{"id":111893,"date":"2022-12-10T03:44:05","date_gmt":"2022-12-10T06:44:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=111893"},"modified":"2022-12-10T03:44:05","modified_gmt":"2022-12-10T06:44:05","slug":"gal-para-sempre-legal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/12\/10\/gal-para-sempre-legal\/","title":{"rendered":"Gal, para sempre legal"},"content":{"rendered":"<div class=\"ri-header\">\n<div class=\"ri-header__container ri-header__container--vertical wrapper\">\n<div class=\"ri-header__img\">\n<div class=\"noticia__header--seemore\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ri-header__text wrapper\">\n<h1 class=\"title\">despedida<\/h1>\n<h2 class=\"desc\">Os \u00faltimos dias da cantora e o s\u00e9quito de jovens em seu vel\u00f3rio<\/h2>\n<p class=\"data-autor\"><span class=\"autor\">Thallys Braga\u00a0<\/span><span class=\"separador\">|<\/span> Edi\u00e7\u00e3o 195, Dezembro 2022\/PIAU\u00cd<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticia__main wrapper\">\n<div class=\"noticia__main--content\">\n<div class=\"noticia__socials\">\n<div class=\"noticia__socials--content socials--left\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticia__main--materia noticia__main--paragraph\" data-url=\"\">\n<div class=\"contentpaywall\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">G<\/span>al Costa tinha o costume de se deitar quando o dia estava prestes a nascer, perto das seis da manh\u00e3, e s\u00f3 despertava no meio da tarde. Por isso, mesmo que fizesse um show apenas em determinada cidade, sua estadia precisava durar no m\u00ednimo tr\u00eas dias: ela chegava na v\u00e9spera para descansar com calma, acordava na tarde do dia da apresenta\u00e7\u00e3o, e depois de soltar a voz por uma hora e meia voltava ao hotel para repousar antes de seguir viagem, no dia seguinte. N\u00e3o era uma rotina mansa para uma mulher de 77 anos, e por vezes Gal confessava se sentir cansada. Ainda assim, na maior parte do tempo demonstrava entusiasmo para subir ao palco e vibrava ao saber que a plateia estava cheia de jovens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia do \u00faltimo show de sua vida, em 17 de setembro passado, Gal descansou em sua pr\u00f3pria casa, no bairro paulistano dos Jardins. Era s\u00e1bado, ela acordou mais cedo que o habitual, ao meio-dia, e escreveu logo uma mensagem no WhatsApp para sua produtora e assistente pessoal: \u201cGiovana, mudei de ideia, vou querer ir pronta para o show. Imagino que a\u00ed precisaremos sair [<i>de casa<\/i>] \u00e0s 19h30.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Giovana Chanley acatou a mudan\u00e7a de planos e chegou \u00e0s cinco da tarde na casa de Gal. Encontrou-a sentada na mesa da cozinha, tomando uma x\u00edcara do caf\u00e9 que ela mesma havia feito. Assim que o maquiador Everson Rocha chegou, Gal come\u00e7ou a se preparar para o show, enquanto conversava com ele sobre a personagem Juma Marru\u00e1 e a atua\u00e7\u00e3o de Marcos Palmeira em\u00a0<i>Pantanal<\/i>. Sempre que encontrava a assistente e o maquiador, Gal falava sobre a novela, da qual n\u00e3o perdia nenhum cap\u00edtulo.<\/p>\n<div id=\"piaui-277944060\" class=\"piaui-interna-001\">\n<div id=\"banner-300x250-incremental-3\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 noite, um motorista foi busc\u00e1-la. A cantora ainda estava no quarto, irritada porque n\u00e3o conseguia encaixar o brinco em uma das orelhas. Ela gostava de pentear o pr\u00f3prio cabelo, passar o batom e colocar sozinha os acess\u00f3rios. \u201cQuer saber, vou sem brinco mesmo\u201d, disse, impaciente, \u00e0 assistente pessoal. Chanley ofereceu ajuda e, pela primeira vez em sete anos de parceria, Gal aceitou. \u00c0s 19h30, a cantora entrou no carro e partiu rumo ao Coala Festival 2022, no Memorial da Am\u00e9rica Latina, a cerca de 25 minutos de sua casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rubel e Tim Bernardes, artistas da nova gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos brasileiros, foram convidados a participar da apresenta\u00e7\u00e3o daquela noite. Gal, assim que chegou, foi ao camarim