” História do Povo cigano (Parte III)


A IGREJA CATÓLICA E O COMBATE À PRAGA CIGAN NA EUROPA, COM PENAS DE MORTE, ENVENENAMENTOS, SEPARAÇÕES E TODOS OS TIPOS DE ATROCIDADES. O CIGANO ERA ACUSADO ATÉ DE CANIBALISMO. 

Jeremias Macário

  Dentro do nosso roteiro do livro “História do Povo Cigano”, do autor Angus Fraser, a Espanha também apertou o cerco desde 1550. A corte se referia aos ciganos como uma praga de vagabundos. Felipe II agudizou a situação. Em 1588 aplicou severas restrições aos direitos de os ciganos venderem suas mercadorias. Criou a proposta de separar os homens das mulheres para se casarem com camponeses e colocar os filhos em orfanatos. O projeto ficou na gaveta por um tempo, mas apareceu no século XVIII.

  A Igreja Católica não ficou atrás com seus preconceitos odiosos, inclusive por parte de padres e teólogos, como o Sancho Moncado que afastou a possibilidade de ser mostrada a consideração pelas mulheres e crianças. Padres inventavam boatos de roubos, heresias e rapto de crianças contra os ciganos.

“QUEM ME ENCONTRAR, PODE ME MATAR” 

 Em defesa de Felipe III, Moncada preferia algo mais irreversível e cita as Escrituras, para justificar a condenação dos ciganos (Gitanos) à morte, usando a passagem em que Caim diz que “serei errante e vagabundo pela terra e quem me encontrar, pode matar-me”. Ele ainda dizia que “não há lei que nos obrigue a criar filhotes de lobos para garantido detrimento futuro do rebanho”. Em 1631, o juiz Juan de Quinones enforcou cinco ciganos. Para condená-los, baseou-se em histórias de imoralidades e canibalismo. 

  Os ciganos eram obrigados a viver “como bons cristãos”, e quem apanhasse um itinerante poderia fazer dele um escravo. O governo precisava manter tripulações para as galés, para fortalecer as esquadras do Mediterrâneo. Eles eram apanhados para os trabalhos forçados nos navios. 

Em 1695, Carlos II, o último monarca da dinastia dos Habsburgos, apertou mais ainda o regime através de um decreto que estipulava uma lista completa de todos os ciganos e suas ocupações, armas e animais. Só podiam viver em lugares com mais de 200 habitantes, e eram proibidos de desempenhar qualquer ofício não ligado à lavoura. Não podiam usar cavalos, armas ou irem a feiras e mercados.

Com os Burbons, a política ficou mais dura, principalmente nos principados de Aragão, Catalunha e Valência. Com Felipe V, o fundador da dinastia, a sanção de 1717 restringiu ainda mais os locais para morada em 41 cidades, com penas que iam de seis a oito anos nos galés para os homens, mais banimento para as mulheres, para quem descumprisse as ordens.

  Seu filho Fernando VI, em 1746, alargou o número de cidades para 34. Em seu reinado, o reverendo Gaspar Vázquez, bispo de Oviédo e governador do Conselho de Castela, decidiu que os ciganos deviam ser todos passeados pela Espanha durante uma jornada de uma noite, para serem postos em locais de trabalhos forçados, sendo seus bens vendidos.

Fernando VI aceitou o conselho do bispo, e cerca de 12 mil ciganos fizeram a maldita marcha para o inferno. As galés só foram abolidas em 1748, isto por causa do surgimento de novas tecnologias de navegação naval. No entanto, os ciganos foram levados para os estaleiros navais, arsenais e para as minas de mercúrio onde centenas e milhares foram mortos por envenenamento. Nos barracões, exércitos de homens dormiam sem cobertores em estrados de madeira, com os tornozelos acorrentados às paredes.

  Diante de provas de boas condutas de ciganos casados, Fernando VI voltou atrás em suas ordens e autorizou que estes podiam regressar às suas casas. O seu meio-irmão e sucessor, Carlos III, decidiu, em 1763, que todos ciganos ainda mantidos na prisão por causa da jornada noturna deviam ser postos em liberdade. No entanto, os conselheiros do rei se opuseram e o decreto só entrou em vigor em 1765. 

  Mesmo assim, algumas de suas propostas, como na área da educação, tiveram teor autoritários. Comparadas com três séculos de regulamentos sanguinários de José II relativos à Hungria e à Transilvânia, suas medidas representaram certo progresso. Uma das normas era eliminar o nome de ciganos para castelhanos novos. Aqueles que estivessem dispostos a obedecer aos atos, seriam autorizados a trabalhar em qualquer ofício.

A SEDENTARIZAÇÃO FORÇADA E AS DEPORTAÇÕES PARA O BRASIL.

