{"id":115827,"date":"2023-09-13T03:15:13","date_gmt":"2023-09-13T06:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=115827"},"modified":"2023-09-13T03:15:13","modified_gmt":"2023-09-13T06:15:13","slug":"suely-rolnik-para-o-brasil-esconjurar-o-fascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/09\/13\/suely-rolnik-para-o-brasil-esconjurar-o-fascismo\/","title":{"rendered":"Suely Rolnik: Para o Brasil esconjurar o fascismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"row\">\n<div id=\"single-the-title\" class=\"column large-12 small-12 text-center mb-30\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row row-small\">\n<div id=\"single-the-excerpt\" class=\"column large-12 small-12 text-center mb-30 \">\n<div class=\"post-excerpt\">\n<p>Publicado 20\/01\/2023 \u00e0s 19:11 &#8211; Atualizado 22\/01\/2023 \u00e0s 13:42<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escravista, patriarcal e violenta, forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 f\u00e9rtil para subjetividades que querem a brutaliza\u00e7\u00e3o e o exterm\u00ednio do outro. Sa\u00edda precisa ser micropol\u00edtica, tamb\u00e9m: libertar nossos inconscientes do narcisismo que se blinda \u00e0 diferen\u00e7a<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"column large-12 small-12 mb-30 \">\n<div class=\"post-info\">\n<div class=\"first-line\">\n<div class=\"channel\"><strong class=\"text-outraspalavras\">OUTRAS<\/strong>PALAVRAS<\/div>\n<div class=\"category\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/category\/descolonizacoes\/\" rel=\"category tag\">DESCOLONIZA\u00c7\u00d5ES<\/a><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"author\">por\u00a0<a title=\"Posts de Suely Rolnik\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/author\/suely-rolnik\/\" rel=\"author\">Suely Rolnik<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"single-the-content\" class=\"column large-12 small-12\">\n<p>Por\u00a0<strong>Suely Rolnik<\/strong>\u00a0| Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol:\u00a0<strong>Josy Pan\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-background\">T\u00edtulo original:\u00a0<strong>Brasil: desafios frente ao sinistro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A bestial invas\u00e3o das sedes dos tr\u00eas poderes da Rep\u00fablica Brasileira foi um passo a mais na escalada de um movimento de extrema direita que come\u00e7a a mostrar sua cara, em 2005, durante o primeiro governo de Lula. Um movimento resultante da instala\u00e7\u00e3o no pa\u00eds da nova modalidade de golpe, pr\u00f3pria do capitalismo em sua vers\u00e3o financeira, em que se unem neoliberalismo e um conservadorismo dos mais arcaicos e ferozes. Como descrevo em meu livro\u00a0<em>Esferas da insurrei\u00e7\u00e3o<\/em>.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/suelyrolnik-para-o-brasil-esconjurar-o-fascismo\/#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>, a nova modalidade de golpe se d\u00e1 em v\u00e1rias etapas (a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro em 2018 \u00e9 apenas uma delas) e est\u00e1 longe de chegar ao fim. Desde que come\u00e7ou a se estabelecer este cen\u00e1rio, temos tentado nos equilibrar numa corda bamba cada vez mais perigosa.<\/p>\n<div id=\"outra-1733879238\" class=\"outra-oq23-texto\">\n<div id=\"outra-244477362\"><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-2\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2.png\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" alt=\"\" width=\"681\" height=\"171\" \/><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, vivemos uma tens\u00e3o terr\u00edvel durante esses oito anos, agravando-se dia ap\u00f3s dia. Depois, o al\u00edvio que veio com a recente vit\u00f3ria de Lula \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e que permaneceu no ar por alguns dias. Mas a alegria durou