{"id":109852,"date":"2022-07-05T13:44:50","date_gmt":"2022-07-05T16:44:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=109852"},"modified":"2022-07-05T13:44:50","modified_gmt":"2022-07-05T16:44:50","slug":"um-inventario-infame-de-feridas-profundas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/07\/05\/um-inventario-infame-de-feridas-profundas\/","title":{"rendered":"\u00a0Um invent\u00e1rio infame de feridas profundas"},"content":{"rendered":"<div class=\"container\">\n<nav>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-6 col-sm-1 col-lg-1 bt-nav\"><strong>Por Afonso Silvestre<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<\/nav>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<section id=\"post\">\n<div class=\"container\">\n<div class=\"col-12\">\n<article>\n<section id=\"post-content\">\n<div id=\"post-entry\" class=\"row\">\n<div class=\"col-lg-8\">\n<h3>Relatos mostram que masculinidade e institucionalidade reproduzem ignor\u00e2ncia, que gera preconceito, que gera viol\u00eancia; e tudo isto \u00e9 constrangedor<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tempos temos observado atitudes extremas de intoler\u00e2ncia neste Territ\u00f3rio de Identidade do Planalto da Conquista, cujo p\u00f3lo de refer\u00eancia social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica \u00e9 a vig\u00e9sima segunda cidade mais violenta do mundo, segundo as Na\u00e7\u00f5es Unidas. Embora o ranking se refira ao conceito restrito de viol\u00eancia enquanto contagem de homic\u00eddios por cem mil habitantes, vamos abordar as diversas formas de viol\u00eancias que geram os homic\u00eddios. A viol\u00eancia por \u00f3dio ou medo, seja atrav\u00e9s de palavras, seja de atitudes, at\u00e9 as mais extremas. E vamos observar como sempre h\u00e1 uma representa\u00e7\u00e3o da masculinidade nas viol\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Racismos, misoginias, fobias variadas que se manifestam enquanto \u00f3dio ao outro. O preconceito, que \u00e9 uma defesa natural do intelecto, um aviso para que busquemos o entendimento, \u00e9 extremado e torna-se um defeito grave. Um empilhado de \u00f3dios, frustra\u00e7\u00f5es e aberra\u00e7\u00f5es, um verdadeiro inferno. Esta nega\u00e7\u00e3o do outro muitas vezes violenta \u00e9 tamb\u00e9m a nega\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios b\u00e1sicos de civilidade, cidadania, educa\u00e7\u00e3o, uma nega\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5e pela for\u00e7a. Esse tipo de viol\u00eancia se d\u00e1 pela ignor\u00e2ncia, que gera medo nas pessoas, que, diante dele, poder\u00e3o reagir de maneira covarde ou corajosa, altru\u00edsta ou ego\u00edsta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o caso do porteiro que n\u00e3o permite \u00e0 moradora negra do condom\u00ednio entrar por ela ser negra. Ou a advogada negra agredida pela vizinha que ocupava sua vaga no estacionamento. A rea\u00e7\u00e3o foi pela advogada ter reclamado sua pr\u00f3pria vaga. Houve xingamentos e viol\u00eancia f\u00edsica. Coisas do tipo que personagens de novela e eleitores da extrema direita costumam fazer contra negros, principalmente se forem mulheres e estas estiverem com a raz\u00e3o. \u00c9 uma pletora de exposi\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias v\u00edsceras.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div id=\"attachment_19859\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-19859 size-full\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.13.26.jpeg?resize=379%2C298&amp;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 379px) 100vw, 379px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.13.26.jpeg?w=379&amp;ssl=1 379w, https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.13.26.jpeg?resize=300%2C236&amp;ssl=1 300w\" alt=\"\" width=\"379\" height=\"298\" aria-describedby=\"caption-attachment-19859\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-19859\" class=\"wp-caption-text\">Em 2016 Am\u00e9rico assassinou uma jovem gr\u00e1vida e o beb\u00ea, est\u00e1 foragido desde ent\u00e3o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um desses m\u00e9dicos abusadores foi denunciado recentemente (outro tipo de viol\u00eancia contra a mulher que tem se tornado comum), sua advogada, para defender o cliente, exp\u00f4s a vida sexual da v\u00edtima da viol\u00eancia m\u00e9dica, como se seus h\u00e1bitos fossem uma raz\u00e3o que autorizassem o m\u00e9dico a violentar sua paciente. Sim, misoginia praticada por uma mulher contra outra. Foram