Da formação do Povoado da Conquista à Vila da Vitória

Paulonun200A formação do município de Vitória da Conquista acha-se ligada ao processo histórico do Sudoeste da Bahia, numa extensão compreendida entre os rios Pardo e de Contas, num período que vai de fins do século XVIII. De 1730 a 1840 pouco se sabe da história conquistense, senão a conquista dos bandeirantes sobre os índios Mongoiós e Imborés – antigos habitantes da região do São Francisco até São Jorge dos Ilhéus , conforme o estudioso Durval Vieira de Aguiar, em seu livro Descrições Práticas da Província da Bahia (publicação oficial), datada de 1888.

Pode-se localizar no processo de colonização do chamado “Sertão da Ressaca” (atual território do Planalto da Conquista) causas de ordem econômico-financeira. A busca de riquezas minerais, atestada por documentos antigos, na faixa de terra situada entre os rios Pardo e de Contas, assim como o interesse de abrir campos da região para a prática pastoril, são algumas das causas explicativas para a expedição de João Gonçalves da Costa, que terminou por criar um núcleo populacional, de onde se originou o município de Vitória da Conquista.

Mas, o uso seletivo e efetivo da terra para exploração agropastoril, encontrou na agricultura de subsistência dos nativos uma enorme diferença, que aprovaria uma série de conflitos entre os dois grupos – chegantes e nativos, onde acabara se consolidando primeiro em núcleo popu-lacional, depois povoado, vila e, por fim, cidade de Vitória da Conquista.

A conquista da terra e conseqüente criação do povoado ocorreu em meio à resistência dos índios. Levantaram-se contra os desbravadores para defender suas terras os Mongoiós, fixados às margens do rio Verruga e os Imborés, fixados na serra do Periperi.
Os portugueses vão necessitando apreender privativamente a terra, entrando em conflito com os índios que não conheciam a propriedade privada e para os quais a ocupação da terra apresentava uma ameaça à sua subsistência. O resultado foi um conjunto de guerrilhas cruéis, além da mortalidade causada por doenças que os brancos trouxeram para a região, sobretudo a varíola. Documento datado de 1783 (Ofício do Ouvidor da Comarca dos Ilhéus, Francisco Nunes da Costa, para Governador interino da Bahia) descreve os Mongoiós como “gentio de tão bom caráter, que em sociedade, trabalham em plantações de bananas, inhames, toda sorte de fava e feijão e até de cana de açúcar, o que constitui uma nação dócil e fácil de conduzir”. Ocorre, entretanto, que as fazendas de gado vão se estabelecendo. Há evidências destas fazendas desde antes de 1780, pois num ofício do ex-governador da Bahia, Manuel da Cunha Menezes, para Martinho de Melo Castro, datado de 12 de agosto de 1780, diz certa altura: “Este foi o modo porque soube que naquela capitania havia criação de gado e querendo dar-lhe providência, não só porque tivessem gados para a lavoura, mas também para a extração das madeiras (hoje, atual área do Poço Escuro)…, hoje tem no rancho mais de 60 pessoas e vivem sossegadas das primeiras perturbações e rodeadas de fazendas de gados …”.
A atividade pecuária extensiva dos brancos precisava dominar, em detrimento da ocupada pela agricultura de subsistência dos nativos. Os Mongoiós foram derrotados pelas armas de fogo, pela contaminação de doenças dos portugueses e pelo envenenamento da água que os índios consumiam. Quanto à contaminação de doenças, os portugueses expunham, na mata, suas roupas antes usadas por doentes e que continham nelas vírus e bactérias a fim de que os índios, vestindo-as, fossem contaminados e viessem a morrer. Os índios vestiam essas roupas por causa do clima frio que fazia na região. Os fatos mereceram de Durval Vieira de Aguiar o seguinte comentário: “A maior arma dessas guerras foi sempre a traição”.

As batalhas terminam, o genocídio chega ao fim e o local da aldeia transforma-se num verdadeiro cemitério de índios. Por esta ocasião o Mestre-de-Campo João da Silva Guimarães havia se retirado para Minas Gerais, deixando a administração do local ao genro João Gonçalves da Costa. Este se encontrava nesta função quando foi visitado, em 1817, pelo príncipe naturalista alemão Maximiliano Wied Newied, em Cachoeira (nome da sua antiga fazenda), e com quase 100 anos de idade. O local chama-se, hoje, Manoel Vitorino.

