Professores são contra volta irresponsável do ensino presencial


Escolas sem estrutura, profissionais e estudantes ainda não imunizados, hospitais lotados, pouca importância para a opinião e para a experiência dos professores. Esses são apenas alguns dos motivos que fazem com que os professores municipais de Vitória da Conquista sejam contra a volta às aulas presenciais, decretada pela Prefeitura.

De acordo com o Decreto nº 21.192, publicado na segunda-feira (5), a Prefeitura Municipal autoriza a realização de atividades letivas presenciais com 50% da capacidade de cada sala de aula, nas unidades de ensino públicas e privadas do município. O número de alunos na sala dependeria da lotação dos leitos de UTI – se tivermos até 90% dos leitos ocupados, estudantes, professores, outros profissionais e todas essas famílias podem ser expostos ao risco de contaminação. Se chegarmos mais perto da completa falta de vagas nas UTIs, a Secretaria Municipal de Educação (Smed) indica que apenas devemos diminuir o número de alunos para 25%.

O Sindicato do Magistério Municipal Público (Simmp) considera essa decisão precipitada e irresponsável. É uma atitude que compactua com o negacionismo federal, responsável por fazer o Brasil padecer em nível alarmante. A Prefeitura Municipal, inclusive, pegou os professores municipais de surpresa com a publicação do decreto definindo datas tão imprudentes e temerárias. Apesar de manter diálogo com os professores municipais, a Smed não havia informado, nem sugerido, que já trabalhava com datas marcadas. Os professores da rede particular, por outro lado, nunca foram nem incluídos no debate.

Os professores sabem que, apesar de ser a única alternativa segura do ponto de vista da preservação da vida, o ensino remoto está longe de ser o ideal. “Os profissionais de educação têm trabalhado muito mais, três vezes mais, no formato remoto do que em modo presencial. Não foram treinados, não receberam qualquer contrapartida do governo para arcar com custos de equipamento, energia, internet, nada. Alguns até tiveram os salários reduzidos. Para nós, professores, estar em sala de aula presencial seria o melhor cenário. Mas, entendemos que não podemos arriscar vidas. Um atraso na aprendizagem se recupera. Um parente morto, uma vida perdida, não”, analisa a presidente do Sindicato, Elenilda Ramos.

Nesta quinta-feira (8), uma assembleia on-line vai reunir os professores municipais para deliberar sobre este importante assunto. Muito acima de números e indicadores, muito mais importante do que prejuízos financeiros e até mesmo educacionais, está o direito à vida. Os professores municipais querem aulas presenciais, sim, mas querem com pessoas saudáveis, seguras, vivas. A vida não tem preço.

Algumas perguntas que professores gostariam de ver respondidas antes do retorno das aulas presenciais:

Qual a influência da prova do Saeb para a decisão de retorno às aulas presenciais? – O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) publicou nesta mesma semana a Portaria n.º 250/21, que estabelece as diretrizes para a realização do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2021. A avaliação será feita entre 8 de novembro e 10 de dezembro, com aplicação censitária nas escolas públicas para o 5º e o 9º ano do ensino fundamental e para a 3ª e a 4ª série do ensino médio. Até que ponto essa decisão arbitrária está preocupada com o ensino e onde começa a preocupação com aparecer bem nos indicadores e na publicidade? Esse é um retorno às aulas ou uma preparação dos estudantes para a prova Saeb?

Qual é a verdadeira situação da estrutura apresentada pelas escolas municipais? – A Secretaria Municipal de Educação garante que está “buscando encontrar meios para oferecer total segurança”. Podemos garantir às famílias que seus filhos manterão o distanciamento e o uso de máscaras em todos os momentos? E em relação à merenda escolar? A secretaria garante a merenda e o inteiro cumprimento dos tão falados protocolos de segurança entre as crianças? Temos funcionários e materiais de limpeza suficientes para manter a higienização de todos os ambientes o tempo todo?

Como foi estabelecido o total de até 90% de ocupação dos leitos de UTI como situação segura para o retorno? – Como chegamos ao ponto de achar aceitável quem, com apenas 10% das vagas de UTI disponíveis, podemos aglomerar nossas crianças, expondo-as ao risco de um vírus mortal? Ainda que as crianças adoeçam e morram menos – isso se não considerarmos as novas variantes do vírus – elas ainda podem ser contaminadas e disseminar a doença entre os familiares. Sabendo que a vacinação no Brasil segue em ritmo vergonhoso, por culpa do governo genocida que vergonhosamente temos, qual é o plano da Smed e da Prefeitura no provável caso de aumento de infectados entre os parentes dos alunos?

Os professores do município de Vitória da Conquista gostariam imensamente de ver todas essas perguntas respondidas satisfatoriamente. Gostariam de ter toda a estrutura, a segurança e o comprometimento de todos os envolvidos para que passássemos do ensino remoto ao presencial com tranquilidade e paz. Até lá, porém, seguimos priorizando o direito à vida.