{"id":111400,"date":"2022-11-07T14:37:23","date_gmt":"2022-11-07T17:37:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=111400"},"modified":"2022-11-07T14:37:23","modified_gmt":"2022-11-07T17:37:23","slug":"negros-so-entravam-na-faculdade-de-medicina-como-cadaveres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/11\/07\/negros-so-entravam-na-faculdade-de-medicina-como-cadaveres\/","title":{"rendered":"\u201cNegros s\u00f3 entravam na faculdade de medicina como cad\u00e1veres\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Professor da escola de Medicina, Eduardo Reis fala sobre livros que contam a hist\u00f3ria da Medicina na Bahia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que assumiu a c\u00e1tedra optativa Hist\u00f3ria da Medicina na Bahia, na Faculdade de Medicina da Ufba (Famed), o professor Eduardo Faria Borges dos Reis sentiu falta de material did\u00e1tico adequado para o curso. Come\u00e7ou ent\u00e3o uma movimenta\u00e7\u00e3o com outros professores e pesquisadores para criar esse conte\u00fado.<br \/>\nA pesquisa aprofundou-se durante a pandemia, com entrevistas a historiadores e m\u00e9dicos e o horizonte foi se expandindo. Com a aquiesc\u00eancia da Congrega\u00e7\u00e3o da Famed, surgiu o projeto de uma cole\u00e7\u00e3o de livros. J\u00e1 est\u00e3o prontos 77 cap\u00edtulos, divididos entre os quatro volumes que devem sair agora em novembro, durante a Flipel\u00f4, pela Edufba, e um quinto volume a ser lan\u00e7ado em mar\u00e7o de 2023. A pesquisa aborda desde a inser\u00e7\u00e3o da antiga Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, a primeira do pa\u00eds, at\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do of\u00edcio m\u00e9dico com as artes, a religi\u00e3o e a pol\u00edtica, passando pelos saberes medicinais dos povos origin\u00e1rios da terra que os portugueses chamariam de Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para explicar a import\u00e2ncia do projeto, que pretende retomar o protagonismo existente nos tempos da Gazeta M\u00e9dica da Bahia, A TARDE entrevistou o professor Eduardo Reis, que afirma: \u201cVamos contar um pouco dessa nossa ousadia de produzir dentro da Bahia conhecimentos da \u00e1rea m\u00e9dica que hoje s\u00e3o reconhecidos no mundo todo\u201d.<!--more--><br \/>\nPelo que se entende, a ideia de produzir livros sobre a hist\u00f3ria da Medicina na Bahia surgiu no contexto acad\u00eamico. Conte, por favor, como foi isso e quantas pessoas est\u00e3o envolvidas no projeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um esfor\u00e7o coletivo de coordena\u00e7\u00e3o. Tivemos 15 pessoas coordenando esse projeto e citamos mais de 400 autores. A gente come\u00e7ou a fazer esse esfor\u00e7o em uma disciplina na faculdade, optativa, chamada Hist\u00f3ria da Medicina na Bahia, a partir da necessidade de ter um material did\u00e1tico. A coisa ganhou uma dimens\u00e3o incr\u00edvel e a\u00ed dialogamos com a faculdade. A congrega\u00e7\u00e3o aprovou por unanimidade que esse esfor\u00e7o fosse permanente, escrever as hist\u00f3rias da Medicina na Bahia. A congrega\u00e7\u00e3o aprovou a edi\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de livros. Esses quatro que saem agora s\u00e3o os primeiros. Mas j\u00e1 tem um outro quase pronto, o quinto est\u00e1 87% editado. E vamos fazer um simp\u00f3sio, de 2 a 5 de novembro, no Terreiro de Jesus, sobre a hist\u00f3ria da Medicina, que vai gerar tamb\u00e9m outro livro. A inten\u00e7\u00e3o, aprovada e determinada pela faculdade, \u00e9 escrever v\u00e1rios livros sobre a hist\u00f3ria da Medicina. Esses s\u00e3o os quatro primeiros volumes.<\/p>\n<p><strong>Determinou-se a quantidade de livros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o, est\u00e1 em aberto. Estamos correndo contra o tempo porque precisamos fazer o lan\u00e7amento dentro do simp\u00f3sio e, coincidentemente, vai ser dentro da Flipel\u00f4. Por isso, estamos correndo, perdendo noite, para liberar esses quatro livros. \u00c9 neste panorama que estamos fazendo o planejamento. Mas como est\u00e1 muita correria, talvez a Edufba n\u00e3o fa\u00e7a logo tudo. Depois, ela vai liberar todos. Pode haver algum erro, algum ajuste no percurso, mas est\u00e1 prevista a sa\u00edda de quatro volumes no dia 4.