Estabelecido o “Pacto de Paz”, em 1808, dá-se o assentamento. Neste instante todo o sertão encontrou na criação de gado a principal ocupação econômica. O gado, portanto, está na origem da consolidação do rancho primitivo, início da cidade de Vitória da Conquista. Uma vez estabelecida a criação de gado, outra questão surgiu: o escoamento do gado para o mercado consumidor.

O problema das estradas assumiu importância fundamental, o que só viria a ser solucionado no século atual, elevando Conquista a uma posição de entreposto comercial e rodoviário.

As fazendas de gado, no entanto, tomaram feições não simplesmente de uma empresa econômica, mas de uma mini-organização social e agrária. Delas, surgiram as personalidades políticas da Vila e, depois, os coronéis, já em nosso século. Os latifúndios tinham duplo sentido: núcleo familiar e empresa mercantil. Os tipos humanos que formavam a primitiva povoação resumiam-se em fazendeiros, índios domesticados e escravos, como relatava Maximiliano em seu livro “Viagem ao Brasil”, de 1820. Todos esses componentes gravitam em torno da família do coronel João Gonçalves da Costa
Após a expulsão, extermínio e domesticação os índios, os colonizadores ergueram uma capelinha de taipa no local da grande batalha, com o pretexto de que a vitória sobre os nativos se devia à promessa feita para uma santa – Nossa Senhora das Vitórias, e em volta desta surgiram as primeiras habitações, também de taipas, que deram origem ao Arraial da Conquista. Essas primeiras habitações do povoado eram cerca de 40 (quarenta) casas, encontradas em 1817 por Maximiliano.

A atividade econômica e a estrutura social não sofreram alterações por muito tempo. Os cronistas, até 1820, retrataram o local do mesmo modo como fora no começo do assentamento.

Com a abertura das primeiras picadas e conseqüente escoamento do gado (destaque para a antiga Rua da Boiada – atual João Pessoa ), o pequeno arraial começou a sair do isolamento a que estava confinado e a se desenvolver.

O crescimento assinalado fez com que o povoado fosse elevado à Vila, em 1840. Nesse mesmo ano tinha sido inaugurado o II Reinado, de D. Pedro II no Brasil. A agora “Imperial Villa da Vitória” deixava de pertencer a Caitité, desmembrando daquele município dia 28 de Maio de 1840, contudo continua, juridicamente, pertencendo à Comarca de Rio de Contas, conforme o próprio decreto Provincial n° 124. Juridicamente, já pertenceu à Comarca de Santo Antônio da Barra (atual Condeúba), Bom Jesus da Lapa, Livramento e Caetité. Mas a efetivação da Vila só ocorreu no dia 09 de Novembro de 1840, quando da instalação da sua primeira Câmara Municipal de Vereadores, na época Conselho Municipal.

A composição social da Vila admite, progressividade, alterações para, em seu meio, não abrigar apenas diversos personagens, mas grupos familiares estruturados, vivendo da economia pecuária ou gravitando em torno da mesma. Se, com o decorrer do tempo, desaparece a figura do índio domesticado, surge o comerciante tropeiro. Seu surgimento é explicado pela articulação que a Vila faz com outras regiões. Na Vila, a configuração social antes descrita, se fixa. As famílias, antes menores, descendentes dos fundadores da região, se ampliam.
O primeiro presidente do Conselho Municipal foi Luiz Fernandes de Oliveira, genro da herdeira n° 1 de João Gonçalves, Faustina Gonçalves da Costa, segundo consta nos arquivos dos tabeliões da Comarca de Vitória da Conquista. Na época do Império, o presidente do Conselho tinha atribuições administrativas, que era o Chefe do Executivo.•

Conquista na época do Coronelismo

Por volta de 1890 a I m p e r i a l Vila da Vitória já toma aspecto de cidade. Em 1888, o coronel Durval Vieira de Aguiar, em seu livro Descrições Práticas da Província da Bahia faz um relato detalhado do centro urbano do ex-povoado: “A Vila está edificada em terreno acidentado ao pé da serra denominado de Periperi. As casas são térreas (…) A praça é quadrilonga e de ladeira, ficando no centro a matriz (…) O comércio é pequeno e também o mercado da feira (…) Tudo isso não tem desenvolvimento pela falta de meios de exportação. Percebe-se, então, que estas determinantes da estrutura agrária montada naquela época constituíam-se em fatores limitantes do desenvolvimento regional”.

