Os esquecidos carinhos entre a família real britânica e os nazistas


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Em um mundo dominado por uma interpretação histórica da Segunda Guerra Mundial orientada por filmes de Hollywood e impregnada de uma torpe ideologia anticomunista da Guerra Fria, estamos mais do que acostumados em ver comparações de igualdade entre os nazistas e os comunistas. Especial atenção é dada ao Acordo de Não Agressão de 1939, atualmente distorcido a ponto de parecer um tratado de amizade e cooperação entre Stalin e Hitler.

Perdem-se, porém, nessas curvas acentuadas que a falsificação histórica tenta percorrer, as reais relações de amizade ou os acenos de tolerância com o fascismo que foram inúmeras vezes ensaiados pelas democracias ocidentais, como o Reino Unido.

O discurso de países como Reino Unido, França, EUA e seus líderes até 1939 vagava de uma total ausência de críticas à ascensão nazista na Europa até elogios abertos e gratuitos a Hitler.

Alguns casos específicos, se devidamente expostos, hoje causariam grande espanto e desconforto entre o público. É sobre especialmente dois casos que irei brevemente descrever. E eles envolvem o tio e o marido da Rainha Elizabeth.

Esqueceram-se, ao longo dos mais de 75 anos desde o fim da Segunda Grande Guerra, das trocas de afagos entre membros da real coroa britânica e a Alemanha de Hitler.

O caso do Duque de Windsor

Eduardo VIII foi Rei do Império Britânico por quase um ano em 1936. Assumiu o reinado após a morte de seu pai, Jorge V, e ficou conhecido por não ter grande apego aos ritos e diplomacias típicos da monarquia. Apaixonou-se por Wallis Simpson, uma socialite estadunidense que já havia se separado de dois antigos maridos. Ainda durante o reinado, Eduardo VIII cogitou se casar com Wallis, ideia que foi fortemente rechaçada tanto pela família real quanto pelo parlamento britânico, escandalizando a imprensa na época ao se imaginar o cenário de uma rainha do poderoso Império Britânico sendo uma americana divorciada.

Para poder se casar com Wallis, Eduardo abdicou do trono a favor de seu irmão, Jorge VI (pai da atual Rainha Elizabeth). Depois de ter sido rei por um breve período, ganhou o título de Duque de Windsor e foi viver no exterior com sua esposa, com a qual contraiu matrimônio de fato.

Porém, antes mesmo do breve reinado, o Duque havia manifestado publicamente simpatia pelo fascismo em ascensão na Europa dos anos 1930, provavelmente por conta de seu caráter extremamente anticomunista. Em 2015, o tabloide inglês The Sun divulgou uma filmagem perdida de 1933 que mostra o Duque em um jardim fazendo a saudação nazista e incitando alguns de seus parentes a fazê-la também, entre eles a sua jovem sobrinha Elizabeth, que tinha 6 anos na época e viria a ser a futura Rainha da Inglaterra.

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Tabloide inglês recuperou imagens de mais de 80 anos atrás que mostram família real britânica fazendo saudação nazista, incluindo a pequena futura Rainha Elizabeth

Tal simpatia se traduziu na sua vida pós-reinado, na qual manteve laços íntimos com os nazistas, incluindo o próprio Hitler.

Em 1937, o Duque de Windsor e sua esposa realizaram uma visita à Alemanha Nazista, oportunidade na qual percorreram diversas localidades, sendo recebidos com toda a pompa possível e se encontrando com Adolf Hitler em seu famoso retiro nas montanhas. A visita teve um caráter quase oficial e a delegação foi recebida com guarda de honra e cerimoniais por parte do Estado nazista, demonstrando como tal evento foi de relevância na época e explorado pela mídia nazista de Goebbels como uma prova de um suposto grande prestígio internacional de que gozavam os nazistas no Ocidente — visão essa não tão distante da realidade da época.

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O ex-rei Eduardo, Duque de Windsor, é recebido com honras na Alemanha Nazista em 1937

Durante as excursões pela Alemanha — realizada sem um tradutor, já que o Duque falava alemão — , foram realizados encontros com altos oficiais do Partido Nazista e das forças armadas, incluindo a SS, além de figurões do governo, como Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda e um dos mais diabólicos colaboradores de Hitler. As fotos demonstram um ambiente leve e amável de sorrisos e trocas de carinhos em todas as situações. O Duque, na ocasião da saída de uma visita, chegou a fazer a famosa saudação nazista com o braço.

Visitando fábricas, esteve em companhia de Robert Ley, um dos fiéis seguidores de Hitler que era o chefe, desde 1933, da Frente Alemã para o Trabalho, organização responsável pela dissolução de todos os sindicatos e associações de trabalhadores da Alemanha, garantindo o controle total do governo sobre os operários. Robert Ley coordenou o trabalho de supressão de todas as liberdades de expressão dos trabalhadores alemães, à época muitos organizados junto aos comunistas, e posteriormente trabalhou para a aumentar a produtividade da indústria bélica que alimentou a guerra de agressão de Hitler contra a União Soviética, além dos horrores do Holocausto, por meio de jornadas de trabalho degradantes, contando inclusive com mão de obra escrava de judeus e prisioneiros de guerra do Exército Vermelho. Ley seria preso após o término da guerra e levado ao Tribunal de Nuremberg. Próximo do veredicto de seu julgamento por crimes contra a Humanidade, cometeria suicídio.

