{"id":107651,"date":"2022-02-21T01:42:04","date_gmt":"2022-02-21T04:42:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=107651"},"modified":"2022-02-21T01:42:04","modified_gmt":"2022-02-21T04:42:04","slug":"entenda-por-que-os-eua-querem-destruir-a-revolucao-cubana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/02\/21\/entenda-por-que-os-eua-querem-destruir-a-revolucao-cubana\/","title":{"rendered":"Entenda por que os EUA querem destruir a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana"},"content":{"rendered":"<header class=\"col-md-12 entry-header\">\n<div class=\"col-md-12 center-container no-padding\">\n<div class=\"entry-title-container text-center\"><\/div>\n<div class=\" text-center\">\n<div class=\" center-container text-center entry-meta\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<section class=\"post-thumb\">\n<div class=\"single-thumbnail\"><\/div>\n<p><span class=\"image-author\"><i class=\"fas fa-camera hidden-sm hidden-xs\"><\/i>Latuff | mintpressnews.com<\/span><\/p>\n<\/section>\n<div class=\"\">\n<header id=\"header-colunista\" class=\"no-padding\">\n<div class=\"container-colunista\">\n<div class=\"col-md-2 no-padding \">\n<section class=\"post-thumb\">\n<div class=\"thumbnail-colunista\"><a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/colunistas\/gabriel-casoni\/\"><img loading=\"lazy\" class=\"lazy attachment-thumbnail size-thumbnail wp-post-image lazy-loaded\" src=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel-150x150.png\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" srcset=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel-150x150.png 150w, https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel-300x300.png 300w, https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel.png 400w\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" data-lazy-type=\"image\" data-lazy-src=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel-150x150.png\" data-lazy-srcset=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel-150x150.png 150w, https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel-300x300.png 300w, https:\/\/esquerdaonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/circulo_colunista_gabriel.png 400w\" data-lazy-sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"col-md-10 center-container no-padding\">\n<div class=\"entry-title-container col-md-12 \">\n<h4 class=\"colunista-name\" style=\"text-align: justify;\">Gabriel Casoni<\/h4>\n<\/div>\n<div class=\"entry-title-container col-md-12 text-left\" style=\"text-align: justify;\">\n<section class=\"content-it-self\">Gabriel Casoni, de S\u00e3o Paulo (SP), \u00e9 professor de sociologia, mestre em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica pela USP e faz parte da coordena\u00e7\u00e3o nacional da Resist\u00eancia, corrente interna do PSOL.<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div class=\"entry-content\">\n<section class=\"content-it-self\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse artigo apresento, de modo resumido, como evoluiu a pol\u00edtica dos governos norte-americano em rela\u00e7\u00e3o a Cuba dos anos noventa do s\u00e9culo XX at\u00e9 a atualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das principais conquistas democr\u00e1ticas da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana de 1959, sen\u00e3o a mais significativa de todas, foi a obten\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia real frente aos Estados Unidos. Desde a ocupa\u00e7\u00e3o norte-americana da ilha (1898-1902), que deixou como heran\u00e7a a Emenda Platt, as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o neocolonial marcaram a hist\u00f3ria de Cuba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tentativa permanente dos Estados Unidos de derrubar o regime socioecon\u00f4mico estabelecido pela Revolu\u00e7\u00e3o demonstra, ainda na atualidade, que a superpot\u00eancia segue com o objetivo de retomar o controle pol\u00edtico-econ\u00f4mico de Cuba. Tanto que o bloqueio econ\u00f4mico norte-americano vigora, de forma ininterrupta, h\u00e1 sessenta