{"id":114122,"date":"2023-05-02T12:23:06","date_gmt":"2023-05-02T15:23:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=114122"},"modified":"2023-05-02T12:23:06","modified_gmt":"2023-05-02T15:23:06","slug":"nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/05\/02\/nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor\/","title":{"rendered":"N\u00e3o  se  volte contra o oprimido, mas contra o opressor"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"post-title entry-title\"><\/h1>\n<div class=\"single-introducao\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As classes dominantes sempre criaram maneiras de fomentar o \u00f3dio entre as classes subalternas<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p class=\"post-meta entry-meta\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"post-author\"><span class=\"author vcard\">Raphael Silva Fagundes<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"post-date-wrap post-date-inline\" style=\"text-align: justify;\"><strong><time class=\"post-date entry-date updated\" datetime=\"2018-03-20\"><span class=\"year\">20 de mar\u00e7o de 2018<\/span><\/time><\/strong><\/div>\n<div>\n<div id=\"post-share\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"the_champ_sharing_container the_champ_horizontal_sharing\" data-heateor-ss-offset=\"0\" data-super-socializer-href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor\/\">\n<div class=\"the_champ_sharing_ul\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-single-content\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Um grande problema interpretativo que se irrompe como um \u00f3bice ao progresso das for\u00e7as produtivas \u00e9 a ideologia dominante que dissemina a ideia de que o oposto do trabalhador \u00e9 o pregui\u00e7oso, ou como \u00e9 chamado ordinariamente, o \u201cvagabundo\u201d, ou at\u00e9 mesmo, o criminoso, sobretudo, o ladr\u00e3o urbano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse racioc\u00ednio ocorre porque o capitalismo esconde sua interpreta\u00e7\u00e3o original sobre o que \u00e9 trabalho. De acordo com o soci\u00f3logo franc\u00eas Bernard Friot, o capitalismo \u201cidentifica a produ\u00e7\u00e3o apenas com as atividades realizadas dentro de um enquadramento de subordina\u00e7\u00e3o a um empregador propriet\u00e1rio do instrumento de trabalho, em vista da valora\u00e7\u00e3o de um capital\u201d.<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Ou seja, o trabalho deve estar subordinado ao capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o h\u00e1 capital n\u00e3o h\u00e1 trabalho. Levar as crian\u00e7as para a escola, lavar a lou\u00e7a da janta, ou arrumar a casa, n\u00e3o se constituem em trabalho porque n\u00e3o h\u00e1 o seu contraposto: o capital. A rela\u00e7\u00e3o que move o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista resume-se no conflito entre capital e trabalho, portanto, os que est\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o ao trabalhador n\u00e3o s\u00e3o aqueles que sofrem e se violam fora do mercado de trabalho, mas o capital, ou melhor, aqueles que det\u00eam o capital. A dial\u00e9tica est\u00e1 entre capital\/trabalho e n\u00e3o trabalho\/pregui\u00e7a ou trabalho\/criminalidade. Nela est\u00e1 a origem de todo o dist\u00farbio social. O capital est\u00e1 para o trabalho assim como o trabalho est\u00e1 para o capital, de modo que o favorecimento de um acarreta no preju\u00edzo do outro inexoravelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O maior exemplo do que estou dizendo s\u00e3o as medidas para solucionar a crise econ\u00f4mica. No sistema capitalista, para salvar as grandes fortunas, aumenta-se o desemprego e muda-se as leis trabalhistas para que quando as empresas se recompuserem, os trabalhadores recontratados aceitem submeterem-se a uma situa\u00e7\u00e3o ainda mais deteriorada. As solu\u00e7\u00f5es para a crise foi em favor do capital, logo contra o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 l\u00f3gico que a ideologia dominante n\u00e3o vai fomentar essa perspectiva e sustentar\u00e1 a f\u00f3rmula de que a criminalidade \u00e9 a principal quest\u00e3o que prejudica o trabalho. As not\u00edcias dos jornais salientam que o aumento da viol\u00eancia enfraquece o com\u00e9rcio, gerando desemprego. Assim, os trabalhadores canalizam toda a sua ira para o combate \u00e0 criminalidade. Mas, por outro lado, a burguesia sempre usa de meios paliativos para combat\u00ea-la, porque sabe que a viol\u00eancia urbana \u00e9 um instrumento \u00fatil para conter as revoltas sociais antissist\u00eamicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A massa trabalhadora ir\u00e1 se juntar \u00e0 classe dominante para eliminar um suposto mal comum, fazendo a solidariedade entre os trabalhadores se voltar para o \u00f3dio aos exclu\u00eddos do processo conduzido pela pr\u00f3pria burguesia. A viol\u00eancia que o cidad\u00e3o comum sofre na escurid\u00e3o das noites cariocas, ou em plena luz do dia, \u00e9 pol\u00edtica. Trata-se de uma forma fortuita de administrar a solidariedade entre os trabalhadores atrav\u00e9s de uma frase vazia: \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Esse procedimento manipulador \u00e9 importante para se manter as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 mais que \u00f3bvio que da explora\u00e7\u00e3o do trabalho nasce, naturalmente, a solidariedade entre os explorados, nas palavras de Karl Marx: \u201ca solidariedade dos homens n\u00e3o \u00e9 uma frase vazia, mas uma realidade, e a nobreza da humanidade irradia sobre n\u00f3s a partir das figuras maltratadas pelo trabalho\u201d.