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O Duque de Windsor, o ex-rei Eduardo VIII, que abdicou do trono britânico no final de 1936, menos de um ano depois passeia e visita fábricas alemãs ao lado de seu anfitrião, Robert Ley, o líder da Frente Alemã para o Trabalho.

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Ainda junto de Robert Ley, o Duque se encontra também com outras figuras do alto escalão das forças armadas e das SS.

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Os ingleses não tinham problemas com o simbolismo nazista. Quando a seleção britânica de futebol foi à Berlim em 1938 disputar uma partida, os jogadores também saudaram dessa forma.

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O Duque visita uma mina e revista operários junto com autoridades nazistas.

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Populares encheram as ruas curiosos para ver a visita do “rei” da Inglaterra — fato que certamente foi moldado na opinião pública nazista para demonstrar o suposto prestígio internacional de Hitler

Uma das visitas especiais do tio da Rainha Elizabeth foi ao Dr. Goebbels, um dos mais altos líderes da hierarquia nazista e Ministro da Propaganda. Goebbels havia sido um dos primeiros comparsas de Hitler e, enquanto líder nazista, comandou por anos uma máquina imensa que envolvia não apenas a mídia como também o cinema e produções artísticas, eliminando qualquer visão de mundo que não fosse a visão nazista da realidade. Em várias ocasiões, Goebbels usou em seus filmes trabalho escravo advindo dos campos de concentração e era um dos mais ferrenhos defensores do extermínio sistematizado de judeus, eslavos, LGBT’s e grupos minoritários da Alemanha e territórios ocupados. A conversa com o monarca britânico parece ter encontrado vários pontos em comum.

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O Duque de Windsor conversa animadamente com Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler e um dos responsáveis diretos pela Segunda Guerra Mundial e o Holocausto.

Para coroar a passagem pelo Terceiro Reich, o Duque e a delegação britânica tiveram a “honra” de serem convidados a conhecer o próprio Führer em seu retiro particular em Obersalzberg, nos alpes bávaros, na gigantesca mansão de Hitler.

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A chegada à mansão de Hitler nas montanhas contou com saudação nazista dos guardas SS, denunciando a importância que Hitler deu aos convidados.

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Hitler recebeu o Duque de Windsor com grande honraria.

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O Duque e a Duquesa de Windsor posam para fotografia ao lado de Adolf Hitler, foto que estampou os jornais de 1937.

Vale a pena dizer que Hitler convidava para o seu chalé apenas personalidades que julgava importantes e estrategicamente interessantes. Adentrar na intimidade do Führer em sua casa pessoal foi um privilégio para poucos. Além de visitas óbvias, como a do ditador fascista Benito Mussolini, também foram convidadas personalidades do próprio Império Britânico, como os primeiros-ministros ingleses David Lloyd George e Neville Chamberlain.

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O ex primeiro-ministro britânico David Lloyd George visita Hitler nos alpes.

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Neville Chamberlain, ainda no exercício de seu mandato, também foi um convidado de honra de Hitler.

Enquanto Hitler e seus ilustres convidados tomavam chá na imponente mansão nas montanhas, construída, aliás, com dinheiro doado por empresários e latifundiários ao Partido Nazista, a Alemanha da época perseguia implacavelmente qualquer voz discordante, reinando o terror entre políticos, intelectuais, artistas, sindicalistas, estudantes e líderes locais. No mesmo período, já eram ensaiados os primeiros passos para os campos de concentração e o próprio Holocausto, com o encarceramento em massa da oposição política e fortes campanhas midiáticas sobre o “peso morto” que pessoas deficientes representavam para o governo. Muito pouco tempo depois, Hitler abocanharia partes do território alemão outrora perdidos no Tratado de Versalhes, anexaria a Áustria e marcharia sobre a Tchecoslováquia — tudo sob a tutela do Ocidente.

O desenrolar dos fatos posteriores e a eclosão da Guerra, porém, acabaram por inundar os planos de aproximação entre Hitler e o Duque. Hitler, aliás, em seu testamento político de 1945 (editado por Martin Bormann e disponível para acesso gratuito na internet) muitas vezes lamenta o fato de a Inglaterra não ter entendido o seu “grande propósito” e pelos ingleses não terem lutado ao seu lado, o que parecia bastante óbvio pra Hitler e seu desejo por uma cruzada “anti-bolchevista”.

