent\u00e3o estudantes chegaram a se formar e depois foram assassinados por causa das atividades pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Honestino foi o \u00fanico entre os desaparecidos da UnB que foi impedido de se formar. \u201cEle era um bom aluno, respons\u00e1vel e estudioso. Mas as atividades pol\u00edticas foram colocando ele em evid\u00eancia\u201d. Um dos protestos foi no primeiro semestre naquele ano contra um professor chamado Roman Blanco, que era identificado com a pr\u00e1tica de dedurar estudantes e professores que ele julgasse subversivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO docente falsificou documentos e aproveitou aquela situa\u00e7\u00e3o em que a universidade perdeu quase 80% do seu corpo de professores e se incluiu como funcion\u00e1rio \u00e0 custa de documentos falsos, inclusive\u201d, disse a pesquisadora Betty Almeida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudantes, liderados por Honestino, queriam que o professor fosse exclu\u00eddo da universidade. Para isso, eles se organizaram e esvaziaram a sala dele de trabalho e tamb\u00e9m o apartamento onde ele morava no conjunto de pr\u00e9dios que abriga docentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO reitor da \u00e9poca, que era o Caio Benjamin Dias, levou o Roman Blanco para um hotel. E, no dia 26 de setembro de 1968, o Romain Blanco foi demitido da universidade, mas o Honestino foi expulso no mesmo dia\u201d, afirma a bi\u00f3grafa. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.comissaoverdade.unb.br\/images\/docs\/Relatorio_Comissao_da_Verdade.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o An\u00edsio Teixeira Mem\u00f3ria e Verdade<\/a>, que aborda a exclus\u00e3o do estudante, aponta que teve rela\u00e7\u00e3o justamente com a a\u00e7\u00e3o contra o professor Rom\u00e1n Blanco ocorrida meses antes.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Tens\u00e3o na universidade<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passada a a\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 expuls\u00e3o do professor, Honestino foi preso, no dia 29 de agosto daquele ano, quando a universidade foi invadida por militares que espancaram, prenderam e torturaram estudantes e funcion\u00e1rios. Soldados invadiram at\u00e9 salas de aulas com armas e bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. Na \u00e9poca, o presidente da Federa\u00e7\u00e3o dos Estudantes da Universidade de Bras\u00edlia (FEUB) era o l\u00edder estudantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das testemunhas do evento, o tamb\u00e9m estudante de geologia Wilson Pereira ficou assustado, naquela manh\u00e3, com as caminhonetes que chegaram e com militares atirando para cima. \u201cSa\u00edmos correndo no rumo da Esplanada e eu s\u00f3 voltei tr\u00eas dias depois. Aqueles dias foram de muita tens\u00e3o. Lembro de militares entrando em nossas salas de aula atr\u00e1s do Honestino\u201d. Wilson entrou no curso em 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A a\u00e7\u00e3o em agosto de 1968 fez com que 300 estudantes ficassem presos na quadra de basquete. \u201cO Honestino era muito visado\u201d, afirma Claudio Almeida, a essa altura, casado e com uma filha. No \u00faltimo encontro, antes do amigo desaparecer, Claudio ouviu de Honestino que, mesmo fora da universidade. manteria a luta. \u201cEle me disse \u2018minha luta \u00e9 pelo Brasil. E nos demos um grande abra\u00e7o\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Sensibiliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a fam\u00edlia de Honestino, \u00e9 motivo de felicidade a decis\u00e3o da UnB de realizar a homenagem. \u201cAlegraria muito o Honestino tamb\u00e9m. Ele mobilizava os estudantes e fazia toda a agita\u00e7\u00e3o em prol da democracia, da liberdade, dos direitos humanos, enquanto estudava muito outras coisas como economia mundial e pol\u00edtica. Ele realmente era um ser muito engajado com os estudos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia pretende aproveitar a ocasi\u00e3o de homenagens e quer preparar uma premia\u00e7\u00e3o para os estudantes de geologia conhecerem a hist\u00f3ria do l\u00edder estudantil e expressarem por que Honestino teria escolhido geologia como curso, como explica o sobrinho dele, Mateus Guimar\u00e3es, que tamb\u00e9m pesquisa o legado do tio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEle era um estudante inspirador, que lia jornal todos os dias e devorava os livros. Boa parte daquilo que motivou o Honestino a se insurgir contra a ditadura, e a se tornar o l\u00edder, foi justamente a defesa do projeto da Universidade de Bras\u00edlia\u201d, afirma o sobrinho. Honestino, segundo aponta Mateus, defendia a universidade ut\u00f3pica, genuinamente brasileira, voltada para os problemas dos povos oprimidos ao redor do mundo. Com a homenagem, Honestino deve voltar aplaudido mais de 50 anos depois de amea\u00e7as, viol\u00eancias, pris\u00f5es, morte e sil\u00eancios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se estivesse vivo, Honestino completaria, nesta quinta (28), 77 anos de idade Ag\u00eancia Brasil &#8211;\u00a0Quando as aulas na Universidade de Bras\u00edlia (UnB) come\u00e7aram em 1965, o novo aluno Honestino Guimar\u00e3es, do curso de geologia, se destacava. 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