Cancelamento de debates é perda para processo eleitoral, mas condução limitava


Especialistas destacam que, apesar de importantes para discussão política, previsibilidade tira chance de eleitores fazerem juízo de valor

 

Retorno de uma certa normalidade, mas nem tanto. A preocupação com aglomerações e possibilidade de transmissão do novo coronavírus foi o argumento adotado por emissoras de televisão que desistiram de promover debates eleitorais no primeiro turno das eleições. O formato é tradicional instrumento de propaganda e informação de campanhas desde os anos 1980, quando as eleições foram retomadas no Brasil.

Cerca de 40 anos depois, o eleitor tem algumas opções: se programar para assistir aos horários eleitorais no rádio ou na televisão; buscar ativamente informações sobre seus candidatos na internet e nas redes sociais; acionar suas redes de relacionamento para discutir entre as melhores opções para sua cidade.

“Isso varia muito. Não sei o que as pessoas vão fazer pra compensar o debate eleitoral. Não é por falta ou excesso de maturidade que as pessoas vão fazer isto ou aquilo. As pessoas reagem de acordo com as circunstâncias”, explica o cientista político Paulo Fábio Dantas.

O cancelamento do debate gerou insatisfação entre alguns candidatos à prefeitura de Salvador. A major Denice Santiago (PT) disse em nota à imprensa que a situação prejudica o processo eleitoral ao impedir que a população possa comparar as propostas dos candidatos que se dispõem a governar Salvador.

A deputada Olívia Santana (PCdoB) entendeu ser fundamental que a população tenha direito de assistir aos debates na TV aberta pelo mesmos motivos mencionados pela candidata petista. Ao falar sobre “preservar o direito à democracia”, Olívia ainda disse que apenas quem ganha com o cancelamento é o candidato do prefeito ACM Neto, Bruno Reis (DEM), líder nas pesquisas.

Já o candidato Celsinho Cotrim (PROS) lamentou que as emissoras tenham aberto mão do debate político e disse ser estranha a “conivência de alguns políticos” no que chamou de “tentativa de cerceamento” da discussão de propostas. O deputado Hilton Coelho (PSOL) também lamentou o cancelamento dos debates, visto como um “lavar as mãos” diante dos diversos projetos das candidaturas.

Até então, apenas o debate da TV Band foi realizado na capital baiana. O encontro entre sete candidatos, cujos partidos ou coligações têm pelo menos cinco cadeiras na Câmara dos Deputados, aconteceu no último dia 1º. As emissoras, no entanto, não são legalmente obrigadas a promoverem debates.

“O que o eleitor pode fazer é buscar informações sobre candidatos de outras formas. O horário eleitoral gratuito continua no ar até o dia 12 de novembro, temos redes sociais, outras modalidades de propaganda que a lei permite que os candidatos realizem. Cabe ao eleitor buscar a informação”, sugere o professor Jaime Barreiros, da Universidade Federal da Bahia.

Perdas, mas com ressalvas

Apesar das possibilidades que podem compensar o formato de debates, é consenso entre os especialistas ouvidos pela reportagem a perda para a sociedade. Jaime Barreiros lembra que o debate ao vivo permite que os candidatos sejam contestados em relação a toda produção de marketing que existe no horário eleitoral.

“Acho que perda, sim, porque o debate tem peculiaridade de ser ao vivo, de o candidato não estar como produto; pode ser desnudado pelos adversários. Nesse aspecto há perda muito grande”, avalia.

Além disso, o cientista político Paulo Fábio Dantas lembra que a ausência dos debates pode favorecer os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas e ensejar radicalização nos bastidores através de mecanismos ilícitos, como a divulgação de fake news. Isso porque é em ocasiões como essa que os candidatos podem esclarecer informações, desconstruir a manipulação que ocorre nas redes sociais.

Por outro lado, é também ponto em comum que a condução dos debates não têm cumprido tanto com o elemento surpresa que permite aos eleitores fazer juízo de valor sobre os candidatos.

“Concordo que o efeito de esclarecimento que o debate tem tido fica muito abaixo do que poderia ter. Mas isso não é apenas um problema de formato, é um problema também de orientação do discurso dos candidatos. Eles se orientam pela pesquisa, exclusivamente, termina impedindo ou ocultando as coisas que são relevantes também, que é o modo que cada candidato tem de pensar os problemas que estão envolvidos na campanha”, observa Paulo Fábio.

O cientista político lembra que o formato adotado é discutido com os candidatos e os partidos, ou seja, se ele se repete, é porque existe a intenção de previsibilidade. “A tendência é o debate ficar morno. A margem de surpresa precisa existir para o debate ficar interessante”, acrescenta.