{"id":107888,"date":"2022-03-06T19:53:50","date_gmt":"2022-03-06T22:53:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=107888"},"modified":"2022-03-06T19:54:47","modified_gmt":"2022-03-06T22:54:47","slug":"theodomiro-a-pena-de-morte-salvou-sua-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/03\/06\/theodomiro-a-pena-de-morte-salvou-sua-vida\/","title":{"rendered":"Theodomiro: A pena de morte salvou sua vida"},"content":{"rendered":"<div class=\"header-noticias\">\n<h4><\/h4>\n<\/div>\n<div class=\"compartilhamento\">\n<div class=\"addtoany_shortcode\">\n<div class=\"a2a_kit a2a_kit_size_32 addtoany_list\" data-a2a-url=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/theodomiro-a-pena-de-morte-salvou-sua-vida\/\" data-a2a-title=\"Theodomiro: A pena de morte salvou sua vida\"><a class=\"a2a_button_facebook\" title=\"Facebook\" href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/#facebook\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><span class=\"a2a_label\">Facebook<\/span><\/a><a class=\"a2a_button_twitter\" title=\"Twitter\" href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/#twitter\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><span class=\"a2a_label\">Twitter<\/span><\/a><a class=\"a2a_button_whatsapp\" title=\"WhatsApp\" href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/#whatsapp\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><span class=\"a2a_label\">WhatsApp<\/span><\/a><a class=\"a2a_button_linkedin\" title=\"LinkedIn\" href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/#linkedin\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><span class=\"a2a_label\">LinkedIn<\/span><\/a><a class=\"a2a_button_email\" title=\"Email\" href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/#email\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><span class=\"a2a_label\">Email<\/span><\/a><a class=\"a2a_button_telegram\" title=\"Telegram\" href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/#telegram\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><span class=\"a2a_label\">Telegram<\/span><\/a><a class=\"a2a_dd a2a_counter addtoany_share_save addtoany_share\" href=\"https:\/\/www.addtoany.com\/share#url=http%3A%2F%2Fpatrialatina.com.br%2Ftheodomiro-a-pena-de-morte-salvou-sua-vida%2F&amp;title=Theodomiro%3A%20A%20pena%20de%20morte%20salvou%20sua%20vida\"><span class=\"a2a_label a2a_localize\" data-a2a-localize=\"inner,Share\">Compartilhar<\/span><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"texto-materia\">\n<div class=\"col-md-6\"><img class=\"img-responsive wp-post-image\" src=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/a-2-2.jpg\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" srcset=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/a-2-2.jpg 640w, http:\/\/patrialatina.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/a-2-2-300x169.jpg 300w\" alt=\"\" \/><\/div>\n<p><strong><em>Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Google<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Por: Jos\u00e9 de Jesus Barreto\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobrevive no leito de um quarto de apartamento em Olinda um mito da esquerda brasileira: Theodomiro Romeiro dos Santos, 71 anos, devastado por seguidos AVCs, j\u00e1 deslembrado de tudo e esquecido por quase todos, sob os cuidados da sua atual e devotada companheira Virg\u00ednia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 51 anos, em mar\u00e7o de 1971, Teodomiro foi condenado a pena de morte por um tribunal militar, em Salvador, e sua imagem \u00e0 \u00e9poca, aos 19 anos, comoveu a opini\u00e3o p\u00fablica, dentro e fora do pa\u00eds, mexeu nas entranhas do poder e tornou-se uma poderosa bandeira na luta contra a ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em abril de 1979, dentro de sua cela na Penitenci\u00e1ria Lemos de Brito, em Salvador, de onde fugiria quatro meses depois de forma intrigante, Theo concedeu uma longa\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 entrevista, que nunca foi publicada, in\u00e9dita. Nela, num certo momento, ele diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0 Depois de preso, o primeiro momento que tive a certeza de que n\u00e3o seria morto foi quando ouvi a senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesses tempos de redes, fakes, patrulhas, identitarismos e cancelamentos, vale lembrar quem foi, o que fez e a relev\u00e2ncia hist\u00f3rica que teve esse personagem \u00fanico, que deu seu recado com exemplos de destemor e sonhos num mundo melhor, mais justo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0 Reavivando a mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Theodomiro Romeiro dos Santos foi o mais importante e o mais embara\u00e7oso preso pol\u00edtico da ditadura militar no Brasil (1964-1984). Por tudo. Desde a sua pris\u00e3o cinematogr\u00e1fica, aos 18 anos, numa noite primaveril de 1970, \u00e0s margens do buc\u00f3lico Dique do Toror\u00f3, em Salvador, que resultou na morte do sargento da aeron\u00e1utica Walder Xavier, 35 anos, agente do Doi-Codi baiano, baleado. O corpo do militar restou estendido e abandonado no asfalto da rua que margeia o Dique, por mais de duas horas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem atirou foi Theodomiro, quando j\u00e1 estava detido e algemado com o companheiro Paulo Pontes, dentro de um jipe. Por conta disso, foi condenado em 23 de mar\u00e7o de 1971 pelo Conselho Especial da Aeron\u00e1utica a