anos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A orquestra\u00e7\u00e3o de invas\u00f5es armadas, os atentados terroristas, as tentativas de assassinatos de Fidel e outros dirigentes cubanos, o bloqueio comercial, a sabotagem econ\u00f4mica, enfim, um incont\u00e1vel n\u00famero de a\u00e7\u00f5es dirigidas contra a ilha, foram perpetradas pelos sucessivos governos norte-americanos durante d\u00e9cadas \u2014 sejam eles democratas ou republicanos \u2014, ainda que as t\u00e1ticas e a intensidade dos ataques tenham variado ao longo do tempo, ora no sentido do agravamento, ora no sentido do distensionamento do conflito. Sobre isso, assinalam os pesquisadores norte-americanos sobre o tema William Leogrande e Peter Kornbluh:<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Os infames planos de assassinato da CIA \u2013 conchas explosivas, canetas envenenadas, rifles de precis\u00e3o, charutos t\u00f3xicos \u2013 s\u00e3o elementos lend\u00e1rios na hist\u00f3ria da pol\u00edtica dos EUA em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. Os esfor\u00e7os de Washington para reverter a Revolu\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de ataques paramilitares dos exilados, miss\u00f5es secretas, embargos econ\u00f4micos anunciados e programas contempor\u00e2neos de \u201cpromo\u00e7\u00e3o da democracia\u201d, dominaram e definiram mais de meio s\u00e9culo de rela\u00e7\u00f5es entre os EUA e Cuba. O que Henry Kissinger caracterizou como o \u201cantagonismo perp\u00e9tuo\u201d entre Washigton e Havana continua entre os conflitos mais arraigados e duradouros da hist\u00f3ria da pol\u00edtica externa dos EUA (LEOGRANDE, KORNBLUH, 2015, p. 2, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s certa suaviza\u00e7\u00e3o nas animosidades durante a presid\u00eancia de Jimmy Carter (1977-1981), per\u00edodo no qual algumas restri\u00e7\u00f5es de viagem e as remessas de d\u00f3lares por cubanos emigrados para familiares na ilha foram relaxadas, as tens\u00f5es entre os dois pa\u00edses tiveram nova escalada nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a Bloco Sovi\u00e9tico se desfez em todo Leste Europeu, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, colocando um cap\u00edtulo final \u00e0 Guerra Fria, os Estados Unidos trataram de refor\u00e7ar, diligentemente, o bloqueio econ\u00f4mico, a fim de alcan\u00e7ar a derrubada do regime e o reestabelecimento pleno do sistema capitalista, come\u00e7ando pela retomada das propriedades nacionalizadas pela Revolu\u00e7\u00e3o de 1959. Sobre o contexto em que se deu o endurecimento do bloqueio, explica o historiador brit\u00e2nico Richard Gott (2006, p.337):<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Era de se esperar que o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991 e o fim formal da Guerra Fria tivessem levado a uma normaliza\u00e7\u00e3o gradual das rela\u00e7\u00f5es entre Cuba e os Estados Unidos. Tal era certamente a hip\u00f3tese dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Os europeus aumentaram o porte das suas embaixadas, elevaram o n\u00edvel dos seus contatos e deram in\u00edcio \u00e0 tarefa de estabelecer la\u00e7os econ\u00f4micos. Reconheciam que Cuba n\u00e3o era mais a aliada militar de uma superpot\u00eancia nuclear fora do continente americano; que n\u00e3o representava nenhuma amea\u00e7a para os Estados Unidos ou para a Am\u00e9rica Latina; e que j\u00e1 n\u00e3o tinha mais capacidade de enviar soldados para a \u00c1frica. Tal era a opini\u00e3o europ\u00e9ia, mas n\u00e3o era amplamente compartilhada pelos Estados Unidos. L\u00e1, a velha ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Cuba, remontando o come\u00e7o do s\u00e9culo XIX e refor\u00e7ada pelos desdobramentos do s\u00e9culo XX, continuava em pleno vigor. Longe de buscar um novo relacionamento com Cuba, os pol\u00edticos norte-americanos \u2014 tanto republicanos quanto democratas \u2014 aumentaram o antagonismo diplom\u00e1tico.