{"id":107523,"date":"2022-02-17T00:12:47","date_gmt":"2022-02-17T03:12:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/?p=107523"},"modified":"2022-02-17T00:12:47","modified_gmt":"2022-02-17T03:12:47","slug":"conversas-de-comadres-e-o-cotidiano-num-posto-de-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogdopaulonunes.com\/v5\/index.php\/2022\/02\/17\/conversas-de-comadres-e-o-cotidiano-num-posto-de-saude\/","title":{"rendered":"Conversas de comadres e o cotidiano num posto de Sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\nIr a um consult\u00f3rio m\u00e9dico particular para uma consulta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nada agrad\u00e1vel. Primeiro voc\u00ea \u00e9 tratado como paciente, porque haja paci\u00eancia para esperar! Agora, imagine num posto p\u00fablico de sa\u00fade onde voc\u00ea escuta papos absurdos que n\u00e3o gostaria de ouvir, principalmente nesses tempos pand\u00eamicos e negacionistas! Como a maioria dos brasileiros, meu plano \u00e9 o SUS, meu amigo! S\u00f3 isso basta!<br \/>\nLogo cedo, entre seis e sete horas da manh\u00e3 passo pela recep\u00e7\u00e3o que me coloca numa triagem na sala de uma enfermeira, para depois aguardar o m\u00e9dico que est\u00e1 marcado para chegar \u00e0s nove horas, mas s\u00f3 come\u00e7a a fazer as chamadas depois das dez. N\u00e3o adianta esquentar a cabe\u00e7a, ou reclamar.<br \/>\nMinha press\u00e3o registrou certa altera\u00e7\u00e3o no aparelho. Os n\u00fameros n\u00e3o mentem. N\u00e3o dou muita import\u00e2ncia. Depois normaliza. Sempre levo um livro para passar o tempo e me acalmar, mas com os ouvidos (um n\u00e3o estava bem) atentos aos movimentos e \u00e0s conversas que rolam. V\u00edcio de jornalista.<br \/>\nN\u00e3o existe o devido distanciamento, e logo o posto vira uma aglomera\u00e7\u00e3o de entra e sai de funcion\u00e1rios por salas diferentes e usu\u00e1rios misturados com o local de vacina\u00e7\u00e3o. O sistema \u00e9 bruto!<br \/>\n\u00c9 um tal de entrar e sair das portas que at\u00e9 me d\u00e1 uma agonia. \u00c9 muito papel e burocracia! Sento numa fileira de cadeiras vazias e abro o livro para minha leitura. N\u00e3o demora muito e duas senhoras sentam ao meu lado. Fico prensado ao meio. Elas percebem que n\u00e3o estou para conversa, mas sinto que vai sair resenha. Uma me pergunta se vou ao m\u00e9dico. Respondo laconicamente que sim.<br \/>\n&#8211; O calor est\u00e1 demais, n\u00e9 comadre, e pior ainda para a gente nessa idade da menopausa. \u00c9 uma quentura por dentro! Fale n\u00e3o, comadre &#8211; diz uma para outra. D\u00e1 vontade de rir, mas continuo calado, lendo meu livro. L\u00e1 se foi minha concentra\u00e7\u00e3o! Penso comigo: Vem mais coisa por a\u00ed.<br \/>\n&#8211; Comadre, essas vacinas n\u00e3o servem pra nada! \u00c9 coisa de pol\u00edtico, peixe grande entre eles! Olha comadre, minha av\u00f3 de 80 anos tomou a vacina e at\u00e9 hoje est\u00e1 com o bra\u00e7o duro. Conhe\u00e7o uma pessoa que se vacinou e logo depois teve um infarto. Essas vacinas est\u00e3o matando gente!<!--more--><br \/>\n&#8211; \u00c9 comadre, sei de dois conhecidos que receberam as duas doses e pegaram a danada da covid &#8211; responde a outra, para acrescentar que um n\u00e3o teve muitos problemas de sa\u00fade, mas o outro, que sofria de diabetes, foi internado. Deu vontade de contra-argumentar, mas recuo. Melhor n\u00e3o!<br \/>\n&#8211; S\u00f3 Deus, comadre, porque essas vacinas n\u00e3o valem nada! Come\u00e7o a ficar irritado com os absurdos negacionistas. Lembro do Boz\u00f3, mas procuro me controlar e me agarrar ao meu s\u00e1bio sil\u00eancio. Pensei em sair do lugar, mas seria falta de educa\u00e7\u00e3o, e poderia at\u00e9 ser recriminado com palavr\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Onde j\u00e1 se viu, comadre, esse pessoal do governo do estado pedir cart\u00e3o de vacina\u00e7\u00e3o para entrar numa reparti\u00e7\u00e3o! Isso t\u00e1 fora da lei &#8211; protestou. N\u00e3o aceite isso comadre!