As liberdades democráticas roubadas e o devir da “primavera nos dentes”


* Por Herberson Sonkha
Minha escrita homenageia neste mês de setembro a primavera. Não só a estação do ano, mas também a analogia genial dada por uma das bandas setentista do século passado que mais me influenciou na adolescência: Banda Secos&Molhados.Essa banda gravou um álbum homônimo em 1973 que colocou o rock progressista paulista no circuito nacional com grande ressonância mundial.
Os críticos mais felinos em sua acidez literária reconhecem que há alguma coisa de “Breathe” na marcação do tempo e na introdução, alguma inspiração em Dark Side of the Moon da banda britânica Pink Floyd. Tornou-se o long-play (LP) mais badalado do país em plena ditadura civil-militar, particularmente me deixa muito nostálgico porque era um dos LP’s preferido de Alício Alves da Silva, pois painho mantinha escondido por causa da truculenta perseguição do regime ditador (1964-1985).
Entre as canções primorosas do álbum, destaco a primeira faixa do lado B que entra no título desse texto como vocativo. Eu e painho considerávamos essa canção como sendo um grito de resistência, um canto politizado para despertar a consciência crítica da população. Por isso, continua sendo uma fortíssima provocação para luta política embalada por um blues intitulado de altíssima qualidade técnica e musicalidade característica de composições inteligentes e criativas.
Em tempos de égide do fascismo essa música é um convite aos levantes populares contra a horda de extrema-direita de verve religiosa-policialesca que se instalou via golpe (2016) no país. Essa quadrilha miliciana-fascista vem tocando o terror e exercendo todas as formas de exploração da classe trabalhadora, opressão racistas (estrutural, institucional e religioso), feminicídios, homicídios da juventude negra e o assassinato e opressão do ser humano que constrói outras possibilidades de orientações sexuais.
A composição “primavera nos dentes” nasceu da parceria entre um dos integrantes da banda, João Ricardo e o poeta português João Apolinário Teixeira Pinto, um advogado e jornalista que combateu fascismo tanto em Portugal, quanto no Brasil que que deu asilo político e possibilitou um período de intensas atividades políticas e publicações que circulavam nos dois países e no mundo.
Apolinario ainda jovem foi para a França como correspondente da Agência Logos no final sombrio da Segunda Guerra Mundial. Vivendo em Paris, conviveu com o riquíssimo ambiente intelectual frequentado por Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, frequentou o café de Flore e desfrutou do conhecimento de intelectuais como Antonin Artaud, Jean Genet, Marcel Marceau, Édith Piaf e conheceu o famoso teatro de rua de Henri Gheon.
De volta a Portugal, após acidente no curto espaço de quatro meses em que presto serviços militar ao Batalhão de Artilharia Um (Lisboa), Apolinario mudaria seu percurso ao termino de rígido um tratamento em Genebra. Casou-se e deu início a trajetória de jurista, passou a integrar o círculo de intelectuais, poetas e jornalistas engajados na luta antifascista e ajudou a fundar o Teatro Experimental do Porto, atraindo a Portugal o modernismo de Marcel Marceau e Jean Genet.
Sem vínculo partidário, Apolinário participou ativamente da vida cultural com sua poética, suas peças para teatro, na escrita jornalística tecia a fina crítica jamais abandonada na reportagem. A perfurante crítica na escrita evidenciava sua posição antifascista, crítico contumaz ao colonialismo, uma defesa e proteção das vitimas desses algozes fascistas que renderia prisões, longas sessões de tortura e doridos afastamento da esposa e dos filhos João Ricardo e Maria Gabriela.
