Os 40 anos do “Cristo Crucificado”


Carlos A. González

No meio da terra árida, com pouca vegetação, ergue-se, magnificente, o Monumento ao Cristo Crucificado, a primeira imagem que surge aos olhos do viajante que está chegando a Vitória da Conquista pela BR-116 (Rio-Bahia interiorana). Erguida na Serra de Periperi, ponto mais alto da cidade, a obra do artista plástico Mário Cravo Júnior (1923-2018), contou com apoio logístico e financeiro da Prefeitura Municipal. Inaugurada em 9 de novembro de 1980, a escultura “contempla” a cidade que cresce, sócio e economicamente, sob seus pés. Desassistida, “lastima”, porque nada foi feito no seu entorno nesses 40 anos.

O “Cristo de Mário Cravo”, como é conhecido pelos moradores de Vitória da Conquista, retrata nos traços do rosto o sofrimento do homem do sertão nordestino, castigado pelo sol, na sua luta permanente contra a seca.

A imagem, esculpida em fibra de vidro, reforçada internamente com estrutura metálica de tubos galvanizados e aço inoxidável, tem 17 metros (a mesma altura do Cristo Redentor, do Rio de Janeiro, que está fixado a um pedestal mais alto) e 13 metros de largura. A pilastra de apoio e a cruz são de concreto armado. O principal cartão-postal de Vitória da Conquista, considerada como a maior estátua no mundo de um Cristo pregado na cruz, tem 33 metros de altura, e está situada numa altitude de 1.110 metros.

As primeiras conversas entre a administração municipal, na pessoa do prefeito Pedral Sampaio (1925-2014), e Mário Cravo Júnior, datam de 1963, motivadas pelas reclamações das pessoas que tinham o hábito de subir a serra todos os anos, através de trilhas abertas no mato. Os romeiros cobravam do gestor a recuperação de um velho cruzeiro, diante do qual se reuniam para fazer seus pedidos e orações.

Antes de ser deposto no ano seguinte pela ditadura militar, Pedral mostrou interesse em erguer, na Serra de Periperi, um símbolo cristão, em substituição ao Velho Cruzeiro, transformando, ao mesmo tempo o local numa área urbanizada, dedicada ao turismo religioso. Uma das pessoas consultadas pelo prefeito foi o então vereador Raul Ferraz, que julgou o projeto modesto (uma cruz com 10 metros de altura), sugerindo a construção de “algo impactante, que pudesse ser visto de qualquer ponto da cidade”.

Dezessete anos depois Mário Cravo voltou a Conquista para dar continuidade à conversa com a prefeitura, sob a gestão de Raul Ferraz, que havia recrutado Pedral, nomeando-o secretário de Obras. O “Cristo Crucificado” foi relacionado entre as prioridades do governo. Por sugestão do prefeito, o monumento teria as mesmas dimensões da escultura erguida no Morro do Corcovado, no Rio. Nesse sentido, foi contratado o engenheiro calculista estrutural Augusto Franklin Ferraz. O local escolhido, apesar de bastante rústico, é o ponto mais alto da serra, de frente para a Rio-Bahia, de onde pode ser visto.

A grandiosidade da obra exigia uma base de sustentação capaz de garantir a segurança da imensa cruz e a imagem do Cristo, expostas aos ventos, tempestades e raios solares, “por muitos anos ou séculos”, afirmou Ferraz, revelando que o pedestal, “a parte “invisível” do trabalho, foi a de maior desembolso para a prefeitura”. O contrato com Mário Cravo foi assinado em maio de 1980, mas a base de apoio começou a ser construída em 9 novembro de 1979, com o lançamento da pedra fundamental, ato que foi acompanhado por uma multidão.

O preço total dos serviços, objeto do contrato firmado entre as partes, foi fixado em 2,8 milhões de cruzeiros (moeda da época), dividido em quatro parcelas, sendo a última em 30 de outubro, na entrega da escultura.

O município se comprometeu a fornecer torres metálicas para içamento da imagem; hospedagem e alimentação para o contratado e dois operários especializados; instalação de quatro refletores no local de trabalho; transporte dentro da cidade; disponibilizar cinco trabalhadores. O autor da obra, segundo o contrato, ficou responsável pelo fornecimento e guarda do material e ferramentas necessários à operação; aos honorários de dois auxiliares qualificados; e com as despesas de viagens a Salvador.

