Nasce no Sertão da Conquista o maior museu contemporâneo do Norte e Nordeste


Entre a transição da caatinga com a mata de cipó, em direção ao oeste e à Chapada Diamantina, na BA-262, num portal de entrada e saída para várias partes do Brasil, ergue no ameno clima de Vitória da Conquista, numa área de aproximadamente meio milhão de metros quadrados, o maior museu contemporâneo do Nordeste. Quem passa pela via sertaneja, num percurso de 1,6 quilômetros, logo se depara com os 366 guardiões do tempo, e muitos são logo atraídos a visitar seus encantadores monumentos a céu aberto.
Trata-se do Museu Kard, com suas imponentes obras metafóricas e até mesmo mitológicas que falam da vida, de poesia, de sonhos, de lendas, de parábolas e do tempo passado, presente e futuro, concentrando os elementos da ciência, da filosofia, da religião e da arte. Seu artista idealizador, Allan Kardec Cardoso Lessa, o “Allan Kard”, é uma pessoa simples de visão futurística espiritual, que aprendeu a conviver com as críticas e as polêmicas em torno do seu incansável trabalho.
A ARARA CANIDÉ E A ASCENSÃO
Como diz o poeta cancioneiro, “o tempo não para”, e “Allan de Kard” sabe disso, tanto que o seu desejo, enquanto estiver em seu mandato espiritual, como costuma afirmar, é ampliar o museu que já ocupa 10% do total da área. Logo na entrada do portão de ferro, o visitante é recebido pela imagem majestosa da Arara Canidé e, à sua frente, é recebido pela Pirâmide Ascensão. No mais, você faz uma viagem cultural, e sai com sua alma bem mais leve e alimentada de conhecimento e saber. Não há dúvida que o conjunto da obra é um grande legado para as furas gerações.
Como já atestaram visitantes (o museu deverá ser aberto, oficialmente, ainda neste ano, com ingressos pagos), o lugar é mágico, tanto pela sua beleza plástica e paisagística, como pela sua energia. Conta com duas galerias, a da Pirâmide que abrigará o acervo permanente com cerca de 750 obras do artista construtor, e outra Mix que receberá peças dos artistas Alex Emmanuel, Valéria Vidigal e Romeu Ferreira.
No projeto já está instalada a obra do escultor Mário Cravo, de título “Flor do Cacau”, que o próprio doou ao museu. Fazem ainda parte da estrutura, mais de 20 esculturas do artista Allan Kard, entre as quais, Mon Solei, Desejos e Dever, Mater (figura masculina e feminina em estado de gravidez), Resistência, Tributo a Mondrian (holandês), Monumento ao Gráfico, Labore per Vitae, o Vento, Lápis na Mão (depósito), Sala de Estar, Diversidade Fenotípica, Xadrez Nordestino (personagens do cangaço e da cultura da região), Monumento aos Heróis da Saúde, Quo Vadere (Aonde Fostes, conhecido como labirinto, de 150 metros quadrados e 80 toneladas de cinzas no piso, com fotos de crianças desaparecidas), Jogo da Velha, Zigoto (ovo estrelado), Tukurê, Sonho de Menino (24 obras), Ode ao Amor, Transbordo, Sem Rumos e Pramix.
PAISAGÍSTICO E ARQUITETÔNICO
De acordo com Allan, agrônomo diplomado pela Uesb no início da década de 80, o paisagismo está sendo construído junto com o projeto arquitetônico, dando funcionalidade às edificações. Cada galeria e prédio administrativo são também obras de arte. O Tributo a Mondrian é composto de loja, auditório e nele funcionará o setor de administração do projeto.
A área do museu era um antigo lixão da cidade, e nela permaneceram as espécies endêmicas. O artista e agrônomo procurou preservar as árvores e plantas do local e, em torno delas, implantou uma imensa cobertura de grama nativa, sem a necessidade de irrigação, com baixo custo. Na outra etapa, conforme informou, serão plantadas espécies exóticas.
Para ele, o maior desafio será ainda fazer renascer um antigo riacho que existia na localidade, e que foi degradado ao longo do tempo pela ação do homem, bem como reconstruir a lagoa que foi assoreada pelos materiais do lixão.
O DOM DA CRIATIVIDADE
Allan Kardec Cardoso Lessa nasceu em Itapetinga, em 13 de fevereiro de 1964, mas é mesmo filho de Conquista desde os 15 dias de vida. É o terceiro de uma família de nove irmãos. Veio ao mundo com o dom da criatividade. Na infância fez um Baralho, que em 1995 participou do 3º Salão do MAM da Bahia e foi classificado para a composição do acervo.
É um autodidata que assumiu com esmero e força de vontade a sua condição de artista plástico, com produção de esculturas e telas que já foram vistas até no exterior, a exemplo de “Sonhos de Menino”, que faz parte da Exposição Além Mar, em Coimbra, Portugal.
Com seus trabalhos provocativos e polêmicos, a partir de 2008, Allan passou a experimentar uma nova fase em sua carreira quando decidiu colocar em público as suas esculturas, a exemplo do “Calendário de Kard”, o maior do mundo, com 1,6 quilômetros de extensão, feito em parceria com seu irmão Alex Emmanuel.
A partir daí, vieram outras, como Kaypê, Equilibrium, Solidare, Tukurê e, mais recentemente, a Exposição “Caminhos da Paz” (cinco grandes esculturas), na Avenida Olívia Flores, em Vitória da Conquista, que lhe renderam a comenda da Medalha de Mérito Cultural Glauber Rocha, outorgada pela Prefeitura Municipal.
UM SER INQUIETO


Em 2015, Allan foi finalista do Troféu Prime e, em 2016, em consulta popular, foi indicado como personalidade conquistense, com a honra de acender a Pira Olímpica quando da passagem da tocha pela cidade. Há três anos, por iniciativa própria, o artista começou a construir o Museu Kard, um patrimônio cultural que engradece Conquista, a Bahia e ultrapassa as fronteiras nacionais.
O incansável artista, que respeita as opiniões e recebe as críticas com a maior naturalidade, continua a realizar suas instalações metafóricas em diversos pontos da cidade. “Construo caminhos por onde trafego. Crio técnicas próprias”, sempre procurando inovar a arte, dentro de seus princípios espirituais. Suas pinceladas e marteladas são como parábolas históricas.
Allan é um ser inquieto e exercita também o seu talento poético, quando na entrada do monumento Quo Vadere (o Labirinto) escreveu “Aonde foste tu rebento meu?/Deixando órfão meu coração/qual teu paradeiro neste mundo do meu Deus?/traz de volta meu sorriso que se foi,/Enxuga minhas lágrimas que não cessam de rolar/Acalma meu coração que ameaça parar./A esperança, a mãe de todos que ainda teimam em viver,/É quem me mantém de pé./Vem tu esperança e carrega-me no teu colo./Sê tu o meu cajado…/Se ainda assim quiser Deus que não te encontre aqui,/Encontrar-te-ei na eternidade./Tenho certeza que ainda voltarei a sorrir. Allan de Kard – Verão de 2019.