pena de morte. Primeiro e \u00fanico com essa puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A decis\u00e3o, inusitada e surpreendente, aliada \u00e0 imagem de um Theo com rosto de bom garoto, ainda imberbe, no julgamento, comoveu a na\u00e7\u00e3o e ganhou repercuss\u00e3o internacional. Seu nome virou signo de resist\u00eancia contra o governo dos generais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viv\u00edamos, no Brasil, os anos mais brutais do regime, ent\u00e3o sob a presid\u00eancia do general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici, \u00e9poca do \u201came-o ou deixe-o\u201d, um clima de guerra fratricida, urros nos por\u00f5es e, nas manchetes, ufanismos, a propaga\u00e7\u00e3o do \u201cmilagre brasileiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Theodomiro sofreu torturas indescrit\u00edveis ainda na PF e depois no Quartel do Barbalho, em Salvador. Resistiu, sobreviveu numa cela do Corpo 4, a chamada Galeria F, da Penitenci\u00e1ria Lemos de Brito por quase nove anos. Nesse per\u00edodo, com o denodo de advogados abnegados, o arrefecimento lento e gradual do regime e a press\u00e3o dos que lutavam por respeito aos direitos humanos e liberdades democr\u00e1ticas, dentro e fora do pa\u00eds, sua pena de morte foi transformada em pris\u00e3o perp\u00e9tua e depois reduzida a trinta anos de reclus\u00e3o. Al\u00e9m da acusa\u00e7\u00e3o de assassinato do sargento, Theodomiro respondia a mais dois processos: um por assalto a um banco, no bairro da Liberdade, em Salvador, quando ele tinha apenas 17 anos, e outro por tentativa de reorganiza\u00e7\u00e3o de partido clandestino, o PCBR.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para amarrar o quanto Theo foi importante e inc\u00f4modo para o regime militar, na quase primavera de 1979, prestes a ser agraciado com uma poss\u00edvel liberdade condicional, ou ser anistiado dentro das leis ent\u00e3o vigentes, mas ciente de que era um homem marcado para morrer, ele fugiu, numa a\u00e7\u00e3o bem tramada, planejada, que deixou aturdidas, desmoralizadas mesmo as for\u00e7as da repress\u00e3o, os quart\u00e9is e as autoridades pol\u00edticas do pa\u00eds. Viv\u00edamos, ent\u00e3o, j\u00e1 os estertores do regime, sob a presid\u00eancia do general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, ele pr\u00f3prio um quadro do SNI \u2013 o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es, que vasculhava tudo e todos -, naqueles tensos e assustadores anos de atentados ousados e violentos cometidos por radicais de direita em v\u00e1rias capitais do pa\u00eds. Tempos tamb\u00e9m, diga-se, de uma prometida abertura, ou distens\u00e3o \u2018lenta e gradual\u2019, preconizada desde os tempos de Geisel, o sisudo general \u2018Alem\u00e3o\u2019, sucessor de M\u00e9dici.\u00a0 O poderoso e autorit\u00e1rio Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es governava a Bahia. Todos comeram mosca na fuga do mais precioso prisioneiro do regime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Theodomiro passou uns anos exilado em Paris, at\u00e9 que a redemocratiza\u00e7\u00e3o fosse consolidada, j\u00e1 na segunda metade dos anos 80 do s\u00e9culo XX. Voltou, tornou-se Juiz\u00a0 do Trabalho, em Pernambuco. Nesses \u00faltimos anos, pena solit\u00e1rio e esquecido, em Olinda.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o de abril de 1979 fomos conhecer de perto um Theo envelhecido, aos 27 anos, com um filho de cinco anos e um outro encomendado, na barriga da mulher com quem se casou na pris\u00e3o, onde leu muito, estudou l\u00ednguas, fez artesanatos, e, cativante, criou la\u00e7os com companheiros de cela e de luta, presos comuns e agentes penitenci\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabedor da necessidade de ter de escapar para n\u00e3o morrer, um Theo magro e maduro, com voz e gestos pausados, recebeu o ent\u00e3o rep\u00f3rter Jos\u00e9 de Jesus Barreto em sua cela limpa, bem arrumada, sentado numa rede, fumando cigarros Arizona, \u00e0s vezes roendo unhas, e falou de um tudo por quase quatro horas seguidas, relembrando, relatando, dando nome aos bois, refletindo sobre o Brasil, o futuro e at\u00e9 fazendo autocr\u00edticas.<\/p>\n<p>Foi a primeira entrevista dele nesse formato, desde que fora preso. Um ping-pong in\u00e9dito, at\u00e9 aqui (hist\u00f3rico), como segue:<\/p>\n<p>**<\/p>\n<h5>\u00a0\u00a0<strong>\u00a0A entrevista\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h5>\n<p><strong>\u00a0Abrindo o peito\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u2013 De repente, de condenado \u00e0 morte voc\u00ea pode tornar-se um homem livre, com a anistia ou comuta\u00e7\u00e3o de penas. Que tipo de emo\u00e7\u00e3o est\u00e1 sentindo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0As expectativas de morte e da liberdade criam tens\u00e3o, ambas. Mas s\u00e3o tens\u00f5es diferentes, n\u00e3o d\u00e1 pra explicar. Eu tenho feito uma for\u00e7a muito grande para n\u00e3o me iludir. Como pr\u00e1tica ou mecanismo de defesa, estou me preparando para o pior, para ficar. Tenho ocupado todo o meu tempo fazendo almofadas, artesanatos de couro, arrumando um laborat\u00f3rio fotogr\u00e1fico. Tudo como se fosse ficar ainda por muito tempo por aqui. Isso tem me ajudado a diminuir a tens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Nalgum momento voc\u00ea acreditou que seria mesmo morto ou tinha sempre esperan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Depois de preso, o primeiro momento que tive a certeza de que n\u00e3o seria morto foi quando ouvi a senten\u00e7a de morte.