cumpriment\u00e1-los e fazer algumas fotos. O encontro n\u00e3o durou mais que dez minutos, e logo os dois m\u00fasicos seguiram para o aquecimento do show. Gal ficou retocando o batom. Diante do espelho, ela curvou a cabe\u00e7a para frente, de modo que pudesse olhar o pr\u00f3prio cabelo, e o penteou a partir da nuca em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 ponta dos fios. Encarou seu reflexo e depois se dirigiu at\u00e9 o produtor t\u00e9cnico Lirinha Morini, que esperava na porta, com uma lanterna, para gui\u00e1-la at\u00e9 o palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gal apareceu com os olhos destacados, uma sombra preta esfumada nas p\u00e1lpebras, a boca pintada de um vermelho matador, os cabelos fartos emoldurando o rosto. Cumprimentou os instrumentistas com o ar divertido de sempre e dirigiu-se \u00e0 ponta do palco. Abaixou para tocar o ch\u00e3o do tablado e ergueu-se de olhos fechados, sussurrando algumas palavras com as m\u00e3os estendidas para o c\u00e9u.<\/p>\n<div id=\"piaui-203942034\" class=\"piaui-interna-002\">\n<div id=\"banner-300x250-incremental-4\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado da cortina, uma multid\u00e3o formada em sua maioria por f\u00e3s de 20 e poucos anos a aguardava. Havia pelo menos cincos anos que Gal vinha atraindo as novas gera\u00e7\u00f5es para os shows. Sua presen\u00e7a era esperada nos principais festivais de m\u00fasica do pa\u00eds e, em 2022, ela participou de cinco eventos desse tipo, sempre cantando para plateias dominadas por jovens. O produtor Marcus Preto conta que Gal at\u00e9 se assustou quando, em janeiro de 2019, fez um show em Portugal para um p\u00fablico mais velho. \u201cEu olhava para a plateia e s\u00f3 tinha aquelas cabecinhas brancas. Achei hil\u00e1rio\u201d, ela disse na ocasi\u00e3o, aos risos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gal abriu o show no Coala Festival \u00e0s 20h30, cantando\u00a0<i>F\u00e9 Cega, Faca Amolada<\/i>, de Ronaldo Bastos e Milton Nascimento. No curso de uma hora e vinte minutos, passeou por cl\u00e1ssicos de seu repert\u00f3rio, como\u00a0<i>Divino Maravilhoso<\/i>,\u00a0<i>Tigresa<\/i>\u00a0e\u00a0<i>Baby<\/i>. De vez em quando, afastava o microfone da boca e encarava o p\u00fablico, sorrindo, e ent\u00e3o dizia coisas do tipo: \u201cT\u00e1 lindo!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show chegou ao \u00e1pice quando luzes vermelhas foram acesas e Tim Bernardes dedilhou a guitarra, fazendo soar os primeiros acordes de\u00a0<i>Vapor Barato<\/i>. Gal se p\u00f4s a desafiar a pot\u00eancia do instrumento eletr\u00f4nico com as cordas vocais, da mesma maneira que fazia aos 26 anos. Na metade da can\u00e7\u00e3o, os m\u00fasicos se entreolharam, euf\u00f3ricos, aumentando a frequ\u00eancia dos acordes. Gal acompanhou, entoando cada vez mais alto o verso\u00a0<i>Oh minha honey baby<\/i>. Ela estava em seu melhor estado. A plateia foi ao del\u00edrio. Quando a m\u00fasica chegou ao fim, Gal disse, como se n\u00e3o tivesse ela mesma dado um espet\u00e1culo: \u201cBonita a guitarra do Tim, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<div id=\"piaui-436077371\" class=\"piaui-interna-003\">\n<div id=\"banner-300x250-incremental-5\"><\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas nos bastidores ficaram com a impress\u00e3o de que Gal estava em \u00eaxtase. Ela saiu do palco de bra\u00e7os abertos em dire\u00e7\u00e3o a Preto e Chanley, que se lembram de ter chorado muito durante o show. Quando os alcan\u00e7ou, a cantora comemorou o bom desempenho das cordas vocais: \u201cCantei pra caralho! Acho que \u00e9 porque estou cuidando do meu pulm\u00e3o.\u201d Os m\u00fasicos da banda correram para o camarim e brindaram com um vinho, o que n\u00e3o era de costume. Eles tamb\u00e9m sentiram uma emo\u00e7\u00e3o diferente naquela noite. \u201cFoi um show inspirado\u201d, diz Tim Bernardes. \u201cSaiu todo mundo impactado.