Confinando numa cela subterrânea de Peniche durante cinco dias e cinco noites, memorizou e depois publicou o livro Morse de Sangue – Primavera de Estrelas, O Guardador de Automóveis, A Arte de Dizer. Sua ligação com o Brasil por meio do teatro brasileiro, sobretudo através de Cacilda Becker, abriria as portas de poesia e do teatro de Portugal, uma imensurável referência de artística, a principal atriz de língua portuguesa. Essa aproximação possibilitaria o exilio em 1963 por exigência de autoridade da polícia política do regime português, chegando a São Paulo em dezembro do mesmo ano.
O país estava vivendo a antessala do golpe civil-militar de 1964, mas o primeiro semestre de 1964 para Apolinário seria esplêndido, pois escreveria para o jornal paulista Última Hora, desfrutando de modo inédito da virtude da liberdade de expressão, uma vida cotidiana sem a presença da intimidação da polícia política. Interrompido a partir de abril de 1964 com o golpe civil-militar, voltaria a escrever da maneira subtendida, visando driblar a censura de diretor de jornal. Nem mesmo o amigo do jornal Última Hora ou do jornal O Globo, permitiria sua criticas de teatro jamais forma pagas por causa da censura da polícia política.
O jornalista e poeta Apolinário embriagou-se da rica cultura brasileira, apropriou-se e permitiu ser perpassado de maneira que foi ameaçado de morte pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), um nacionalista exilado no Brasil que considerava um crime imperdoável a defensa da soberania nacional. Manteve-se nas trincheiras de lutas em defesa das liberdades democráticas, chegando a ser editor de artes e chefe de redação de dois jornais por mais de uma década. Conhecera a América Latina e compartilhou conhecimento com intelectuais e artistas pelo mundo, sobretudo os amigos chilenos, intelectuais ativistas brutalmente assassinados pelo regime terrorista de Pinochet.
Esse gigante português foi a matriz que serviu de fonte literária de inspiração para a banda criada por seu filho Ricardo. Entre várias canções escritas em tom ácido contra regimes ditadores fascistas no Brasil ou no mundo, peço licença para falar de “Primavera nos dentes”, um blues bem solado e cantando por Ney Mato Grosso. Um single de apenas 4:50 segundos, que fala muito sobre consciência enfrentamento ao sistema e de modo implícito nos faz lembrar da urgência da revolução.
Os tempos continuam sombrios, sob a égide de facínoras fascistas e nunca foi tão oportuno ouvir esse blues e manter viva a ideia de que haveremos de enfrentar os fascistas com a “primavera nos dentes”. A letra é inconfundível, pois não deixa de nos provocar, cutucando aqueles e aquelas na zona de conforto, ao afirmar que “quem tem consciência para ter coragem”.
O poeta nos lembra de que a força dessa consciência reside nas mãos de quem produz a riqueza (a classe trabalhadora) que precisa dessa consciência para chamar pra si a responsabilidade da mudança. Aliás, esse saber nos levará ao “centro da própria engrenagem” e com a criatividade de quem conhecem todas as contradições porque vivencia cada uma delas, “inventará a contra-mola que resiste”.
A poesia é atrevida, ao mesmo tempo, um balsamo em nossas consciências porquanto nos afirma que essa ideia-força desencadeada pela consciência crítica não permitirá que os vencidos hesitem desistir, mesmo quando estamos sob a égide dos algozes vencedores. Como a musica diz, “quem já perdido nunca desespera” e procura ajudar a organizar o devir no meio da pancada tomado pela perde do rumo, da direção, firma-se em posição como se tivesse a faca cerrada entre dentes, garante a existência da primavera.
Não importa o quanto os cães fascistas ladrem na beira da estrada fria, obscura e desumana, o que vale mesmo é ter a consciência de saber que apesar de hoje, deles ainda estarem aqui, outras primaveras virão e com elas a beleza e o colorida das flores que se abrirão num lindo dia de sol para os humilhados, explorados, oprimidos e subalternizados. Viva a liberdade de imprensa! Viva a primavera que mesmo instada entre os dentes, haverá de anunciar outros dias para a classe a trabalhadora e as populações subalternizadas.