{"id":113085,"date":"2023-02-27T00:27:46","date_gmt":"2023-02-27T03:27:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=113085"},"modified":"2023-02-18T00:33:34","modified_gmt":"2023-02-18T03:33:34","slug":"elomar-e-guimaraes-rosa-desindoidecer-desindoidar-pequenas-notas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/02\/27\/elomar-e-guimaraes-rosa-desindoidecer-desindoidar-pequenas-notas\/","title":{"rendered":"Elomar e Guimar\u00e3es Rosa: Desindoidecer, desindoidar (Pequenas notas)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Paulo Pires<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\nJo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, assim como o grande poeta-m\u00edstico-pensador-compositor Elomar, era um sujeito<br \/>\naut\u00eantico. Ambos s\u00e3o brasileiros leg\u00edtimos e se assemelham em muitos aspectos. A parecen\u00e7a deles come\u00e7a pelo<br \/>\nlado est\u00e9tico [Rosa e Elomar s\u00e3o inventores de linguagens inusitadas em seus campos de cria\u00e7\u00e3o]. Outro aspecto<br \/>\nrevela zelo e meticulosidade quando se expressam. Um terceiro aspecto, quase conseq\u00fc\u00eancia do anterior, decorre<br \/>\nde uma raz\u00e3o simples: Sendo homens muito criativos, s\u00e3o detentores de uma autocr\u00edtica impiedosa sobre o que<br \/>\nproduzem.<br \/>\nRosa, em conversa com Pedro Bloch [ele nunca concedia entrevista, gostava realmente de conversar]<br \/>\nchegou a assinalar que se lhe permitissem colocaria nas capas dos seus livros cr\u00edticas todas as desfavor\u00e1veis ao<br \/>\nseu trabalho. A palavra entrevista para ele era um horror. Algo semelhante a ojeriza que Elomar nutre pela palavra<br \/>\nshow. Elomar nunca d\u00e1 show. Elomar realiza concertos e fim de papo.<br \/>\nRosa era um sujeito tranq\u00fcil\u00e3o. Dizia \u201cn\u00e3o estar nem a\u00ed\u201d para quem n\u00e3o admirasse sua obra. E garantia,<br \/>\nentre realista e confiante (com um pouco de presun\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m) que seu trabalho mais cedo ou mais tarde teria um<br \/>\nlugar entre os mais altos da chamada Alta Literatura. Sua previs\u00e3o se confirmou.<br \/>\nO menino do sert\u00e3o virou cidad\u00e3o do mundo. Foi traduzido em todos os continentes e morreu admirado por<br \/>\nquase todos os cr\u00edticos do Brasil e exterior. Na conversa com Bloch h\u00e1 uma pequena mostra de sua passagem pelo<br \/>\ncampo liter\u00e1rio. Um pequeno trecho abaixo d\u00e1 mostra de sua import\u00e2ncia. Vejam alguns lugares, pessoas,<br \/>\npublica\u00e7\u00f5es e entidades que lhe fazem louvores na conversa com Bloch:<br \/>\n\u201cN\u00e3o preciso perguntar nada pra saber que The Devil to day in the Backlands (tradu\u00e7\u00e3o americana de<br \/>\nGrande Sert\u00e3o e que textualmente significa: &amp;quot;Vai Haver o Diabo no Sert\u00e3o&amp;quot;) foi editado por Knopf este ano; Il Duello<br \/>\n(Primeira parte de Sagarana) tem \u00eaxito enorme na It\u00e1lia, enquanto j\u00e1 se prepara a segunda parte; Seuil, da Fran\u00e7a,<br \/>\npublicou, em 1961, Buriti (uma parte de Corpo de Baile) que, por sinal, n\u00e3o inclui a novela Buriti, mas tr\u00eas outras;<br \/>\nem 1962 surgiu Les Nuits du Sert\u00e3o (L&amp;#39;Express proclamou: Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 Giono multiplicado por dez!); Livros<br \/>\ndo Brasil, de Lisboa, alterando todo o seu programa de publica\u00e7\u00e3o, d\u00e3o prioridade absoluta \u00e0 obra de