Os germes são bem mais inteligentes que os humanos negacionistas da ciência; as características comuns de transmissão das doenças


Jeremias Macário

“A escrita caminhou junto com as armas, os micróbios e a organização política centralizada como um agente moderno de conquista… Relatos escritos de expedições motivaram outras posteriores, pela descrição das terras férteis que esperavam os conquistadores”. Essa revelação é contada pelo biólogo Jared Diamond, em seu livro “Armas, Germes e Aço”.
Em sua exposição científica, cita que a escrita nasceu primeiro, de forma independente, no Crescente Fértil com os sumérios por volta de 3000 a.C. e na Mesoamérica, sul do México, antes de 600 a.C. Por difusão de ideias, no Egito (os hieróglifos), 3000 a.C., na China por volta de 1.300 a.C. no vale do Indo, na Grécia e em Creta que podem ter sido também de modo independente. A escrita cuneiforme suméria é o sistema mais antigo da história.
Interessante é que a escrita maia é organizada de acordo com os princípios semelhantes aos dos sumérios e de outras escritas eurasianas nas quais os sumérios se inspiraram. Muitas outras sociedades desenvolveram suas escritas como na Índia, Grécia micênica, Creta minoica e na Etiópia.
O alfabeto cirílico (ainda usado na Rússia) decorre de uma adaptação de letras gregas e hebraicas feita por São Cirilo. Outro idioma, como o germânico, teve seu alfabeto gótico criado pelo bispo Ulfilas. As centenas de alfabetos históricos e atuais derivam do alfabeto semítico ancestral (da Síria ao Sinai) no segundo milênio a.C. No início, o conhecimento da escrita era restrita aos escribas a serviço dos reis e dos sacerdotes.
No entanto, a escrita alfabética grega se expandiu para além dos escribas e foi um veículo de poesia e humor para serem lidos nos lares. Por sua vez, a produção de alimentos foi essencial para a evolução da escrita como para o surgimento dos micróbios causadores das epidemias humanas.
POPULAÇÕES EXPOSTAS EM POUCO TEMPO
As doenças infecciosas têm várias características comuns, como de transmissão rápida e eficaz da pessoa contaminada para a saudável que está próxima, e com isso a população inteira fica exposta em pouco tempo. Outra característica são as doenças agudas num curto período onde as pessoas morrem, ou se recuperam rapidamente. Outra diz respeito aos felizardos que se recuperam e desenvolvem anticorpos que os deixam imunes por muito tempo a uma repetição da doença, possivelmente para o resto de suas vidas.
Segundo Diamond, a disseminação dos micróbios e a passagem rápida dos sintomas significam que todo mundo, em determinada população humana, é rapidamente contaminado e logo depois está morto, ou recuperado e imune. Como o micróbio só pode sobreviver nos corpos de pessoas vivas, a doença desaparece até uma nova leva de bebês atingir a idade suscetível até que uma pessoa infectada chegue do exterior para desencadear uma nova epidemia.
Ele cita, como exemplo, como essas doenças se transformaram em epidemias na história do sarampo nas ilhas do Atlântico chamadas Feroé, em 1781, e depois desapareceu, deixando os locais livres do sarampo até a chegada de um carpinteiro contaminado vindo da Dinamarca de navio, em 1846. Em três meses, quase toda população de Feroé (7.782) havia contraído a doença e morrido, ou se recuperado.
Estudos mostram que o sarampo tende a desaparecer em qualquer população inferior a meio milhão de pessoas. Só em populações maiores, a doença pode passar de um local para outro, persistindo assim até que um número suficiente de bebês tenha nascido na área originalmente infectada para que o sarampo possa voltar.
As doenças de multidão
Conforme seus estudos, as doenças de multidão não conseguiram se manter em pequenos grupos de caçadores-coletores e lavradores primitivos. No inverno de 1902, uma epidemia de disenteria levada por um marinheiro matou 51 dos 56 esquimós sadlermiuts, na região ática do Canadá. “Sarampo e outras doenças infantis têm maior probabilidade de matar adultos infectados do que crianças”.