Já no registro Memória sobre o Estado da Bahia, de Francisco Viana e José Carlos Ferreira, editado em 1893, percebe-se um considerável surto de crescimento urbano. Surgiram os primeiros sobrados, construídos pelos coronéis. Diz o texto: “A cidade, edificada em terreno acidentado, é formada de casas térreas e envidraçados em sua maioria e de poucos sobrados, caiados a tabatinga e cal, formando onze ruas. Na praça maior (antiga Rua Grande e hoje as praças Tancredo Neves e Barão do Rio Branco) a mais central, chamada de Matriz acham-se a Igreja Paroquial e o Paço do Conselho, propriedade particular (…) A cidade tem duas escolas públicas e seis particulares. Seu comércio é assaz importante e estende suas relações à capital do Estado, às cidades e vilas do centro(…)”. Conforme o censo de 1872, Vitória tinha uma população de 18.836 habitantes. Já em 1890 chega a 25.617 habitantes. Pelo censo deste período, houve também um acentuado crescimento da população escrava em 1870, se comparado às últimas cifras de 1817, quando chegaram os primeiros negros trazidos pelos colonizadores da região. A explicação pode estar no fato de que o grosso da escrevia de Conquista se deve ao declínio da população aurífera na região do Rio de Contas.

Ao tempo que Durval Vieira fazia uma descrição da Vila (1888), neste ano era sancionada a Lei Áurea e, na Imperial Vila da Vitória, apenas um vereador do Conselho defende a legalidade e justeza da lei. Constata-se, pois, que quase todos os membros do Conselho estavam ligados aos senhores de terras, pecuaristas e latifundiários.

Um ano depois viria a República (1889) e com ela a força cada vez maior da figura do coronel. Mas, mesmo com a mudança de regime no país, a estrutura social e econômica não mudaria. A economia, baseada na produção agroexportadora, mantinha-se dependente, persistia o regime de produção agroeconômia – a monocultura, bem como o poder político nas mãos dos grandes proprietários de terra – a elite agrária. Com a transformação do regime, as Províncias Unitárias, que constituíam o Império, passam, com o Governo Federativo, a Estados, e muitas vilas ganham status de cidade, como foi o caso da Imperial Vila da Vitória.

Mas, o regime ainda mantinha no poder um governo oligárquico, apoiado na economia tradicional. A Bahia, por exemplo, foi a última a aderir ao novo regime. Nesta época conheciam-se mais o líder político do que seu partido.

Proclamada a República não se admitia qualquer vislumbre de Monarquia, e a Imperial Villa da Vitória, de caráter nobiliárquico, passou a chamar-se Cidade da Conquista, no dia 1° de junho de 1891. A Vila adquiriu status de cidade, mas a estrutura ficou definida em torno de um chefe político local. As “famílias importantes” indicavam conselheiros para representá-las na Câmara, na época Conselho Municipal. Nesse período, as famílias chefiadas pelos coronéis indicavam o Intendente para também representá-las tanto no Município quanto no Estado. Vê-se, portanto, que a política local gravitava em torno de interesses particulares e familiares e para a defesa de questões agrárias. A esse tempo, o núcleo urbano bem maior e mais desenvolvido, os chefes de famílias tradicionais edificam na sede seus solares e sobrados.

Quanto ao aspecto político, do final do século passado até 1909, a política local, mandonista situacionista, era liderada pelo coronel Francisco José dos Santos (filho de Sinhazinha Santos, fundadora da família Santos nesta cidade). Tinha como oposição o coronel Pompílio Nunes de Oliveira ( que só conseguiu eleger apenas um candidato, o coronel Antônio de Lima Guerra, Intendente de 1896 a 1903).
Joaquim Correia de Melo- 1892 a 1895

José Antônio de Lima Guerra- 1896 a 1903

Estevam Santos- 1904 a 1906

João Diogo de Sá Barreto- 1906 a 1908

Maximiliano Fernandes de Oliveira- 1908 a 1911

Francisco Santos

José Fernandes Oliveira Gugé- 1912 a 1915

Leôncio Santos- 1916 a 1919

Acendino dos Santos Melo ( Dino Correia)- 1919 a 1921

Paulino Fonsêca- 1922

Agripino Borges- 1922 a 1923

Justino Gusmão- 1924 a 1925

Paulino Santos- 1926 a 1927

Otávio Santos- 1928 a 1930

Deraldo Mendes- 1930 a 1932
Depois da morte do coronel Francisco Santos, seu cunhado, o coronel Gugé, assume a liderança política local. Gugé chefiou a política desta cidade até 1918, quando morreu. Estevão Santos era irmão do coronel Francisco Santos e mais tarde tornou-se Intendente Municipal.