diversos os casos de den\u00fancias desse tipo de viol\u00eancia contra a mulher. Por\u00e9m, muitas den\u00fancias foram feitas de modo ilegal, utilizando-se de um perfil de rede social para expor os criminosos, ao inv\u00e9s de formalizadas de acordo com as orienta\u00e7\u00f5es legais. Obviamente, o perfil foi cancelado. N\u00e3o se tem not\u00edcias dos desfechos desses crimes, estatisticamente sabe-se que s\u00e3o processos constrangedores e dolorosos para as v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma mo\u00e7a de 16 anos, negra, gr\u00e1vida, \u00e9 encontrada morta num barril no bairro Conveima. Ningu\u00e9m ouviu falar disso, aconteceu h\u00e1 poucos meses e foi denunciado na C\u00e2mara pelo vereador Ricardo Bab\u00e3o. Mas todos conhecem e fazem quest\u00e3o de indignar-se com as viol\u00eancias contra a mulher em bairros mais nobres. Mulheres de pele mais clara. E homens cuja maioria n\u00e3o est\u00e1 presa. Uma delegada se referiu a tr\u00eas assassinos de uma jovem como \u201crapazes\u201d. S\u00e3o da mesma classe social e possuem rela\u00e7\u00f5es sociais, liga\u00e7\u00f5es sociais ou identifica\u00e7\u00f5es comuns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cidade vizinha, menino trans de 12 anos tem negado direito ao nome social em escola. O direito, estendido a menores desde 2016, foi solicitado pela m\u00e3e. A resposta da escola foi que precisa da autoriza\u00e7\u00e3o da prefeitura, n\u00e3o se sabe se por cinismo ou ignor\u00e2ncia. Vereadores foram pressionados a n\u00e3o votar projeto de lei local. Um pastor mobilizou a comunidade, que foi ao parlamento pressionar os edis a n\u00e3o votarem no que o dito religioso chamou de aberra\u00e7\u00e3o. Um vereador cita a b\u00edblia e diz que vai votar contra porque sua ideologia n\u00e3o pode ser desrespeitada. A casa da crian\u00e7a foi apedrejada, a pol\u00edcia n\u00e3o age.<\/p>\n<div id=\"attachment_19855\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\" wp-image-19855\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.08.14.jpeg?resize=256%2C320&amp;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 256px) 100vw, 256px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.08.14.jpeg?w=423&amp;ssl=1 423w, https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.08.14.jpeg?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"320\" aria-describedby=\"caption-attachment-19855\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-19855\" class=\"wp-caption-text\" style=\"text-align: justify;\">A acusa\u00e7\u00e3o do pastor David foi noticiada pela m\u00eddia estadual e chamada de bruxaria eleitoral, m\u00eddia local n\u00e3o informou o nome do pastor na \u00e9poca<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, o aspecto da religi\u00e3o estimulando a viol\u00eancia, aproveitando-se da ignor\u00e2ncia e suscitando comportamentos extremos. Conquista, 2020. O pastor David Silva diz a fi\u00e9is que candidato a prefeito e deputado, mais o governador e um senador, sacrificaram animais em rituais de magia negra pr\u00f3ximo \u00e0 estrada da Barra. A imprensa mais<\/p>\n<div id=\"attachment_19856\" class=\"wp-caption alignright\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-19856\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.09.33.jpeg?resize=294%2C215&amp;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 294px) 100vw, 294px\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.09.33.jpeg?w=957&amp;ssl=1 957w, https:\/\/i1.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.09.33.jpeg?resize=300%2C219&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i1.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.09.33.jpeg?resize=768%2C561&amp;ssl=1 768w\" alt=\"\" width=\"294\" height=\"215\" aria-describedby=\"caption-attachment-19856\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-19856\" class=\"wp-caption-text\" style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca,\u00a0o pastor foi desmentido pela imprensa, mas pessoas da religi\u00e3o do pastor de falso testemunho declararam o voto orientados pela mentiras\u00e9ria desmentiu o pastor, mas o objetivo da fala era pol\u00edtico e eleitoral. Muitos fi\u00e9is ao pastor de falso testemunho declararam ter seguido as orienta\u00e7\u00f5es nas urnas. Em 2021 ele foi condenado a se desmentir publicamente. De fato, h\u00e1 mais tempo, houve sacrif\u00edcio de animais mam\u00edferos placent\u00e1rios na estrada da Barra, no caso, na ocasi\u00e3o, humanos mesmo. Eram pastores matando-se uns aos outros, disputando fi\u00e9is e pontos de ora\u00e7\u00e3o como traficantes se matam por clientelas e biqueiras.