A política como arte e a alma do bem governar e do legislar


Jeremias Macário

 

Quando me lancei a pré-candidato pelo PSB a vereador a uma cadeira no legislativo de Vitória da Conquista recebi de imediato dois tipos de reações dos amigos, colegas e conhecidos de longas datas que conhecem minha trajetória de vida e como tenho me comportado dentro dos meus princípios de primar pelo caráter.
Uma delas foi de apoio integral por merecimento, competência e pelo que tenho feito e representado para a cidade ao longo desses 30 anos, principalmente no âmbito do jornalismo, da cultura e da arte. Depois do meu trabalho à frente da “Sucursal do Jornal A Tarde”, continuei fazendo e divulgando a cultura, sempre me posicionando como jornalista e cidadão sobre as questões envolvendo a cidade de Conquista.
A outra reação não nega a primeira, mas foi no sentido de que não entrasse nessa por ser muito sério, responsável e ético, pois a política no Brasil não passa de uma lama, uma sujeira e um meio de oportunistas se aproveitarem dos eleitores. Confesso que estou a refletir sobre tudo isso, ainda mais numa eleição em plena pandemia no Brasil que, em minha opinião, deveria ser prorrogada pelo Congresso através de uma PEC.
A politicagem sem escrúpulos
Sou sabedor e convivo com os dos dois lados, e me entristece o segundo que se bandeou para a politicagem de agrupamentos sem escrúpulos que deturparam o verdadeiro valor da política na sociedade como a arte e a alma do bem governar e legislar em benefício do povo, como era praticado na Grécia antiga e ensinada pelos filósofos Aristóteles, Platão, Sócrates e outros.
Infelizmente, no Brasil ela é tripudiada, desacreditada e rejeitada porque há séculos foi sendo e ainda está recheada de manhas, treitas e malandragens, se valendo da pobreza física e espiritual de educação e conhecimento das pessoas, que os nossos governantes lhes negaram, para fazer assistencialismo coronelista, sem falar na corrupção.
Dentro dessa panela indigesta, a política brasileira deixou de ser a arte do bem governar e legislar, para se deitar no coito sujo e doentio dos germes da enganação de promessas. da enrolação, da mentira e até da compra de votos com dinheiro e através de favores, refugiando-se na criminalidade e formação de quadrilhas.
No papel de executivo, o candidato, e até mesmo depois de eleito (nem todos), passou a prometer coisas que não são da sua alçada e da sua esfera como parlamentar. Muitos trocaram o legislar e o fiscalizar o poder público pelo fazer calçamentos porque o povo foi se acostumando nisso, e dá mais votos falar em obras do que ser o que deve ser dentro da sua função específica.
A inversão de valores
Na verdade, houve ao longo desses anos, uma inversão dos valores, onde o executivo passa o tempo legislando para “governar” e manter o poder, e o vereador, ou deputado, se ocupa de mostrar obras e benfeitorias através de indicações e emendas de verbas parlamentares. Nesse jogo, entram os conchavos que ele mesmo criou no seu cio legislativo.
Essa distorção foi tão aculturada e enraizada na nossa população que o eleitor, na grande maioria dos casos, quando se encontra com seu candidato, ou vai ao seu gabinete, procura-o mais para cobrar e pedir dele que faça uma obra, uma construção qualquer, uma ligação elétrica e de água em seu bairro, povoado ou distrito. Dificilmente reivindica leis em prol da sua comunidade, ou que ele investigue ou fiscalize as ações do prefeito.
A política, então, passou a ser a arte dos conluios, do troca-troca, do dá lá e do dá cá, das negociatas de aprovação de leis para ganhar cargos e recursos financeiros, dos favores a terceiros para faturar e superfaturar obras para ficar com uma parte, da sem-vergonhice, do meu pirão primeiro, da manipulação do eleitor, do palavreado rebuscado, da negação da sua função como legislador e da adoção do assistencialismo.
Diante de tudo isso, é que muitas pessoas me recomendaram a não ser pré-candidato, e outros me incentivaram para, se eleito, exercer o real papel de vereador e cumprir com o dever de defender os interesses coletivos da população em geral através de leis.
No geral, o político de hoje está mais preocupado em atender ao seu grupo que faz parte do seu lote, ou reduto eleitoral. Como nos tempos do coronel, a divisão é feita por lotes, por áreas demarcadas e se esquece do coletivo, daí o surgimento das diversas bancadas, menos a bancada do povo.