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como assim?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Logo que soube que o sargento tinha morrido temi pela minha vida. At\u00e9 acho que foi a divulga\u00e7\u00e3o e repercuss\u00e3o de minha pris\u00e3o que me salvou. Minha condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, eu senti, iria assumir uma dimens\u00e3o muito grande; o que, de fato, aconteceu.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, eu acho que a minha condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte foi uma tolice muito grande do governo. Veio provocar a primeira grande campanha e mobiliza\u00e7\u00e3o contra o regime depois de 1968, do AI-5, e repercutiu negativamente at\u00e9 no plano internacional.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Al\u00e9m da repercuss\u00e3o, a condena\u00e7\u00e3o n\u00e3o o transformou tamb\u00e9m numa esp\u00e9cie de mito, s\u00edmbolo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Eu senti isso tamb\u00e9m. E foi um peso muito grande. Eu, na verdade, n\u00e3o tinha estrutura pol\u00edtica ou emocional para suportar a amplia\u00e7\u00e3o que meu nome e minha imagem alcan\u00e7aram. Tive que me mobilizar muito, estudar muito, refletir muito para criar condi\u00e7\u00f5es de responder a essas novas experi\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>\u2013 E isso tudo voc\u00ea conseguiu na pris\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Quando eu fui preso, na verdade, eu n\u00e3o tinha uma base pol\u00edtica muito grande. Tinha lido no m\u00e1ximo uns dez livros sobre o marxismo. O meu ativismo era mais fruto do entusiasmo. Eu via como uma luta contra as injusti\u00e7as e a viol\u00eancia. Foi aqui na cadeia que comecei a rever coisas, estudar, discutir, aprofundar minha forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Ent\u00e3o voc\u00ea come\u00e7ou sua atividade pol\u00edtica bem cedo; como foi?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Fiz meus primeiros contatos com a esquerda aos 14 anos. Estudava no Col\u00e9gio Maristas de Natal e, al\u00e9m de estudar, faz\u00edamos trabalhos assistenciais nos bairros pobres da cidade. Chegamos a montar uma escolinha numa f\u00e1brica, a Guararapes, de tecidos. A\u00ed conheci as primeiras pessoas do partido, o Partid\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2013 E sua fam\u00edlia, tinha algu\u00e9m envolvido em atividades pol\u00edticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Nada. Venho de uma fam\u00edlia extremamente cat\u00f3lica, cheia de freiras, militares e padres (risos). Uma fam\u00edlia relativamente pobre. Meu pai, Modesto Ferreira dos Santos, chegou a capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito. Combateu e foi preso na revolu\u00e7\u00e3o de 1932, em S\u00e3o Paulo. Morreu aos 52 anos, em 1960. Meus familiares gostam muito de mim, sempre me deram todo apoio, mas nunca concordaram com as minhas posi\u00e7\u00f5es e atividades pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>\u2013 E como voc\u00ea veio parar na Bahia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Bem, eu sa\u00ed de Natal com 17 anos. J\u00e1 estava vinculado ao partido e tinha alguns probleminhas com minha atividade no movimento estudantil. Estive em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, Bras\u00edlia e depois Salvador.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea j\u00e1 era conhecido, j\u00e1 estava sendo procurado nessa \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0Theo \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o tinham nada contra mim. Mas eu vivia clandestinamente em Salvador, at\u00e9 porque morava com gente do PCBR, inclusive o Paulo Pontes, que estava sendo acompanhado pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/a-3-2.jpg\"><img class=\"alignnone size-full wp-image-53145\" src=\"http:\/\/patrialatina.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/a-3-2.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Theo com Paulo Pontes Foto Arquivo Memorial da Democracia\u00a0 (arquivo)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(Paulo Pontes foi preso com Theo<\/strong>\u00a0e condenado, no mesmo processo, inicialmente a pris\u00e3o perp\u00e9tua. Beneficiado, ent\u00e3o, pela nova Lei de Seguran\u00e7a Nacional, obteve a soltura, antes da fuga de Theo)<\/p>\n<p><strong>\u2013 Agora nos conte como se deu a sua pris\u00e3o \u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Est\u00e1vamos eu, o Paulo Pontes e o Get\u00falio Cabral, j\u00e1 era noite, num ponto de \u00f4nibus junto ao posto de gasolina S\u00e3o Jorge, pr\u00f3ximo ao Dique do Toror\u00f3, onde t\u00ednhamos marcado um ponto, encontro. Eu e Paulo est\u00e1vamos de costas para a rua, discut\u00edamos os \u00faltimos detalhes de nossa retirada da cidade, obedecendo orienta\u00e7\u00e3o do partido.\u00a0 Sab\u00edamos que est\u00e1vamos sendo seguidos e dev\u00edamos sair da cidade. Neste instante, foi-se aproximando lentamente de n\u00f3s um jipe e o Cabral falou \u201ccuidado com esse jipe a\u00ed!\u201d. Tentei olhar mas nem deu tempo. Fomos, eu e Paulo, agarrados por tr\u00e1s, algemados e jogados dentro do jipe, no banco traseiro. Mas o Get\u00falio escapou, atirando, e correu em dire\u00e7\u00e3o ao Dique, com um agente no seu encal\u00e7o, ambos atirando. O Jipe fez uma manobra brusca e seguiu atr\u00e1s do Get\u00falio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(Get\u00falio Cabral conseguiu escapar nessa ocasi\u00e3o, mas foi morto pela repress\u00e3o um ano depois, no Rio de Janeiro)<\/p>\n<p><strong>\u2013 Sim, e como voc\u00ea entrou nesse tiroteio?