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tratamento dispensado a Cuba pelo governo estadunidense envolve um relevante\u00a0<i>aspecto dom\u00e9stico<\/i>, n\u00e3o sendo, portanto, apenas um tema de pol\u00edtica externa para os Estados Unidos. A burguesia cubano-americana, residente, em sua maioria, na Fl\u00f3rida, por meio do poderoso lobby liderado pela\u00a0<i>Cuban American National Foudantion\u00a0<\/i>(CANF), tem consider\u00e1vel influ\u00eancia na pol\u00edtica interna estadunidense, e, com isso, adquire capacidade de interferir nas a\u00e7\u00f5es externas do pa\u00eds no tocante \u00e0 ilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O peso pol\u00edtico-econ\u00f4mico do\u00a0<i>lobby<\/i>\u00a0cubano-americano vem sendo, em muitas ocasi\u00f5es, determinante para vit\u00f3ria ou derrota de um candidato presidencial na Fl\u00f3rida, um dos estados-chave na defini\u00e7\u00e3o da elei\u00e7\u00e3o nacional. Por exemplo, \u201cel voto castigo\u201d\u00a0patrocinado pela CANF contra o democrata Al Gore, nas elei\u00e7\u00f5es presidencial de 2000, em retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 postura adotada por Bill Clinton no caso do menino Eli\u00e1n Gonz\u00e1les\u00a0<a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2021\/07\/28\/entenda-por-que-os-eua-querem-destruir-a-revolucao-cubana\/#notas\"><strong>[1]<\/strong><\/a><strong>,<\/strong>\u00a0foi decisivo para a elei\u00e7\u00e3o de George W. Bush naquele ano (HUDDLESTON, 2018).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00a0<i>Cuban American National Foudantion<\/i>\u00a0foi criada na Fl\u00f3rida, em 1981, por Jorge Mas Canosa e Ra\u00fal Masvidal, e converteu-se rapidamente na mais importante organiza\u00e7\u00e3o da burguesia cubana emigrada. Mas Canosa, que liderou a CANF at\u00e9 sua morte, em novembro de 1997, exerceu destacada influ\u00eancia no governo americano no tocante \u00e0 pol\u00edtica para Cuba, particularmente na primeira metade da d\u00e9cada de 1990, durante o governo Clinton. Devido a sua particular relev\u00e2ncia neste tema, ser\u00e1 descrita, em poucas linhas, a sua trajet\u00f3ria<a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2021\/07\/28\/entenda-por-que-os-eua-querem-destruir-a-revolucao-cubana\/#notas\"><strong>\u00a0[2]<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Canosa exilou-se em Miami ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, em seguida, participou da invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos (1961) como l\u00edder do esquadr\u00e3o de uma unidade diversionista chamada\u00a0<i>El Grupo Ni\u00f1o D\u00edaz<\/i>. Depois do fracasso da invas\u00e3o, colaborou ativamente, nos anos sessenta, setenta e oitenta, na prepara\u00e7\u00e3o de in\u00fameras a\u00e7\u00f5es subversivas e terroristas contra o governo cubano, articuladas junto com a CIA, ganhando notoriedade p\u00fablica como uma das principais lideran\u00e7as dos emigrados em Miami. Durante este per\u00edodo, acumulou grande fortuna em neg\u00f3cios legais e ilegais. Seu suporte pol\u00edtico e financeiro foi determinante para a vit\u00f3ria de Bill Clinton (com 70% dos votos) no estado da Fl\u00f3rida, em 1996. Em contrapartida, o presidente democrata se comprometeu com o aprofundamento do bloqueio econ\u00f4mico. Assim, as leis Torricelli (1992) e Helms-Burton (1996) \u2014 que ser\u00e3o comentadas \u00e0 frente \u2014 resultaram da poderosa influ\u00eancia da burguesia cubana sobre o governo dos Estados Unidos (BARDACH, 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papel exercido pela \u201ccomunidade\u201d cubana de Miami \u00e9 chave para a compreens\u00e3o tanto do recrudescimento do embargo norte-americano na d\u00e9cada de 1990, como da cautela do governo cubano na implementa\u00e7\u00e3o das reformas de abertura capitalista nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O projeto liderado pela CANF, desde sua funda\u00e7\u00e3o, teve sempre dois objetivos centrais: a retomada (com a devida indeniza\u00e7\u00e3o) das propriedades expropriadas pela Revolu\u00e7\u00e3o e a derrubada do regime baseado no monop\u00f3lio pol\u00edtico do Partido Comunista Cubano (PCC). H\u00e1 uma extensa literatura estadunidense, com \u00eanfase