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cerca de uma hora depois, Gal voltou de carro para casa. Chegando l\u00e1, subiu para o quarto, no segundo andar, para vestir uma camisola e cal\u00e7ar os chinelos. O filho, Gabriel, estava dormindo. Ela se sentou no sof\u00e1 da sala ao lado de Wilma Teodoro Petrillo, sua companheira e s\u00f3cia, e come\u00e7ou a contar como aquela noite fora divertida, enquanto degustava um sashimi de salm\u00e3o e uma ta\u00e7a de suco de uva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">Q<\/span>uatro dias antes, na ter\u00e7a-feira, 13 de setembro, Gal tinha se internado no Hospital Israelita Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo, para retirar um n\u00f3dulo da fossa nasal direita, que havia algum tempo lhe causava um pequeno inc\u00f4modo, semelhante ao de uma espinha. A cirurgia, por\u00e9m, n\u00e3o aconteceu, porque os m\u00e9dicos identificaram que a satura\u00e7\u00e3o da cantora estava baixa. Ela ficou internada por tr\u00eas dias, recebendo tratamentos para melhorar o funcionamento do pulm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante esse per\u00edodo, sua equipe ficou sem saber se ela faria o show no festival Coala. Um grupo restrito, de menos de dez pessoas, sabia o que estava acontecendo com Gal, que era muito reservada com certos assuntos pessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, os m\u00fasicos realizaram dois ensaios: um na quinta-feira, dia 15, em um est\u00fadio, e outro na manh\u00e3 de sexta-feira, no palco do pr\u00f3prio Coala. Rubel e Tim Bernardes estiveram nas duas ocasi\u00f5es. Os dois ficaram receosos quando souberam que Gal n\u00e3o poderia ensaiar porque estava no hospital. \u201cDeu uma coisa meio estranha na gente, do tipo: \u2018Caramba, ser\u00e1 que tem alguma coisa s\u00e9ria?\u2019\u201d, lembra Bernardes. \u201cParece que bateu a confirma\u00e7\u00e3o de que a Gal estava mais velha, uma preocupa\u00e7\u00e3o com a sa\u00fade dela. Mas o show foi quase a confirma\u00e7\u00e3o do contr\u00e1rio: Gal estava \u00f3tima.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os m\u00fasicos s\u00f3 receberam a not\u00edcia de que haveria o show na sexta-feira \u00e0 noite, faltando 24 horas para subirem ao palco. Como Gal teria que esperar algumas semanas para retirar o n\u00f3dulo do nariz, ela confirmou a apresenta\u00e7\u00e3o. \u201cSe Gal decidiu sair de casa para fazer um show, \u00e9 porque sabia que o que tinha n\u00e3o era grave\u201d, diz Marcus Preto, que a acompanhou nos \u00faltimos nove anos. \u201cEla jamais subiria num palco se soubesse que algum problema de sa\u00fade amea\u00e7ava a sua vida.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gal retornou ao hospital na quarta-feira, dia 21 de setembro. O tratamento para o pulm\u00e3o dera certo, e ela p\u00f4de realizar a cirurgia. Conforme a cantora relatou \u00e0 empres\u00e1ria Kati de Almeida Braga, sua amiga, o procedimento foi surpreendentemente tranquilo. A equipe m\u00e9dica, contudo, recomendou que ela ficasse longe dos palcos por um tempo, para ajudar na recupera\u00e7\u00e3o. Toda agenda de shows foi suspensa at\u00e9 o fim do ano. Pelo WhatsApp, Gal come\u00e7ou a fabular com Almeida Braga uma data para retomar a turn\u00ea antes do R\u00e9veillon \u2013 \u201cpara recome\u00e7ar logo, colocar a bola em campo\u201d, diz a empres\u00e1ria. \u201cGal tinha absoluta convic\u00e7\u00e3o de que voltaria em breve.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cantora era conhecida entre os mais \u00edntimos como a pessoa que respondia mais r\u00e1pido \u00e0s mensagens de WhatsApp. Vivia com o celular na m\u00e3o, conversando com amigos e respondendo os coment\u00e1rios dos f\u00e3s no Instagram. Depois da cirurgia, ela diminuiu a frequ\u00eancia das conversas com Marcus Preto. Como era reservada com assuntos mais particulares, Preto n\u00e3o chegou a estranhar o distanciamento. Na noite de 30 de outubro, Gal comemorou com ele a vit\u00f3ria de Lula, enviando a mensagem: \u201cChupa Sergio Moro!!!!!\u201d Minutos depois, Preto mandou um recado avisando que a not\u00edcia que circulava pela internet sobre a morte de Erasmo Carlos era falsa. Gal respondeu: \u201cGra\u00e7as a Deus ele est\u00e1 aqui conosco!