  Os restantes dos países situados fora do Império Otomano, como Portugal, Itália, Suíça, sul da Flandres, Dinamarca, Suécia e a Rússia seguiram caminhos semelhantes de banimento e sedentarização forçada em diversos graus. Portugal foi o primeiro país a recorrer à deportação para as colônias ultramarinas (Brasil) como novo método de expulsão. As colônias precisavam de gente, e os colonos necessitavam de mulheres. 

  As primeiras deportações para as colônias da África ocorreram no tempo de D. João III, através do decreto de 1538. Em 1574 tivemos o primeiro registro de um cigano português (Johão Torres) mandado, com sua mulher e filhos, para a o Brasil, como comutação de uma sentença às galés, pois não tinha obedecido a ordem geral de expulsão.  D. João V se destacou como um dos mais carrascos e perseguidores da nação cigana, lá pelos meados do século XVIII.

  As deportações para o Brasil começaram a ser organizadas em 1686, numa altura em que se dizia que as expulsões da Espanha estavam a provocar um enorme afluxo de ciganos para Portugal. Na realidade, em 1570, Felipe II proibiu os “Gitanos” de entrarem nas colônias da América, devido a informações de que eles estavam indo secretamente, e andavam a vigarizar os índios. A ordem era de que regressassem à Espanha.

  A França não praticou a deportação, mas muitos deles foram para as colônias francesas (Martinica e Louisiana). Muitas viagens foram abortadas por causa da guerra com a Inglaterra e a venda da Louisiana para os Estados Unidos, em 1803. Napoleão Bonaparte decretou a dispersão deles pela França para serem empregados em obras públicas, ou no exército. As mulheres e as crianças foram mandadas para albergues de pobres. 

  Na Inglaterra, o transporte forçado remonta ao tempo de Isabel, embora mais tarde sofreu outra dimensão. A Lei da Vagabundagem, de 1579, instituiu que bandidos incorrigíveis fossem banidos para ultramar. No reinado de Jaime V (1603), o conceito geral de deportação foi mudado para transporte, quando muitos foram para Terra Nova, Índias Orientais e Ocidentais, França, Alemanha, Espanha e Países Baixos.

OS OTOMANOS FORAM MAIS CONDESCENDENTES.

  O Império Otomano foi mais condescendente com os ciganos, e deles aproveitou para extorqui com a cobrança de altos impostos para manter suas guerras. Na parte da Europa sob domínio otomano, a história dos ciganos permaneceu na sombra, sobretudo no que se refere à sua cristandade. A maioria dos habitantes ciganos viveu sob domínio turco, numa altura em que as fronteiras do Império haviam atingido sua maior extensão no século XVII.

  No Império, de acordo com o autor do livro, Angus Fraser, não se constatou muita legislação repressiva. Os otomanos respeitavam os costumes e instituições das comunidades que eram governadas com ajuda das suas próprias autoridades. Alguns territórios gozavam de governo com elevado grau de autonomia. O que mais interessava aos turcos era o pagamento dos tributos e apoio militar. Os principados de Valáquia e Moldávia foram os que deram mais forças aos generais turcos, e mais contribuições ao tesouro.

  Nesses principados, a vida de escravidão dos ciganos prosseguiu sem interrupção, principalmente no meado do século XVII. Os decretos serviram mais para reforçar que atenuar o estado de coisas existentes. Até introduziram algumas reformas, de vida curta, como a de que os filhos não fossem separados de seus pais (século XVIII).

  Se um firmã (decreto imperial otomano) dedicasse atenção especial aos ciganos era no campo da administração, de ordem pública, ou de fisco. O Suleimã, o magnífico, num decreto de 1530, procurou regulamentar a prostituição de ciganos na cidade de Constantinopla, Sofia, Adrianópolis e Plovdiv. Seu filho Selim II, em 1547, ordenou que os ciganos que trabalhavam nas minas da Bósnia deveriam ter certas isenções fiscais e eleger um chefe para cada grupo de 50.

  Alguns sedentários eram referidos como operários do ferro, do carvão e guardas. Haviam escravos entre esses súditos. Na última parte do século XVII, foi apertado o torniquete fiscal. O sultão Mehemt IV cobrou impostos de ciganos mortos até encontrar vivos para os substituir. Esses impostos eram diferenciados para ciganos mulçumanos (menor) e os cristãos (maior taxa),

  Em 1695 dizia-se que havia mais de 45 mil ciganos em todo o império otomano, dos quais apenas 10 mil mulçumanos, incluindo a Síria, Mesopotâmia e Ásia Menor. Ocorriam algumas manifestações de opressão, como a do sultão Mustafá II quando, em 1696, publicou regulamentos de polícia com vistas a disciplinar os ciganos e tirá-los de suas vidas” imorais e desordeiras”. À luz dos padrões da Europa, no entanto, não foram muito molestados.