pouco e foi logo interrompida pela intensifica\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es massivas de bolsonaristas por todo o pa\u00eds, e seus acampamentos nas media\u00e7\u00f5es de quart\u00e9is do Ex\u00e9rcito e outras institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas (n\u00e3o s\u00f3 militares), que adquiriu um tom mais b\u00e9lico a partir da tentativa malograda de explos\u00e3o de uma bomba nas imedia\u00e7\u00f5es do aeroporto de Bras\u00edlia. Depois, veio de novo o regozijo com a festa da posse de Lula no dia 1\u00ba de janeiro e a passagem da faixa presidencial por representantes de setores sociais que sempre estiveram exclu\u00eddos do banquete republicano. Essa foi a resposta do novo governo ao sil\u00eancio de Bolsonaro, desde o resultado das elei\u00e7\u00f5es, e \u00e0 sua recusa de assumir a responsabilidade de passar a faixa presidencial, fugindo covardemente para a Fl\u00f3rida (para\u00edso predileto dos novos ricos da Am\u00e9rica Latina), dois dias antes. A cena em quest\u00e3o d\u00e1 um poderoso corpo de imagem ao fato ineg\u00e1vel e t\u00e3o denegado de que o presidente da Rep\u00fablica \u00e9 mandat\u00e1rio da sociedade, englobando todos seus segmentos. Uma semana depois, uma nova interrup\u00e7\u00e3o com a invas\u00e3o truculenta da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, seguida de uma r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o do governo que a desarmou com m\u00e3o forte. E a coisa segue nesta corda bamba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfrentar essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o envolve apenas o cen\u00e1rio nacional, j\u00e1 que o mesmo resulta de estrat\u00e9gias de um novo tipo (muito bem orquestradas e com vultuoso financiamento), introduzidas pelo poder globalit\u00e1rio alcan\u00e7ado pelo capitalismo contempor\u00e2neo. Como comento naquele livro, o Brasil tem sido um importante laborat\u00f3rio destas estrat\u00e9gias, o que foi facilitado por uma caracter\u00edstica espec\u00edfica de nossa hist\u00f3ria. Compartilhamos com os demais pa\u00edses da Am\u00e9rica a marca estrutural da funda\u00e7\u00e3o de nossa exist\u00eancia como na\u00e7\u00e3o pelo empreendimento colonial e a viol\u00eancia que lhe \u00e9 intr\u00ednseca: o roubo das terras, o genoc\u00eddio dos povos origin\u00e1rios, o sequestro de milhares de africanos, vendidos como escravos aos donos das terras usurpadas (o Brasil, diga-se de passagem, \u00e9 o pa\u00eds que recebeu o maior contingente de africanos escravizados e traficados, chegando a 4,86 milh\u00f5es). No entanto, \u00e9 singular o modo como esta viol\u00eancia estrutural se atualiza em nosso territ\u00f3rio ao longo de sua hist\u00f3ria, al\u00e9m do fato de sermos o \u00fanico pa\u00eds no continente que jamais reconheceu a exist\u00eancia desta viol\u00eancia e tampouco lhe deu respostas \u00e0 sua altura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, tivemos uma Independ\u00eancia proclamada por iniciativa do pr\u00f3prio filho do rei de Portugal (que havia sido nomeado pr\u00edncipe regente do Brasil, quando seu pai, o rei D. Jo\u00e3o VI, teve que voltar a Portugal a pedido da Corte, para conter as for\u00e7as liberais que comandaram a chamada Revolu\u00e7\u00e3o do Porto). Sob sua reg\u00eancia, entre 1821 e 1822, o Conselho dos Ministros foi formado pela elite dos grandes produtores agr\u00edcolas brasileiros e \u00e9 com seu apoio que, em 1822, D. Pedro I proclamou a Independ\u00eancia do Brasil. Em seguida, fomos o \u00faltimo pa\u00eds do continente a abolir a escravatura (j\u00e1 quase final do s\u00e9culo XIX), sendo que a condi\u00e7\u00e3o de absoluta precariedade das pessoas de pele negra jamais foi abolida (e assim continua ainda hoje). O mais absurdo \u00e9 que, quando se proclamou a Rep\u00fablica, os militares respons\u00e1veis pelo golpe que p\u00f4s