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os temas desses quatro volumes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro volume foi concebido a partir da implanta\u00e7\u00e3o da Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira do Brasil, em 1808. A faculdade irradiando esses conhecimentos, como era o equivalente ao ensino m\u00e9dio na \u00e9poca, como era o ensino de anatomia, de fisiologia, a presen\u00e7a negra na faculdade, o protagonismo estudantil, a presen\u00e7a feminina. No volume dois, a gente faz um di\u00e1logo com as especialidades m\u00e9dicas cl\u00ednicas, a hist\u00f3ria da cl\u00ednica m\u00e9dica, o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria da pediatria, da cardiologia, da nefrologia, da geriatria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro volume aborda as especialidades cir\u00fargicas, a cirurgia geral, a hist\u00f3ria da cirurgia, cirurgia abdominal, cirurgia tor\u00e1cica, a otorrino, a ginecologia, as especialidades diagn\u00f3sticas, como a radiologia. O quarto volume vai ser sobre as deriva\u00e7\u00f5es da Medicina. Medicina e cultura, medicina e religi\u00e3o, medicina e arte, medicina e a luta das Mulheres, dois cap\u00edtulos sobre medicina e pol\u00edtica, medicina e sa\u00fade ind\u00edgena. O quinto, que a gente n\u00e3o conseguiu terminar ainda e deve sair em mar\u00e7o, vai ser sobre as hist\u00f3rias das doen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abordagem vai contar a hist\u00f3ria a partir das doen\u00e7as, de como elas se deram na Bahia, como foi a movimenta\u00e7\u00e3o social, como no caso da tuberculose, a hansen\u00edase, o albinismo, a anemia falciforme, o alcoolismo. A gente parte de uma concep\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as que contam a hist\u00f3ria da Bahia. Esse livro s\u00f3 n\u00e3o vai sair agora porque a gente n\u00e3o teve perna.<\/p>\n<div class=\"mw-article-img-box\"><img src=\"https:\/\/cdn.atarde.com.br\/img\/inline\/1210000\/inline_01210378_00.jpg?xid=5605123\" alt=\"Fachada da Faculdade de Medicina da Bahia\" \/><\/div>\n<div class=\"mw-image-info\"><span class=\"mw-image-title\">Fachada da Faculdade de Medicina da Bahia<\/span><span class=\"mw-image-author\">| \u00a0Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE<\/span><\/div>\n<p><b>Essa pesquisa \u00e9 somente a partir da instala\u00e7\u00e3o da Faculdade ou aborda saberes pr\u00e9vios?<\/b><\/p>\n<p>Para ser sincero, o nosso marco \u00e9 mais a faculdade.\u00a0 Fora alguma coisa ind\u00edgena que a gente aborda, o marco \u00e9 mesmo a faculdade.<\/p>\n<p><b>E o que se sabe sobre a medicina ind\u00edgena?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os jesu\u00edtas fizeram um dicion\u00e1rio sobre express\u00f5es do adoecimento, de como se chamavam os problemas de sa\u00fade e de como eram tratados esses problemas, as plantas nossas da \u00e9poca usadas pelos \u00edndios.\u00a0 Havia uma a\u00e7\u00e3o muito interessante nos cuidados de sa\u00fade e os jesu\u00edtas catalogavam isso, bem antes da Faculdade de Medicina. A gente fez um estudo contando um pouco isso, at\u00e9 os dias atuais. Das pol\u00edticas.\u00a0 O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tem uma pol\u00edtica de sa\u00fade ind\u00edgena.\u00a0 E a medicina ind\u00edgena \u00e9 bem anterior \u00e0 medicina oficial. Assim como a chinesa, que tem mais de cinco mil anos. A gente fala de homeopatia e acupuntura tamb\u00e9m,\u00a0 no volume dois, com um enfoque mais baiano. Algumas coisas extrapolam um pouco, mas a gente quer muito a Bahia irradiando isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente perdeu espa\u00e7o. Fomos a primeira faculdade de Medicina do Brasil, a do Rio veio meses depois. E temos uma hist\u00f3ria bonita de publica\u00e7\u00f5es, de ser uma fonte de produ\u00e7\u00e3o. Chegamos a ter a Gazeta M\u00e9dica (circulou regularmente de 1866 a 1934), uma publica\u00e7\u00e3o baiana com repercuss\u00e3o internacional, mas fomos perdendo espa\u00e7o para o Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse esfor\u00e7o nosso \u00e9 uma tentativa de retomar um pouco esse papel que perdemos. A Gazeta M\u00e9dica era uma publica\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, pioneira. Tivemos alguns m\u00e9dicos estrangeiros que ajudaram bastante.