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Veja, no banco da frente do jipe estavam o motorista, \u00e0 minha frente, um agente da Pol\u00edcia Federal e, do lado direito, junto \u00e0 porta, o sargento Walder. Quando me apanharam, eu tinha uma pasta de pl\u00e1stico que eles tomaram ao me algemar mas, inadvertidamente, sem olhar o que nela continha, me devolveram, jogaram no meu colo logo que o jipe p\u00f4s-se em movimento na persegui\u00e7\u00e3o a Get\u00falio. A pasta ficou ao alcance da minha m\u00e3o esquerda \u2013 a direita estava algemada ao pulso esquerdo de Paulo Pontes -, e dentro dela estava um rev\u00f3lver. Quando o jipe parou, mais adiante, o sargento Walder amea\u00e7ou descer, de arma em punho, para ajudar na persegui\u00e7\u00e3o de Get\u00falio, que tentava alcan\u00e7ar a margem oposta do Dique por uma ponte, um pontilh\u00e3o estreito de madeira. A\u00ed, com a m\u00e3o esquerda, atirei contra o sargento e tentei ainda alvejar o agente e o motorista, mas fui dominado\u2026<\/p>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea tinha apenas 18 anos, o que se passou pela cabe\u00e7a naquele momento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Foi tudo muito, muito r\u00e1pido, mas se passa muita coisa pela cabe\u00e7a em segundos. Vem primeiro a consci\u00eancia de que voc\u00ea caiu, foi apanhado de surpresa pelo inimigo e que a desgra\u00e7a t\u00e1 feita. De pronto voc\u00ea procura reagir \u00e0 pris\u00e3o, tanto como instinto mesmo de sobreviv\u00eancia como tamb\u00e9m pelo dever de cumprir as determina\u00e7\u00f5es do partido. O clima, na \u00e9poca, era o pior poss\u00edvel, a gente sabia do que acontecia quando algu\u00e9m era preso\u2026 das torturas, das mortes. Depois da morte de M\u00e1rio Alves, o partido tinha determinado que todo militante com certo n\u00edvel de responsabilidade deveria andar armado e resistir \u00e0 pris\u00e3o. A ordem era essa, era um clima de guerra, de medo. E houve um tiroteio \u2026<\/p>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea teve consci\u00eancia de ter matado o sargento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Theo \u2013 Eu sabia que o tiro o atingira, mas n\u00e3o sabia que ele tinha morrido. S\u00f3 soube depois, por testemunhas do processo, e que somente o socorreram duas horas depois de ter levado o tiro, e que ainda o encontraram vivo, agonizante.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Ent\u00e3o deixaram o corpo do sargento largado no meio da rua \u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Pra eles, naquele momento, a preocupa\u00e7\u00e3o maior era conosco, eu e o Pontes. O motorista, mesmo ferido, conseguiu levar o jipe at\u00e9 a Pol\u00edcia Federal (a sede da PF ficava na Cidade Baixa, entre o Elevador Lacerda e o porto, a cerca de 5\/7 km do local), enquanto o agente federal me espancava com socos e coronhadas.\u00a0 O soldado do Ex\u00e9rcito que tinha sa\u00eddo em persegui\u00e7\u00e3o ao Get\u00falio foi para no quartel general, \u00e0s carreiras. Ningu\u00e9m, pois, se lembrou mais do Walder, que ficara gravemente ferido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(o corpo estendido na rua que beira o Dique foi fotografado e as pessoas que passavam e viam imaginavam que se tratava de mais uma v\u00edtima de briga de rua, da viol\u00eancia urbana)<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como foi a recep\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Federal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0O coronel Luis Artur estava \u00e0 nossa espera com mais de 20 homens.\u00a0 Eu tinha dois cortes profundos na cabe\u00e7a, fruto das coronhadas, e sangrava abundantemente. O Luis Artur mandou que um enfermeiro jogasse \u00e9ter na minha cabe\u00e7a. Pensei que ia ficar louco. A partir da\u00ed, ainda algemados, eu e Paulo, apanhamos toda a noite. Tive medo de morrer. Desmaiei e s\u00f3 acordei no dia seguinte, \u00e0 noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(O coronel Luis Artur de Carvalho era, ent\u00e3o, o delegado regional da PF. Depois, foi secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, no governo Roberto Santos, segunda metade dos anos setenta)<\/p>\n<p><strong>\u2013 Foram interrogados ainda na Pol\u00edcia Federal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0No outro dia me puseram no pau-de-arara e come\u00e7aram o interrogat\u00f3rio. Nas primeiras 48 horas n\u00e3o disse nem o meu nome. A\u00ed come\u00e7aram as sess\u00f5es de choque, comandadas pelo major Bi\u00e3o de Cerqueira e pelo pr\u00f3prio Luis Artur. S\u00f3 ent\u00e3o lavraram o flagrante. Quando estava depondo, o Luis Artur me perguntou se eu era a favor da viol\u00eancia; respondi que sim e ele retrucou: \u201cPois voc\u00ea vai ver o que \u00e9 viol\u00eancia!\u201d. Em seguida me pediu pra fazer uma defesa pol\u00edtica da viol\u00eancia, da luta armada, e eu fiz um discurso. Consta no meu depoimento.<\/p>\n<p><strong>\u2013 As torturas terminaram ali?