Vê-se, pois, que o processo político se traduz como simples alternância entre núcleos familiares no poder local, todos aparentados entre si, e isto explica a centralização do poder político em torno das famílias Oliveira, Santos, Fernandes, Corrêa, Nunes e, mais tarde, Ferraz e Gusmão, durante mais de 100 anos de História Política Local. As quatro primeiras famílias são portuguesas, a quinta espanhola a sexta é italiana e a última também espanhola.

Este fato se explica da seguinte forma: durante este período da História do Brasil, a presença do imigrante nas terras brasileiras foi incentivada pela Oligarquia Agrária da época, que estava em busca de mão-de-obra barata e, como havia perdido a trabalho não-remunerável da escravia, apelou para os imigrantes, que tinham certa mão-de-obra especializada. Houve até alemães trabalhando em fazendas de café por várias partes do território nacional.

A alternância no poder se dava por questões de diferenças da política dos coronéis. As cisões ocorriam por motivos pessoais. Depois da morte do coronel Gugé, destaque para outro parente seu, o coronel Maximiliano Fernandes de Oliveira, um dos maiores chefes da oligarquia agrária regional.

A crônica política voltada para a metade do século XIX e primeira metade do século XX é a característica de uma série de pequenos acontecimentos que, na perspectiva dos interesses locais, eram julgados relevantes. As diferenças de acordos das famílias, as empreitadas a jagunços e a política do mandonismo, são ingredientes do processo político local, num esquema de economia agrária, onde a disputa do poder de mando ficava entre os grandes coronéis. Disputas estas que chegaram a causar uma espécie de Guerra Civil na Cidade. Em 1919, quando a política de mando foi disputada à luta armada entre as facções rivais divergentes da época – Meletes e Peduros.

Depois da morte do coronel Gugé, em 1918, o Partido Republicano, em Conquista, estava rachado entre as citadas facções, uma parte liderada por Pompílio Nunes e outra por Ascendino Melo. Em síntese, duas ou mais facções políticas, lideradas pelas principais riquezas locais, apoiavam-se no próprio poder econômico e no auxílio do Intendente e Governador, disputavam o governo municipal. Pode-se dizer, então, que o que caracterizava a projeção política e social da cidade era, sobretudo, a economia agrária, nucleada em grandes propriedades. O senhor de terras detinha o monopólio político.

A guerra entre “Meletes e Peduros” só chegou ao fim depois de um entendimento entre ambas as facções e de uma conciliação em torno de um nome para assumir a Intendência – Ascendino dos Santos Melo, nomeado pelo Governador Antônio Muniz. Ascendino era filho do primeiro Intendente de Conquista, Joaquim Correia de Melo.

A estrutura social também se define pelo conjunto de fazendas símiles, manipulando o pensamento e criando uma estrutura social, política e econômica agrária, conservadora e paternalista. Inexiste um mercado de trabalho, até mesmo contratual. Vê-se que o poder de mando baseava-se no controle de terras e se edificava através da família ou do grupo.
Nos anos 20 surge outra liderança política: Justino Gusmão, quando o Gugelismo e o Ascendinismo chegavam ao fim. Justino venceu as eleições de 1923, derrotando o médico sanitarista Régis Pacheco, outro que se constituirá numa forte liderança nas décadas seguintes. Justino rompeu com os republicanos históricos (situação local) liderados por Ascendino Melo e Régis Pacheco, aliando-se a Deraldo Mendes.•

Conquista na Era Vargas

A revolução de 30 não mudou muito. Juracy Magalhães, escolhido interventor no Estado, em nota oficial de 24 de setembro de 1930, diz “ter resolvido não se fazer, por ora, nenhuma modificação na situação dominante do município, conservando-se até que seja estudado o assunto…” Em 1933, através do Partido Social Democrático, o Tenentismo passou a apoiar-se nas Oligarquias locais. Em Conquista, o Partido Social Democrático tem como chefe Deraldo Mendes Ferraz, expressão de primeira grandeza do latifúndio na região, que apoiara a Revolução de Outubro. Derrubados os governos federal e estadual, a oposição em Conquista, ou seja, a Aliança Liberal, chefiada por Deraldo, formou uma “Guarda Branca” e expulsou Otávio Santos, então intendente, do poder. Assumiu, provisoriamente, Bruno Bacelar, prefeito “tampão”, que só fez mudar os nomes das ruas “Boiada” para João Pessoa, “Muranga” para Siqueira Campos e “Rua dos Tocos” para 10 de Novembro, numa demonstração de apoio aos revolucionários de 30.