fim \u00e0 monarquia, tomando o comando do novo regime (mais uma vez com o apoio das mesmas elites do agroneg\u00f3cio), poucos anos depois passaram o comando a estes grandes fazendeiros, como uma forma de \u201cindeniz\u00e1-los\u201d por terem perdido seus escravos. E enquanto se continuava ignorando os negros, entregues \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte, sem qualquer tipo de apoio, o governo (supostamente republicano) ofereceu terras, equipamentos, sementes para plantar e todas as facilidades a cinco milh\u00f5es de europeus (sobretudo camponeses pobres), cuja imigra\u00e7\u00e3o foi financiada pelo governo brasileiro como parte de um projeto que aspirava ao \u201cembranquecimento\u201d de nossa sociedade. Depois, j\u00e1 no s\u00e9culo XX, houve uma sequ\u00eancia de ditaduras, em cujo t\u00e9rmino sempre se anistiou os respons\u00e1veis pelas atrocidades cometidas por estes regimes (um pacto perverso disfar\u00e7ado sob a m\u00e1scara da cordialidade que supostamente caracterizaria os brasileiros), ao contr\u00e1rio do que ocorreu no resto do continente. Um filme recente,\u00a0<em>Argentina 1985<\/em>\u00a0(dirigido por Santiago Mitre), mostra como promotores p\u00fablicos lograram julgar e prender os respons\u00e1veis pelas viol\u00eancias assustadoramente perversas cometidas pela ditadura naquele pa\u00eds, processo que foi amplamente compartilhado pela sociedade. Aqui, nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ter deixado impune esta sequ\u00eancia de viol\u00eancias fez com que os traumas que estas provocaram (e continuam provocando) jamais tenham sido elaborados. A consequ\u00eancia disso \u00e9 que essas infinitas feridas seguem abertas, encapsuladas na mem\u00f3ria do corpo dos brasileiros, junto com suas respostas inadequadas \u00e0s mesmas (respostas reativas decorrentes da impossibilidade de acess\u00e1-las). Tais feridas voltam a infeccionar em situa\u00e7\u00f5es de crise, como a que est\u00e1 acontecendo agora, produzindo rompantes de reatividade em massa. Por este motivo, somos muito mais vulner\u00e1veis \u00e0 nova modalidade de poder do sistema capitalista, que aprimorou seu maquin\u00e1rio de produ\u00e7\u00e3o de subjetividade, cuja manifesta\u00e7\u00e3o extrema podemos chamar de fascista pelo tipo de din\u00e2mica que a caracteriza, embora seja distinta do que foi o fascismo hist\u00f3rico, pelas diferen\u00e7as dos respectivos contextos. Uma dessas diferen\u00e7as mais evidentes \u00e9 o avan\u00e7o das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o, e, portanto, de manipula\u00e7\u00e3o, que se tornaram altamente sofisticadas e muito mais eficazes. Tais tecnologias criam igualmente as condi\u00e7\u00f5es para a gest\u00e3o globalit\u00e1ria desta m\u00e1quina infernal, adaptada \u00e0s especificidades n\u00e3o s\u00f3 de cada pa\u00eds sob seu dom\u00ednio, mas tamb\u00e9m dos distintos grupos que comp\u00f5em suas respectivas sociedades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se produziu o vandalismo que tomou de assalto os pr\u00e9dios dos Tr\u00eas Poderes da Rep\u00fablica, j\u00e1 est\u00e1vamos nesta situa\u00e7\u00e3o complexa e de alta tens\u00e3o e sab\u00edamos que seria muito dif\u00edcil para o governo Lula manej\u00e1-la. No plano nacional, ele ter\u00e1 que driblar manobras de advers\u00e1rios muito hostis a seus projetos (instalados no Congresso, nas For\u00e7as Armadas, na Pol\u00edcia Federal etc., com a cumplicidade ativa de uma parcela significativa do empresariado nacional, especialmente os do agroneg\u00f3cio que estiveram no poder desde a proclama\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia). Esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual Lula teve que estabelecer uma pol\u00edtica de amplas alian\u00e7as. J\u00e1 no plano internacional, apesar de que, por ora, Lula conte com o apoio de governos n\u00e3o alinhados com a