{"id":116138,"date":"2023-09-26T04:14:07","date_gmt":"2023-09-26T07:14:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=116138"},"modified":"2023-09-26T04:14:07","modified_gmt":"2023-09-26T07:14:07","slug":"o-litro-o-quilo-e-as-conversas-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/09\/26\/o-litro-o-quilo-e-as-conversas-do-fim-do-mundo\/","title":{"rendered":"O litro, o quilo e as conversas do fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quem veio primeiro, o litro ou o quilo? Pelo que sei (posso at\u00e9 estar errado), o litro na forma de medida, mesmo antes de Cristo na civiliza\u00e7\u00e3o da Mesopot\u00e2mia. Na era primitiva, funcionava o escambo, ou troca de mercadorias, inclusive por servi\u00e7os, o que perdura at\u00e9 hoje na modalidade da moeda como esp\u00e9cie de compra e venda.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Nas feiras de antigamente, nas cidades do interior, lembro ainda menino, e n\u00e3o \u00e9 coisa de velho, os mantimentos (farinha, feij\u00e3o, milho, arroz), frutas e outras coisas mais eram vendidos na base do litro e da unidade. S\u00f3 as carnes eram no quilo. Recordo bem do meu pai vendendo farinha nas medidas de cedro de cinco, tr\u00eas, dois e at\u00e9 um litro. Hoje tem at\u00e9 comida a quilo.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Os feirantes proseavam alegres nos encontros de compadres e comadres sobre os tempos de chuvas e secas, not\u00edcias de parentes de S\u00e3o Paulo, vizinhos e at\u00e9 mo\u00e7as que fugiam de casa com seus namorados. Diziam que o cara roubou a virgem donzela.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Existiam hist\u00f3rias de coron\u00e9is, gente valente, de vaqueiros destemidos nos espinhos do agreste sert\u00e3o da caatinga e causos de pescador e ca\u00e7ador. Tinha-se mais calor humano. E quando se recebia uma carta pelos correios, era aquela felicidade! Saia-se mostrando para os amigos e parentes. Era at\u00e9 motivo de festa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0Nos tempos atuais, tudo \u00e9 na base do quilo, desde nossa saborosa e vigorosa banana, at\u00e9 a manga, a ma\u00e7\u00e3, o mam\u00e3o e todos legumes. S\u00f3 est\u00e1 faltando vender as folhas (alface, r\u00facula, coentro, salsa) no peso. At\u00e9 o papo \u00e9 no quilo, porque ningu\u00e9m atura mais ouvir o outro por muito tempo, pois pode ser taxado de chato. No m\u00e1ximo 50 ou 100 gramas de prosa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O pior de tudo \u00e9 que ningu\u00e9m sabe como est\u00e1 a balan\u00e7a. No Brasil dos fals\u00e1rios e golpistas, n\u00e3o d\u00e1 para confiar na fiscaliza\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os do poder p\u00fablico (prec\u00e1ria e at\u00e9 corrupta) e nem nos comerciantes, muitos gananciosos e inescrupulosos. Nem sabemos quando estamos sendo roubados. Nos supermercados, os l\u00edquidos n\u00e3o est\u00e3o completos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0E a\u00ed algu\u00e9m diz: S\u00e3o coisas dos tempos antigos. O progresso trouxe mudan\u00e7as. Ser\u00e1 que para melhor? S\u00f3 se for para eles, os abonados e aqueles que, de tanto viverem em disparada na corrida pelo dinheiro, acham tudo normal. Nem percebem que estamos desumanizados.