A escolha do Intendente se não fosse deferida a um grupo familiar agrário, o seria para o outro de base econômica idêntica, uma vez que a liderança política local derivava sua importância aos grandes proprietários rurais. As outras classes econômicas, como os comerciantes e os profissionais liberais não tinham condições de apresentar-se como alternativas políticas, e a situação do momento, montada sobre o sistema agrário de estrutura oligárquica. Tanto o comerciante, que era abastecido pelos latifundiários, quanto os profissionais liberais, que os tinham como seus clientes, deviam-lhes favores. No campo, a situação era ainda pior. Os trabalhadores rurais, agregados às fazendas, são dominados por um conjunto de mecanismos capazes de impedir o desenvolvimento de uma consciência política. Sem terra e sem trabalho numa região em que o “exército de reserva de mão de obra” é amplo, o emprego é um favor que impõe fidelidade.

A situação política local ficou na direção de Deraldo Mendes até 1937, quando Getúlio Vargas dava o Golpe de Estado no País e inaugura o Estado Novo, ditatorial. Nesse momento, em Conquista, Justino Gusmão se alia com Régis Pacheco para fazer oposição a Deraldo Mendes, que funda na cidade a UDN, e mais tarde o PSD – Partido Social Democrata. Já Régis Pacheco defendia a Ação Autonomista. Percebe-se, então, que a luta política vai passando, agora, de grupos familiares para grupos políticos. Em Conquista, durante todo o período ditatorial de Vargas (1937 – 1945), Régis Pacheco chefia a política local.

Coronel Deraldo Mendes Ferraz 1930 a 1932

Arlindo Mendes Rodrigues 1933 a 1936

Florentino Mendes de Andrade 1936 a 1937

Joaquim Fróis de Caires e Castro 1937 a 1938

Dr. Luís Régis Pacheco Pereira 1938 a 1945

Conquista na Época do Populismo
Izalto ferraz de Araújo- 1946 a 1947

Antonino Pedreira- 1946 a 1947 até 1950

Gérson Gusmão Sales- 1951 a 1955 e 1959 a 1963

Edvaldo de Oliveira Flôres- 1955 a 1958

Nelson Gusmão Cunha- 1958 a 1959
A dinâmica social seria responsável pela mitigação daquele domínio familiar. Novos fatores vão penetrar a realidade social, refletindo politicamente nas disputas em torno do mando local. O comércio, o desenvolvimento econômico, sua diversificação, fazem surgir os personagens correspondentes às novas atividades econômicas, inclusive imigrantes atraídos pela expansão econômica e urbana que a cidade começa a experimentar, e ocorre a prática do populismo.

Depois que a II Guerra Mundial começou, a cidade passou a chamar-se Vitória da Conquista, conforme o decreto 141 de 31 de dezembro de 1943. A mudança traz transformações não somente no nome, mas também uma transformação social, patrocinada pela Guerra, que trouxe a expansão do comércio (com a instalação de novas casas comerciais abertas pelos chegantes vindos de diversas partes do Nordeste), a abertura de rodovias, que, inclusive, permitiu o escoamento da produção agrícola (aumentava sensivelmente com a construção da BR-116 – Rio/Bahia, em 1936) e o aumento da população que, na primeira metade do século (1900 – 1950) atingiu o início da década deste período 29.898 habitantes e no fim 96.664 habitantes, sendo que o maior índice de crescimento demográfico foi justamente entre 1940 – 1950. A década de 40 é, pois, a ponta de referência para o desenvolvimento local ulterior. As agências bancárias chegaram. Antes de 1930 Conquista não tinha nenhuma agência bancária. Com a euforia econômica registrada nesse período (de 1930 a 1960) foram instaladas as primeiras e hoje maiores agências da cidade.

A população, outrora predominantemente rural passa a ser predominantemente urbana. Assim, a questão da nova conjuntura econômica, adicionada ao novo fator populacional, inclusive com a mentalidade de nova geração, e o surgimento do comércio estruturado, desorganizam a velha estrutura agrária, política, econômica e social. Novos agentes sociais são entronizados no discurso político. Outra contribuição do “chegante” foi a criação de uma nova mentalidade. Passou a ser agente democratizador em relação à ordem estabelecida, pois não estava ligado ao dever vassálico do latifúndio local.