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 pouco mais de dois meses, a Pol\u00edcia Militar, que tamb\u00e9m (\u00e9 importante lembrar) faz trabalhos de prote\u00e7\u00e3o, acolhimento e cuidados com a popula\u00e7\u00e3o, subiu o bairro das Pedrinhas \u00e0s 11 da manh\u00e3, meteu o p\u00e9 numa porta, invadiu a casa, foi at\u00e9 um quarto onde dormia um homem de 23 anos e o assassinou a tiros. No boletim da ocorr\u00eancia, uma refer\u00eancia a \u201ctroca de tiros\u201d. Soube disso porque ia realizar uma atividade no local naquele dia, quando me foi explicado que deveria ser adiada porque havia uma m\u00e3e chorando, e quando uma m\u00e3e ali sofre, todas sofrem. Este fato \u00e9 corriqueiro no local. Embora os moradores sejam descendentes de pessoas que constru\u00edram as casas de gera\u00e7\u00f5es passadas, cuidaram de seus filhos, prepararam seu alimento e fizeram o asseio e limpeza dos seus lares, hoje, para conseguir um emprego na cidade, precisam mentir sobre o lugar onde moram. A representa\u00e7\u00e3o do estigma da ignor\u00e2ncia: se a cidade soubesse a d\u00edvida que tem com as Pedrinhas, a realidade seria outra.<\/p>\n<div id=\"attachment_19857\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"wp-image-19857 size-full\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.11.03.jpeg?resize=696%2C522&amp;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" srcset=\"https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.11.03.jpeg?w=696&amp;ssl=1 696w, https:\/\/i2.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.11.03.jpeg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"522\" aria-describedby=\"caption-attachment-19857\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-19857\" class=\"wp-caption-text\">Pol\u00edcia militar em atividade para combate \u00e0 pobreza<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre 1997 e 2000 Conquista teve transforma\u00e7\u00f5es sociais importantes. Havia em 1996 centenas de crian\u00e7as e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de rua. Essas crian\u00e7as assustavam as pessoas. Como em epis\u00f3dio narrado nos anos de 1950 pelo m\u00e9dico e historiador Le\u00f4ncio Basbaum (1907-1969) que passou por aqui e narrou o ass\u00e9dio ostensivo dos meninos de rua a pedir esmolas. Por\u00e9m, no apagar das luzes daquele s\u00e9culo, ap\u00f3s cinquenta anos de aus\u00eancia, algumas crian\u00e7as e adolescentes tinham armas \u00e0 m\u00e3o, e n\u00e3o pediam mais. No ano seguinte, 1997, o Munic\u00edpio organizou um programa que iniciou atendendo a algumas dezenas de meninas e meninos numa casa de acolhimento noturno. O local foi no centro da cidade, mas moradores e comerciantes n\u00e3o gostaram, sentiram medo. Estumaram c\u00e3es contra os menores e tiveram o refor\u00e7o de um locutor de r\u00e1dio que afirmou ser um perigo aqueles\u00a0<em>marginais\u00a0<\/em>ali. N\u00e3o obstante parte da sociedade ter sido contra, o programa tornou-se uma refer\u00eancia nacional em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, e, 10 anos depois, atendia a cerca de 500 fam\u00edlias com atividades e forma\u00e7\u00e3o em tempo integral e bolsa para as m\u00e3es das fam\u00edlias. Tamb\u00e9m, na mesma \u00e9poca, foi organizado um grupo de catadores para coleta do lixo recicl\u00e1vel e, com carro\u00e7as, iam at\u00e9 mesmo onde os caminh\u00f5es n\u00e3o podiam ir. Por\u00e9m uma reportagem na tv Sudoeste mostrou os moradores de bairros de classe m\u00e9dia-alta reclamando do suposto perigo que aquelas pessoas ofereciam circulando por ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As manifesta\u00e7\u00f5es racistas de Vereadores, do tipo \u201ccotistas s\u00e3o semianalfabetos\u201d ou \u201cn\u00e3o existe racismo\u201d e ainda \u201creclamam que a pol\u00edcia mata negros mas ningu\u00e9m v\u00ea quando um negro mata policia\u201d, e outras aberra\u00e7\u00f5es, mostram entendimentos de legisladores e eleitores. O poder executivo, por sua vez, faz cumprir a lei derrubando casas, deixando fam\u00edlias pobres sem moradia. E n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o comparar com passado recente, quando bairros e loteamentos foram criados para remanejar pessoas morando em lugares de condi\u00e7\u00f5es subnormais e irregulares. E tem, entre tantas outras hist\u00f3rias de opress\u00e3o e covardia contra os mais pobres, a da senhora de 78 anos que teve suas