Bolsonarismo de onde veio e para onde vai


*Edwaldo Alves – PT Conquista

Participei de um debate promovido pelo Blog Político Points de Vue e a Association AlmasuParis, logicamente esse convite foi graças à amizade que tenho com a sua organizadora – Suzete Lima Kourliansdky – do que qualquer outro mérito que eu possa ter. A discussão foi sobre um artigo escrito por Jean Jacques Kourliansdky divulgado em diversos meios de comunicação. Nele o cientista político francês analisava a surpreendente melhoria do presidente Bolsonaro nas pesquisas de imagem de administração, confiança popular, enfrentamento da pandemia e mesmo intenção de votos. Jean Jacques, entre muitos temas importantes, destacou a trajetória medíocre e o pensamento bem próximo do fascismo do atual presidente. Líder de um governo pífio, indispondo-se com os ministros mais relevantes, tentando executar uma ultrapassada política neoliberal, dobrando-se ao centrão parlamentar abraçando ao que denominava de “velha política”. O presidente é motivo de galhofa em todo o país por suas frases desconexas e atos impensados. Com o fracasso do governo e perdido nas questões econômicas com o ministro da economia Posto Ypiranga, incentivando a devastação e queimadas na floresta amazônica, acuado pelos escândalos financeiros da sua própria família, logo despencou nas pesquisas políticas. Nem a sua pauta conservadora de costumes e extremamente falsa moralista pareciam salvá-lo do fracasso total no inicio do seu governo.
Com a chegada da pandemia ao Brasil a primeira reação do presidente foi patética. Desorientado, desacreditava da sua existência ou minimizava seus dramáticos efeitos. Chegou ao absurdo de classifica-la de gripezinha.
A crise econômica e o desemprego provocados por múltiplos fatores, entre os quais a pandemia, transformou-se em um forte instrumento para revelar o lado populista de Bolsonaro. O desemprego e a paralisia dos pequenos negócios jogaram milhões de brasileiros na mais completa miséria. O processo de combate à fome desenvolvido nos governos Lula e Dilma foi brutalmente interrompido nos governos Temer e Bolsonaro. Com a Covid-19 e suas nefastas consequências a fome alastrou-se por todo o país, especialmente nos segmentos mais pobres, no nordeste e na região norte. Como solução paliativa Bolsonaro propôs uma auxilio emergencial de R$ 200,00 mas que, contra a sua vontade, foi aumentado para R$ 600,00 pela Câmara dos Deputados. Mesmo com os erros de execução e de operacionalização, o auxilio permitiu que dezenas de milhões de pessoas ingenuamente agradecidas a Bolsonaro conseguissem enfrentar minimamente a fome. Acertadamente, Jean Jacques afirma que para essas pessoas “comer vem antes da prevenção da Covid-19”. Justamente aqueles que são os mais penalizados pela política genocida de Bolsonaro, os mais pobres, os negros, aqueles com menor escolaridade e os moradores no nordeste que ficaram mais satisfeitos com o auxílio, que foi capaz de mudar momentaneamente a imagem que tinham do governo bolsonarista..
Ao concordar com as opiniões e indagações contidas no artigo de Jean Jacques, ouso abordar algumas questões que julgo pertinentes.
O artigo nos provoca a reflexão sobre a opinião ainda existente entre alguns círculos de esquerda e democráticos, de que o presidente e suas propostas são apenas um “brisa passageira”, que as instituições por si mesmas serão capazes de interromper este processo de fascistização e retornar ao leito democrático natural, bastando para isso a constituição de uma ampla frente política que dome a fera e a coloque em seu devido lugar.
Doce ilusão provocada pelas dificuldades atuais!
Acredito que perdemos a guerra cultural e política na sociedade brasileira. Sem analisar a influência internacional, é fácil perceber que, desde 2016, o pensamento conservador conseguiu pautar para a sociedade os temas morais e de costume que, apesar de corretos e progressistas, mais encontram resistência no senso comum popular. Propostas de descriminalização do aborto, casamento homoafetivo, estudar a legalização das drogas ilícitas, diminuir a idade penal, ampliar a posse e porte de armas, concepções machistas e misóginas, autoritarismo militar confrontado com instituições políticas decadentes e outras que a partir de uma visão conservadora, reforçada por inverdades, distorções e fakenews foram largamente aproveitadas para desviar subjetivamente o povo de seus verdadeiros objetivos. Mesmo no interior das forças progressistas e de esquerda não havia a unidade necessária para enfrentar a verdadeira avalanche desencadeada na mídia e na rede social.
Trata-se então de abandonar tais bandeiras avançadas e de profundo caráter humano? Nunca!
Mas, os partidos de esquerda e socialistas precisam acentuar o seu caráter de classe. O centro da luta política precisa retornar aos interesses imediatos e finais da classe trabalhadora. Além do retorno e aprofundamento democrático, das questões identitárias e existenciais, da soberania nacional, da fraternidade, a solidariedade e a afetividade são elementos integrantes da luta de classes dos trabalhadores contra o capitalismo e a opressão.
É fundamental entender porque um trabalhador com profunda insatisfação com seu baixo salário, o assédio moral de que é vítima, a submissão obrigatória ao seu chefe, o injusto sacrifício diário cuja perspectiva mais viável é deixar de ser um empregado e tornar-se um desempregado. Mesmo nesta situação social aflitiva não abraça a sua potencial revolta, sendo que ela se manifesta apenas ao ver dois homens de mãos dadas na rua. Esta simples forma individual de escolha provoca enorme indignação neste trabalhador, alienando-o de sua própria condição. Quanto conseguirmos decifrar esta esfinge estaremos mais perto de entender a subjetividade cultural que arrastou milhões a votarem em Bolsonaro. Portanto, o presidente atual não é o mito que quer aparentar ser. Na verdade, ele é o resultado final da política das classes dominantes que para barrar o processo de diminuição da desigualdade social e manter a injusta pirâmide social aderiram às mais reacionárias e atrasadas concepções morais e políticas, inclusive desrespeitando as próprias instituições democráticas burguesas, elegendo um homem que é a própria encarnação da anti-democracia.
Projetando as suas aspirações continuístas para 2022, Bolsonaro tenta desesperadamente eternizar formas de benesses como o auxilio emergencial sem compreender a inviabilidade financeira deste intento. O próprio PT sofreu na carne a impossibilidade de melhorar a vida dos mais pobres sem mexer nos privilégios dos mais ricos. Durante o crescimento econômico acentuado é possível por certo tempo atingir esse objetivo, mas a sua sustentabilidade financeira agravada pela crise econômica torna-o impossível.
Os dados apontam que o surgimento do aumento da popularidade de Bolsonaro é temporário e de pouco folego, mas se as esquerdas não conseguirem conquistar a simpatia e a confiança ativas dos trabalhadores e da população também não conseguirão uma posição destacada na luta contra o bolsonarismo, abrindo a possiblidade para o surgimento de novos mitos.

Edwaldo Alves Silva é filiado ao PT em Vitória da Conquista.