na hist\u00f3ria diplom\u00e1tica dos dois pa\u00edses, que fornece in\u00fameras evid\u00eancias documentais da influ\u00eancia da burguesia cubano-americana na pol\u00edtica interna americana e dos seus objetivos econ\u00f4micos e pol\u00edticos\u00a0<a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2021\/07\/28\/entenda-por-que-os-eua-querem-destruir-a-revolucao-cubana\/#notas\"><strong>[3]<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A burguesia exilada acreditou que, com o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a queda de Fidel Castro era iminente. O refor\u00e7o do bloqueio objetivava acentuar o estrangulamento da j\u00e1 combalida economia cubana, de modo a tornar insustent\u00e1vel a sobreviv\u00eancia do regime. Vicki Huddleston (2018, p. 31) descreve assim as pretens\u00f5es do m\u00e1ximo l\u00edder da CANF nos anos noventa:<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">O presidente e for\u00e7a motriz da CANF, Jorge Mas Canosa, estava absolutamente determinado a ver a legisla\u00e7\u00e3o promulgada. Ele acreditava que a vit\u00f3ria estava finalmente \u00e0 m\u00e3o. Uma vez que os sovi\u00e9ticos tirassem suas tropas, pessoal e dinheiro da ilha, Castro estaria vulner\u00e1vel. Fidel cairia, e Mas Canosa achava que ele pr\u00f3prio poderia se tornar o pr\u00f3ximo presidente de Cuba. Tudo o que ele tinha que fazer era convencer o presidente Bush a endossar a legisla\u00e7\u00e3o de Torricelli, o que seria o golpe final. Mas Canosa era um homem com uma miss\u00e3o. Ele parecia um mediador improv\u00e1vel: um homem rotundo de pouco pedigree pol\u00edtico, mas com grande persuas\u00e3o. Ele era um mascate de sonhos que devia seu sucesso como l\u00edder proeminente da comunidade cubano-americana \u00e0 sua campanha determinada para restaurar o poder, a posi\u00e7\u00e3o e a propriedade de cubanos que haviam fugido da ilha de Castro. Ele exercia o poder em Miami t\u00e3o completamente quanto Castro em Havana (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira metade da d\u00e9cada de 1990 foi marcada, desse modo, pelo endurecimento norte-americano nas rela\u00e7\u00f5es com Cuba. Os EUA n\u00e3o somente mantiveram o embargo econ\u00f4mico como lan\u00e7aram novas medidas de bloqueio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1992, foi institu\u00edda a Lei Torricelli, que impunha diversas proibi\u00e7\u00f5es, a saber: (i) restabelecia o banimento do com\u00e9rcio com Cuba pelas subsidi\u00e1rias de companhias americanas no exterior; (ii) proibia os navios que partiam de Cuba de atracar nos portos norte-americanos por 180 dias, salvo aqueles que tenham licenc\u0327a do Secreta\u0301rio do Tesouro; (ii) concedia ao presidente autoridade para cortar ajuda externa a qualquer pa\u00eds que colaborasse com Cuba; (iv) especificava que o embargo somente poderia ser suspenso em caso de realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d em Cuba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1996, Clinton assinou a Lei Helms-Burton, formalmente denominada de Lei de Liberdade e Solidariedade Democr\u00e1tica com Cuba, que agravou ainda mais o bloqueio, codificando suas disposi\u00e7\u00f5es e alargando seu alcance extraterritorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os principais pontos da lei: (i) impede que o presidente norte-americano mude as normas do embargo ou o elimine por decreto, sendo essas prerrogativas exclusivas do Congresso; (ii) ordena a Casa Branca a votar contra a entrada de Cuba em organismo financeiros internacionais; (iii) condiciona a ajuda financeira aos ex-pa\u00edses sovi\u00e9ticos a que seus neg\u00f3cios com a ilha sejam realizados exclusivamente a pre\u00e7os de mercado; (iv) pro\u00edbe a compra de produtos estrangeiros que tenham componentes cubanos, assim como impede a venda a Cuba de produtos com componentes americanos; (v) prev\u00ea san\u00e7\u00f5es \u00e0s pessoas ou \u00e0s companhias estrangeiras que realizem transa\u00e7\u00f5es com propriedades estadunidenses que tenham sido confiscadas em Cuba depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, abrindo