\u201d Foi sua \u00faltima mensagem para o produtor. Erasmo Carlos morreu duas semanas depois de Gal, em 22 de novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Giovana Chanley fez anivers\u00e1rio no dia 1\u00ba de novembro e Gal foi a primeira pessoa a parabeniz\u00e1-la. Pelo WhatsApp, escreveu, \u00e0s 2h04: \u201cParab\u00e9ns!!! Muita sa\u00fade e paz pra voc\u00ea!!! Tudo de bom!!! Beijos pelo seu dia.\u201d Na sequ\u00eancia, enviou uma caricatura de Lula abra\u00e7ando um mapa do Brasil. De manh\u00e3, Chanley respondeu, agradecendo, e as duas n\u00e3o voltaram a se falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Almeida Braga, Gal conversou pela \u00faltima vez na noite de 8 de novembro. Contou que mais cedo havia feito a radioterapia prescrita por seu m\u00e9dico para inibir o nascimento de c\u00e9lulas que pudessem resultar em outro n\u00f3dulo. Disse que o procedimento n\u00e3o durara dez minutos e que ela nem precisara tomar o rem\u00e9dio para enjoo. Confessou estar louca para voltar a trabalhar e se disse feliz por ter comprado outra casa em S\u00e3o Paulo, que passava por reformas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por volta das seis da manh\u00e3 do dia 9, quarta-feira, Maria da Gra\u00e7a Penna Burgos Costa teve um mal s\u00fabito e morreu em casa. Um m\u00e9dico que a acompanhava e foi at\u00e9 l\u00e1 atend\u00ea-la disse que ela pode ter sofrido uma embolia pulmonar ou um infarto. Wilma Petrillo decidiu n\u00e3o realizar a aut\u00f3psia do corpo. Embora tenha vivido com Gal por 24 anos, a vi\u00fava n\u00e3o \u00e9 bem relacionada com os amigos, a fam\u00edlia e os funcion\u00e1rios da cantora. Alguns parentes reclamaram que o sepultamento tenha sido em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o no Rio, onde ela comprou um jazigo em 1995. A\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0procurou Petrillo, mas ela preferiu n\u00e3o se manifestar. Gal deixou um filho, Gabriel Costa Penna Burgos, de 17 anos, de quem dizia ter muito orgulho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">N<\/span>o in\u00edcio da tarde daquela quarta-feira, a estudante universit\u00e1ria Sofia Gianfelice Mendes, de 20 anos, saiu para comprar um ma\u00e7o de cigarros e deixou o celular em casa. Ao retornar, encontrou liga\u00e7\u00f5es perdidas e um amontoado de mensagens de familiares e amigos. Todos repetiam a not\u00edcia que fez Mendes desmoronar: Gal Costa, a sua cantora favorita, tinha morrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mendes ficou encarando as paredes da cozinha de sua casa em Niter\u00f3i. Depois, correu at\u00e9 o quintal e gritou para uma amiga que mora ao lado: \u201cNana, a Gal morreu.\u201d A vizinha tomava banho, mas desligou o chuveiro: \u201cO qu\u00ea?\u201d Mendes repetiu: \u201cA Gal morreu.\u201d Ao se ouvir pronunciar essas palavras pela segunda vez, ela come\u00e7ou a chorar \u2013 e continuou chorando durante horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na madrugada da sexta-feira, dia 11, a estudante embarcou sozinha num \u00f4nibus de Niter\u00f3i a S\u00e3o Paulo para acompanhar o vel\u00f3rio da cantora. A cerim\u00f4nia aberta ao p\u00fablico aconteceu no mesmo dia, na Assembleia Legislativa do Estado de S\u00e3o Paulo (Alesp). Mendes chegou l\u00e1 \u00e0s nove da manh\u00e3. Um pequeno grupo aguardava os port\u00f5es serem abertos. Os f\u00e3s mais velhos levavam discos de vinis e cartazes, e a todo instante trocavam abra\u00e7os de consola\u00e7\u00e3o. Outro segmento de f\u00e3s, mais comedido, era formado por jovens da faixa et\u00e1ria de Mendes. Alguns deles tinham os olhos avermelhados e a ponta do nariz rosada de tanto chorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gal n\u00e3o ficaria surpresa se soubesse que tantos jovens largaram as aulas da faculdade, o trabalho ou o est\u00e1gio para comparecer ao vel\u00f3rio. Marcus Preto conta que certa vez a cantora lhe disse, em tom satisfeito: \u201cEu olho para a plateia e s\u00f3 tem aqueles rostinhos, eles ficam chorando\u2026 Gente, essas pessoas nem eram nascidas quando eu lancei essas m\u00fasicas.