{"id":112753,"date":"2023-02-04T13:12:28","date_gmt":"2023-02-04T16:12:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=112753"},"modified":"2023-02-04T13:12:28","modified_gmt":"2023-02-04T16:12:28","slug":"deixei-os-yanomami-por-medo-de-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2023\/02\/04\/deixei-os-yanomami-por-medo-de-morrer\/","title":{"rendered":"&#8221; Deixei os Yanomami por medo de morrer&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"noticia__header\">\n<div class=\"noticia__header--content wrapper\"><strong><span class=\"main__noticia--tipo noticia__header--tipo\">depoimento<\/span><\/strong><\/p>\n<h5 class=\"main__noticia--desc noticia__header--info\"><strong>M\u00e9dica do SUS descreve a situa\u00e7\u00e3o de abandono e inseguran\u00e7a que viveu durante um ano na terra ind\u00edgena<\/strong><\/h5>\n<div class=\"noticia__header--autor\"><span class=\"noticia__header--autor--nome\">Carla Rodrigues<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticia__main wrapper\">\n<div class=\"noticia__main--content\">\n<div class=\"noticia__socials\">\n<div class=\"noticia__socials--content socials--left\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticia__main--materia noticia__main--paragraph\">\n<div class=\"contentpaywall\">\n<p><i>Em depoimento a Elane Oliveira<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">N<\/span>asci em Rond\u00f4nia e, desde crian\u00e7a, convivi com a Floresta Amaz\u00f4nica. Eu e minha fam\u00edlia viv\u00edamos em Cacoal, uma cidadezinha pequena com muitos habitantes ind\u00edgenas. Nossa situa\u00e7\u00e3o financeira era dif\u00edcil. Meu pai trabalhou durante muitos anos como garimpeiro e madeireiro, atividades infelizmente comuns naquela regi\u00e3o. Cresci vendo ele adoecer diversas vezes por contrair mal\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu tinha 4 anos de idade, nos mudamos para S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, no interior de S\u00e3o Paulo, onde cresci. Terminei o col\u00e9gio e passei no vestibular de zootecnia. Frequentei o curso por apenas dois dias: foi o tempo que demorei a perceber que minha voca\u00e7\u00e3o mesmo era medicina. Troquei de faculdade e me tornei m\u00e9dica, finalmente, em 2016. Passei numa prova para fazer resid\u00eancia em medicina de fam\u00edlia e comunidade no Rio de Janeiro e me mudei para l\u00e1 em 2019.<\/p>\n<div id=\"piaui-811277727\" class=\"piaui-interna-001\">\n<div id=\"banner-300x250-incremental-3\" data-google-query-id=\"CM2Y0bGf_PwCFRmylQId2NMJKQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/8804\/parceiros\/revista_piaui_1__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro do dia em que, durante uma passagem de plant\u00e3o, eu conversava com uma colega e ela me contou que havia trabalhado com um povo isolado no Acre. Eu n\u00e3o sabia como funcionava esse trabalho, e fiquei curiosa. Ela relatou toda a experi\u00eancia. Aquilo me marcou. Pouco depois, em 2021, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade abriu um edital do Programa Mais M\u00e9dicos. Decidi prestar o concurso e, dentre os lugares que eu podia escolher trabalhar, optei pela Terra Ind\u00edgena Yanomami. A mem\u00f3ria que eu tenho do conv\u00edvio com os ind\u00edgenas na minha inf\u00e2ncia pesou na decis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui aprovada no concurso e me mudei para Boa Vista (RR) naquele ano. Cheguei junto com outros dois colegas. Considerando os m\u00e9dicos que j\u00e1 atuavam na regi\u00e3o, \u00e9ramos doze. Minha rotina se transformou completamente. Passei a trabalhar em escala