{"id":108228,"date":"2022-03-27T10:50:23","date_gmt":"2022-03-27T13:50:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=108228"},"modified":"2022-03-27T10:51:22","modified_gmt":"2022-03-27T13:51:22","slug":"108228","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/03\/27\/108228\/","title":{"rendered":"Racismo na Bahia: Jovem negra \u00e9 impedida de entrar na escola por ter cabelo &#8216;n\u00e3o adequado&#8217;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>por Lula Bonfim<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Racismo na Bahia: Jovem negra \u00e9 impedida de entrar na escola por ter cabelo &#8216;n\u00e3o adequado&#8217; Col\u00e9gio Municipal Dr. Jo\u00e3o Paim, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9 | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<br \/>\nUma adolescente de idade foi impedida, na \u00faltima segunda-feira (21) de entrar no Col\u00e9gio Municipal Dr. Jo\u00e3o Paim, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9, na Regi\u00e3o Metropolitana de Salvador, por ter um cabelo \u201cn\u00e3o adequado \u00e0s regras\u201d da escola, que integra o sistema de ensino da rede CPM (Col\u00e9gio da Pol\u00edcia Militar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eloah Monique, de 13 anos de idade, \u00e9 negra e tem um cabelo crespo, montado no estilo \u201cblack power\u201d. Entretanto, sabendo das regras do col\u00e9gio em que est\u00e1 matriculada, ela mantinha a rotina de, diariamente, prender o cabelo e arrum\u00e1-lo em um \u201ccoque\u201d para frequentar as aulas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, isso n\u00e3o a impediu de ser barrada na entrada do col\u00e9gio. De acordo com a m\u00e3e da garota, Jaciara Tavares, um instrutor da escola n\u00e3o permitiu a entrada de Eloah, alegando que seu cabelo \u201cinchado\u201d n\u00e3o se adequava \u00e0s normas militares da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa segunda, ela foi para a escola. Estava com o cabelo preso. Mas o instrutor disse que o cabelo dela estava inchado. Ele faz essa abordagem na frente da escola. Disse que o cabelo dela estava inadequado para as regras da escola e que n\u00e3o poderia adentrar \u00e0 unidade escolar naquele dia\u201d, relatou Jaciara, em entrevista ao Bahia Not\u00edcias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda segundo ela, Eloah j\u00e1 tinha passado por essa situa\u00e7\u00e3o outras duas vezes. Na terceira vez, a adolescente n\u00e3o aguentou e voltou para casa, pedindo \u00e0 m\u00e3e para mud\u00e1-la de col\u00e9gio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO instrutor falou isso na frente de v\u00e1rias outras pessoas, entre pais e alunos, constrangendo ela. Mandou ela embora para casa. N\u00e3o me comunicaram, n\u00e3o me ligaram. A escola n\u00e3o se responsabilizou em momento nenhum por ela nem pelo ato. Minha filha foi para casa sozinha, podendo ser roubada, estuprada. Ela chegou em casa com muita raiva. Mandou tr\u00eas \u00e1udios para mim, disse que se sentia humilhada no col\u00e9gio e pediu para que eu a matriculasse em outra institui\u00e7\u00e3o\u201d, contou a m\u00e3e.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jaciara ent\u00e3o foi ao col\u00e9gio, em busca do instrutor. Mas a rea\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio n\u00e3o mudou: ele insistiu que o cabelo da menina era inadequado e afirmou que apenas cumpria as regras da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMe mostrou uma cartilha das regras e apontou o modelo de cabelo que ela deveria utilizar. S\u00f3 que o cabelo dela \u00e9 assim, \u00e9 black, \u00e9 normal que ela tivesse dificuldades de deixar o cabelo como estava no papel. Ele respondeu que minha filha deveria alinhar ou at\u00e9 alisar o cabelo. Quer dizer: para minha filha estudar, ela vai ter que abrir m\u00e3o da identidade dela?\u201d, questionou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Procurado pelo Bahia Not\u00edcias, o advogado da fam\u00edlia no caso, Marcos Alan da Hora, avaliou que o caso se trata tanto de racismo quanto de inj\u00faria racial. Segundo ele, Jaciara registrou queixa na Delegacia de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9, que est\u00e1 investigando o fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNo \u00e2mbito penal, pela propor\u00e7\u00e3o que isso tomou, o Minist\u00e9rio P\u00fablico j\u00e1 deve ter tomado ci\u00eancia e tem a obriga\u00e7\u00e3o de apurar a situa\u00e7\u00e3o, instaurando de of\u00edcio um inqu\u00e9rito pr\u00f3prio. Mesmo que isso n\u00e3o aconte\u00e7a, como a m\u00e3e registrou uma queixa na delegacia, ap\u00f3s o t\u00e9rmino da apura\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia, o delegado dever\u00e1 encaminhar o processo ao Minist\u00e9rio P\u00fablico logo que se chegar ao fato e \u00e0 autoria. A\u00ed o Minist\u00e9rio P\u00fablico precisa instaurar a den\u00fancia, um processo jur\u00eddico para responsabiliza\u00e7\u00e3o do autor do fato\u201d, apontou Alan da Hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o advogado, como a conduta de n\u00e3o permitir o cabelo de garota \u00e9 regulamentada pelo col\u00e9gio, a institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa ser responsabilizada pelo caso de racismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVoc\u00ea exigir um padr\u00e3o est\u00e9tico em que a maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o