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Apenas tinham come\u00e7ado. Fomos levados para o Quartel do Barbalho, que era a central de torturas da \u00e9poca. L\u00e1, foram 12 dias seguidos de torturas b\u00e1rbaras comandadas pelo capit\u00e3o Hemet\u00e9rio Chaves, os tr\u00eas turnos. A barra era t\u00e3o pesada que eu at\u00e9 gostava quando me punham no pau-de-arara, de cabe\u00e7a pra baixo, porque eu fazia ioga, sempre fui bem magro, e at\u00e9 relaxava um pouco entre uma sess\u00e3o e outra de choques e outras barbaridades.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea conseguiu manter algum tipo de di\u00e1logo, algum relacionamento humano com seus algozes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o. N\u00e3o posso dizer que todo torturador seja intrinsicamente mau. Nada de manique\u00edsmos. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos desculpar os crimes que cometeram. Acho que eles devem sim ser responsabilizados por esses crimes. S\u00e3o, na maioria, indiv\u00edduos com uma s\u00e9rie de deforma\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas e que constituem uma amea\u00e7a a qualquer coletividade em que vivam. Mas n\u00e3o posso esquecer ou omitir gestos de solidariedade de v\u00e1rios soldados e at\u00e9 sargentos que nos guardavam. Eles nos traziam, \u00e0s vezes, comidas \u00e0s escondidas; deixavam o r\u00e1dio ligado pra gente ouvir e tentavam conversar, tinham d\u00f3 do nosso estado.<\/p>\n<p><strong>\u2013 O julgamento de seu processo ocorreu velozmente. Previam o desfecho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Em 26 de janeiro de 1971 fomos transferidos para a Penitenci\u00e1ria Lemos de Brito, no bairro de Mara Escura. Ali come\u00e7amos a ser informados e, de logo, dava para perceber que o julgamento seria um jogo de cartas marcadas. Eu sabia que seria condenado \u00e0 morte.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Por que a certeza?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 N\u00e3o tivemos defesa. Nas sess\u00f5es, os militares dormiam. E a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00a0 da \u00e9poca n\u00e3o deixava d\u00favidas.\u00a0 S\u00f3 para ilustrar, a sess\u00e3o secreta, para o veredicto, durou apenas 40 minutos. Resultado: eu fui condenado a morte e o Paulo Pontes a pris\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o esteve presente no dia do julgamento\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Eu estava muito doente. Eu sempre tive problemas hep\u00e1ticos que se agravaram com a comida literalmente podre da penitenci\u00e1ria. Quando a escolta chegou, o m\u00e9dico perguntou se me levariam para o hospital. Disseram, \u201cn\u00e3o, ele vai pra auditoria\u201d. O julgamento durou das nove da manh\u00e3 at\u00e9 11 da noite. O advogado de of\u00edcio, ao ver o meu estado, pediu que me dispensassem.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Depois, a cadeia. Que vis\u00e3o se tem da pris\u00e3o oito depois, dentro dela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Gramsci, numa de suas cartas, faz imagem bela mas real do que representa a cadeia: \u201c\u00c9 uma ampulheta gigante\u201d, diz ele. Toda hora cai um gr\u00e3ozinho de areia, que \u00e9 um nada, voc\u00ea quase n\u00e3o percebe, mas de repente voc\u00ea pode estar sendo esmagado, enterrado por esses milhares de gr\u00e3ozinhos. Cada dia novo, cada rotina di\u00e1ria vai te desgastando, minando sua resist\u00eancia em todos os n\u00edveis, eliminando a tua vitalidade. Voc\u00ea vai se distanciando, sem se aperceber, de tudo, da realidade, da vida, dos amigos, da atividade. Sua pr\u00e1tica pol\u00edtica se modifica totalmente. A cadeia tem uma capacidade grande de induzir \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o, a desagrega\u00e7\u00e3o de pessoas. Muita gente pensa em estudar na cadeia, mas dispers\u00e3o \u00e9 grande e a teoria pura, isolada, tende a ficar dissociada da realidade.\u00a0 Fica acad\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2013 A sua imagem de equil\u00edbrio \u00e9 comentada por todos os companheiros da pris\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil, de fora, entender como um garoto como voc\u00ea conseguiu amadurecer dentro de uma cadeia, sem um grande amargor, com uma certa tranquilidade\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Aqui se aprende a viver realmente em comunidade, a repartir, dividir as coisas.\u00a0 Essa imagem de equil\u00edbrio n\u00e3o pode ser separada da vida em comum, da influ\u00eancia dos companheiros.\u00a0 Claro que h\u00e1 o desgaste tamb\u00e9m da vida coletiva, da diferen\u00e7a de personalidades. Mas tudo isso se reduz diante de uma pr\u00e1tica pol\u00edtica que nos obriga a nos unir e lutar para ter uma alimenta\u00e7\u00e3o melhor, para usar uma roupa digna, para ter um banho de sol, para ir a um m\u00e9dico, receber visitas. Essas coisas menores tomam uma dimens\u00e3o vital aqui dentro. O contato com os chamados \u201cmarginais\u201d, os presos comuns, s\u00e3o tamb\u00e9m, enriquecedores\u2026<\/p>\n<p><strong>\u2013 E a vida afetiva?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Theo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9 muito dif\u00edcil. Dentro, h\u00e1 a amizade com os companheiros. Mas a rela\u00e7\u00e3o com pessoas de fora \u00e9 complicada. As preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas. A base material do relacionamento \u00e9 diferente. Aqui, por exemplo, a gente n\u00e3o se preocupa com a sobreviv\u00eancia. E isso \u00e9 um dado que conta profundamente no relacionamento entre as pessoas.