{"id":117193,"date":"2023-12-10T11:32:29","date_gmt":"2023-12-10T14:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=117193"},"modified":"2023-12-10T11:35:03","modified_gmt":"2023-12-10T14:35:03","slug":"no-centro-estao-aqueles-que-nao-se-sentem-representados-pela-direita-nem-pela-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/12\/10\/no-centro-estao-aqueles-que-nao-se-sentem-representados-pela-direita-nem-pela-esquerda\/","title":{"rendered":"\u201cNo centro est\u00e3o aqueles que n\u00e3o se sentem representados pela direita nem pela esquerda\u201d"},"content":{"rendered":"<p class=\"article-intro-text\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A economista chilena Marta Lagos fala sobre o problem\u00e1tico conceito de \u201ccentro\u201d pol\u00edtico e reflete sobre at\u00e9 que ponto a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina n\u00e3o est\u00e1 interessada no extremismo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><i>Como voc\u00ea definiria hoje o centro pol\u00edtico na Am\u00e9rica Latina?<\/i><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma escala de 1 a 10, sendo 1 o alinhamento \u00e0 esquerda e 10 \u00e0 direita, 40% das pessoas se situam no 5. Esse \u00e9 o centro. \u00c9 uma defini\u00e7\u00e3o redundante, mas \u00e9 a realidade. Somos um continente muito conservador, tamb\u00e9m no plano pol\u00edtico, e a maioria se concentra ali, entre a direita e a esquerda.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\"><i>Por qu\u00ea?<\/i><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As for\u00e7as pol\u00edticas s\u00e3o as que imp\u00f5em os temas e as manchetes, e tamb\u00e9m s\u00e3o elas que polarizam. O eleitorado, por\u00e9m, em grande parte, n\u00e3o busca uma ideologia \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, mas algu\u00e9m que satisfa\u00e7a suas demandas; por exemplo, a demanda urgente pelo desmantelamento das desigualdades. O eleitorado, ent\u00e3o, vota em quem lhes garante isso.<\/p>\n<p><strong><i>Por\u00e9m, no fim, votam na direita ou na esquerda, e n\u00e3o no centro.<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, isso \u00e9 paradoxal. As elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o parecem refletir a exist\u00eancia desses 40%. Por\u00e9m, sim, elas mostram como esse centro vota. Vota na direita, sempre e quando ela se mostra moderada, ou na esquerda, sob essa mesma condi\u00e7\u00e3o. E a cada elei\u00e7\u00e3o esse grupo muda de lado, como um p\u00eandulo, para ver se as coisas melhoram. Nenhum presidente latino-americano se elege sem esses votos. Por isso, nas campanhas pol\u00edticas, sobretudo nos segundos turnos, os discursos acabam se moderando. Podemos ver isso no caso de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, no Brasil, ou de Gustavo Petro, na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p><strong><i>Isso significa que na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o h\u00e1 oportunidade para os extremos?<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 que se ter cuidado com isso, porque o que s\u00e3o os extremos? Em nossa regi\u00e3o, salvo o caso do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, at\u00e9 hoje n\u00e3o havia extremos radicais. A direita chilena n\u00e3o se localiza no extremo, nem tampouco o faz o Partido Comunista. Por\u00e9m, isso n\u00e3o impediu o auge do populismo e da demagogia. Venho dizendo h\u00e1 algum tempo: na Am\u00e9rica Latina a amea\u00e7a atual n\u00e3o s\u00e3o os militares, mas o populismo.<\/p>\n<p><strong><i>A desconfian\u00e7a na democracia est\u00e1 presente em toda a Am\u00e9rica Latina. Isso poderia transformar o centro?