\u00a0 Chegamos a ter pr\u00e1tica de laborat\u00f3rio, de anatomopatologia, a escola tropicalista.\u00a0 A gente vai contar um pouco disso, dessa nossa ousadia de produzir dentro da Bahia conhecimentos da \u00e1rea m\u00e9dica que hoje s\u00e3o reconhecidos no mundo todo.<\/p>\n<p><b>Exemplos?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem um artigo sobre filariose, a elefant\u00edase.\u00a0 A parte das anemias devido \u00e0 verminose. Teve uma degenera\u00e7\u00e3o que as pessoas escravizadas apresentavam no dedo mindinho, que se usava a amputa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Uma dor terr\u00edvel.\u00a0 Isso foi parte da medicina tropicalista. Tem o estudo das cobras venenosas, que a gente foi pioneiro. Muita coisa interessante que se esqueceu. Talvez com essa ousadia de lan\u00e7ar os livros a gente volte a ter um certo protagonismo.<\/p>\n<p><strong>O que foi levantado sobre a presen\u00e7a negra na Faculdade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tem um cap\u00edtulo muito forte sobre os negros. Houve at\u00e9 um movimento dentro da Faculdade para que esse cap\u00edtulo fosse escrito por pessoas negras, como se fosse um manifesto. Historicamente, os negros s\u00f3 entravam na faculdade como cad\u00e1veres, os indigentes que depois de mortos eram estudados pela elite branca, ou como funcion\u00e1rios, as pessoas que trabalhavam no espa\u00e7o de anatomia, carregando os cad\u00e1veres.Uma situa\u00e7\u00e3o que levou quase dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relatamos o caso de pessoas como Juliano Moreira (fundador da psiquiatria no Brasil). Os primeiros professores negros, na metade do s\u00e9culo 19, foram Francisco Sabino Alves, Malaquias \u00c1lvares dos Santos, Salustiano Souto, Luis \u00c1lvares, al\u00e9m de Juliano Moreira. Ainda \u00e9 muito raro encontrar professores negros. Com a pol\u00edtica de cotas, aumentou muito a presen\u00e7a de estudantes negros. Estimo que devam ser cerca de 40%. Mas, na minha turma de 1979 era impressionante: eram dois ou tr\u00eas negros entre 160 alunos.<\/p>\n<p><b>E sobre a presen\u00e7a feminina?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 parecido.\u00a0 Havia a\u00ed quase uma restri\u00e7\u00e3o legal. E a infraestrutura da faculdade era pensada para estudantes homens e brancos. Pense na quest\u00e3o dos sanit\u00e1rios.\u00a0\u00a0 Mas a primeira mulher a se formar na Faculdade de Medicina foi Rita Lobato, ga\u00facha, que come\u00e7ou os estudos no Rio de Janeiro e mudou-se com a fam\u00edlia para Salvador, em 10 de dezembro de 1887. A primeira mulher negra, Maria Ot\u00edlia Teixeira (filha de um m\u00e9dico branco), formou-se em 15 de dezembro de 1909. Hoje, as mulheres s\u00e3o 54% do corpo estudantil, mas ainda enfrentam dificuldades para ocupar algumas especialidades dominadas por homens, como a cirurgia. E ainda existe preconceito, bullying , para afastar a mulher desses postos historicamente reservados aos homens. Antigamente, para a mulher era o que? Pediatria, um pouco de cl\u00ednica, um pouco de obstetr\u00edcia. Hoje j\u00e1 come\u00e7a a mudar a realidade, mas com dificuldade.\u00a0 E elas sofrem ainda com brincadeiras, com testes para ver se elas aguentam ou n\u00e3o se manter, principalmente na resid\u00eancia m\u00e9dica.<\/p>\n<p><b>E como est\u00e1 o grau de resist\u00eancia dos pacientes a m\u00e9dicos negros?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tenho dados agora, mas existe a mesma resist\u00eancia dentro da categoria m\u00e9dica. Tipo, &#8220;imagine um negro me atender&#8221;. Isso \u00e9 colocado ainda. Um paciente chega ao consult\u00f3rio, abre a porta e \u00e9 um m\u00e9dico negro. Ele se sente, pelo racismo estrutural, incomodado com isso. H\u00e1 ainda muita resist\u00eancia, muita resist\u00eancia. <span style=\"color: #000000;\">A Tarde<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professor da escola de Medicina, Eduardo Reis fala sobre livros que contam a hist\u00f3ria da Medicina na Bahia Depois que assumiu a c\u00e1tedra optativa Hist\u00f3ria da Medicina na Bahia, na Faculdade de Medicina da Ufba (Famed), o professor Eduardo Faria Borges dos Reis sentiu falta de material did\u00e1tico adequado para o curso. 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