<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia que sustenta a oposi\u00e7\u00e3o entre trabalho e criminalidade apoia-se, ainda, nos pa\u00edses europeus capitalistas onde os \u00edndices de viol\u00eancia s\u00e3o baix\u00edssimos e, portanto, as condi\u00e7\u00f5es de vida dos trabalhadores s\u00e3o mais dignas que em outras regi\u00f5es onde a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais cr\u00edtica. No entanto, as classes dominantes desses pa\u00edses n\u00e3o precisam da criminalidade para se manter no poder, mas da explora\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses onde reina o banditismo e a delinqu\u00eancia. Empresas dinamarquesas como a Lego (que recentemente prop\u00f4s a altera\u00e7\u00e3o do material de seus brinquedos) ou norueguesas precisam sugar o trabalho e as riquezas naturais de outros pa\u00edses para manter as rela\u00e7\u00f5es sociais confort\u00e1veis em seus respectivos pa\u00edses. A aliena\u00e7\u00e3o do povo de l\u00e1 \u00e9 diferente do povo daqui, mas se combinam, isto \u00e9, sustentam uma l\u00f3gica que permite o funcionamento do sistema-mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As classes dominantes sempre criaram maneiras de fomentar o \u00f3dio entre as classes subalternas. Na Idade M\u00e9dia, as pessoas eram instigadas a denunciar os vizinhos que apresentassem um comportamento adverso da religi\u00e3o dominante, sob a acusa\u00e7\u00e3o de bruxaria ou de juda\u00edsmo. No Brasil dos finais do Imp\u00e9rio e do in\u00edcio da Rep\u00fablica, falava-se das classes perigosas, descendentes de escravos, em sua maioria, que desafiavam a pol\u00edtica de controle social. Nos Estados Unidos dos in\u00edcios do s\u00e9culo XX, o negro era visto como o grande inimigo, causador do desemprego e dos problemas sociais que se desenrolaram ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e da extens\u00e3o dos direitos civis. Na Europa de hoje, o imigrante voltou a ser hostilizado, sendo acusado de roubar o emprego dos nacionais fazendo renascer os partidos de extrema-direita no continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui no Brasil e, em outros pa\u00edses latino-americanos, as classes dominantes agenciam a criminalidade ideologicamente para administrar a sua domina\u00e7\u00e3o, definindo-a, por meio de um grande controle midi\u00e1tico, como a causadora de toda a desgra\u00e7a social. Impulsionados pelo consumismo, vamos nos direcionando contra os exclu\u00eddos e nos distanciando do verdadeiro algoz do trabalho, a gan\u00e2ncia do capital que gera um trabalho cada vez mais indigno, assim como a criminalidade dos que n\u00e3o se vendem ao capital, por\u00e9m contribuem para a sua din\u00e2mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, a criminalidade n\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia negativa do sistema capitalista, ela \u00e9 parte fundamental desse sistema. Parece que as elites leram os ensinamentos do padre Ant\u00f4nio Vieira que dizia n\u00e3o \u201cser muito apaixonado do medo, acho melhores ra\u00edzes ao temor que \u00e0 esperan\u00e7a\u201d, quando agenciava, em seu \u201cSerm\u00e3o de S\u00e3o Roque\u201d, de 1644, o medo para consolidar, assim, o poder de D. Jo\u00e3o IV. O poder precisa gerenciar o medo. Sem o temor \u00e0 criminalidade, o proletariado teria medo do qu\u00ea? Provavelmente da classe dominante. Um medo que, ao longo do tempo, poderia se transformar em revolta, levando o mundo burgu\u00eas ao colapso\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">*<strong>Raphael Silva Fagundes<\/strong>\u00a0\u00e9 doutorando do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Pol\u00edtica da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itagua\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Bernard Friot,\u00a0<a href=\"http:\/\/diplomatique.org.br\/chega-de-lutas-defensivas\/\">Chega de lutas defensivas<\/a>,\u00a0<em>Le Monde Diplomatique Brasil<\/em>, dez. 2017.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/nao-se-volte-contra-o-oprimido-mas-contra-o-opressor\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0<em>Karl Marx, Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos,<\/em><em>\u00a0S\u00e3o Paulo, Martin Claret, 2005, p.156.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As classes dominantes sempre criaram maneiras de fomentar o \u00f3dio entre as classes subalternas Raphael Silva Fagundes 20 de mar\u00e7o de 2018 Um grande problema interpretativo que se irrompe como um \u00f3bice ao progresso das for\u00e7as produtivas \u00e9 a ideologia dominante que dissemina a ideia de que o oposto do trabalhador \u00e9 o pregui\u00e7oso, ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":114123,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[128,105],"tags":[232,1029,1032,1031,1030],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114122"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114122"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114122\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":114124,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114122\/revisions\/114124"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}