O vírus da febre amarela é transmitido por macacos selvagens africanos, e por isso sempre pode infectar populações rurais da África, daí ter sido propagado pelo comércio transatlântico de escravos, contaminando pessoas e macacos do Novo Mundo. Sobre as doenças de multidão, Diamond entende que surgiram da formação de densas populações humanas através da agricultura, há cerca de dez mil anos, e depois se acelerou com o surgimento das cidades, há alguns milhares de anos.
As datas de muitas doenças infecciosas são recentes, como a varíola por volta de 1.600 a.C., caxumba 400 a.C., lepra 200 a.C., poliomielite, 1848, e a AIDS, em 1959. A agricultura sustenta populações mais densa do que o estilo de vida dos caçadores-coletores, os quais se mudam com frequência e deixam para trás montes de dejetos com micróbios e larvas de vermes. Os agricultores eram sedentários e viviam em meio à própria imundice, proporcionando aos micróbios um curto caminho entre o corpo de uma pessoa e a água que outra usava para beber.
As clareiras abertas por agricultores africanos também ofereciam um habitat propício à proliferação de mosquitos transmissores da malária. De um lado, se a agricultura significou a bonança para nossos micróbios, o desenvolvimento das cidades foi ainda mais, pois populações ainda mais aglomeradas infectaram-se em condições sanitárias ainda piores. Outra bonança foi o desenvolvimento das rotas comerciais no mundo, que na era romana uniram as populações da Europa, da Ásia e do norte da África em uma gigantesca base de proliferação de micróbios, Foi quando a varíola chegou a Roma, como a peste de Antonino, que matou milhões de romanos entre 165 e 180.
O vírus do sarampo é parente próximo do vírus causador da peste bovina. A moléstia se manifesta no gado e em muitos mamíferos ruminantes selvagens, mas não no homem. Por sua vez, o sarampo não incide no gado. A grande semelhança entre os dois leva a crer que o último (peste bovina) foi transmitido por rebanhos para os seres humanos e depois evoluiu para o vírus do sarampo, mudando suas propriedades para adaptar-se a nós.
A epidemia, de acordo com o biólogo, desaparece por várias razões, como a cura por meio da medicina moderna, ou a interrupção quando todos em volta já foram infectados e se tornaram imunes, ou morreram (imunidade por rebanho). Uma doença fatal que somiu por outra razão foi o kuru da Nova Guiné, transmitida por meio do canibalismo e causada por um vírus de ação lenta, do qual ninguém jamais se recuperou. O kuru estava exterminando as 20 mil pessoas da tribo, até que o controle do governo australiano pôs fim ao canibalismo, por volta de 1959.
A sweating sickness (febre epidêmica registrada na Inglaterra) que varreu e aterrorizou a Europa entre 1485 e 1552 e o “suor da Picardia” dos séculos XVIII e XIX, na França são apenas duas das muitas doenças epidêmicas que desapareceram muito tempo antes da medicina moderna ter desenvolvido métodos para identificar os micróbios responsáveis. Ainda não se sabe o futuro da Febre de Lassa, provavelmente provocada por um vírus dos roedores. Ela foi observada em 1969, na Nigéria, onde provoca a febre hemorrágica, tão contagiosa que os hospitais nigerianos teriam fechado se ocorresse um único caso.
Sobre a evolução da sífilis, o autor lembra que ela é hoje associada às lesões genitais, e é uma doença de lento desenvolvimento, que causa a morte de muita gente sem tratamento depois de muitos anos. Quando a sífilis foi constatada, pela primeira vez na Europa, em 1495, suas pústulas geralmente cobriam o corpo da cabeça aos joelhos, fazendo com que a carne se deteriorasse no rosto das pessoas, causando a morte em poucos meses. As espiroquetas da sífilis evoluíram de forma a manter as vítimas vivas por mais tempo, adquirindo a capacidade de transmitir seus filhotes para outras pessoas.