\u201d Seja por causa da colabora\u00e7\u00e3o com novos artistas, seja pela imagem de mo\u00e7a despreocupadamente corajosa e subversiva, Gal desperta na juventude de hoje um interesse equivalente ao que desencadeou na dos anos 1960 e 1970 \u2013 um feito excepcional entre os veteranos da MPB.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMe aproximei dela acho que na adolesc\u00eancia, l\u00e1 pelos 15 anos, quando desenvolvi uma loucura pelo disco\u00a0<i>Fa-Tal<\/i>\u201d, conta Mendes. De olhos castanhos e sobrancelhas muito pretas, a mo\u00e7a tem o cabelo cortado nos moldes que Gal usava na d\u00e9cada de 1970. \u201cA apar\u00eancia de imposi\u00e7\u00e3o da Gal foi o que me pegou. O cabelo dela \u00e9 muita coisa. Ela \u00e9 muita coisa. Sem falar na voz.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Alesp abriu os port\u00f5es para o vel\u00f3rio \u00e0s 9h19. Os f\u00e3s caminharam lentamente em dire\u00e7\u00e3o ao sal\u00e3o onde estava o corpo da cantora. Uma vez l\u00e1 dentro, eles se aproximaram um a um do caix\u00e3o, sussurraram algumas preces e foram embora. Mendes encarou o corpo de Gal por menos de um minuto e, em voz baixa, disse \u201cObrigada\u201d, com os olhos lacrimejando. Ent\u00e3o retornou para a cal\u00e7ada, onde ficou por mais cinco horas \u00e0 espera de amigos que fez pela internet, em f\u00e3-clubes da cantora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda pela manh\u00e3, ela comprou um par de rosas vermelhas para depositar perto do caix\u00e3o, quando entrasse outra vez na fila do vel\u00f3rio. Antes disso, resolveu fumar um cigarro. Sentou-se debaixo de uma \u00e1rvore e ficou em sil\u00eancio por minutos, observando as pessoas chegarem para a despedida. Depois, disse com a voz mi\u00fada: \u201cN\u00e3o tenho experi\u00eancia com morte. Nunca algu\u00e9m pr\u00f3ximo de mim morreu. Nem amigos, nem familiares. Essa sensa\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio profundo \u00e9 normal?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">A<\/span>\u00a0not\u00edcia chegou para o estudante de letras Chico Mieli, de 20 anos, instantes ap\u00f3s ele pensar em Gal. O rapaz estava sozinho em um ponto de \u00f4nibus, escutando no fone a can\u00e7\u00e3o\u00a0<i>Begin the Beguine<\/i>, do norte-americano Cole Porter. \u201cEnquanto escutava, fiquei pensando na vers\u00e3o que a Gal gravou da m\u00fasica, naqueles agudos dif\u00edceis de atingir, na precis\u00e3o quase geom\u00e9trica do canto dela\u201d, diz Mieli. Quando foi consultar o celular, viu a not\u00edcia da morte da cantora e ficou t\u00e3o baratinado que perdeu o \u00f4nibus para o trabalho. \u201cFalando agora, parece uma grande coincid\u00eancia, mas \u00e9 que eu n\u00e3o tirava a Gal da cabe\u00e7a. Pensava muito nela, o tempo todo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na casa de Mieli h\u00e1 uma cole\u00e7\u00e3o de discos de m\u00fasica brasileira. No in\u00edcio da adolesc\u00eancia, ele sentiu necessidade de identificar, em meio a todo o repert\u00f3rio musical que seus pais lhe tinham apresentado desde a inf\u00e2ncia, o que mais o interessava. E foi Gal Costa quem fisgou a sua aten\u00e7\u00e3o. \u201cAcho que me pegou por causa da figura de mulher linda, com a voz superafinada. O jeito dela dan\u00e7ar no palco tinha algo de l\u00fadico, ela correndo de um lado para o outro: eu gostava muito disso quando era crian\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mieli se afei\u00e7oou primeiro ao disco\u00a0<i>Gal Tropical<\/i>, de 1979, mas desenvolveu la\u00e7os mais fortes com as m\u00fasicas do in\u00edcio da carreira da baiana. \u201cAs coisas que ela fez h\u00e1 cinquenta anos ainda t\u00eam muita atualidade, voc\u00ea n\u00e3o sente nenhum desgaste. O que \u00e9 bom e ruim ao mesmo tempo\u201d, diz. \u201c\u00c9 ruim porque talvez a gente n\u00e3o tenha desenvolvido novas f\u00f3rmulas, e bom porque foram ideias muito bem executadas durante a sua cria\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele foi um dos primeiros a chegar para a despedida de Gal Costa na Alesp, por volta de 8h30. Estava acompanhado de Miguel Bivar, um amigo da USP. Os dois faltaram \u00e0 aula para comparecer ao vel\u00f3rio. \u201cOs agudos foram o que me atraiu na Gal\u201d, diz Bivar, de 19 anos. \u201cMe lembro de ter escutado especificamente\u00a0<i>Nuvem Negra<\/i>\u00a0e gostar muito, at\u00e9 que a Gal se tornou a minha cantora favorita. Gosto da tens\u00e3o que ela d\u00e1 para as m\u00fasicas e de como lida com a emo\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica.\u201d (Bivar, assim como os demais f\u00e3s, se referem a Gal no presente: ela \u00e9, canta, faz.) Ele considera que a cantora permaneceu interessante por v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es porque \u00e9 uma \u201cescola\u201d para outros int\u00e9rpretes brasileiros. \u201cA gente consegue reconhecer a influ\u00eancia do estilo da Gal no canto da Marisa Monte, da Zizi Possi, de v\u00e1rias artistas que a reivindicam como mestre. \u00c9 f\u00e1cil escutar as m\u00fasicas antigas dela porque est\u00e3o pr\u00f3ximas do que \u00e9 produzido no Brasil hoje em dia.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bivar \u00e9 estagi\u00e1rio em uma escola de ensino fundamental no Centro de S\u00e3o Paulo. Estava acompanhando os alunos em um sarau musical no come\u00e7o da tarde do dia 9, quando uma das crian\u00e7as disse: \u201cTomara que cantem uma m\u00fasica da Gal Costa agora. Ela morreu.\u201d Surpreendido, o estudante de letras sentiu seu corpo arrepiar. Ele tamb\u00e9m tem mais afei\u00e7\u00e3o pelas produ\u00e7\u00f5es do in\u00edcio da carreira da cantora e pelos discos da d\u00e9cada de 1990. Em 2021, comprou ingresso para um show apenas por desencargo de consci\u00eancia, para poder dizer que assistiu a Gal ao vivo, pelo menos uma vez na vida. \u201cN\u00e3o estava dando nada pelo show, achava que a voz dela n\u00e3o era a mesma coisa de antes\u201d, recorda. \u201cMas a Gal deu um baile. Foi incr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"capitalize\">N<\/span>o princ\u00edpio de 2020, a cantora come\u00e7aria a trabalhar em um disco com regrava\u00e7\u00f5es de Milton Nascimento, mas as medidas de isolamento social atrapalharam o plano. Quando a agenda cultural foi retomada, no final de 2021, Marcus Preto sugeriu que Gal voltasse aos palcos com um tributo ao cantor e compositor mineiro. Foi o que ela fez. Nos \u00faltimos meses, viajou o Brasil com a turn\u00ea\u00a0<i>As Va\u0301rias Pontas de uma Estrela<\/i>, cujo repert\u00f3rio tinha composi\u00e7\u00f5es de Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim, Cazuza e Jo\u00e3o Gilberto \u2013 seu \u00eddolo maior \u2013, mas era Milton o grande homenageado. O show seria gravado ao vivo no Rio de Janeiro em 24 de setembro, mas a agenda da cantora foi interrompida para que ela fizesse a cirurgia no nariz. Ela planejava para o ano que vem um \u00e1lbum de in\u00e9ditas, para o qual Jards Macal\u00e9 j\u00e1 havia escrito uma can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Nenhuma Dor<\/i>, o \u00faltimo disco de Gal, foi gravado em 2021, durante a pandemia, em parceria com artistas da nova gera\u00e7\u00e3o. Surgiu do desejo da cantora de retribuir o carinho que estava recebendo dos f\u00e3s mais novos. Preto se recorda que ela ficou emocionada ao ver tantos jovens escutando, durante o isolamento social, os discos dos m\u00fasicos de sua \u00e9poca, um fen\u00f4meno que identificou no Instagram. \u201cMinha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 foda, n\u00e9? Eu acho que eles [<i>os mais novos<\/i>] est\u00e3o entendendo que precisam cuidar dos mais velhos, porque s\u00e3o os mais velhos que est\u00e3o morrendo\u201d, ela disse a Preto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum de Gal que causa mais frisson nos jovens de hoje \u00e9\u00a0<i>Fa-Tal \u2013 Gal a Todo Vapor<\/i>, de 1971. A cantora tinha 26 anos quando gravou o disco no Teatro Tereza Rachel, em Copacabana. O AI\u20135\u00a0vigorava no pa\u00eds, e os amigos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil viviam na Europa havia tr\u00eas anos, num autoex\u00edlio for\u00e7ado pela ditadura militar. Praticamente isolada no Brasil, Gal se juntou ao produtor musical Paulinho