nova extrema direita, as for\u00e7as internas contra ele contam com o apoio da mesma mundialmente organizada (que, inclusive, pode sair vitoriosa nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es em pa\u00edses que hoje apoiam o atual governo brasileiro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o desafio n\u00e3o para por a\u00ed: al\u00e9m de enfrentar estas for\u00e7as na esfera macropol\u00edtica, Lula ter\u00e1 que se haver com a ascens\u00e3o do fascismo na sociedade brasileira, o que n\u00e3o se limita a conceber estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o na esfera macropol\u00edtica, mas envolve igualmente a esfera micropol\u00edtica. Refiro-me \u00e0 esfera do regime de inconsciente colonial-racial-patriarcal-capitalista, a f\u00e1brica de mundos cujo maquin\u00e1rio (abordado no mencionado livro e reelaborado num ensaio publicado mais recentemente<a id=\"sdfootnote2anc\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/suelyrolnik-para-o-brasil-esconjurar-o-fascismo\/#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>) \u00e9 respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de um certo modo de subjetiva\u00e7\u00e3o e suas forma\u00e7\u00f5es no campo social, que tem no fascismo a manifesta\u00e7\u00e3o mais grave de sua patologia. N\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio se desfazer da subjetividade fascista, que j\u00e1 afeta quase a metade da sociedade brasileira, propor\u00e7\u00e3o claramente expressa no resultado das urnas. \u00c9 verdade que nem todos aqueles que votaram em Bolsonaro, em 2022, se identificam com os atos terroristas que v\u00eam se repetindo e que culminaram na invas\u00e3o de Bras\u00edlia. No entanto, que se identifiquem ou n\u00e3o com este extremismo, a mente de muitos deles se encontra tomada por uma esp\u00e9cie de colapso cognitivo que, com diferentes graus de gravidade, os mant\u00e9m distantes da realidade, capturados em narrativas paranoides que beiram o del\u00edrio. Entre os mais fan\u00e1ticos, chega-se \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que a Terra \u00e9 plana, e que o fato de nos terem feito acreditar que ela \u00e9 redonda seria parte \u201cda conspira\u00e7\u00e3o\u201d (que eles insistem em chamar de comunista, nome gen\u00e9rico que d\u00e3o a seus outros, nos quais projetam a figura do inimigo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A estrat\u00e9gia de enfrentamento nesta esfera consiste em ocupar a f\u00e1brica de mundos e tomar o comando de sua gest\u00e3o das m\u00e3os do regime de inconsciente dominante. Cumprir esta tarefa n\u00e3o \u00e9 nem um pouco evidente, pois requer um trabalho complexo e sutil que implica, antes de mais nada, em libertar nossa pr\u00f3pria subjetividade do poder desse regime que a produz, tendo entre seus tra\u00e7os caracter\u00edsticos, uma blindagem narc\u00edsica ao outro. Convertemos o outro numa tela de proje\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es supostamente universais, que comp\u00f5em o imagin\u00e1rio produzido por uma das engrenagens do maquin\u00e1rio deste regime de inconsciente. S\u00e3o estas representa\u00e7\u00f5es que tomamos como guia de nossas a\u00e7\u00f5es, no lugar de nos guiarmos a partir dos efeitos da presen\u00e7a viva do outro em nossos corpos, presen\u00e7a que passa a nos compor e que, se levada em considera\u00e7\u00e3o, nos transformaria, assim como transformaria o ecossistema ambiental, social e mental de que somos parte. Que sejam as representa\u00e7\u00f5es \u201cdo mal\u201d dos sujeitos de direita, que demonizam o outro, ou as \u201cdo bem\u201d dos de esquerda, que o idealiszam, ambas s\u00e3o igualmente marcadas pela fal\u00e1cia de que existiria uma suposta hierarquia entre os distintos grupos humanos. A diferen\u00e7a entre estes dois tipos de representa\u00e7\u00e3o do outro se limita a uma mera invers\u00e3o