<\/p>\n<p><strong style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nove anos de pris\u00e3o, mais velho, emo\u00e7\u00f5es violentas experimentadas, voc\u00ea acha que valeu a pena o envolvimento e sacrif\u00edcio de toda uma gera\u00e7\u00e3o na luta armada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Numa avalia\u00e7\u00e3o, uma autocr\u00edtica da luta armada de h\u00e1 dez anos, temos de destacar duas coisas fundamentais. A primeira e mais s\u00e9ria autocr\u00edtica \u00e9 de que foi uma a\u00e7\u00e3o puramente de vanguarda, sem a participa\u00e7\u00e3o do povo. Para mim, do ponto de vista pessoal, valeu a pena, foi uma experi\u00eancia rica. De um ponto de vista mais global, entretanto, foi uma experi\u00eancia negativa. A luta armada, no Brasil, provocou o aniquilamento da esquerda revolucion\u00e1ria, o retraimento da luta de massas e, o mais grave, favoreceu o fortalecimento dos setores mais retr\u00f3grados do sistema.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Algum aspecto positivo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Foi, sem d\u00favida, o primeiro grande questionamento ao reformismo, em primeiro lugar. Entendo tamb\u00e9m que a atua\u00e7\u00e3o da esquerda revolucion\u00e1ria foi que permitiu, criou espa\u00e7o pol\u00edtico para toda essa movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de agora. Provocou um desgaste muito grande no sistema, na ditadura, abrindo brechas para os movimentos de massa.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Como voc\u00ea tem visto, acompanhado esses movimentos de massa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Entendo que eles t\u00eam um importante papel na luta principal do povo brasileiro, hoje. E a luta maior, agora, \u00e9 pelas liberdades democr\u00e1ticas, o que implica na extin\u00e7\u00e3o da ditadura em todos os n\u00edveis.\u00a0 A luta pelas liberdades democr\u00e1ticas tem basicamente duas frentes:<\/p>\n<p>\u2013 Uma, a anistia geral, ampla, irrestrita e n\u00e3o rec\u00edproca; a segunda, uma constituinte livremente eleita, onde participem todas as tend\u00eancias pol\u00edticas do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u2013 Essas tend\u00eancias implicariam na forma\u00e7\u00e3o de novos partidos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Sou contra a forma\u00e7\u00e3o de novos partidos agora. O MDB \u00e9 uma frente de oposi\u00e7\u00f5es que deve ser fortalecida at\u00e9 que se conquiste o objetivo da redemocratiza\u00e7\u00e3o total.<\/p>\n<p><strong>\u2013 E a redemocratiza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da abertura lenta e gradual preconizada pelo governo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Ela veio no bojo de um processo irrevers\u00edvel; em fun\u00e7\u00e3o das dificuldades econ\u00f4micas do sistema, da fal\u00eancia do modelo exportador e, sobretudo, da rearticula\u00e7\u00e3o dos movimentos de massa, da reorganiza\u00e7\u00e3o das classes fundamentais, dos movimentos liberais, de entidades. Tudo isso tem sido importante como forma de press\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2013 E o que h\u00e1 de novo nisso tudo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo \u2013<\/strong>\u00a0Muita coisa. A realidade \u00e9 realmente outra. Veja, por exemplo, a influ\u00eancia marcante da Igreja Cat\u00f3lica no movimento oper\u00e1rio. Veja o surgimento de lideran\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o comprometidas com nenhum projeto tradicional de esquerda, nem acoplado ao sistema. Essas coisas s\u00e3o li\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas para todos. Afinal, \u00e9 nas lutas concretas que a classe oper\u00e1ria trava que ela conquista uma consci\u00eancia mais elevada.<\/p>\n<p>\u2013<strong>\u00a0E o papel dos intelectuais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 A minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de Kautski. Ele diz, \u201ca consci\u00eancia pol\u00edtica revolucion\u00e1ria n\u00e3o surge espontaneamente entre as classes fundamentais\u201d. Os intelectuais devem se integrar \u00e0 classe oper\u00e1ria e, atrav\u00e9s de uma pr\u00e1tica conjunta, elevar, influir no n\u00edvel de suas atividades. Atualmente, no Brasil, os intelectuais t\u00eam um papel fundamental na luta pelas liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Recebendo amanh\u00e3 a not\u00edcia de sua soltura\u2026 o que voc\u00ea far\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 A \u00fanica coisa que eu tenho em mente \u00e9 tomar um banho de sol e mar. Eu nem tenho documentos, agora \u00e9 que estou providenciando.<\/p>\n<p><strong>\u2013 Voltaria a estudar? De que forma pensa em se engajar politicamente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Theo<\/strong>\u00a0\u2013 Sinceramente\u2026 n\u00e3o pensei nisso, n\u00e3o quero pensar. Somente depois de uma situa\u00e7\u00e3o concreta. Estou tirando meus documentos pensando em fazer o vestibular de medicina na Universidade Cat\u00f3lica, agora no meio do ano, se estiver ainda preso. Se sair, tenho de rever tudo, pensar tudo de novo.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p><strong>A FUGA DO CONDENADO\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco depois das oito da noite de uma sexta-feira, dia 17 de agosto de 1979, o presidi\u00e1rio Theodomiro Romeiro dos Santos, aquele que fora (e estava) condenado \u00e0 morte, saiu caminhando pelos port\u00f5es da frente da Penitenci\u00e1ria Lemos de Brito, em Salvador, para n\u00e3o mais voltar. Tranquilo, sem problemas. Bem comportado, na manha, Theo tinha criado uma rela\u00e7\u00e3o de amizade e confian\u00e7a com alguns carcereiros. \u00c0s vezes sa\u00eda, dava umas voltas pela redondeza e retornava.