possibilidade de abertura de processos nos tribunais americanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale destacar mais duas leis suplementares. Em 1999, foi proibido o reconhecimento pelos tribunais norte-americanos dos direitos de empresas cubanas sobre marcas associadas a propriedades nacionalizadas. E, em 2000, foi institu\u00edda a Lei de Reforma a\u0300s Sanc\u0327o\u0303es Comerciais e Ampliac\u0327a\u0303o das Exportac\u0327o\u0303es, que autorizou a exporta\u00e7\u00e3o de produtos agr\u00edcolas a Cuba, condicionando o pa\u00eds ao pagamento adiantado em dinheiro e sem financiamento dos Estados Unidos. Por outro lado, proibiu as viagens de norte-americanos a Cuba para fins tur\u00edsticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bloqueio econ\u00f4mico, comercial e financeiro, segundo o governo cubano, constitui-se como o principal obst\u00e1culo para o desenvolvimento econ\u00f4mico do pa\u00eds. Al\u00e9m do impedimento das rela\u00e7\u00f5es bilaterais, a aplica\u00e7\u00e3o extraterritorial do embargo afeta, tamb\u00e9m, as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da ilha com o resto do mundo. O informe oficial de Cuba para a Assembl\u00e9ia Geral da ONU, de junho de 2018, quantifica os danos causados pelo bloqueio ao longo de quase seis d\u00e9cadas de aplica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">[\u2026] alcan\u00e7a a cifra de 933 bilh\u00f5es e 678 milh\u00f5es de d\u00f3lares, tomando em conta a deprecia\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar frente ao valor do ouro no mercado internacional. Em pre\u00e7os correntes, o bloqueio provocou preju\u00edzos quantific\u00e1veis em mais de 134 bilh\u00f5es, 499 milh\u00f5es e 800 mil d\u00f3lares (Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Cuba, 2018, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h5>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><b>Rela\u00e7\u00e3o Estados Unidos e Cuba nos anos 2000<\/b><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser\u00e1 avaliada neste ponto, de modo sint\u00e9tico, a evolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa norte-americana no tocante \u00e0 ilha nos anos 2000 e, sobretudo, ap\u00f3s a posse de Ra\u00fal Castro, em 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a presid\u00eancia de George W. Bush (2001-2008), as rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses se tornaram mais hostis do que durante o governo Bill Clinton. Embora a experi\u00eancia de d\u00e9cadas indicasse o insucesso da estrat\u00e9gia contrarrevolucion\u00e1ria adotada, o novo presidente norte-americano manteve o objetivo de derrubar o regime pol\u00edtico e o sistema socioecon\u00f4mico cubanos. William LeoGrande e Peter Kornubluh (2015, p. 345) resumem assim a pol\u00edtica adotada por Bush filho: \u201cA equipe da pol\u00edtica externa de Bush n\u00e3o tinha interesse em dialogar com o governo que eles estavam confiantes que poderiam eliminar\u201d (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coerente com essa linha, o governo Bush destinou expressiva soma de dinheiro ao programa \u201cPromo\u00e7\u00e3o da Democracia\u201d (<i>Democracy Promotion<\/i>) na ilha, entre 2002 e 2008. Nesse \u00faltimo ano, 45,7 milh\u00f5es de d\u00f3lares foram enviados a Cuba para o suporte de a\u00e7\u00f5es de grupos alinhados aos interesses estadunidenses, como a grupos de direitos humanos, jornalistas \u201cindependentes\u201d, ex-presos pol\u00edticos, entre outros. A diplomata norte-americana, Vicki Huddleston (2018, p. 252), que foi chefe da Se\u00e7\u00e3o de Interesses dos Estados Unidos em Havana durante a presid\u00eancia de George W. Bush, descreve na passagem a seguir o patroc\u00ednio do governo \u00e0 R\u00e1dio Mart\u00ed e \u00e0 Televis\u00e3o Mart\u00ed, que veiculavam propaganda anti-Castro, e a outras iniciativas orientadas para a desestabiliza\u00e7\u00e3o do regime:<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Em maio de 2004, seis meses antes de sua candidatura \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, o