A formulação política oposicionista predominante na década de 50, surgida como resultado de todas as transformações locais assinaladas em Conquista é um tipo de populismo. O líder da nova corrente, advogado Nilton Gonçalves, com o slogan “O Tostão contra o Milhão” mobiliza toda cidade. A prática deste método era, geralmente, feita por profissionais liberais, como médicos, advogados e engenheiros. A postura populista do novo líder não significava que em torno de si deixassem de gravitar personagens ligados ao tradicionalismo e que se opunham ao núcleo familiar que detinha o controle da administração pública do município (1954). Aquele advogado não conseguiu o mando com a postura populista, mas sua campanha pôs em evidência um conjunto de interesses e idéias contrárias ao tradicional domínio puramente familiar. O pensamento oposicionista iria esperar até 1962 para, em curto período, experimentar o governo municipal do jovem engenheiro José Pedral Sampaio. Aquele causídico a quem nos referimos, tempos depois voltaria à cena política e assumiria o poder político municipal, aliado aos seus antigos rivais conservadores. Tudo envolvia jogo de interesses e manipulação popular. Pode definir esse período como o da democratização política, do desenvolvimento econômico e da manipulação das massas. Ironias a parte, voltaria então Nilton Gonçalves, derrotar o representante do que fora conquistado em 62.

Gerson Sales (PSD), prefeito em 1950, facilitou a eleição de seu sucessor, o engenheiro agrônomo Edvaldo Flores, em 1954. Na década de 50, portanto, o domínio político do poder público municipal estava nas mãos dos “Gusmão”, tendo como expressão maior o ex-udenista Gerson Gusmão Sales, sendo reeleito para o período de 1959 e 1963.

O relacionamento político dominado por interesses apenas particulares e familiares, no entanto, entra em crise. Em 1962, uma coalizão de partidos, com a presença de personalidades situadas tanto da esquerda do processo, em sentido sociológico, quanto do centro e até mesmo da direita, despoja do mando administrativo local um núcleo familiar exclusivista. José Fernandes Pedral Sampaio era o novo líder emergente dessa coalizão.
Observação: Antonino Pedreira governou de abril a maio de 1946, quando afastou-se do cargo para candidatar-se a prefeito. Na oportunidade, assumiu o cargo Izaulto Ferraz de Araújo que exerceu o mandato até abril de 1947, quando retornou Antonino Pedreira, eleito.•
Conquista na Era da Ditadura Militar
José Fernandes Pedral Sampaio- 1963 a 1964- 1983 a 1987/

Orlando da Silva Leite- 1964 a 1967

Fernando ferreira Spinola – 1967 a 1971

Nilton Gonçalves- 1971 a 1973

Jadiel Vieira Matos- 1973 a 1977

Raul Carlos Andrade Ferraz- 1977 a 1982

Gildásio Cairo- 1982 a 1983
Com o golpe Militar de 1964, Pedral ficou impedido de administrar o município, pois o novo regime decretara o seu “impeachment”, ficando assim sem direitos políticos por 20 anos. Administrou o município por apenas treze meses. Em seu lugar, assumiu o advogado Orlando da Silva Leite, que na época era o Presidente da Câmara, que governou de maio de 1964 a abril de 1967, quando passou o cargo a mais um profissional liberal, o médico Fernando Spínola, que administrou até 1971. A experiência democrática de 1946 a 1964 foi limitada e chegou ao fim com a crise do populismo.

O golpe de Estado não modificou a estrutura política da Bahia senão, em alguns municípios, como foi o caso de Vitória da Conquista.

Era governador e continuou sendo Lomanto Júnior, sendo substituído em 1967 por Luiz Viana Filho, eleito pela Assembléia Legislativa e concluindo seu mandato em 1971. Por esta época a política conquistense deixava seus representantes da economia agrária (predominantemente pecuarista) e passava para os profissionais liberais, agricultores e comerciantes enriquecidos no período pós-Guerra. Uma nova mentalidade começava a fazer parte do dia-a-dia da sociedade conquistense e, depois do Golpe, todos os prefeitos são profissionais liberais, defensores da diversificação econômica (o café era a opção da época) e do desenvolvimento comercial, indo até mesmo à implantação de um pólo industrial (o que ocorreu em 1972).

O crescimento da população urbana de Conquista tem sido impressionante: dos 8.644 habitantes de 1940, a cidade (núcleo urbano) pulou para 85.959 habitantes em 1970. O setor de construção civil encontra-se em fase bastante avançada. Além de estender-se horizontalmente através das vastas áreas da zona central e dos bairros, conquista cresce também em sentido vertical. Foi nesse momento que começava a surgir os primeiros edifícios da cidade.

