{"id":116788,"date":"2023-11-09T08:49:07","date_gmt":"2023-11-09T11:49:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=116788"},"modified":"2023-11-09T08:49:07","modified_gmt":"2023-11-09T11:49:07","slug":"de-onde-sairam-os-4-milhoes-de-escravizados-que-chegaram-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/11\/09\/de-onde-sairam-os-4-milhoes-de-escravizados-que-chegaram-ao-brasil\/","title":{"rendered":"De onde sa\u00edram os 4 milh\u00f5es de escravizados que chegaram ao Brasil?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Lucas Veloso Colabora\u00e7\u00e3o para Ecoa, em S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil para sempre vai carregar um t\u00edtulo triste de se ter: de todas as Am\u00e9ricas, \u00e9 o pa\u00eds que recebeu o maior n\u00famero de pessoas africanas escravizadas durante os quase quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os s\u00e9culos 16 e 19, cerca quatro milh\u00f5es de homens, mulheres e crian\u00e7as foram for\u00e7ados a deixar para tr\u00e1s suas vidas e vir para o Brasil &#8211; \u00e9 o equivalente a mais de um ter\u00e7o de todo o n\u00famero de escravizados que deixaram a \u00c1frica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos registros hist\u00f3ricos, o Benin \u00e9 importante porque foi um dos \u00faltimos lugares que essas pessoas pisaram antes de chegar ao Brasil. No s\u00e9culo 18, quando o Reino de Daom\u00e9, que entre os anos 1600 e 1904 se manteve no dom\u00ednio de boa parte da regi\u00e3o que hoje \u00e9 a Rep\u00fablica do Benin, era a grande pot\u00eancia escravista da regi\u00e3o, a maior parte do tr\u00e1fico estava concentrado l\u00e1. A partir do s\u00e9culo 19 a \u00e1rea da atual Nig\u00e9ria entra com for\u00e7a na disputa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e1rea do antigo reino do Daom\u00e9 foi um dos espa\u00e7os mais importantes do tr\u00e1fico negreiro transatl\u00e2ntico. O porto de Ouidah foi o segundo maior ponto de embarque de escravizados na hist\u00f3ria do tr\u00e1fico, ficando atr\u00e1s apenas de Luanda, em Angola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A base de dados online Slave Voyages mostra que quase dois milh\u00f5es de africanos deixaram os portos da grande regi\u00e3o conhecida como Costa da Mina ou Golfo do Benim em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s Am\u00e9ricas entre os s\u00e9culos 16 e 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 o Brasil, que estreita as suas rela\u00e7\u00f5es com essa zona africana a partir do final do s\u00e9culo 17, recebeu metade desse total: cerca de 975 mil pessoas. A Costa da Mina foi a segunda maior regi\u00e3o de embarque de cativos para o Brasil, s\u00f3 ficando atr\u00e1s de Angola.<\/p>\n<p>A maior parte dos homens, mulheres e crian\u00e7as vindas do Benin desembarcou na Bahia, mas h\u00e1 registros da presen\u00e7a de africanos daquela \u00e1rea tamb\u00e9m nos portos do Recife, do Rio de Janeiro, Maranh\u00e3o e, por meio do tr\u00e1fico interno, at\u00e9 em Minas Gerais e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<figure id=\"attachment_116791\" aria-describedby=\"caption-attachment-116791\" style=\"width: 327px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-116791 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Porto6.png\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Porto6.png 327w, https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Porto6-136x86.png 136w\" sizes=\"(max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-116791\" class=\"wp-caption-text\">Porta do N\u00e3o Retorno, em Ouidah, cidade do Benin &#8212; agora transformada em um memorial, antes foi o \u00faltimo ponto de parada de escravizados que vinham para as Am\u00e9ricas<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>&#8216;Maior exportador&#8217;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu doutorado na Universidade de Hull, no Reino Unido, o mestre em Hist\u00f3ria Social pela Universidade Federal da Bahia e pesquisador Carlos da Silva Junior estudou as origens \u00e9tnicas dos africanos escravizados na Bahia na segunda metade do s\u00e9culo 18 e primeira do s\u00e9culo 19. &#8220;V\u00e1rios fatores contribu\u00edram para que o Benin se tornasse uma importante regi\u00e3o fornecedora de escravizados para o Brasil. Em primeiro lugar, a crise de var\u00edola em Luanda no final do s\u00e9culo 17 levou os negreiros luso-brasileiros a buscar outras \u00e1reas, como a Costa da Mina&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viagem entre a Bahia e a Costa da Mina durava cerca de tr\u00eas meses. A Bahia, principal parceiro comercial dos reinos da regi\u00e3o do Benin (gra\u00e7as especialmente \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de