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0Por\u00e9m, este \u00e9 outro assunto sociol\u00f3gico e filos\u00f3fico mais profundo para se discutir. A conversa aqui mesmo \u00e9 sobre o litro, o quilo e os papos agrad\u00e1veis e cordiais dos compadres e comadres. Naquela \u00e9poca n\u00e3o era cafona as crian\u00e7as e jovens respeitarem os pais e at\u00e9 darem ben\u00e7\u00e3o aos mais velhos quando se cruzavam no campo e nas ruas das cidades. As pessoas eram bem mais humanas e quase n\u00e3o se ouvia not\u00edcias de viol\u00eancias b\u00e1rbaras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Ser\u00e1 que estou sendo rom\u00e2ntico e nost\u00e1lgico demais? Nas cidades, principalmente no final da tarde, homens e mulheres colocavam as cadeiras no passeio, na porta de suas casas, para v\u00e1rios dedos de prosa, sem pressa. Hoje n\u00e3o se faz mais isso, e o contato com o vizinho \u00e9 coisa rara. Nas grandes metr\u00f3poles, mal se conhecem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Havia aquela conversa de p\u00e9 de orelha ou de ouvido quando era um segredo que logo se tornava p\u00fablico pelo fofoqueiro ou fofoqueira, que passava o dia na janela vendo o movimento. E as conversas dos anci\u00f5es, carregadas de sabedoria e cultura sobre a vida! Eles atualmente s\u00e3o raramente consultados porque s\u00e3o vistos como imprest\u00e1veis e caducos, lel\u00e9s da cuca.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Oh cumpade, cad\u00ea N\u00f4 de Dina?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">-Ah cumpade, n\u00e3o sabe n\u00e3o? A fogosa da mulher fugiu com outro e de desgosto ele sumiu pra San Palo. Tamb\u00e9m n\u00e3o dava no coro!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; E aquela morena da filha das ancas aprumadas?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Ficou mal falada, cumpade! Puxou a m\u00e3e e anda por a\u00ed regaterando com todo mundo. T\u00e1 amasiada com um cara l\u00e1 do Norte, cabra meio esquisito com jeito de pistolero.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; \u00c9 cumpade, coisa de fim do mundo. A terra \u00e9 s\u00f3 sequid\u00e3o. S\u00f3 se ver gente descendo de pau-de-arara. Virou formigu\u00earo. As lavouras se acabando e o gado berrando na cacimba.\u00a0 Os mo\u00e7os de hoje s\u00f3 quere saber de bater perna nas cidades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0As conversas entre as comadres eram mais coisa de mulheres, das intimidades do sexo, o tabu da \u00e9poca. Era at\u00e9 pecado falar nisso em p\u00fablico. Os homens n\u00e3o tomavam parte. Hoje existe uma abertura em p\u00e9 de igualdade e, nessa quest\u00e3o, foi um grande avan\u00e7o. Elas est\u00e3o inseridas no mercado e em postos de decis\u00f5es.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0No entanto, em se tratando de litro e quilo, est\u00e1 todo mundo embolado e nivelado na mesma muvuca da desumaniza\u00e7\u00e3o, da barbaridade, da falta de respeito para com o outro, do consumismo, da falta de leitura e cultura, do ego\u00edsmo e do individualismo. Todos de celular na m\u00e3o s\u00f3 est\u00e3o de olho no dinheiro, e nem olham para o n\u00edvel da balan\u00e7a nos restaurantes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0At\u00e9 a intelig\u00eancia e o conhecimento s\u00e3o classificados na base do quilo, mesmo assim desvalorizados e n\u00e3o muito levados em conta. Ali\u00e1s, um quilo de ignor\u00e2ncia, de extremismo, de intoler\u00e2ncia e \u00f3dio est\u00e1 valendo mais que um de saber e estudo. Um quilo de corrupto e bandidagem vale mais que um de honestidade e car\u00e1ter. O litro \u00e9 coisa do passado, tenho at\u00e9 um em meu espa\u00e7o cultural como pe\u00e7a de museu.\u00a0 <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem veio primeiro, o litro ou o quilo? Pelo que sei (posso at\u00e9 estar errado), o litro na forma de medida, mesmo antes de Cristo na civiliza\u00e7\u00e3o da Mesopot\u00e2mia. 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