Na opinião de Raul Ferraz, o artista recebeu da Prefeitura “uma quantia quase insignificante, em torno de 10% sobre o custo bancado pelo município”, ressaltando que Mário Cravo sempre mostrou um interesse especial pelo trabalho, no período de seis meses passados na cidade.

O artista

Escultor, pintor, gravador, desenhista e poeta, o baiano Mário Cravo Júnior foi um dos expoentes da primeira geração de artistas plásticos modernistas da Bahia, ao lado de Carlos Bastos e Genaro de Carvalho. Em mais de 70 anos de atividade cultural deixou um valioso acervo. Sua arte pode ser apreciada em espaços abertos e museus e colecionadores particulares, no Brasil e no exterior. Alguns desses trabalhos, doados ao governo do Estado, podem ser vistos no Parque Metropolitano de Pituaçu, em Salvador.

Já consagrado como artista plástico, com 57 anos de idade, Mário Cravo Júnior voltou a Conquista para “viver um momento muito peculiar na minha vida de artista e escultor”, declarou à produtora Cameraquatro, enquanto trabalhava no estúdio montado para receber a escultura.

Dirigido por André Luiz Oliveira, montagem de Milton Bolinha e fotografia de Alonso Rodrigues Cravo Neto, o vídeo testemunha um depoimento histórico do artista, chegando a confessar que estava “vivendo uma experiência insólita e incomum, por se tratar de um projeto que data de 1963 e que está sendo realizado em 1980. Curioso é que temos que trabalhar sobre imagens e ideias de nós mesmos, num decurso de tempo tão longo. Repito, é uma experiência que não se enquadra numa sequência, digamos cronológica, do meu trabalho”.

Referindo-se ao projeto elaborado em 1963, definido como uma estrutura “agressiva, nervosa, quase que um aglomerado de seixos retilíneos, facilitando, na verdade, a execução da obra atual, que se utiliza de tubos de cobre e latão. Optei por lançar no espaço um arcabouço, um esqueleto, com as dimensões e postura do corpo, próximas do original”, explana Mário Cravo, admitindo que se viu compelido a usar pela primeira vez uma técnica mista.

Por mais de uma vez, Mário Cravo se coloca como autor de uma “experiência histórica”, um marco na sua arte, “por não estar inserido no contexto da contemporaneidade, maior ou menor, levando também em conta as dificuldades técnicas”. Trabalhando com uma escultura religiosa, erudita e popular, “curiosamente, senti-me compelido a voltar à década de 40, para o aprendizado da minha juventude de escultor. Confesso que foi um retorno consciente e emocional.

Caminho do Parque

O período de permanência, a trabalho, de Mário Cravo em Vitória da Conquista, coincidiu com a presença na cidade de dirigentes, técnicos e operários da Construtora Odebrecht. O objetivo da empresa era promover o lançamento de um grande empreendimento imobiliário, o Caminho do Parque. Na campanha de venda dos lotes a Odebrecht utilizou a imagem do monumento, autorizada pela Prefeitura.

Moradores mais antigos da cidade contam que, em reconhecimento às manifestações de gentileza que recebeu de todas as camadas da população e ao sucesso obtido, em pouco tempo, com o lançamento do loteamento, atualmente a área mais valorizada de Conquista, a Odebrecht se associou ao presente que o poder público dava aos conquistenses.

Raul Ferraz assegura que desconhece qualquer tipo de acordo entre Mário Cravo e a Construtora Odebrecht. Sem comprovação, essa colaboração estaria relacionada à cessão de pessoal, material de trabalho, transporte (a escultura foi levada até a parte alta da cidade em duas carretas), aluguel de guindastes e outros serviços.

O relacionamento entre a prefeitura e Odebrecht foi o melhor possível, salienta Raul Ferraz, o que muito contribuiu o reencontro, bastante comemorado, com o arquiteto da empresa, Sérgio Guadenzi – os dois militaram juntos na política estudantil em Salvador. “Os dirigentes da construtora nos cobriam de gentilezas, que, educadamente, recusávamos, com exceção do pagamento da última parcela dos honorários acertados com Mário Cravo”, esclareceu o ex-prefeito.