quinzenal: passava duas semanas dentro da terra ind\u00edgena, circulando entre os diferentes povoados, e duas semanas de repouso na capital. N\u00f3s viaj\u00e1vamos sempre de avi\u00e3o para o territ\u00f3rio Yanomami, mas pous\u00e1vamos em um lugar diferente cada vez. A terra ind\u00edgena \u00e9 enorme, tem 366 aldeias e 78 Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade Ind\u00edgena (UBSI). Os voos duravam de uma a quatro horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha primeira visita foi marcante. N\u00f3s fomos de avi\u00e3o para Maturac\u00e1, povoado que fica no extremo Norte do estado do Amazonas, quase na fronteira com a Venezuela. A regi\u00e3o faz parte da Terra Ind\u00edgena Yanomami, embora a maior parte da \u00e1rea demarcada fique em Roraima. Durante o voo, fiquei fascinada com a imensid\u00e3o da floresta vista de cima. Descemos do avi\u00e3o e fomos recebidos pelo Pelot\u00e3o Especial de Fronteira (PEF) do Ex\u00e9rcito. Os militares, armados, anotaram nossos documentos e revistaram nossas malas\u00a0\u2013\u00a0uma opera\u00e7\u00e3o padr\u00e3o nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"piaui-239349601\" class=\"piaui-interna-002\">\n<div id=\"banner-300x250-incremental-4\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CJSX0LGf_PwCFTemlQIdvvEDtw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/8804\/parceiros\/revista_piaui_2__container__\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mal pousamos, uma enfermeira veio me chamar: uma ind\u00edgena yanomami estava dando \u00e0 luz. J\u00e1 era poss\u00edvel ver a cabe\u00e7a do beb\u00ea. Notei que a equipe m\u00e9dica dali tratava a m\u00e3e com um grau de viol\u00eancia. Queriam fazer uma episiotomia, o que n\u00e3o era necess\u00e1rio, e impedi-la de se mexer. Pedi que as pessoas se afastassem para abrir espa\u00e7o. Com o aux\u00edlio de uma t\u00e9cnica de enfermagem, conclu\u00ed o parto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o naquela \u00e9poca n\u00e3o era diferente da de hoje. Muitos ind\u00edgenas morriam de doen\u00e7as trat\u00e1veis e havia uma falta generalizada de insumos. Constatei isso na visita a Maturac\u00e1 e em todas as outras unidades de sa\u00fade por onde passei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O territ\u00f3rio Yanomami \u00e9 dividido em 37 polos-base, que s\u00e3o micro\u00e1reas onde h\u00e1 uma sede com estrutura mais completa de atendimento. Cada polo-base administra v\u00e1rias unidades de sa\u00fade\u00a0\u2013\u00a0as UBSIs, que atendem os ind\u00edgenas cotidianamente. Quando surge um caso mais grave, o paciente deve ser transferido da UBSI para o polo-base. Se nem ali o problema for resolvido, pede-se ent\u00e3o que ele seja transferido para a cidade. Assim funciona na teoria. Na pr\u00e1tica, \u00e9 muito diferente.<\/p>\n<div id=\"piaui-1981425334\" class=\"piaui-interna-003\">\n<div id=\"banner-300x250-incremental-5\" data-google-query-id=\"CJesz7Gf_PwCFVizlQIdMJYM5Q\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/8804\/parceiros\/revista_piaui_3__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maioria dos polos-base s\u00e3o desassistidos. N\u00e3o t\u00eam material b\u00e1sico para o exerc\u00edcio da medicina, como luvas, m\u00e1scaras, ou leitos de enfermaria. Em tese, deveriam ter n\u00e3o apenas isso como tamb\u00e9m oxig\u00eanio e medi\u00e7\u00f5es venosas, mas nunca foi o caso. Isso faz com que, em vez de ser levado ao polo-base, o paciente seja transferido direto para a cidade. Uma opera\u00e7\u00e3o complexa e que n\u00e3o \u00e9 ideal. J\u00e1 tive de pedir