de sinais nesta suposta hierarquia, que foi estabelecida no final do s\u00e9culo XV, quando se passou a aplicar a no\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a \u00e0 esp\u00e9cie humana. Tal no\u00e7\u00e3o se baseia em marcadores n\u00e3o s\u00f3 de cor da pele e de origem \u00e9tnica, mas tamb\u00e9m do chamado g\u00eanero (outras das inven\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas deste mesmo contexto), ao que se agrega marcadores de classe, a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial no final do s\u00e9culo XVIII. A inven\u00e7\u00e3o da hierarquia racial veio junto com outra ideia perversa de que nossa esp\u00e9cie seguiria uma linha evolutiva \u00fanica e universal (da\u00ed a ideia de progresso), em cujo topo estaria o modo de exist\u00eancia do branco europeu, macho das elites coloniais, hoje elites do mercado financeiro que, n\u00e3o por acaso, chamamos de mundo desenvolvido. A fake news desta hierarquia racial naturaliza e justifica (micropoliticamente) a cartografia dominante na esfera macropol\u00edtica: a explora\u00e7\u00e3o de todos aqueles que supostamente se situariam em seus escal\u00f5es inferiores, assim como a inequidade na distribui\u00e7\u00e3o dos direitos de acesso a bens materiais e imateriais, no limite ao pr\u00f3prio direito de existir.<\/p>\n<div id=\"outra-7182070\" class=\"outra-meio-do-texto\">\n<div id=\"outra-795316454\"><a href=\"https:\/\/www.aboaterra.com.br\/\" aria-label=\"Drukwerk\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A-BOA-TERRA.jpg\" sizes=\"(max-width: 728px) 100vw, 728px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A-BOA-TERRA.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/A-BOA-TERRA-300x37.jpg 300w\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"90\" \/><\/a><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Junta-se a essa dificuldade o fato de que, ao contr\u00e1rio da experi\u00eancia acumulada de resist\u00eancia na esfera macropol\u00edtica, o ativismo micropol\u00edtico \u00e9 relativamente recente na hist\u00f3ria do ocidente moderno, o que torna esta tarefa ainda mais desafiadora. A boa not\u00edcia \u00e9 que os movimentos dos negros, ind\u00edgenas, ambientalistas, feministas e dissidentes da no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e das pr\u00e1ticas heterocisnormativas (movimentos que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, foram se fortalecendo muit\u00edssimo por todo o continente), atuam exatamente nessa esfera, al\u00e9m de erguer suas vozes na esfera p\u00fablica da indispens\u00e1vel luta contra a inequidade de direitos (sua milit\u00e2ncia macropol\u00edtica). Nos movimentos negros e ind\u00edgenas, especificamente, o trabalho micropol\u00edtico tem se alimentado dos princ\u00edpios que regem a produ\u00e7\u00e3o de mundos pr\u00f3prios \u00e0s suas diversas ancestralidades. Tais princ\u00edpios (que compartilham uma pol\u00edtica ontol\u00f3gica similar) v\u00eam sendo atualizados no presente, o que tende a destituir a autoridade do princ\u00edpio que comanda a gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de mundos sob o regime de inconsciente dominante, destitui\u00e7\u00e3o que tem um forte poder de cont\u00e1gio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que est\u00e1 em jogo aqui \u00e9 um tratamento cl\u00ednico-pol\u00edtico do modo de subjetiva\u00e7\u00e3o dominante. Trata-se de abrir o acesso \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es dos efeitos da presen\u00e7a viva do outro (n\u00e3o s\u00f3 humano) em nossos corpos (sensa\u00e7\u00f5es que no mencionado ensaio designo por afec\u00e7\u00f5es, convocando Espinosa). A possibilidade de uma constru\u00e7\u00e3o coletiva de mundos \u00e0 altura das exig\u00eancias da vida (nossa responsabilidade \u00e9tica) depende da avalia\u00e7\u00e3o destes efeitos, do ponto de vista daquilo que