  Apesar de algumas mãos pesadas, como na Sérvia, havia liberdades em outras regiões, como nos Balcãs, onde podiam deslocar-se por todo império, e durante os quatro séculos de dominação otomano, houve muita migração interna. Mesmo com as incursões militares, as atividades dos ciganos não sofriam muito. Eles fabricavam vassouras, limpavam chaminés, eram músicos, bailarinos, amestradores de ursos e ferreiros.

TORTURAS E MUITOS SE FIXAVAM NAS ZONAS DE FRONTEIRAS E FLORESTAS

  As medidas repressivas provocaram enormes mudanças nas vidas dos ciganos na Europa. Para sobreviver, tiveram que se adaptar, e também tirar o melhor proveito, num sistema que procurava negar-lhes alimentos e abrigo, impossibilitando-os de ter uma vida honesta. Para escapar das perseguições, muitos se fixavam em zonas de fronteiras, como França-Espanha, entre estados germânicos, Lorena e o Império.

  As confissões de muitos presos eram extraídas através de torturas prolongadas nas rodas, com parafusos nos dedos e bota espanhola, como fizeram com Johannes la Fortun, chefe de um bando, conhecido por Hemperla. Ele e outros três foram quebrados pela roda e depois decapitados. Nove foram enforcados e mais treze tiveram suas cabeças degoladas. O bandido cigano mais famoso da Alemanha foi Jakob Reinhardt (Hannikel). Foi enforcado, em 1787, com mais três ciganos.

  Teóricos intelectuais consideravam que esta abjeta casta indiana só servia para o serviço militar, Frederico Guilherme II, da Prússia, era da mesma opinião e, em 1790, ordenou que os ciganos fossem transformados em soldados. Na verdade, o exército era mais uma via de fuga que os ciganos podiam optar na esperança de conquistarem tolerância, ou de abrirem as portas das prisões e, talvez, tratamento preferencial.

 Diante da opressão, segundo o autor do livro, em muitos países houve um aumento da sedentarização dos ciganos, principalmente na Hungria e na Espanha. Em 1785, foram identificados cerca de 12 mil ciganos na Espanha. Mais de 80% deles passavam a maior parte do tempo sedentários. 

  Sempre tidos como gente sem religião, a atitude oficial das autoridades eclesiásticas não estimulava o laxismo para com os ciganos. Até o século XIX não houve grandes sinais de que as almas ciganas se preocupassem com o Estado. Na Itália, por exemplo, os sínodos diocesanos revelaram pouca vontade de facilitar o acesso dos ciganos aos sacramentos.

A IGREJA CATÓLICA E OS PROTESTANTES

  A conversão forçada e a instrução religiosa compulsiva se destacavam nos desígnios dos monarcas, como do imperador José II, e muitos estados germânicos procuraram retirar os filhos de seus progenitores para os mandar batizar e cria-los em famílias cristãs. No país basco francês, as igrejas costumavam negar a entrada aos cascarots (ciganos).

  Em Portugal, os bispos, em 1635, excomungaram ciganos que não foram à confissão na Quaresma. Os teólogos espanhóis também eram ávidos de severidade. No entanto, a Inquisição tratava os ciganos com brandura porque os casos apresentados ao Santo Ofício acabavam por cheirar menos a heresia e mais a vigarice e exploração da credulidade pública. Os ciganos que atraíram a atenção dos inquisidores não eram ignorantes em matéria de religião. Em geral, tinham sido batizados e casados na igreja.

   Em 1788, em Lorena, quando procuraram investigar as práticas religiosas dos ciganos, constataram que não possuíam qualquer religião em especial, mas procuravam os sacramentos católicos. Um padre chegou a ser repreendido por ter permitido que um deles recebesse a comunhão num Domingo de Páscoa.

   Para o professor de Filosofia Moral, Jakob Thomasius, em 1652, apesar de reconhecer que antigamente tenham sido peregrinos, vindos do leste, de ascendência egípcia, esta gente era capaz de todas as maldades, e a única resposta era despachá-los para os confins da terra. Voetius achava que os ciganos eram espiões a serviço dos turcos.  

  Os protestantes também não foram favoráveis aos ciganos e procuravam mantê-los à distância. Martinho Lutero, por exemplo, prevenia a população contra os golpes sujos dos vagabundos e dava seu aval à repressão, O teólogo calvinista holandês Voetius se colocou contra o batismo de crianças ciganas.

Artigo publicado no Dicionário Universal de Todas as Ciências e Artes, em 1749, dizia “ser certo que os ciganos foram sempre ímpios, gente ruim que perseguimos com inteira justificação”. Outros autores taxavam os ciganos de bandidos falsários que se disfarçavam com roupas esquisitas, besuntavam a cara e o corpo, andavam de um lado para o outro, abusavam do povo comum e roubavam tudo.