{"id":114733,"date":"2023-06-30T01:20:57","date_gmt":"2023-06-30T04:20:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=114733"},"modified":"2023-06-30T01:21:44","modified_gmt":"2023-06-30T04:21:44","slug":"maria-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/06\/30\/maria-mar\/","title":{"rendered":"Maria Mar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Em determinados momentos da hist\u00f3ria, a sensibilidade do escritor \u00e9 despertada pela lembran\u00e7a associada ao risco. \u00c9 como se, na consci\u00eancia do intelectual, um sinal de perigo o alertasse e ele ent\u00e3o voltasse para a mem\u00f3ria de sua sociedade para abrir o sinal vermelho do risco. Exemplo eloquente desse fen\u00f4meno liter\u00e1rio \u2013 com grandeza \u2013 est\u00e1 em Arthur Miller.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o macartismo tomava conta dos Estados Unidos, com chantagens, censuras, interdi\u00e7\u00f5es de direitos, pris\u00f5es, expuls\u00e3o de pessoas de seus empregos, processos etc, tudo sob falsa alega\u00e7\u00e3o de investigar atividades antiamericanas, a mem\u00f3ria de Arthur Miller visitou o passado: numa comunidade de Massachusetts, em fins do S\u00e9culo XVII, dezenove pessoas foram julgadas e enforcadas. Seu crime? Feiti\u00e7aria. Adolescentes de fam\u00edlias puritanas foram acusadas de, em companhia de uma negra nascida em Barbados (ilha das Antilhas) pr\u00e1tica de rituais amorosos de feiti\u00e7aria. Logo, com insist\u00eancia, surgiu a acusa\u00e7\u00e3o: por interm\u00e9dio de jovens, o dem\u00f4nio estava atuando contra a comunidade e sua religi\u00e3o. Dela\u00e7\u00f5es aparecem em v\u00e1rios locais da comunidade. \u201cPessoas importantes\u201d s\u00e3o acusadas por aquelas jovens de id\u00eantica pr\u00e1tica. A persegui\u00e7\u00e3o desenfreada, se estabeleceu e o fanatismo ocupou o primeiro plano na comunidade puritana. Era a ca\u00e7a \u00e0s bruxas. E, s\u00e9culos ap\u00f3s, j\u00e1 no XX, a paranoia de Massachusetts, sob a forma pol\u00edtica de macarthismo reaparecia. Assim, leitores aos milhares perceberam a mensagem: com a pe\u00e7a The Crucible (mais conhecida com o t\u00edtulo do filme que ela inspirou \u2013 As Bruxas de Sal\u00e9m), baseada em fatos reais, Arthur Miller falava sobre algo que, em ess\u00eancia, era da natureza do macartismo: o comportamento fan\u00e1tico contra advers\u00e1rios ou contra os que pensam diferentemente<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil de nossos dias, marcado por absurdos pregados e praticados por pol\u00edticos que sonhavam (e sonham ainda!) com o restabelecimento do terror de estado, algumas obras de fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m visitaram o passado, com suas bruxas e bruxos e seus perseguidores com vestes talares ou fardas, isto \u00e9, reviveram a hist\u00f3ria real vista sob a forma de fic\u00e7\u00e3o, em romances fundamentais: \u201cCabo de Guerra\u201d, de Ivone Benedetti, \u201cUm dia esta noite acaba\u201d, de Roberto Elisabetsky; \u201cArrigo\u201d, de Marcelo Ridenti (Editora Boitempo), \u201cA noite da espera\u201d, de Milton Hatoun (Companhia das Letras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Julguei necess\u00e1rio falar disso a fim de apreciar um bel\u00edssimo romance, de autoria de Ana Isabel Rocha Macedo: <em>Maria Mar estrela das ideias e do amor<\/em> (Empresa Gr\u00e1fica da Bahia, Salvador, 2023). \u00c9 livro da natureza dos anteriormente referidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O romance <em>Maria Mar<\/em> \u00e9 fruto da consci\u00eancia, esteticamente conduzida, que se recusa dobrar diante da barb\u00e1rie anunciada e que visita um passado algoz vivenciado por homens e mulheres, que hoje estariam na etapa de seus setenta anos, pouco mais ou menos. \u00c9 o relato de vida de um jovem (percebe-se que conquistense), que ap\u00f3s concluir o Curso de Pedagogia e j\u00e1 com no\u00e7\u00e3o de sentido que tem um regime de for\u00e7a, sua consist\u00eancia opta pela liberdade, resolve participar de concurso p\u00fablico e, aprovada, assumir a cadeira de professora numa pequena comunidade litor\u00e2nea. Sem romper, distancia-se da fam\u00edlia, j\u00e1 \u00f3rf\u00e3 de pai, para em n\u00edvel mais transparente de sentimentos, voltar a conviver bem com a m\u00e3e, embora em locais diferentes. Conflitos de fam\u00edlia s\u00e3o superados, novas amizades feitas, novo relacionamento conjugal da m\u00e3e \u00e9 aceito, cultivo de m\u00fasica e literatura toma novo sentido na vida daquela jovem. Naquela pequena comunidade encontra o amor na pessoa de um jovem que, clandestinamente, como outros tantos, combatia a ditadura reinante, e do qual a hist\u00f3ria \u00e9 aos poucos revelada; Depois, um corpo de homem jovem \u00e9 encontrado morto com sinais de tortura e, para a jovem, saudade, busca e tristeza. Digo pouco do enredo, a tessitura \u00e9 valiosa, no entanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um livro capaz de bem revelar sentimentos, sobretudo de solidariedade: das amizades espont\u00e2neas e constru\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse \u00faltimo romance de Ana Izabel fixa o leitor sempre na busca do pr\u00f3ximo lance da narrativa. Como se diz, prende o leitor. A narrativa \u00e9 vivaz, bem constru\u00edda, de forma que mantem o leitor desejoso de saber o que o espera no pr\u00f3ximo lance, ou qual \u00e9 o desenlace.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os personagens s\u00e3o muito bem constru\u00eddos, o apelo do narrador virtual d\u00e1 \u00e0 narrativa o tom de uma conversa entre duas pessoas bem conhecidas e o leitor fica surpreso, nas p\u00e1ginas finais do livro, com a \u201cidentidade\u201d de quem dep\u00f5e a hist\u00f3ria conflitual entre tend\u00eancias do sentimento humano, representado por pessoas e regime. N\u00e3o revelei acima os meandros e final da longa hist\u00f3ria de vida retratada num romance que, n\u00e3o tenho d\u00favida em afirmar, inscreve-se num dos melhores que j\u00e1 li.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em determinados momentos da hist\u00f3ria, a sensibilidade do escritor \u00e9 despertada pela lembran\u00e7a associada ao risco. \u00c9 como se, na consci\u00eancia do intelectual, um sinal de perigo o alertasse e ele ent\u00e3o voltasse para a mem\u00f3ria de sua sociedade para abrir o sinal vermelho do risco. 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