Por se tratar de um loteamento fechado, seus vizinhos, gente pobre, moradores da comunidade Calango Nu, imaginaram que sofreriam uma espécie de confinamento. Houve uma reação contrária ao projeto da Odebrecht. A Prefeitura foi pressionada no sentido de não liberar o alvará de localização. Ferraz se viu obrigado a por em prática suas qualidades de negociador. Dirigindo-se às lideranças comunitárias, mostrou que, em nenhum lugar do Brasil, se recusaria um empreendimento daquele porte. E mais: o bairro e seus imóveis seriam certamente valorizados. O futuro deixou evidente que o prefeito estava certo.

O ato de inauguração do “Cristo Crucificado”, em 9 de novembro de 1980, traduziu-se na maior manifestação popular já presenciada em Conquista. Milhares de pessoas subiram a pé as ruas do Cruzeiro e das Pedrinhas, impedindo a passagem de veículos, que foram estacionados nas margens da BR-116; o arcebispo da Diocese de Vitória da Conquista, Dom Climério Almeida de Andrade, caminhou ao lado do prefeito e de outras autoridades, contrariando a posição de alguns padres, críticos da obra de Mário Cravo.

Urbanização do entorno

Na época da inauguração, a Prefeitura elaborou um projeto de urbanização para o sítio em redor do monumento, beneficiando o setor gastronômico e o comércio de produtos artesanais e de souvenirs. A humanização do local, abandonado há décadas, com melhoria do acesso, atrairia o conquistense, que, praticamente, não dispõe de áreas de lazer; a cidade ingressaria no circuito do turismo religioso; a cultura ganharia com a construção de um anfiteatro. O seu plano foi apresentado aos seus sucessores e ao empresariado.

Raul Ferraz deixou o cargo em 1982 para assumir uma cadeira na Câmara Federal, onde cumpriu dois mandatos, tendo sido um dos representantes da Bahia na Constituinte de 1988.

Entre as promessas feitas em 2016 por Herzem Gusmão e não cumpridas, com a finalidade de ganhar o voto do eleitor conquistense, constava a recuperação do sítio em torno da escultura. O seu projeto previa a construção de um teleférico. Em julho de 2017, a Prefeitura promoveu um seminário num dos hotéis da cidade, com a presença de representantes da iniciativa privada, que ouviram atentamente a exposição feita pelo turismólogo e pesquisador Ricardo Mateus, que trazia debaixo do braço um farto material do seu “plano estratégico”, como ele denominou, para mudar a paisagem da Serra do Piriperi.

Entusiasmado, o profissional de turismo discorreu sobre sua proposta, que englobava a revitalização das praças da Juventude e Sá Barreto. A sinalização e segurança do local e o transporte foram também detalhados por Mateus, que previu para a Semana Santa, em abril de 2018, a conclusão da primeira etapa da obra, com acesso ao público.

“Esse Cristo é uma das obras mais importantes feitas por meu pai”. A declaração foi feita por Ivan Cravo, filho e curador do acervo de Mário Cravo, na visita que fez em fevereiro do ano passado a Herzem Gusmão, para apresentar um plano de restauração do monumento, que incluía reforço da estrutura e renovação da pintura, benfeitorias que deixaram de ser feitas em 40 anos. Na oportunidade, o prefeito garantiu que aguardava uma verba de R$ 800 mil do Ministério do Turismo, e que sua administração já havia empregado R$ 380 mil na limpeza da área.

Acompanhado de assessores, o prefeito Guilherme Menezes (2001 a 2002 e 2009 a 2017) também subiu a Serra para apresentar seu plano de urbanização da área.

Nos últimos anos, o abandono daquele espaço não se deu completamente por iniciativa da unidade da Polícia Militar de Vitória da Conquista. Idealizado pelo capitão Mauro Florêncio de Lima Júnior, o projeto “PM no Pôr do Sol” levou centenas de pessoas ao alto da Serra, no verão passado, nas tardes de domingo. A programação constava de visita ao “Cristo”, um olhar sobre a cidade e música executada pela banda da corporação.

Há poucos dias, pequenos repteis (calangos), únicos seres vivos da região, “assistiram”, céticos, Herzem Gusmão erguer os braços em direção à imagem do Cristo Crucificado – um gesto inconcebível para o evangelismo que professa –, como se estivesse pedindo mais quatro anos à frente do município. Em desrespeito ao 2º Mandamento (Não tomarás o Seu santo nome em vão) – Gusmão gravava para o horário eleitoral na televisão – invocava o nome do Senhor, como faz a todo instante.