<br \/>\nO funcion\u00e1rio do posto foi at\u00e9 a fila de vacina\u00e7\u00e3o para tentar manter uma certa dist\u00e2ncia entre as pessoas, mas n\u00e3o estava sendo compreendido. Resist\u00eancia! Um cara foi logo dizendo que n\u00e3o ia sair dali. N\u00e3o se sabe no que deu nesse povo. Deve ter sido a infiltra\u00e7\u00e3o do mau exemplo que vem l\u00e1 de cima do capit\u00e3o-presidente.<br \/>\n&#8211; T\u00e1 vendo a\u00ed, n\u00e3o adianta comadre, junto ou separado, a covid pega do mesmo jeito &#8211; apontou a comadre ao lado para o agente de sa\u00fade que estava procurando colocar ordem na fila, para evitar ajuntamento.<br \/>\nNem percebi, e logo as duas se foram. Ah, uma foi para o dentista. A outra conversadeira, nem sei. Que al\u00edvio! Estou livre das barbaridades! Meu ouvido esquerdo come\u00e7a a zunir. Ele est\u00e1 entupido e surdo, mas o outro ainda est\u00e1 funcionando. Deu para captar as conversas atravessadas.<br \/>\nOlho o rel\u00f3gio, e os ponteiros marcam pr\u00f3ximos das dez horas. O tempo n\u00e3o para. Estava impaciente, decidido a ir embora. Nisso, passa a enfermeira e pergunto quando o m\u00e9dico, ou a m\u00e9dia, ia me chamar.<br \/>\n&#8211; Tenha paci\u00eancia, meu senhor! N\u00e3o vai demorar! J\u00e1 estava ali h\u00e1 mais de tr\u00eas horas, e nada. Dei uma pausa na leitura. Passa um rapaz, visivelmente homossexual, esbanjando sua descontra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o paciente sisudo como eu, e diz que meu livro \u00e9 bonito. Pela capa (o livro estava fechado em minha m\u00e3o) ele viu que era \u201cEscravid\u00e3o\u201d, de Laurentino Gomes. Pensei em responder que n\u00e3o existe livro bonito, mas bom ou mal escrito.<br \/>\nLevantei um pouco para esticar as pernas. O rapaz, que depois descobri, foi l\u00e1 para se vacinar, e n\u00e3o demonstrava muita preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas da vida. Senta no mesmo lugar em que estava e toca a ligar. Corri as vistas, e observei que a maioria conduzia um celular na m\u00e3o. O jovem parecia falar com a m\u00e3e, uma tia ou com a av\u00f3.<br \/>\nNo meio da conversa, contou que no col\u00e9gio, ou faculdade, entrou no banheiro das mulheres por engano. Isso levou uns tr\u00eas ou cinco minutos para explicar sobre aqueles desenhos-letreiros de feminino e masculino que colocam nas portas dos sanit\u00e1rios. Tem s\u00edmbolos confusos e at\u00e9 em ingl\u00eas. Melhor falar toilette, que fica mais civilizado e bacana.<br \/>\nComo seu argumento de ter adentrado no banheiro feminino por equ\u00edvoco n\u00e3o convenceu, o rapaz levantou-se, foi at\u00e9 a porta dos sanit\u00e1rios do posto de sa\u00fade, e tirou uma foto para enviar. Hoje a tecnologia oferece essa rapidez atrav\u00e9s da imagem virtual. O processo \u00e9 instant\u00e2neo. Do outro lado, a mulher disse que n\u00e3o estava podendo abrir o arquivo. Percebi que o mo\u00e7o ficou desapontado. Pela conversa, supus que a pessoa estava internada em algum hospital.<br \/>\nConfesso, e bem sabe quem conhece meu temperamento, que n\u00e3o estava mais suportando ficar mais ali. A decis\u00e3o era desistir da consulta, mas, para minha sorte, a m\u00e9dica, finalmente, me chamou. J\u00e1 eram dez e meia.<br \/>\nSai dali pensando um monte de coisas, como na ignor\u00e2ncia do nosso sofrido povo, nas quest\u00f5es sociais de tantas desigualdades, num Brasil ainda atrasado que pouco cuida dos seus filhos, nessa pandemia que parece n\u00e3o mais se acabar, na minha pr\u00f3pria impot\u00eancia como cidad\u00e3o e nessa outra pandemia da tal fake news que se alastrou por todo pa\u00eds, tirando a vida de muita gente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ir a um consult\u00f3rio m\u00e9dico particular para uma consulta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nada agrad\u00e1vel. Primeiro voc\u00ea \u00e9 tratado como paciente, porque haja paci\u00eancia para esperar! Agora, imagine num posto p\u00fablico de sa\u00fade onde voc\u00ea escuta papos absurdos que n\u00e3o gostaria de ouvir, principalmente nesses tempos pand\u00eamicos e negacionistas! 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