a vida nos demanda para manter o ritmo em seu fluxo (avalia\u00e7\u00e3o que no mencionado ensaio designo por afeto, convocando novamente Espinosa). Depende ainda de nosso empenho para trazer \u00e0 exist\u00eancia o que tal demanda nos indica, sem o que o processo n\u00e3o se completa. A blindagem ao outro nos torna surdos a tais exig\u00eancias, o que gera as condi\u00e7\u00f5es para que a vida seja desviada de seu destino \u00e9tico, com o intuito de cafetin\u00e1-la a servi\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o de capital (n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f4mico e pol\u00edtico, mas, tamb\u00e9m e indissociavelmente, social e narc\u00edsico). Por a\u00ed h\u00e1 uma possibilidade de mudan\u00e7a que levar\u00e1 d\u00e9cadas, qui\u00e7\u00e1 s\u00e9culos, j\u00e1 que cur\u00e1-lo \u00e9 nada mais nada menos que curar o trauma da viol\u00eancia colonial que nos constitui, condi\u00e7\u00e3o para uma efetiva transfigura\u00e7\u00e3o de nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 11 de janeiro de 2023, houve um novo momento de alegria na corda bamba em que temos caminhado aos trancos e barrancos: foram inaugurados dois novos minist\u00e9rios no governo Lula, que representam um marco important\u00edssimo em nossa hist\u00f3ria: o minist\u00e9rio da Igualdade Racial e o minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas, que estar\u00e3o sob o comando de duas mulheres, respeitadas pensadoras e ativistas. S\u00e3o elas, respectivamente, Anielle Franco (negra, irm\u00e3 da ativista Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em 2018) e S\u00f4nia Bone de Sousa Silva Santos (conhecida como S\u00f4nia Guajajara por ser origin\u00e1ria do povo ind\u00edgena com este nome). N\u00e3o por acaso, o vandalismo do domingo, 08 de janeiro de 2023, ocorreu na v\u00e9spera da cerim\u00f4nia prevista para a posse das duas novas ministras no Pal\u00e1cio do Planalto, o que fez com que a mesma tivesse que ser adiada por dois dias, quando os espa\u00e7os do edif\u00edcio j\u00e1 estavam recompostos (o que, por sinal, se deu em tempo recorde). Isso tornou a cerim\u00f4nia ainda mais emocionante. Se este \u00e9 um ineg\u00e1vel avan\u00e7o da luta contra o racismo na esfera macropol\u00edtica (resultante dos movimentos dos ind\u00edgenas e dos negros, principalmente das mulheres neles envolvidas), \u00e9 necess\u00e1rio que isso se acompanhe de avan\u00e7os na esfera micropol\u00edtica. Como diz Sandra Benites, ativista e curadora de origem Guarani, \u201cs\u00e3o dois os muros que t\u00eam que ser derrubados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como muitos latino-americanos, hoje meu desejo est\u00e1 totalmente investido no di\u00e1logo com ativistas dos referidos movimentos e seu pensamento. Neste di\u00e1logo, a partir de experi\u00eancias e linguagens distintas, compartilhamos nossos diferentes modos de exercer o combate micropol\u00edtico, o que (n\u00e3o sem atritos e gra\u00e7as a seu enfrentamento) vai gerando transmuta\u00e7\u00f5es em nossas respectivas subjetividades, sobretudo nos modos de nos relacionar com o outro, mais precisamente, com a vida do ecossistema e suas oscila\u00e7\u00f5es. \u00c9 isso o que tem permitido a muitos de n\u00f3s n\u00e3o sucumbir ao desastre que estamos vivendo e lograrmos nos manter ativos. Minha intui\u00e7\u00e3o \u00e9 que esta reviravolta micropol\u00edtica em processo lograr\u00e1, a longo prazo, ou melhor, a longu\u00edssimo prazo, fundar uma nova pol\u00edtica de forma\u00e7\u00f5es do inconsciente no campo social (em outras palavras, uma nova pol\u00edtica ontol\u00f3gica), o que inclui novas formas de governabilidade, a serem sustentadas num processo cont\u00ednuo de cria\u00e7\u00e3o coletiva, no lugar do chamado \u201cpacto social\u201d que nos funda. Um pacto baseado num consenso entre os interesses das elites, que al\u00e9m de desconsiderar