transfer\u00eancia para um paciente com mal\u00e1ria porque n\u00e3o tinha medica\u00e7\u00e3o para trat\u00e1-lo. A mal\u00e1ria \u00e9 end\u00eamica na regi\u00e3o, uma doen\u00e7a comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na maioria das unidades de sa\u00fade n\u00e3o havia sequer banheiro. Faz\u00edamos nossas necessidades em buracos no ch\u00e3o, sem privacidade. Cozinh\u00e1vamos nossa comida num fogo a lenha improvisado e, como esse preparo era muito trabalhoso, com\u00edamos s\u00f3 uma vez por dia. A gente racionava a comida com receio de que o voo de volta atrasasse, o que frequentemente acontecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalhei na Terra Ind\u00edgena Yanomami durante onze meses. Nesse per\u00edodo, sempre tive a sensa\u00e7\u00e3o de estar numa areia movedi\u00e7a. Quanto mais eu lutava para contornar aquela situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, mais eu era sugada por ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">S<\/span>em uma estrutura adequada de atendimento, n\u00e3o era poss\u00edvel tratar doen\u00e7as que requerem um cuidado di\u00e1rio, como mal\u00e1ria, tuberculose e pneumonia, sem falar na desnutri\u00e7\u00e3o. A mal\u00e1ria, por exemplo, exige controle preventivo para diminuir o n\u00famero de mosquitos transmissores, sen\u00e3o a doen\u00e7a n\u00e3o acaba. As pessoas continuam se contaminando, e eventualmente isso produz casos graves. A mal\u00e1ria, se n\u00e3o tratada, pode causar les\u00f5es cerebrais, anemia e insufici\u00eancia hep\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as crian\u00e7as yanomami, era comum haver doen\u00e7as respirat\u00f3rias como asma e pneumonia. Muitas vezes n\u00e3o havia oxig\u00eanio para cuidar delas. A\u00a0primeira crian\u00e7a que vi morrer, desde que virei m\u00e9dica, foi um beb\u00ea yanomami de quatro meses de idade. Assisti \u00e0quilo sem poder fazer nada. Eu n\u00e3o tinha equipamento para reanim\u00e1-la, n\u00e3o tinha nada. Ainda tenho muita dificuldade em falar desse dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem j\u00e1 trabalhou nessa regi\u00e3o, as not\u00edcias que sa\u00edram nas \u00faltimas semanas n\u00e3o s\u00e3o surpresa. A novidade \u00e9 o governo se mobilizar para resolver o problema. Vendo o notici\u00e1rio, me sinto angustiada e impotente. Lembro das situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas que passei ali dentro. Queria que tudo pudesse se resolver da noite para o dia, mas a verdade \u00e9 que essa crise \u00e9 profunda e muito enraizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os yanomami em sua maioria n\u00e3o falam portugu\u00eas e, portanto, n\u00e3o entendem as receitas escritas. Quem faz essa media\u00e7\u00e3o s\u00e3o os Agentes Ind\u00edgenas de Sa\u00fade (AIS). Mas nem todos AIS conseguiam fazer a tradu\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o receberam treinamento nos \u00faltimos anos e desaprenderam o portugu\u00eas. Isso sempre fez com que o acompanhamento dos pacientes fosse dif\u00edcil. Al\u00e9m disso, os yanomami t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o diferente com as doen\u00e7as. Quando s\u00e3o tratados e deixam de ter sintomas, n\u00e3o querem mais tomar o rem\u00e9dio. \u00c9 preciso ter profissionais de sa\u00fade em contato permanente com eles para auxiliar e explicar esse tratamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas aldeias impactadas pelo garimpo, a sa\u00fade \u00e9 s\u00f3 a pontinha de um problema muito maior. \u00c9 comum que yanomami, sobretudo os homens adultos, sejam cooptados pelos