presidente Bush anunciou US$ 59 milh\u00f5es em financiamento adicional para a TV Mart\u00ed e \u00e0 R\u00e1dio Mart\u00ed, bem como para a diplomacia e para projetos da USAID em Cuba. Esse n\u00edvel de financiamento significava que agora havia uma campanha organizada e pensada para denunciar e destruir o regime de Castro\u00a0(tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">A posse de Barack Obama, em 2009, um ano depois da elei\u00e7\u00e3o de Ra\u00fal Castro, alimentou expectativas de mudan\u00e7a na orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ilha. Afinal, o primeiro presidente negro da hist\u00f3ria dos Estados Unidos havia prometido \u201cum novo come\u00e7o\u201d na rela\u00e7\u00e3o entre as duas na\u00e7\u00f5es. Em abril daquele ano, o democrata relaxou restri\u00e7\u00f5es para viagens e remessas dos cubanos emigrados, assim como permitiu que empresas de telecomunica\u00e7\u00e3o fizessem neg\u00f3cios com Cuba. Por\u00e9m, ainda que tenha ocorrido uma suaviza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais, os fundamentos do bloqueio econ\u00f4mico foram mantidos. Ao final do primeiro mandato de Obama, o balan\u00e7o era negativo, segundo a avalia\u00e7\u00e3o de LeoGrande e Kornubluh (2015, p. 401): \u201cComo resultado, ele ficou preso no mesmo impasse que seu antecessor: as san\u00e7\u00f5es contra Cuba n\u00e3o produziram nada de positivo, mas ele n\u00e3o estava disposto a correr o risco pol\u00edtico de tentar algo verdadeiramente novo (tradu\u00e7\u00e3o nossa)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, ap\u00f3s sua reelei\u00e7\u00e3o em 2012, Obama operou uma mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia na pol\u00edtica para Cuba. Por meio de di\u00e1logos secretos, iniciados em junho de 2013, entre emiss\u00e1rios do alto escal\u00e3o diplom\u00e1tico dos dois governos, o presidente norte-americano e Ra\u00fal Castro buscaram estabelecer um pacto de coopera\u00e7\u00e3o, de modo a abrir caminho para a normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas e econ\u00f4micas. Com o acordo selado em 2014, houve diversos gestos no sentido de atenuar o hist\u00f3rico conflito: ocorreu a libera\u00e7\u00e3o de agentes de espionagem presos em ambos os pa\u00edses, o aumento dos limites para remessas e viagens dos cubanos emigrados e o compromisso de Cuba em expandir o acesso p\u00fablico \u00e0 internet com aux\u00edlio de empresas estadunidenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais importante foi o acordo para o reestabelecimento das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas rompidas em 1961. Assim, em 14 agosto de 2015, a bandeira norte-americana foi hasteada sobre o pr\u00e9dio estadunidense em Havana pela primeira vez em 54 anos. Leo Grande e Kornbluh (2015, p. 420) tecem a seguinte avalia\u00e7\u00e3o do significado hist\u00f3rico dessa aproxima\u00e7\u00e3o: \u201cDepois de mais de meio s\u00e9culo de esfor\u00e7os intermitentes, o presidente Obama teve sucesso onde outros \u2014 Kennedy, Kissinger, Carter e, em menor escala, Clinton \u2014 haviam falhado\u201d (tradu\u00e7\u00e3o nossa)\u00a0<a href=\"https:\/\/esquerdaonline.com.br\/2021\/07\/28\/entenda-por-que-os-eua-querem-destruir-a-revolucao-cubana\/#notas\"><strong>[4]<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nitidamente, a pol\u00edtica empreendida por Barack Obama orientava-se por estimular e acelerar o processo de restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo na ilha mediante a colabora\u00e7\u00e3o, ao menos parcial, com o governo cubano, e n\u00e3o mais por meio da estrat\u00e9gia de estrangulamento econ\u00f4mico e do incentivo \u00e0 derrubada do regime. Com isso, al\u00e9m de abrir espa\u00e7o para empresas estadunidenses fazerem neg\u00f3cios em Cuba, cujo mercado interno estava totalmente fechado ao pa\u00eds em raz\u00e3o do embargo, Obama admitiu publicamente o fracasso de mais de cinq\u00fcenta anos de bloqueio norte-americano. Uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica na pol\u00edtica externa dos Estados Unidos havia ocorrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, a nova orienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica \u2014 embora contasse com o apoio de parte significativa da classe dominante estadunidense e tamb\u00e9m de setores da comunidade cubano-americana na Fl\u00f3rida\u00a0\u2014 durou pouco tempo. Ela foi abandonada t\u00e3o logo Donald Trump assumiu a cadeira presidencial, ap\u00f3s sua elei\u00e7\u00e3o em 2016. O presidente republicano, prontamente, retomou a linha de hostilidade, agravando o bloqueio econ\u00f4mico com imposi\u00e7\u00e3o de novas san\u00e7\u00f5es a Cuba (vale notar que as mais de 200 san\u00e7\u00f5es impostas por Trump foram mantidas at\u00e9 agora por Joe Biden). Outra vez, se fez sentir a influ\u00eancia pol\u00edtica da burguesia cubano-americana de Miami no governo estadunidense. Afirma Huddleston (2018, p. 267), sobre este tema:<\/p>\n<h5 style=\"text-align: justify;\">Trump aparentemente acredita que uma pol\u00edtica punitiva e isolacionista em rela\u00e7\u00e3o a Cuba lhe dar\u00e1 dinheiro e votos de republicanos cubano-americanos mais velhos e ricos que provavelmente apoiar\u00e3o sua reelei\u00e7\u00e3o em 2020 (tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o \u00fanico per\u00edodo em que os Estados Unidos buscaram adotar uma estrat\u00e9gia de efetiva colabora\u00e7\u00e3o com o governo cubano ocorreu durante o segundo mandato de Obama. A persist\u00eancia da pol\u00edtica contrarrevolucion\u00e1ria norte-americana, ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, baseada no draconiano bloqueio econ\u00f4mico e em a\u00e7\u00f5es subversivas e terroristas visando \u00e0 derrubada do regime, revela que os objetivos do imperialismo estadunidense em rela\u00e7\u00e3o a Cuba n\u00e3o se resumia ao que estava em jogo durante a Guerra Fria. O estrat\u00e9gico para os Estados Unidos segue sendo a recoloniza\u00e7\u00e3o da ilha.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: justify;\"><strong>NOTAS<a name=\"notas\"><\/a><\/strong><\/h4>\n<h5 style=\"text-align: justify;\"><strong>[1]\u00a0<\/strong>Em novembro de 1999, Eli\u00e1n Gonz\u00e1lez, de seis anos de idade, foi o piv\u00f4 de uma acirrada disputa entre Cuba e os EUA, ap\u00f3s a crian\u00e7a ser resgatada por pescadores americanos no estreito da Fl\u00f3rida. Eli\u00e1n havia sido levado por sua m\u00e3e e o namorado dela numa balsa que naufragou. O menino foi entregue a parentes em Miami, mas seu pai o exigiu de volta, dando in\u00edcio a uma batalha entre os dois pa\u00edses por sua cust\u00f3dia. O caso inflamou o conflito entre a comunidade cubano-americana de Miami e o governo cubano.<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>[2]\u00a0A hist\u00f3ria de Jorge Mas Canosa e de sua influ\u00eancia no governo Clinton \u00e9 relatada em detalhes no cap\u00edtulo cinco do livro\u00a0<i>Cuba Confidencial<\/i>, de Ann Louise Bardach (2003).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>[3]\u00a0Citamos alguns desses estudos em que nos baseamos para avalia\u00e7\u00e3o deste tema:\u00a0<i>Back Channel to Cuba<\/i>, de William M. Leo Grande e Peter Kornbluh (2015), Our Womam in Havana, da diplomata americana Vicki Huddleston (2018),\u00a0<i>Cuba Confidencial e Without Fidel<\/i>, ambos de Ann Louise Bardach (2003 e 2014).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>[4]\u00a0No original: \u201cAfter more than a half century of intermittent efforts, President Obama succeeded<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0No original: \u201cAfter more than a half century of intermittent efforts, President Obama succeeded where others \u2013 Kennedy, Kissinger, Carter, and to a lesser extent Clinton \u2013 had failed\u201d.<\/p>\n<\/section>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Latuff | mintpressnews.com Gabriel Casoni Gabriel Casoni, de S\u00e3o Paulo (SP), \u00e9 professor de sociologia, mestre em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica pela USP e faz parte da coordena\u00e7\u00e3o nacional da Resist\u00eancia, corrente interna do PSOL. 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