<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada vez menos pessoas apoiam o atual modelo democr\u00e1tico porque sentem que ele n\u00e3o lhes d\u00e1 solu\u00e7\u00f5es, e no centro est\u00e3o aqueles que n\u00e3o se sentem representados nem pela direita nem pela esquerda. Tudo isso \u00e9 um fracasso das elites que governam, um fracasso que se repete h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas e que nos coloca hoje em um pico hist\u00f3rico de descontentamento. Hoje, 95% dos latino-americanos acreditam que sua democracia n\u00e3o \u00e9 plena. Nesse contexto, somado \u00e0 pandemia e aos 60 milh\u00f5es de pobres que emergiram dessa crise, qualquer populista e demagogo disfar\u00e7ado de moderado encontra terreno f\u00e9rtil.<\/p>\n<p><strong><i>Voc\u00ea poderia explicar melhor como se deu esse fracasso, e como isso influiu no centro?<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tem a ver com o fracasso das elites progressistas. Nos \u00faltimos 30 ou 40 anos, quase todos os pa\u00edses latino-americanos experimentaram uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica. Passaram da ditadura para a democracia, e fizeram-no de m\u00e3os dadas com elites que eram moderadas, mas que fracassaram porque n\u00e3o se comprometeram com o povo. Houve ent\u00e3o uma primeira altern\u00e2ncia democr\u00e1tica no poder, e chegaram elites de direita, tamb\u00e9m moderadas, como Mauricio Macri, na Argentina; Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, no Chile; Iv\u00e1n Duque, na Col\u00f4mbia. Mas essas elites tamb\u00e9m falharam. Sendo assim, agora estamos experimentando uma nova onda da esquerda, que j\u00e1 \u00e9 menos moderada, e uma nova onda da direita muito possivelmente vir\u00e1, tamb\u00e9m menos moderada. A democracia encontra-se em um ponto cr\u00edtico. Hoje, um em cada dois latino-americanos, incluindo os centristas, est\u00e1 disposto a escolher algu\u00e9m para resolver seus problemas, mesmo que seja passando por cima da lei.<\/p>\n<p><strong><i>Se olharmos o tempo anterior \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, como era o centro pol\u00edtico, se \u00e9 que ele existia?<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com algumas exce\u00e7\u00f5es, na Am\u00e9rica Latina havia ditaduras e a democracia era restrita. Votavam menos mulheres que homens, n\u00e3o havia candidatas e n\u00e3o havia participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica suficiente. Assim, em termos de centro pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel comparar. N\u00e3o havia centro, s\u00f3 havia uma elite no poder e o desejo crescente de romper com isso. Cada pa\u00eds viveu essa fase de maneira distinta, e o Paraguai foi o \u00faltimo. E h\u00e1 casos interessantes como, por exemplo, Alberto Fujimori, no Peru, e Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela. Ambos foram ditadores, mas parte de seu \u00eaxito resultou de terem inclu\u00eddo a popula\u00e7\u00e3o. Assim permaneceram no poder, mas tamb\u00e9m produziram uma transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><i>H\u00e1 uma ideia de que o centro pol\u00edtico \u00e9 um lugar onde predomina o consenso. Alguma sociedade latino-americana est\u00e1 pr\u00f3xima de alcan\u00e7ar isso?<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Uruguai \u00e9 talvez o \u00fanico pa\u00eds da regi\u00e3o que desfruta de uma democracia plena. O pa\u00eds est\u00e1, digamos, acima dos outros, em uma nuvem, enquanto o resto segue em terra. \u00c9 uma na\u00e7\u00e3o moderada em todos os sentidos da palavra; at\u00e9 a delinqu\u00eancia \u00e9 moderada. Por\u00e9m, claro, como dizia o ex-presidente Pepe Mujica, h\u00e1 3 milh\u00f5es de uruguaios e 13 milh\u00f5es de vacas. H\u00e1 capital f\u00edsico, a desigualdade social \u00e9 muito mais baixa que no resto da Am\u00e9rica Latina, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 principalmente agn\u00f3stica e n\u00e3o h\u00e1 grandes conflitos sociais que inspirem movimentos e protestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>O centro poderia transformar-se diante das mudan\u00e7as que vivem v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos para incluir grupos sociais historicamente exclu\u00eddos e suas reivindica\u00e7\u00f5es?