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill (que havia, durante os anos 1930, elogiado publicamente Hitler e Mussolini) ordenou pessoalmente que o Duque de Windsor fosse enviado para o território britânico das Bahamas para atuar como governador, condenando-o a uma vida de esquecimento num canto afastado da Europa. A imagem do ex-rei ficou muito abalada na Inglaterra por seu papel aberto de simpatizante do nazismo e suas tentativas de reingressar na alta sociedade acabaram não alcançando sucesso. O governo britânico também se preocupou em afastar do público vários documentos — os chamados Documentos de Marburg — que provam a troca de correspondências entre o Duque e o governo nazista. Quando tais documentos vieram à tona no fim dos anos 1990, a família real britânica tratou de se distanciar da imagem do Duque e de apagá-lo de qualquer publicação oficial futura.

O caso do Príncipe Philip e as irmãs “nazistas”

O Príncipe Philip, esposo da atual Rainha da Inglaterra, Elizabeth, também é um dos nebulosos casos envolvendo relações entre a coroa britânica e os nazistas.

Longe de qualquer suspeita, se desconsiderarmos o atual estado esclerosado do monarca, sempre referenciado na mídia por declarações infelizes no auge dos seus 99 anos de idade, o Príncipe Philip (também conhecido como Duque de Edimburgo) chegou a visitar a Alemanha Nazista também nos anos de 1930.

A questão principal, entretanto, recai sobre suas irmãs. Suas quatro irmãs mais velhas tiveram relações familiares e de interesse com aristocratas alemães e altos oficiais nazistas. Eram elas Margarita, Teodora, Cecilie e Sophie.

De todas, Sophie, Princesa da Grécia e da Dinamarca, foi a mais defensora do regime nazista. Ela foi casada com Christoph von Hessen, que era príncipe e que ingressou no Partido Nazista, compondo o governo de Hitler. Sophie chegou a elogiar o ditador nazista como “um homem modesto e charmoso com grandes planos para a Alemanha”.

Christoph von Hessen, por sua vez, era amigo pessoal de Hermann Goering, Marechal do Reich a segunda figura nazista mais poderosa, tendo sido um antigo herói da aviação alemã da Primeira Guerra Mundial e que ficou marcado por uma vida de vícios em drogas e excentricidades.

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Sophie, irmã do Príncipe Phillip, é vista aqui no casamento de Hermann Goering, poderoso líder nazista. Ela é vista no primeiro plano. Atrás, na mesa de jantar, nota-se o próprio Hitler e, ao fundo, Goering.

Por conta de seu contato quente no governo, von Hessen tornou-se chefe do Escritório de Pesquisa do Ministério de Aviação Reich, alcançando também a posição de Oberführer da SS, uma alta patente equivalente a de General de Brigada. Morreria em 1943 durante uma queda de avião.

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Christoph von Hessen, marido da irmã do Príncipe Philip da Inglaterra, em seu uniforme SS.

As demais irmãs, Margarita, Teodora e Cecilie, se relacionaram com outros príncipes alemães que também foram nazistas empenhados: membros do Partido e das forças armadas.

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Na imagem, os príncipes nazistas Georg Donatus de Hesse, Gottfried de Hohenlohe-Langenburg e Margrave Berthold de Baden, todos casados com as irmãs do atual esposo da Rainha da Inglaterra.

Cecilie, irmã do Príncipe Phillip e casada com Georg Donatus, faleceu aos 26 anos e foi enterrada com honras na Alemanha em 1937. Na cerimônia fúnebre, esteve presente o próprio Phillip, na época com 16 anos da idade.

Foi realizado um registro do momento em que o príncipe Phillip participa, ao lado de altos oficiais nazistas, do desfile fúnebre de sua irmã, que é recebido com mais saudações nazistas.

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A foto do Príncipe Phillip desfilando entre nazistas sob saudações do público causou burburinho na imprensa britânica em 2015.

Tais fatos, que ligam intimamente a família real britânica aos nazistas, seja por relações de escolha, como no caso do Duque de Windsor, ou por casamentos de conveniência, como no caso das irmãs do Príncipe Phillip, demonstram exemplos de existência pacífica entre os nazistas e altas autoridades do “mundo livre” ocidental. A visão de uma Europa unificada sob o fascismo em nada assustava os britânicos, franceses ou estadunidenses, como mostram essas trocas de afeto nunca interrompidas antes da guerra.

O fascismo na Alemanha, na Itália, no Japão e em vários outros países, serviu como testa de ferro do liberalismo para conter o inevitável avanço da História e do movimento de contradições de classe que traziam à Europa os ares de uma grande Revolução.

Por que tais situações de convivência harmoniosa entre britânicos e nazistas não estão figurando entre documentários de TV, filmes ou ilustrando capas de revistas como tanto fazem com o Pacto Molotov-Ribbentrop? Tais carinhos trocados entre a família real britânica e a alta cúpula hitlerista evidenciam sim um cenário muito mais favorável aos nazistas do que o armistício germano-soviético que até hoje é erroneamente classificado como uma prova da igualdade entre fascismo e comunismo.

Os ventos da história devem varrer a falsificação do passado.

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Lucas Rubio