O tribunal da lacração


Os anos 2000 foram marcados pela ascensão das defesas de minorias e da igualdade social.

*Lucas Nunes

A bem da verdade, a luta contra o racismo, pelos direitos das mulheres, e o movimento LGBTTQI+ é um processo histórico de muito sangue e suor.

Entrementes, como em toda luta, logo apareceram os oportunistas, que se postaram como paladinos das bandeiras identitárias, posando de detentores do monopólio das virtudes, como únicos “defensores do mundo melhor”.

Os monopolistas das virtudes encontraram nas redes sociais, ambiente de superficialidade, o palco ideal. Com frases de efeito e pouco conteúdo, a doutrina do politicamente correto chegou ao apogeu com a lacração.

Os lacradores não são pessoas com verdadeiro histórico de luta contra o racismo, ou qualquer outra questão identitária, ficando restritos ao plano do discurso. Quando muito, participaram de alguma manifestação festiva, exclusivamente por modismo.

Surpreendemente, uma plêiade de lacradores resolveu se aventurar no maior reality show do país. Em que pese tais programas tenham, via de regra, tão pouco conteúdo quanto as redes sociais e seus lacradores, existe transmissão 24 horas, dezenas de portais e perfis com intensa transmissão, e a verdade é bem mais acessível.

A audiência que seria de fundamental importância para a evolução da sociedade em muitas temáticas foi jogada no lixo por uma cantor “gratitude”, uma cantora de “falso empoderamento”, um humorista “defensor da favela” e uma psicóloga “fechação”, que criaram o tribunal da lacração.

O tribunal da lacração, formado por seres que se julgaram no poder de decidir sobre a negritude das pessoas, em primeira pauta, atraíram para si a competência de julgar a negritude de um concorrente. Um homem negro, que cursa doutorado, não emana frases de efeito, nem discurso lacrador. Decidiram, liminarmente, que ele não era negro. Foram além, disseram que ele era, no máximo, “sujinho”.

Logo os seguidores influenciados pelo tribunal da lacração, que também são lacradores, se acharam na competência de julgar a negritude de outra competidora. Sob o argumento de que ela tinha cabelos alisados, somada á afirmação de que ela não “segura bandeira”, decidiram, também liminarmente, que a mulher não era negra.

Ou seja, a partir de então, a negra não pode mais alisar os cabelos, sob pena de deixar de ser negra, conforme decisão dos detentores do monopólio da negritude.

No arfã de julgar e cancelar as pessoas, o tribunal da lacração condenou o beijo entre dois homens, sob o argumento de que um deles estava afirmando falsamente ser bissexual e, portanto, ofendendo a bandeira LGBTTQI+.

Agora, os detentores do monopólio das virtudes, que já somavam o monopólio da negritude, o poder de dizer quem é ou não negro, passaram a possuir também o monopólio da sexualidade, o condão de dizer quem pode beijar quem e de decidir sobre a sexualidade dos outros.

Certamente, quem lutou e luta contra o racismo não concebe a possibilidade de classificar as pessoas como mais ou menos negro, quiçá a hipótese de adjetivar uma pessoa com a alcunha de “sujinho”.

Não há dúvidas de que as pessoas que tem histórico de luta pela igualdade de gênero, identidade de gênero, liberdade sexual, jamais concordariam com a vedação ao “polêmico” beijo.

Não vamos nem destacar que uma das censoras foi uma psicóloga supostamente defensora da pauta LGBTTQI, para não ficar tão feio.

Por estar em um programa de realidade com transmissão 24 horas e muitos veículos de comunicação dando cobertura foi possível constatar a xenofobia do tribunal da lacração em face dos nordestinos, apesar de ter em seus membros uma baiana. Registre-se, outrossim, as incontáveis manifestações dos baianos em não se sentirem representados por ela.

Suponhamos, contudo, que estivesse no programa uma pessoa cristã, heterossexual, conservadora, branca e chamasse alguém de “sujinho”. Não seria ela imediatamente eliminada, presa e sairia da casa algemada?

Tratemos então da hipótese de estar no programa um pastor evangélico que dissesse que o beijo entre dois homens estava errado. Seria admitida tal censura?

É necessário distinguir quem fez e faz de quem só faz falar. É preciso diferenciar quem tem história de quem só tem discurso.

A máscara da lacração caiu, a superficialidade, a falta de conteúdo e todas as suas contradições estão inequivocamente expostas. O tribunal da lacração se mostrou racista, xenófobo preconceituoso, segregacionista e discriminador.

Chegou a hora do tribunal da lacração ser levado aos tribunais.

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