mem\u00f3rias soterradas por um trator contratado por um homem de posses que estava com raiva do neto dela e mandou derrubar o barraco onde ela morava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, a cidade \u00e9 racista, na mesma medida do pa\u00eds. Sempre foi. H\u00e1 um censo do final do s\u00e9culo XIX em que apenas 8% da popula\u00e7\u00e3o local se declara negra. Mais de cem anos depois, em 2011, membros de uma comunidade pedem ajuda do poder p\u00fablico para convencer o restante dos moradores a aceitarem a certifica\u00e7\u00e3o de comunidade remanescente de quilombo. Os que recusavam, faziam-no por auto preconceito: \u201cn\u00e3o, isso de ser\u00a0<em>carambola<\/em>\u00a0\u00e9 coisa de preto e pobre, e n\u00f3s n\u00e3o\u00a0<em>quer\u00a0<\/em>ser\u201d. O constrangimento de ser um estigma, a ignor\u00e2ncia sobre si pr\u00f3prio, a baixa autoestima pressionada por s\u00e9culos de mentiras acerca de pessoas por conta de perfis de caracter\u00edsticas. e o hist\u00f3rico de viol\u00eancia e humilha\u00e7\u00e3o sofrido gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade \u00e9 homof\u00f3bica, mata perfis de caracter\u00edstica de orienta\u00e7\u00e3o sexual diferenciada da dita heteronormatividade. Mata por \u00f3dio, mata por medo. At\u00e9 mesmo a institucionalidade, que deveria cuidar de explicar e instruir sobre os preconceitos, evitar que se tornem viol\u00eancias graves, oferecer seguran\u00e7a e qualidade de vida, nem sempre o faz. Embora haja \u00f3rg\u00e3o espec\u00edfico, emite equ\u00edvocos de m\u00e9todo e at\u00e9 mesmo express\u00f5es inconscientes de homofobia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, a cidade \u00e9 mis\u00f3gina. Mata e estupra mulheres, abusa, violenta, usurpa. At\u00e9 mesmo uma policial militar, na solid\u00e3o de uma cabine de posto policial na periferia erma, no meio da madrugada, \u00e9 v\u00edtima de estupro durante plant\u00e3o. Uma hist\u00f3ria mal contada que teve muitas ajudas para acontecer. A viol\u00eancia contra a mulher dentro das pol\u00edcias n\u00e3o \u00e9 caso isolado. Na pol\u00edcia civil h\u00e1 um processo em curso por viol\u00eancia sexual e grave ass\u00e9dio moral de servidor homem contra colega mulher. A v\u00edtima, durante o processo, sofre mais ass\u00e9dios e tentativas de desqualifica\u00e7\u00e3o do seu car\u00e1ter e integridade.<\/p>\n<div id=\"attachment_19858\" class=\"wp-caption aligncenter\">\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-19858\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.13.02.jpeg?resize=640%2C427&amp;ssl=1\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.13.02.jpeg?w=640&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/revistagambiarra.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Image-2022-06-26-at-23.13.02.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" aria-describedby=\"caption-attachment-19858\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-19858\" class=\"wp-caption-text\">Sashira, assassinada em 2021 por colegas de faculdade<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda esta viol\u00eancia fruto de ignor\u00e2ncia \u00e9 um reflexo do pa\u00eds, que se torna cada vez mais intolerante. Em 2021, houve um estupro a cada 10 minutos e um feminic\u00eddio a cada 7 horas no Brasil. No mesmo ano, foram assassinadas 320 pessoas LGBTQIA +. Mortes de negros pela pol\u00edcia tamb\u00e9m aumentaram, e ganharam repercuss\u00e3o. Sim, as viol\u00eancias das discrimina\u00e7\u00f5es s\u00e3o institucionais tamb\u00e9m. Envolvem \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica, legislativo, executivo, judici\u00e1rio e toda a sociedade. E este microcosmo da regi\u00e3o de Vit\u00f3ria da Conquista \u00e9 um exemplo do estado geral de coisas em \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas, com o tempo, est\u00e3o se sentindo mais \u00e0 vontade para expressar o que chamam de \u201copini\u00f5es\u201d, que s\u00e3o, na verdade, manifesta\u00e7\u00f5es de frustra\u00e7\u00e3o e desejo de cometer viol\u00eancia por medo ou por \u00f3dio. Assistimos recentemente a um parlamentar com mentalidade absolutamente infantil declarar que estava na Ucr\u00e2nia, n\u00e3o em miss\u00e3o humanit\u00e1ria, mas para conseguir sexo f\u00e1cil com mulheres pobres. De onde vem todo este machismo que opera nas institui\u00e7\u00f5es e as cega?