se enquadra, isso, por si s\u00f3, j\u00e1 seria racismo. Isso precisa ser repensado pelas autoridades p\u00fablicos, para que se adequem \u00e0s normas de direitos iguais, relacionados \u00e0s caracter\u00edsticas de cada povo, de cada pessoa. Estamos falando de um caso sobre negros, de cabelo crespo, mas isso que estou dizendo pode se encaixar a qualquer ra\u00e7a ou etnia. \u00c9 preciso respeitar as diferen\u00e7as\u201d, disse o defensor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQual \u00e9 a diferen\u00e7a que existe entre cabelos? Por qual motivo, para uma caracter\u00edstica, nada \u00e9 imposto e, para outra, se imp\u00f5e sacrif\u00edcios? N\u00e3o \u00e9 porque uma norma existe, que ela tem que ser seguida. Especialmente se ela for claramente racista, como \u00e9 o caso\u201d, criticou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alan da Hora ainda sinalizou a possibilidade da fam\u00edlia acionar tanto o col\u00e9gio quanto o funcion\u00e1rio na \u00e1rea c\u00edvel, por danos morais. Segundo ele, h\u00e1 um claro constrangimento imposto n\u00e3o s\u00f3 a Eloah, como tamb\u00e9m a Jaciara como m\u00e3e da adolescente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jaciara, entretanto, diz que s\u00f3 quer impedir que sua filha e outras pessoas negras voltem a passar por situa\u00e7\u00f5es como essas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 revoltante. Cada vez que eu conto a hist\u00f3ria, eu fico mais triste. Este pa\u00eds \u00e9 muito racista. Eu ainda quis amenizar, quis denunciar por inj\u00faria racial. Mas, na verdade, o instrutor foi racista com minha filha. Essa \u00e9 a verdade. O crime \u00e9 de racismo. Aqui, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, 95% \u00e9 de pessoas negras. E n\u00f3s n\u00e3o podemos mais conviver com isso\u201d, finalizou a m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">POSICIONAMENTO DA PM-BA<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nota encaminhada ao BN, a Pol\u00edcia Militar da Bahia (PM-BA) afirmou que o Col\u00e9gio Municipal Dr. Jo\u00e3o Paim n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o de ensino da corpora\u00e7\u00e3o e disse repudiar qualquer tipo de comportamento racista ou discriminat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Prefeitura de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9 assinou um Termo de Coopera\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica (TCT) com a PM-BA para difundir o Sistema de Ensino da rede CPM. Com a implanta\u00e7\u00e3o desse Sistema, o col\u00e9gio passou a ter uma dire\u00e7\u00e3o compartilhada entre o diretor escolar, encarregado das quest\u00f5es administrativas e pedag\u00f3gicas, e o diretor disciplinar, que \u00e9 um policial militar da reserva que se responsabiliza pela parte disciplinar dos alunos\u201d, diz a nota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A PM-BA tamb\u00e9m relatou que o comandante do 5\u00b0 Pelot\u00e3o da 10\u00aa CIPM, unidade respons\u00e1vel pelo policiamento em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9, manteve contato com a m\u00e3e da aluna e se colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Juciara foi at\u00e9 a sede do pelot\u00e3o na \u00faltima ter\u00e7a-feira (22), onde foi ouvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador Marcos Resende, representante do Coletivo de Entidades Negras, questiona as regras impostas pela PM-BA nos col\u00e9gios que foram assumidos pelo sistema de ensino da rede CPM. Segundo ele, a veda\u00e7\u00e3o a cabelos dos mais variados tipos \u00e9 um sinal de atraso da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNa Pol\u00edcia de Nova Iorque, o policial pode ser rasta, pode ter dread. Se for mu\u00e7ulmano ou indiano, ele usa os aparatos da religi\u00e3o dele na cabe\u00e7a e segue sendo policial. Ent\u00e3o, que tipo de institui\u00e7\u00e3o n\u00f3s temos aqui na Bahia, que \u00e9 a Pol\u00edcia Militar, que insiste em n\u00e3o mudar de forma nenhuma? Implantar isso nas escolas e tratar isso como algo a ser normatizado, nesta conjuntura e nesta quadra hist\u00f3rica \u00e9 tipo n\u00f3s voltarmos para a idade m\u00e9dia\u201d, criticou Resende.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Lula Bonfim Racismo na Bahia: Jovem negra \u00e9 impedida de entrar na escola por ter cabelo &#8216;n\u00e3o adequado&#8217; Col\u00e9gio Municipal Dr. Jo\u00e3o Paim, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9 | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o Uma adolescente de idade foi impedida, na \u00faltima segunda-feira (21) de entrar no Col\u00e9gio Municipal Dr. Jo\u00e3o Paim, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":108229,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[110,71],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108228"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=108228"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108228\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":108231,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108228\/revisions\/108231"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/108229"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=108228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=108228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=108228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}