Em 1971 assume a Prefeitura o advogado Nilton Gonçalves, do qual já falamos na década de 50. Eleito pela ARENA ( Aliança Renovadora Nacional), apoiado nas promessas do então governador Antônio Carlos Magalhães, que em praça pública garantiu a implantação da Universidade e daria a Nilton a chave do Palácio, para que entrasse quando quisesse, isso era a garantia de grandes obras para o município. O povo acreditou e derrotou aquele que dois anos depois faria o maior governo político administrativo do município, foram necessários dois anos para o povo da cidade entender que a chave era errada ou a fechadura trocada. Teria seu mandato estendido até 1973, não conseguindo fazer seu sucessor nas eleições de 1972, quando a oposição (MDB – Movimento Democrático Brasileiro), elegeu o médico Jadiel Vieira Matos, e iniciou uma nova fase na História Política local. Jadiel administrou o município até 1977 e sua gestão alcançou o auge do café, a urbanização e a expansão da cidade, o desenvolvimento comercial, o crescimento demográfico e industrial. Em 1972 é eleito, portanto, um médico sem liames de parentesco com as famílias tradicionais do município. Esses fatos são apenas reflexos políticos da diferenciação social ocorrida e antes descrita.

A partir de 1971, o café, a nova opção econômica e alternativa regional, tornou-se o maior investimento feito nos últimos anos, em termos econômicos, financeiros e sociais, destacando-se em 1978 entre os vinte municípios brasileiros que mais renovaram seus cafezais e o segundo município baiano.

O café representou uma espécie de dique à migração para o sul, à medida que absorve uma vasta quantidade de mão-de-obra. O fluxo migratório diminuiu consideravelmente. No final da década passada (60) a região de Conquista quase chegou a exaustão econômica, onde se exibia milhares de casas à venda ou para aluguel. Isso porque a pecuária estava descapitalizada. Os moradores, até então, se concentravam dentro do anel que contorna a cidade. Depois de 70, a cidade inchou e com ela veio a periferia. A rápida urbanização, no entanto, não foi acompanhada de uma política de emprego que absorvesse as grandes camadas que se deslocavam para a cidade. A construção civil, antes com nível zero, foi durante toda a década de 70 e 80, a atividade mais dinâmica do município. Porém as unidades construídas eram de acesso somente para a classe média, em alta nesta época.

Quanto à questão da mão-de-obra no campo, apesar de sua fixação à terra ( em alguns casos), não houve melhoria de condição de vida do trabalhador rural paralela à importância da cultura cafeeira na região. Primeiro, porque o café é um produto instável, de cultura flexível, havendo ciclos prolongados de colheita. Também os catadores de café são convocados somente nos períodos de colheita. Esse é um aspecto negativo que a cafeicultura apresentou como conseqüência social.

Tudo isso provocou a ampliação da rede bancária, a expansão das próprias atividades comerciais e o aumento de arrecadação tributária. Agora que a sociedade local não é formada apenas de ricos donos de fazendas e trabalhadores do campo, fazer política tornou-se cada vez mais difícil. Mesmo nos campos, com a implantação do Pólo Cafeeiro, surge um proletariado rural com potencialidades políticas. Novos interesses cristalizam-se e, refletindo, os partidos políticos se subdividem.

Como nessa época, em pleno regime militar, apenas dois partidos eram tidos como legais (ARENA e MDB), este último se subdividiu em duas frentes, cada qual com seu projeto político. Ao mesmo tempo surge, ideologicamente, o mito da “Cidade Politizada” e “Cidade Progressista”.

O café, portanto, provocou novas demandas comerciais, pressionou o sistema viário existente (inclusive o urbano), impõe-se a necessidade de novos serviços, desorganizou-se a produção existente, dando-lhes contornos mais nitidamente capitalistas e provocou a proletarização no campo. Enfim, chega-se a década de 80 e Vitória da Conquista experimenta, como reflexos do desenvolvimento dos últimos 40 anos, o aumento populacional (por migrações), a expansão urbana (unidades construídas), a expansão comercial (novos “pontos” e casas comerciais), a atração do mercado de trabalho (profissionais Liberais e para o Setor Primário) e o surgimento de novos bairros periféricos ( Classe Baixa) diminui. Em 1940, a zona urbana não chegava a ocupar cem hectares (Jornal o FIFÓ), em 1980 ocupará seiscentos hectares (cit.). A população atingiu, em 1970, oitenta e cinco mil, novecentos e cinqüenta e nove habitantes (núcleo urbano). Em 1980, quase dobrou, chegando a 151.287 habitantes (Fonte: IBGE).•

Conquista na Era Democrática

José Pedral sampaio 1985 a 1987
Hélio Ribeiro- 1987 a 1988

Carlos Murilo Pimentel Mármore- 1989 a 1992

Guilherme Menezes de Andrade- 1996 a 2000, 2001 a 2002 e 2008

josé raimundo fontes 2002 a 2004 e 2004 a 2008
No dia 15 de novembro de 1982 foi eleito, depois de 20 anos afastado do cargo, o engenheiro Pedral Sampaio. Na mesma ocasião, Raul Ferraz e Elquisson Soares foram eleitos deputados federais.