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta escalada \u00e9 antiga. O poder que os homens t\u00eam nas m\u00e3os se mostra fr\u00e1gil \u00e0 medida que os paradigmas v\u00e3o se atualizando. \u00c9 constrangedor, e os homens, detentores dos lugares de poder, se mostram criaturas fr\u00e1geis, covardes, incapazes. E quanto mais isto se evidencia, mais aumenta a viol\u00eancia e os meios para se comet\u00ea-la. E a certeza sobre tudo, inclusive a impunidade. Como no caso dos meganhas federais que mataram por asfixia uma pessoa em Sergipe, numa c\u00e2mara de g\u00e1s improvisada no fundo da viatura, diante das c\u00e2meras. Mataram pela infra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o usar capacete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Matar passa a ser uma alternativa. Um modo de ostentar a for\u00e7a e um suposto poder de dom\u00ednio, como fazem os animais. Desde que o ex-juiz e autor da maior fraude processual da hist\u00f3ria do Brasil insistiu no tal \u201cexcludente de ilicitude\u201d, para que a pol\u00edcia pudesse matar com mais liberdade e menos remorso, aumentou consideravelmente o n\u00famero de pessoas sendo executadas em via p\u00fablica por agentes de seguran\u00e7a. Geralmente por asfixia, mas tamb\u00e9m por balas, sejam perdidas ou direcionadas para negros que portem qualquer coisa que se pare\u00e7a uma arma aos olhos de quem vive no universo das armas e da viol\u00eancia. Um guarda-chuva, por exemplo. Tamb\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o assistiu jornalistas formadores de opini\u00e3o incentivando o linchamento, como a mo\u00e7a com nome de princesa persa que fez campanha para o golpe de 2016, ajudou a eleger o presidente e depois se arrependeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed surge a not\u00edcia de que tortura com morte \u00e9 ensinada nos cursos preparat\u00f3rios da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal. Surgem v\u00eddeos de membros da corpora\u00e7\u00e3o ensinando requintes de crueldade com o cinismo de uma crian\u00e7a perversa de 11 anos dando ind\u00edcios de que vai ter problemas para articular cogni\u00e7\u00e3o e afetos. E n\u00e3o \u00e9 apenas um. \u00c9 costume, outros v\u00eddeos apareceram. Num desses documentos, um policial fala sobre qu\u00e3o bom \u00e9 ser PM, pelo poder que tem em bater num \u201cbando de pobres pretos desdentados e favelados torcedores do Flamengo\u201d, autorizado pelo superior.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda esta viol\u00eancia vem de um desejo. O desejo daqueles que n\u00e3o suportam mais o peso e as responsabilidades do mundo adulto, em que se tem de responder sobre o que se faz ou diz. Isto se torna, aos olhos deles e em sua posi\u00e7\u00e3o, uma viol\u00eancia insuport\u00e1vel. S\u00e3o representados pelo homem que quer substituir sua responsabilidade e vida ordin\u00e1ria, sua incapacidade de lidar com a pr\u00f3pria frustra\u00e7\u00e3o, sua covardia, pelo direito de ser violento. V\u00edtima da pr\u00f3pria impot\u00eancia, reclama o direito de espancar o mais fr\u00e1gil fisicamente, mas que o assusta por ser infinitamente superior em intelig\u00eancia e maturidade. Reclama o direito de andar armado, por ser v\u00edtima de uma sociedade cruel, de dizer o que pensa e compreender isto como opini\u00e3o, mesmo que n\u00e3o haja sentido ou contexto, mesmo que fira ou minta. Ou seja, \u00e9 um desejo do que se entende por liberdade, pensar que se pode exercer como quiser a pr\u00f3pria viol\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Afonso Silvestre &nbsp; Relatos mostram que masculinidade e institucionalidade reproduzem ignor\u00e2ncia, que gera preconceito, que gera viol\u00eancia; e tudo isto \u00e9 constrangedor H\u00e1 tempos temos observado atitudes extremas de intoler\u00e2ncia neste Territ\u00f3rio de Identidade do Planalto da Conquista, cujo p\u00f3lo de refer\u00eancia social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica \u00e9 a vig\u00e9sima segunda cidade mais violenta do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109853,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[97,105],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109852"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109852"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109852\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":109854,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109852\/revisions\/109854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109852"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109852"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109852"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}