Silva e a Waly Salom\u00e3o, respons\u00e1vel pela dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica, para montar o novo show. A estreia aconteceu em 8 de outubro de 1971. No dia 17 do mesmo m\u00eas, ela gravou ao vivo o disco que viria a se tornar um monumento da contracultura brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucos conseguiram assimilar o que aconteceu no Teatro Tereza Rachel: uma verdadeira provoca\u00e7\u00e3o ao ambiente conservador e ao autoritarismo dominante no pa\u00eds. Gal surgia vestida de top e sai\u00e3o, com a boca pintada de vermelho e a pele bronzeada depois de passar o dia na Praia de Ipanema. No primeiro ato do show, se sentava numa banqueta para soltar a voz com uma valentia que ainda n\u00e3o havia ousado, enquanto dedilhava o viol\u00e3o. Na metade da m\u00fasica\u00a0<i>Vapor Barato<\/i>, a banda entrava discretamente em cena, e pelo resto da noite ajudava a cantora a arrancar suor da plateia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show\u00a0<i>Fa-Tal<\/i>\u00a0seria reconstru\u00eddo no in\u00edcio de 2021, no mesmo teatro, mas o projeto acabou sendo cancelado pelos contratantes. No final daquele ano, a produ\u00e7\u00e3o do festival espanhol Primavera Sound come\u00e7ou a planejar o seu primeiro evento no Brasil e telefonou para Preto, perguntando se ele achava poss\u00edvel reunir Gal, Beth\u00e2nia, Caetano e Gil para um show de reencontro do grupo Doces B\u00e1rbaros. Preto conta que Gal aceitou participar, mas, como a reuni\u00e3o acabou n\u00e3o ocorrendo por haver conflito entre a agenda dos artistas e a data da apresenta\u00e7\u00e3o, ele prop\u00f4s ao festival recriar o show\u00a0<i>Fa-Tal<\/i>. A equipe do Primavera Sound gostou da proposta, e Gal tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro dias depois de acertar os tr\u00e2mites da apresenta\u00e7\u00e3o, a cantora recuou e pediu que ela fosse cancelada. Disse a Preto que \u201cn\u00e3o tinha mais aquele corpo, aquela voz\u201d dos 26 anos. Ele argumentou: \u201cMas, Gal, ningu\u00e9m disse que voc\u00ea, cinquenta anos depois, \u00e9 a mesma. \u00c9 tudo diferente. Voc\u00ea n\u00e3o vai imitar aquilo, vai refazer.\u201d Por fim, Gal se convenceu de que reapresentar o\u00a0<i>Fa-Tal\u00a0<\/i>poderia ser bom. A ordem do repert\u00f3rio original seria mantida, e o show sofreria pequenos ajustes. Os ensaios come\u00e7ariam na semana anterior \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o, marcada para o dia 5 de novembro. Ningu\u00e9m contava que Gal precisaria fazer a cirurgia no nariz. \u201cPara n\u00f3s, que somos f\u00e3s da era de ouro da m\u00fasica, aquela dos anos 1970, parecia um sonho reconstruir o<i>\u00a0Fa-Tal<\/i>\u201d, diz Vitor Cabral, baterista da banda de Gal. \u201cE agora parece uma daquelas frustra\u00e7\u00f5es de crian\u00e7a, com a qual a gente vai precisar de muito tempo para aprender a lidar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Feira de Santana, na Bahia, o editor de v\u00eddeos Rodrigo Xavier, de 23 anos, vibrou com a not\u00edcia da reapresenta\u00e7\u00e3o do show de 1971. Comprou os ingressos do Primavera Sound e as passagens a\u00e9reas para assistir \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo. Quando soube do cancelamento de Gal, ficou arrasado, mas decidiu ir ao festival mesmo assim, para ver os shows dos artistas internacionais. O evento terminou em 6 de novembro, domingo, e ela morreu tr\u00eas dias depois. Como ainda estava em S\u00e3o Paulo, Xavier foi \u00e0 Alesp se despedir da cantora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cConheci Gal por um v\u00eddeo que viralizou, ela duelando com a guitarra em uma apresenta\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>Meu Nome \u00c9 Gal<\/i>. Aquilo foi uma das coisas mais incr\u00edveis que eu vi\u201d, diz Xavier. O v\u00eddeo foi gravado em 1981. Gal, vestindo plumas cor-de-rosa, desafia com a pr\u00f3pria voz a guitarra do m\u00fasico Victor Biglione. \u201cEu a vejo como a primeira artista pop do Brasil. Gal apresenta em sua voz um canto moderno, com um pouco das ra\u00edzes de cantores brasileiros como Jo\u00e3o Gilberto, e ao mesmo tempo traz um progresso. Se voc\u00ea pegar o \u00e1lbum\u00a0<i>Recanto<\/i>, de 2011, v\u00ea a Gal experimentando a m\u00fasica eletr\u00f4nica ao lado de Caetano. E ela j\u00e1 tinha 66 anos de idade.