<\/p>\n<p>Nessa noite, passou pelo port\u00e3o, foi num mato fora dos muros onde tinha escondido um espelho e um barbeador, fez a barba, mudou de fei\u00e7\u00f5es e pegou um t\u00e1xi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 5 de junho, antes pois, talvez j\u00e1 como uma estrat\u00e9gia, tinha conseguido uma autoriza\u00e7\u00e3o para fazer tratamento dent\u00e1rio, dois dias por semana, numa cl\u00ednica odontol\u00f3gica localizada no centro da capital, a uns 10 km da penitenci\u00e1ria. Escalaram, para acompanh\u00e1-lo nessas sa\u00eddas, um agente penitenci\u00e1rio conhecido como \u201cSeu Bahia\u201d, gente boa. Theo \u201cganhou\u201d seu acompanhante no papo, na confian\u00e7a: o guarda ficava liberado para descansar, ir pra casa, ver a fam\u00edlia, resolver alguma pendenga pessoal e Theo ia para a dentista, uma amiga, e \u00e0s vezes passava num hotel do Pelourinho onde estava hospedada a mulher, Maria Concei\u00e7\u00e3o Gontijo de Lacerda, com quem casou-se na pris\u00e3o e teve dois filhos. Depois, na hora e local combinados, os dois, prisioneiro e guarda, se encontravam e voltavam juntos para a penitenci\u00e1ria. Tudo de boa, nenhuma suspeita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, naquela noite de agosto, Theo n\u00e3o voltou e nem deram f\u00e9. S\u00f3 dois dias depois o governador ACM ficou sabendo, atrav\u00e9s de um rep\u00f3rter, que lhe mostrou no pal\u00e1cio a carta p\u00fablica de despedida de Theo, com autoriza\u00e7\u00e3o escrita e divulgada \u2013 dois dias passados da fuga, como fora acertado \u2013 pelo seu (ex) companheiro de cela Haroldo Lima, depois deputado eleito pela Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governador ficou enfurecido por ter sido ludibriado, logo ele que se gabava de tudo saber, e cobrou responsabilidades, exigiu provid\u00eancias, ordenando uma ca\u00e7a ao fugitivo em cada canto do territ\u00f3rio baiano. Mas \u00e9 fato que o pr\u00f3prio ACM j\u00e1 pressentia a possibilidade dessa fuga, at\u00e9 tinha confessado a jornalistas sua preocupa\u00e7\u00e3o com a sobreviv\u00eancia do prisioneiro Theodomiro, jurado de morte pelos amigos do tenente assassinado Walder Xavier. Com a sa\u00edda dos outros presos pol\u00edticos da Galeria F, por cumprimento de pena ou anistiados, Theo restaria s\u00f3 e \u00e0 merc\u00ea dos vingadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso era um assunto corrente, naqueles dias, at\u00e9 o Cardeal Avelar Brand\u00e3o Vilela j\u00e1 deixara escapar sua preocupa\u00e7\u00e3o com a vida do mo\u00e7o. Padre Renzo, um italiano que cuidava da Pastoral dos Pres\u00eddios e que se tornara amigo de Theo, deixava o cardeal a par de tudo. E o governador ACM n\u00e3o desejava que uma desgra\u00e7a de vingan\u00e7a criminosa daquela acontecesse no seu governo, pois a repercuss\u00e3o seria enorme, extrapolaria fronteiras e de algum modo respingaria nele, prejudicaria seus projetos pol\u00edticos pessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Isso prova o quanto os comunistas est\u00e3o organizados -, disse um injuriado ACM aos jornalistas, ainda sem saber o paradeiro do fugitivo que escapara nas suas fu\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama da fuga foi bem urdida, planejada com anteced\u00eancia e esmero. E, na sequ\u00eancia, muito bem costurada por narrativas e disfarces plantados pelo(s) partido(s) envolvidos na a\u00e7\u00e3o, pelos militantes, por amigos e todos aqueles que, conscientemente ou n\u00e3o, ajudaram no despiste das \u201cfor\u00e7as da repress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A Veja, revista de maior circula\u00e7\u00e3o e credibilidade do pa\u00eds \u00e0 \u00e9poca, soltou em sua edi\u00e7\u00e3o de 29 de agosto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNum plano articulado por membros do PCBR na Bahia, no Rio de Janeiro e no exterior, Theodomiro teria sa\u00eddo do pa\u00eds no v\u00f4o 704 da Varig que decolou do aeroporto de Salvador aos 20 minutos de s\u00e1bado, dia 18, com destino a Paris e escala em Lisboa. Teria se utilizado de passaporte franc\u00eas, falso \u2013 ele e o militante comunista que provavelmente trouxe seu passaporte do exterior devem ser os donos dos dois nomes falsos j\u00e1 detectados pela Pol\u00edcia Federal na lista de 74 passageiros que embarcaram em Salvador no voo 704. Al\u00e9m disso, uma recepcionista da Varig garantiu ter visto embarcar naquele dia um rapaz extremamente parecido com Theodomiro. A vers\u00e3o definitiva, por\u00e9m, s\u00f3 poder\u00e1 ser dada pelo pr\u00f3prio fugitivo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, baratinando mais as buscas e as cabe\u00e7as dos \u2018poderosos de plant\u00e3o\u2019, o tradicional Estad\u00e3o de S\u00e3o Paulo garantia que Theodomiro estava ou teria passado pela capital paulista.\u00a0 Depois, soube-se que nada disso era verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois dias obscuros ap\u00f3s a fuga, sem que ningu\u00e9m soubesse o ocorrido, foram fundamentais para Theo conseguir escapar s\u00e3o e salvo rumo a Bras\u00edlia, de carro, disfar\u00e7ado e ao lado de um motorista de extrema confian\u00e7a do partido, passando por Vit\u00f3ria da Conquista. Na noite da fuga, Theo teria dormido, acoitado, na Igrejinha dos Alagados, depois de ter se encontrado com um \u2018ponto\u2019 amigo nas proximidades do cemit\u00e9rio do Campo Santo.