os interesses dos demais segmentos sociais, na esfera macropol\u00edtica, bloqueia os processos de cria\u00e7\u00e3o na esfera micropol\u00edtica, sufocando tudo aquilo que lhe escapa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em poucas palavras, minha intui\u00e7\u00e3o \u00e9 que, paralelamente \u00e0 paisagem macabra que estamos vivendo, est\u00e1 em curso o reflorestamento dos campos subjetivo e social. Nesta opera\u00e7\u00e3o, aos poucos vai sendo substitu\u00edda a monocultura que se imp\u00f4s aos mesmos, desde a funda\u00e7\u00e3o colonial do Brasil, submetendo a vida para coloc\u00e1-la a servi\u00e7o do capital. Se \u00e9 verdade que esta tarefa tem enfrentado muitas barreiras (e, sem d\u00favida, seguir\u00e1 enfrentando por um bom tempo, com diferentes graus de viol\u00eancia cujo limite \u00e9 o exterm\u00ednio), o que tem mantido nosso alento \u00e9 que, ao que tudo indica, parece haver algo de irrevers\u00edvel no ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/suelyrolnik-para-o-brasil-esconjurar-o-fascismo\/#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0Rolnik, Suely,\u00a0<em>Esferas da insurrei\u00e7\u00e3o. Notas para uma vida n\u00e3o cafetinada\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018; edi\u00e7\u00e3o esgotada). Em 2023 ser\u00e1 publicada uma edi\u00e7\u00e3o revisada deste livro, baseada na revis\u00e3o feita para sua publica\u00e7\u00e3o na Inglaterra(<em>Spheres of insurrection. Notes on decolonizing the unconscious.<\/em>\u00a0Londres: Polity Press, 2023; pr\u00f3logo por Stefano Harney e texto de capa por Ver\u00f3nica Gago). O livro foi igualmente publicado em Portugal, com o t\u00edtulo\u00a0<em>Esferas da insurrei\u00e7\u00e3o. Notas para uma vida n\u00e3o chulada<\/em>\u00a0(Lisboa: editora Teatro Praga \/Sistema Solar, 2020) e na Argentina (<em>Esferas de la insurrecci\u00f3n. Apuntes para descolonizar el inconsciente<\/em>. Buenos Aires: Tinta Lim\u00f3n, 2019).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a id=\"sdfootnote2sym\" href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/suelyrolnik-para-o-brasil-esconjurar-o-fascismo\/#sdfootnote2anc\">2<\/a>\u00a0Rolnik, Suely. As aranhas, os Guarani e os Guattari. Outras notas para uma vida n\u00e3o cafetinada. In:\u00a0<em>Psican\u00e1lise e Esquizoan\u00e1lise: diferen\u00e7a e composi\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(S\u00e3o Paulo: n-1 edi\u00e7\u00f5es, 2022).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado 20\/01\/2023 \u00e0s 19:11 &#8211; Atualizado 22\/01\/2023 \u00e0s 13:42 Escravista, patriarcal e violenta, forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 f\u00e9rtil para subjetividades que querem a brutaliza\u00e7\u00e3o e o exterm\u00ednio do outro. Sa\u00edda precisa ser micropol\u00edtica, tamb\u00e9m: libertar nossos inconscientes do narcisismo que se blinda \u00e0 diferen\u00e7a OUTRASPALAVRAS DESCOLONIZA\u00c7\u00d5ES por\u00a0Suely Rolnik Por\u00a0Suely Rolnik\u00a0| Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol:\u00a0Josy Pan\u00e3o T\u00edtulo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":115828,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2314,105],"tags":[805,2315,2316,2317,2299,2318,2319,2320,255,2321,2322,2323,2324],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115827"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=115827"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115827\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":115829,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115827\/revisions\/115829"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/115828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=115827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=115827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=115827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}