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pr\u00f3ximo das onze da manh\u00e3, a estudante Sofia Mendes decidiu entrar de novo no vel\u00f3rio, agora levando o par de rosas vermelhas ao caix\u00e3o de Gal. Dessa vez, n\u00e3o chorou. Observou de longe o corpo da cantora, sacudiu a cabe\u00e7a e disse: \u201cN\u00e3o parece verdade.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando tinha 18 anos, a jovem come\u00e7ou a construir um acervo fotobiogr\u00e1fico de Gal Costa nas redes sociais. \u00c0s vezes passa horas, dias procurando o contexto e os cr\u00e9ditos de uma imagem antiga da cantora, e s\u00f3 ent\u00e3o a publica no Twitter e no Instagram. Foi a maneira que encontrou de ajudar na preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da tropicalista. Estudante do quarto per\u00edodo da faculdade de produ\u00e7\u00e3o cultural, ela est\u00e1 decidida a elaborar um trabalho de conclus\u00e3o de curso sobre \u201ca resist\u00eancia est\u00e9tica, pol\u00edtica e comportamental de Gal Costa no Brasil ditatorial de 1971\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao retornar \u00e0 entrada da Alesp, ela encontrou quatro amigos tamb\u00e9m apaixonados por Gal. Todos eles s\u00e3o de S\u00e3o Paulo e integram f\u00e3-clubes da cantora. D\u00e9bora Baptista, de 28 anos, criou um projeto digital de divulga\u00e7\u00e3o da obra de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Beth\u00e2nia. O \u201cPortal Doces Ba\u0301rbaros\u201d tem hoje mais de 100 mil seguidores no Instagram. \u201cGal foi a primeira\u201d, ela diz. \u201cAntes de escut\u00e1-la, eu nem sabia o que era ser mulher. Meu esp\u00edrito de juventude, de revolu\u00e7\u00e3o, foi tudo pautado por ela. \u00c9 muito louco pensar que depois daqui n\u00e3o tem mais Gal.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baptista soube da morte da cantora por amigos, que, \u201ccom muita cautela\u201d, telefonaram para dar a not\u00edcia. Algo similar ocorreu aos outros jovens com os quais a\u00a0<b>piau\u00ed<\/b>\u00a0conversou no vel\u00f3rio: quando a cantora morreu, foi neles que os amigos e os familiares pensaram imediatamente. Ser f\u00e3 de Gal Costa \u00e9 um tra\u00e7o definidor de suas personalidades, algo pelo que s\u00e3o conhecidos e lembrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de escutar a amiga refletir sobre a conex\u00e3o com a m\u00fasica de Gal, Mendes compartilhou as lembran\u00e7as do dia em que foi a S\u00e3o Paulo para assisti-la no Coala Festival. Baptista tamb\u00e9m estava no show. As duas ficaram desfiando recorda\u00e7\u00f5es na cal\u00e7ada da Alesp, intercalando l\u00e1grimas e sorrisos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o o sil\u00eancio acabou pesando e nenhuma das duas sabia mais o que falar. At\u00e9 que Mendes, num rompante, anunciou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quando eu tiver uma filha, vou dar a ela o nome Gal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baptista a encarou com um sorriso meio de lado. E Mendes prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2013 Gal, Gal, Gal. \u00c9 um nome legal.<\/p>\n<p>As duas se entreolharam, arregalando os olhos e abrindo um sorriso, e disseram em un\u00edssono:<\/p>\n<p>\u2013 Gal \u00e9 legal!<\/p>\n<div id=\"piaui-602053901\" class=\"piaui-rd-final-post\">\n<div id=\"assine-a-newsletter-conteudo-908719bc79fcfc0d2ad6\" role=\"main\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticia__autor\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>despedida Os \u00faltimos dias da cantora e o s\u00e9quito de jovens em seu vel\u00f3rio Thallys Braga\u00a0| Edi\u00e7\u00e3o 195, Dezembro 2022\/PIAU\u00cd Gal Costa tinha o costume de se deitar quando o dia estava prestes a nascer, perto das seis da manh\u00e3, e s\u00f3 despertava no meio da tarde. 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