<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de centro n\u00e3o mudaria, mas sim a quantidade de gente que poderia querer concentrar-se ideologicamente na esquerda ou na direita. As pessoas exclu\u00eddas, em muitos pa\u00edses, nem sequer teriam a possibilidade de participar desses conceitos. Quando algu\u00e9m passa a participar, a primeira atitude \u00e9 tomar uma posi\u00e7\u00e3o, e isso muda o espectro pol\u00edtico. Entretanto, tamb\u00e9m nesse caso pode-se produzir rapidamente um descontentamento<\/p>\n<aside class=\"article-aside\">\n<div class=\"article-author-c d-flex\">\n<figure class=\"article-author-image-c\">\n<div class=\"teaserBildContainer\"><span class=\"teaser-author-no-image\"><span class=\"teaser-author-no-image-text\">ML<\/span><\/span><\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"article-author-text-c\">\n<p class=\"article-author-name webfont-medium\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\">Marta Lagos<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"article-author-text\" style=\"text-align: justify;\">Marta Lagos \u00e9 uma das vozes mais influentes da Am\u00e9rica Latina quando se trata de entender as mudan\u00e7as pol\u00edticas da regi\u00e3o. H\u00e1 mais de 40 anos vem se dedicando a realizar e analisar pesquisas. Em 1995, fundou o Latinobar\u00f3metro, a enquete anual de opini\u00e3o p\u00fablica de maior prest\u00edgio do continente, que faz suas medi\u00e7\u00f5es com base em mais de 20 mil entrevistas realizadas em 18 pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lagos foi diretora do Centro de Estudos de Realidade Contempor\u00e2nea (Cerc), onde criou um sistema que monitora a transi\u00e7\u00e3o chilena at\u00e9 hoje, e dirige a consultoria MORI Chile, com a qual fez estudos de opini\u00e3o em mais de 20 pa\u00edses. Tamb\u00e9m faz parte do grupo de pesquisadores da Pesquisa Mundial de Valores e do comit\u00ea que organiza o Estudo Mundial de Sistemas Eleitorais. No mais, \u00e9 membro da diretoria do Banco Mundial da Mulher e consultora de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"article-author-c d-flex\">\n<div class=\"article-author-text-c\">\n<p class=\"article-author-text\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\">Camilo Jim\u00e9nez Santofimio<\/span> \u00e9 jornalista, editor e gestor de m\u00eddia. Foi rep\u00f3rter e editor da revista\u00a0<i>Semana<\/i>, colaborador dos jornais\u00a0<i>S\u00fcddeutsche Zeitung<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Die Zeit<\/i>, e diretor da\u00a0<i>VICE<\/i>\u00a0e\u00a0 da revista\u00a0<i>Arcadia<\/i>,\u00a0 na Col\u00f4mbia. Hoje \u00e9 diretor de opera\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gia da\u00a0<i>R\u00e1dio Ambulante Estudios<\/i>. Nasceu em 1981, em Bogot\u00e1, e estudou Filosofia e Hist\u00f3ria em Berlim.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p class=\"article-copyright\" style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Cl\u00e1udio Andrade<\/p>\n<p class=\"article-copyright\">Copyright: Texto: Goethe-Institut, Camilo Jim\u00e9nez. Esse texto possui\u00a0<a href=\"http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/3.0\/de\/\">licen\u00e7a Creative Commons Atribui\u00e7\u00e3o \u2013 compartilhamento sob as mesmas condi\u00e7\u00f5es que a Licen\u00e7a 3.0 Alemanha<\/a>.<\/p>\n<\/aside>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A economista chilena Marta Lagos fala sobre o problem\u00e1tico conceito de \u201ccentro\u201d pol\u00edtico e reflete sobre at\u00e9 que ponto a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina n\u00e3o est\u00e1 interessada no extremismo. Como voc\u00ea definiria hoje o centro pol\u00edtico na Am\u00e9rica Latina? 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