garimpeiros. \u00c0s vezes recebem uma quantia de ouro por m\u00eas\u00a0\u2013\u00a0na minha \u00e9poca, a m\u00e9dia costumava ser de 11 gramas\u00a0\u2013\u00a0para deixar os trabalhadores do garimpo comerem na aldeia todos os dias. Como n\u00e3o h\u00e1 onde gastar esse \u201csal\u00e1rio\u201d, os yanomami compram mercadorias trazidas da cidade pelos pr\u00f3prios garimpeiros. Costumam ser produtos como cerveja, celular, sardinha enlatada e arroz\u00a0\u2013\u00a0sempre vendidos por um pre\u00e7o muito acima do que realmente valem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse contato com garimpeiros n\u00e3o apenas causa o endividamento dos ind\u00edgenas, como muda completamente seu modo de vida. Na cultura yanomami, os homens s\u00e3o respons\u00e1veis por plantar a ro\u00e7a e ca\u00e7ar alimentos. Muitos deixam de fazer isso quando passam a prestar servi\u00e7os para os garimpeiros, e suas fam\u00edlias ficam desassistidas. Os ind\u00edgenas se tornam dependentes de \u00e1lcool e cigarro trazidos pelo homem branco. Com a proximidade das m\u00e1quinas do garimpo, que fazem muito barulho, os animais que os ind\u00edgenas costumam ca\u00e7ar desaparecem. Essa din\u00e2mica tamb\u00e9m leva mulheres yanomami a se prostituir. Se engravidam dos brancos, s\u00e3o expulsas de suas aldeias. \u00c9 um ciclo de destrui\u00e7\u00e3o completo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">E<\/span>m mar\u00e7o de 2022, decidi deixar o trabalho na terra ind\u00edgena. Tomei essa decis\u00e3o porque estava com medo de morrer. Nas \u00faltimas viagens que fiz ao territ\u00f3rio Yanomami, presenciei tiroteios. N\u00e3o sab\u00edamos ao certo a causa desses conflitos. A gente s\u00f3 se escondia. Al\u00e9m dos garimpeiros, alguns ind\u00edgenas andavam armados. Era intimidador. N\u00f3s est\u00e1vamos sempre perto de uma \u00e1rea de garimpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o era s\u00f3 isso. Toda a situa\u00e7\u00e3o era muito frustrante. Eu assistia a pessoas adoecerem e morrerem sem poder fazer nada. Chorei escondido no dia em que comuniquei meu desligamento. Eu sentia que era preciso recuar. Estava come\u00e7ando a ficar insegura. Quando Bruno Pereira e Dom Phillips desapareceram, fazia pouco tempo que eu tinha pedido demiss\u00e3o. Eu s\u00f3 conseguia pensar que isso poderia ter acontecido comigo ou com algum de meus colegas indigenistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje trabalho atendendo refugiados venezuelanos e outras comunidades ind\u00edgenas pr\u00f3ximas \u00e0 fronteira, em Pacaraima (RR). Mas decidi que quero voltar \u00e0 terra dos yanomami. N\u00e3o h\u00e1 muitas pessoas no pa\u00eds que conhecem esse territ\u00f3rio, ent\u00e3o sinto como se tivesse uma obriga\u00e7\u00e3o moral de voltar a trabalhar para esse povo. \u00c9 a minha prioridade. Na sa\u00fade ind\u00edgena, a gente costuma dizer que h\u00e1 o \u201cchamado da floresta\u201d. Uma coisa da ordem espiritual. Quando a floresta chama, se voc\u00ea n\u00e3o ouvir, voc\u00ea enlouquece. E eu sinto que a floresta est\u00e1 me chamando.<\/p>\n<p><strong>Revista Piau\u00ed<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>depoimento M\u00e9dica do SUS descreve a situa\u00e7\u00e3o de abandono e inseguran\u00e7a que viveu durante um ano na terra ind\u00edgena Carla Rodrigues Em depoimento a Elane Oliveira &nbsp; Nasci em Rond\u00f4nia e, desde crian\u00e7a, convivi com a Floresta Amaz\u00f4nica. Eu e minha fam\u00edlia viv\u00edamos em Cacoal, uma cidadezinha pequena com muitos habitantes ind\u00edgenas. 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