( José Pedral Sampaio: 1989 a 1992/1993 a 1996)

Pedral governou até março de 1987, quando se afastou do cargo para assumir a pasta da Secretaria dos Transportes no Governo Waldir Pires, oportunidade em que Hélio Ribeiro governou. Voltou em agosto de 88 e conseguiu fazer seu sucessor Murilo Mármore.

Em 1º de janeiro de 1989 assumiu a Prefeitura estendendo seu mandato até 31 de dezembro de 1992. No dia 1º de janeiro de 93 reassumiu a Prefeitura Pedral Sampaio.

Hélio Ribeiro administrou o município de março de 87 a agosto de 88, quando Pedral esteve na Secretaria dos Transportes do Estado.

(Hélio Ribeiro 1987 a 1988)

Em 1º de janeiro de 1997, assume a Prefeitura, Guilherme Menezes, eleito por uma coligação gigantesca de partidos de esquerda e o PSDB. Em 1º de outubro de 2000 é reeleito com 60,8% dos votos válidos para um mandato de 4 anos.

(Guilherme Menezes: 1996 a 2000/2001a 2002) e 2009

José Raimundo Fontes, 56 anos, é natural de Pojuca, Norte da Bahia, e tem duas formações: História e Administração Educacional. Mestre em Ciências Sociais e Doutor em História Econômica, José Raimundo Fontes é um dos fundadores da Uesb e o primeiro presidente da Associação dos Docentes da Universidade do Sudoeste (ADUSB). Na sua carreira acadêmica dirigiu o Departamento de Estudos Sociais e coordenou o Colegiado de História, a Pós-graduação em História Social e o Mestrado Interinstitucional Uesb-Puc.

(José Raimundo Fontes: 2002 a 2004/2004 a 2008)

José Raimundo Fontes começou sua militância política nos anos 70, e foi um dos fundadores do PT – Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores no Brasil. Integrou em diversas oportunidades a Executiva Municipal e Estadual do PT.
Já foi candidato a vereador pelo Partido dos Trabalhadores em 1982 e a Vice-prefeito em 1988 e 1992. No primeiro mandato do prefeito Guilherme Menezes exerceu o cargo de Assessor Especial da Secretaria Municipal de Educação. Nas eleições de 2000 foi eleito vice-prefeito de Vitória da Conquista. Com a renúncia do prefeito Guilherme Menezes para candidatar-se a deputado federal, José Raimundo assumiu definitivamente o comando político-administrativo de Vitória da Conquista, em 05 de abril de 2002.
Em 3 de outubro de 2004 José Raimundo Fontes, vence as eleições, com 54.5% dos votos válidos e se torna mais uma vez prefeito de Vitória da Conquista .

Fazer política agora ficou mais difícil ainda. Curioso é que a mesma mentalidade que incentivou a implantação da monocultura do café em Conquista foi a que assumiu, nas décadas de 70 e 80, a direção pública do Município.

Foi o mesmo grupo político que dominou a cidade 22 anos, desde Jadiel Vieira Matos e Raul Ferraz (1973 a 1983), passando por Pedral Sampaio e Hélio Ribeiro (1984 A 1988) até chegar em Murilo Mármore ( 1988 a 1992), para voltar a Pedral Sampaio (1992 até 1997).

Entretanto, definitivamente implantado no município, um novo grupo mandante baseado em professores da Uesb e jovens outros não pertencentes às correntes políticas tradicionais. Basta verificar a eleição para o legislativo onde o PT, PC do B e PSB elegeram figuras sem nenhuma tradição política no município.

Na verdade, as candidaturas majoritárias não têm hoje nenhuma preocupação com o parlamento e criam idéias de poder em pessoas menos experientes e acabam tendo surpresas, pois o eleitorado às vezes não enxerga a lógica comum. O PT, por exemplo, imaginou que teria Fernando Jacaré e Vivi Mendes apenas como complemento de votos e no final acabou por ter que entregar-lhes as cadeiras legislativas, mesmo fato ocorrendo com o PSB que apostava na eleição de Gutemberg Macêdo e Lurdinha e, no final, deu Ataíde Macêdo para frustração do partido. É bom colocar as barbas de molho… já tem gente, antes colocada como políticos de segunda categoria, de olho na Prefeitura. Novos Tempos!• Atualizarei esta matéria em 2010