Rosa, j\u00e1<br \/>\ntendo lan\u00e7ado Sagarana, com \u00eaxito invulgar; Feltrinelli, de Mil\u00e3o, publicar\u00e1 Corpo de Baile, Grande Sert\u00e3o e obras<br \/>\nfuturas; na Su\u00e9cia, na Alemanha (Kipenheuer), na Noruega (Gyldendel Norvsk), na Dinamarca, na Tchecoslov\u00e1quia<br \/>\n(Dilia), na Holanda, na Finl\u00e2ndia, na Espanha, em toda parte a obra deste vulto extraordin\u00e1rio de nossa literatura<br \/>\nest\u00e1 provocando acaloradas disputas pela prioridade de publica\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nQuem diria que aquele menino nascido em Cordisburgo-MG, cidade hoje com menos de um ter\u00e7o da<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o de Itamb\u00e9, sa\u00edsse daquele lugarzinho e fosse ganhar o mundo. Quem diria? Pois foi isso que aconteceu<br \/>\ncom Jo\u00e3ozito. O menino atingiu alturas que poucos anteviam ele pudesse alcan\u00e7ar.<br \/>\nSentimo-nos na obriga\u00e7\u00e3o de falar desse g\u00eanio, porque nos seus 102 anos, completados no final de junho<br \/>\n\u00faltimo, s\u00f3 pessoas do ramo e das academias liter\u00e1rias e universit\u00e1rias se dedicaram a lhe prestar justas<br \/>\nhomenagens. Rosa deveria ser lembrado oficialmente todos os anos. Por que raz\u00e3o? Porque colocou e coloca o<br \/>\nBrasil em um pante\u00e3o liter\u00e1rio que s\u00f3 o v\u00f4lei e o futebol de vez em quando nos colocam no plano esportivo. O Chile<br \/>\nfaz isso constantemente com Pablo Neruda. A Alemanha lembra Goethe todos os anos com um Feriado Nacional.<br \/>\nE n\u00f3s? N\u00f3s fazemos rever\u00eancias a quem? Infelizmente, s\u00f3 aos cantores de m\u00fasica sertaneja (que de sertanejo<br \/>\npouco tem). Nossos cantores bregueiros s\u00e3o os grandes artistas (?) da na\u00e7\u00e3o brasileira para nossa M\u00eddia.<br \/>\nSer\u00e1 que o nosso mundo est\u00e1 doido? Diadorim (um dos enigm\u00e1ticos personagens de Guimar\u00e3es Rosa)<br \/>\ntravava di\u00e1logos confusos com Riobaldo. Este, louco pelo companheiro, cuja obsess\u00e3o era vingar a morte do pai<br \/>\nJoca Ramiro, vive com a cabe\u00e7a endoidecida para cravar um punhal no cora\u00e7\u00e3o de Herm\u00f3genes. Ao final<br \/>\nconsegue, mas tamb\u00e9m morre. S\u00f3 depois de sua morte \u00e9 que Riobaldo descobre: Diadorim era mulher.<br \/>\nEra um mundo doido. Rosa chegou a dizer que seu livro era uma autobiografia irracional. E era mesmo!<br \/>\nConforme alguns cr\u00edticos (especialmente os que utilizam esquemas freudianos) a obra rosiana cont\u00e9m<br \/>\nparticularidades que s\u00f3 a p\u00f3s-modernidade poder\u00e1 explicar. O fato \u00e9 que o mundo precisa urgentemente<br \/>\ndesindoidar, desindoidecer. Subvertemos os valores de tal modo que \u201crealmente quem tem valor t\u00e1 fora\u201d. Viva<br \/>\nElomar, que se abstraiu da mundanidade superficial e criou seu maravilhoso Universo Contemplativo do Sert\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Pires Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, assim como o grande poeta-m\u00edstico-pensador-compositor Elomar, era um sujeito aut\u00eantico. Ambos s\u00e3o brasileiros leg\u00edtimos e se assemelham em muitos aspectos. A parecen\u00e7a deles come\u00e7a pelo lado est\u00e9tico [Rosa e Elomar s\u00e3o inventores de linguagens inusitadas em seus campos de cria\u00e7\u00e3o]. Outro aspecto revela zelo e meticulosidade quando se expressam. 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