Dom Francisco F\u00e9lix, um baiano que se estabeleceu no Benin e tinha o monop\u00f3lio do com\u00e9rcio na regi\u00e3o), exportava tabaco de terceira qualidade para a Costa da Mina, onde era valorizado. Esse produto era fundamental nas rela\u00e7\u00f5es comerciais, estabelecendo la\u00e7os entre os comerciantes e a elite local africana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fator importante foi o ouro, que era abundante no Brasil entre 1700 e 1750. O ouro em p\u00f3 era transportado nos navios da Bahia, do Rio de Janeiro e do Recife para a Costa da Mina, onde havia demanda. O reino de Daom\u00e9, em particular, utilizava o ouro para pagar suas tropas, adquirir mercadorias europeias e at\u00e9 mesmo capturar mais escravizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o pesquisador Carlos, o com\u00e9rcio de escravizados teve um impacto significativo na popula\u00e7\u00e3o e na sociedade do Benin. &#8220;Em primeiro lugar, estimulou a pr\u00e1tica de escraviza\u00e7\u00e3o no interior do continente africano, levando a uma flexibiliza\u00e7\u00e3o das formas de escraviza\u00e7\u00e3o e ao aumento de sequestros e conflitos. Guerras foram intensificadas para conquistar outros reinos e obter mais cativos para o com\u00e9rcio&#8221;, resume.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio resultou em zonas despovoadas devido \u00e0s expedi\u00e7\u00f5es escravizadoras frequentes, causando uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da popula\u00e7\u00e3o em certas regi\u00f5es. Al\u00e9m disso, o tr\u00e1fico e a demanda europeia e americana por escravizados estimularam conflitos que levaram \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de reinos e ao surgimento de outros, como o caso da derrota do reino de Alad\u00e1 pelo Daom\u00e9, levando \u00e0 funda\u00e7\u00e3o do reino de Porto Novo.<\/p>\n<p><strong>Olhar sobre o tr\u00e1fico de pessoas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nAinda de acordo com o pesquisador, no Benin atual, h\u00e1 uma conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o papel do pa\u00eds no com\u00e9rcio transatl\u00e2ntico de escravizados de forma geral. &#8220;O monumento do Portal do N\u00e3o-Retorno em Ouidah serve como um lembrete das milh\u00f5es de pessoas enviadas para as Am\u00e9ricas como escravizadas. A presen\u00e7a da comunidade dos agud\u00e1s, descendentes dos retornados do s\u00e9culo 19, tamb\u00e9m mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria do tr\u00e1fico com o Brasil&#8221;, destaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele aponta tamb\u00e9m que, embora o Benin tenha erguido um monumento em mem\u00f3ria das v\u00edtimas do com\u00e9rcio de escravizados, no Brasil ainda h\u00e1 um caminho a percorrer nesse sentido. &#8220;Pouco se fala sobre os traficados do antigo reino do Daom\u00e9, enquanto os traficantes brasileiros s\u00e3o homenageados com est\u00e1tuas, nomes de ruas e pr\u00e9dios. A conscientiza\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do com\u00e9rcio de escravizados ainda s\u00e3o desafios tanto no Benim quanto no Brasil&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*<\/strong><br \/>\nAcaraj\u00e9 ou akar\u00e1? S\u00f3 tem feijoada no Brasil? E quem s\u00e3o os &#8220;brasileiros-africanos&#8221; do Benin? Pela primeira vez na \u00c1frica, o chef Jo\u00e3o Diamante mergulha entre passado, presente e futuro da hist\u00f3ria e do sabor brasileiro. Assista agora ao primeiro epis\u00f3dio de &#8220;Origens &#8211; Um chef brasileiro no Benin&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas Veloso Colabora\u00e7\u00e3o para Ecoa, em S\u00e3o Paulo O Brasil para sempre vai carregar um t\u00edtulo triste de se ter: de todas as Am\u00e9ricas, \u00e9 o pa\u00eds que recebeu o maior n\u00famero de pessoas africanas escravizadas durante os quase quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o. Entre os s\u00e9culos 16 e 19, cerca quatro milh\u00f5es de homens, mulheres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":116789,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[109,72],"tags":[2904,234,2903,2905,1033,2902],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116788"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116788"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116788\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":116792,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116788\/revisions\/116792"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/116789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116788"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116788"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116788"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}