\u00a0 Outra narrativa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fato \u00e9 que \u2026\u00a0 j\u00e1 com todos os olhos do mundo arregalados de espanto, Theo apareceu s\u00e3o e salvo na Nunciatura Apost\u00f3lica de Bras\u00edlia, Distrito Federal, onde foi acolhido pelas assustadas autoridades da Igreja Cat\u00f3lica Apost\u00f3lica e Romana. L\u00e1 plantou-se um forte esquema de prote\u00e7\u00e3o ao fugitivo e aconteceram tensas tratativas diplom\u00e1ticas para que o fugitivo fosse exilado sem riscos num pa\u00eds europeu, de prefer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O surpreendente, inesperado aparecimento de Theodomiro na Nunciatura (territ\u00f3rio diplom\u00e1tico livre do Vaticano, da Igreja Romana) mobilizou o notici\u00e1rio, lideran\u00e7as, poderes \u2013 pol\u00edticos, militares, jur\u00eddicos, diplom\u00e1ticos \u2013 e a alta c\u00fapula da Igreja.\u00a0 Afinal, em junho de 1980 viria ao Brasil, para uma visita apote\u00f3tica de 12 dias, o Papa Jo\u00e3o Paulo II, no auge de sua popularidade. Carism\u00e1tico, o papa Jo\u00e3o Paulo II, que hoje \u00e9 santo canonizado, arrastou multid\u00f5es por onde passou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Bras\u00edlia, Rio, S\u00e3o Paulo, Belo Horizonte, Aparecida, Porto Alegre, Vit\u00f3ria, Curitiba, Manaus, Recife, Bel\u00e9m, Teresina, Fortaleza e Salvador, onde se encontrou com Irm\u00e3 Dulce e foi conhecer, ver de perto o que era Alagados (a Igrejinha est\u00e1 l\u00e1, at\u00e9 hoje).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A visita do Papa tinha muito peso, o governo Figueiredo sabia, os olhos do mundo focados no Brasil. Assim, nesse clima e circunst\u00e2ncias, tudo negociado e costurado, a Fran\u00e7a tornou-se o asilo, o destino de Theo, em total seguran\u00e7a exilado em Paris.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p><strong>\u00a0O retorno ansiado\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Paris, em 1986, por telefone, Theodomiro falou sobre seu desejo de voltar ao Brasil ao rep\u00f3rter David Souza, do alternativo Jornal da Pituba, de Salvador. Viv\u00edamos ent\u00e3o a efervesc\u00eancia e expectativas das mudan\u00e7as, o come\u00e7o do processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, j\u00e1 no governo Sarney.<\/p>\n<p><em><strong>Trechos da reportagem, sob o t\u00edtulo \u201cO \u00daltimo Exilado\u201d:<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013\u00a0 S\u00e3o duas horas da manh\u00e3, em Paris. Theodomiro acaba de chegar em casa, depois da batalha na f\u00e1brica, onde \u00e9 fresador, numa ind\u00fastria de armamentos b\u00e9licos. Confessa: \u201cAs esquerdas levaram o processo pol\u00edtico \u2013 referindo-se \u00e0 \u00e9poca em que foi preso \u2013 muito al\u00e9m da capacidade de avan\u00e7o do povo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Volto no dia 4 de setembro, diz.\u00a0 \u201cN\u00e3o volto antes porque esse \u00e9 o primeiro voo Paris-Salvador, depois da prescri\u00e7\u00e3o da minha pena. Volto sem medo de amea\u00e7as, eu me preocupava era quando estava preso. Estou disposto a garantir uma vida normal. Aceito empregos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nova Rep\u00fablica? Ele diz que ainda n\u00e3o cr\u00ea em suas inten\u00e7\u00f5es. Defende a legaliza\u00e7\u00e3o dos partidos de esquerda, mas aconselha o PCBR \u2013 Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio a n\u00e3o fazer o mesmo, \u201cporque n\u00e3o temos bases s\u00f3lidas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9 a favor da Constituinte (que aconteceria em 1988): \u201cdeve-se aproveitar todos os espa\u00e7os pol\u00edticos conseguidos\u2026 mas sem outras concess\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Quais seriam? Ele responde: \u201cOs crimes de tortura s\u00e3o internacionalmente imprescrit\u00edveis e o governa da Nova Rep\u00fablica tem a obriga\u00e7\u00e3o de punir os torturadores e prestar contas dos desaparecidos\u201d.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p><strong>Texto e reportagem de Jos\u00e9 de Jesus Barreto\u00a0\u00a0\u00a0 ou Z\u00e9dejesusbarreto\u00a0 (2022)<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FacebookTwitterWhatsAppLinkedInEmailTelegramCompartilhar Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Google Por: Jos\u00e9 de Jesus Barreto\u00a0 \u00a0 Sobrevive no leito de um quarto de apartamento em Olinda um mito da esquerda brasileira: Theodomiro Romeiro dos Santos, 71 anos, devastado por seguidos AVCs, j\u00e1 deslembrado de tudo e esquecido por quase todos, sob os cuidados da sua atual e devotada companheira Virg\u00ednia. H\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":107889,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[85,105],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107888"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=107888"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107888\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":107890,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107888\/revisions\/107890"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/107889"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=107888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=107888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=107888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}