Uma síntese do que falo e escrevo há mais de trinta anos, sobre o grande Sertão da Ressaca


Sertão da Ressaca é uma área no sudoeste da Bahia, entre o Rio Pardo e o Rio das Contas, onde se localiza a cidade de Vitória da Conquista

Vitória da Conquista, fria, porém acolhedora

Profa. Drª. RITA DE CÁSSIA MENDES
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Vitória da Conquista destaca-se no estado da Bahia como centro regional de comércio e serviços e, particularmente, como polo regional de saúde e educação. Conta com, aproximadamente, 350.000 habitantes, mas, em tempos de normalidade, essa população mais do que duplica no dia-a-dia, graças ao afluxo de pessoas de dezenas de municípios do centro-sul e, mesmo, de regiões mais longínquas do estado da Bahia e até do norte de Minas Gerais.
As pessoas “de fora” vêm para a cidade de Vitória da Conquista em busca de estudos, de serviços de saúde, de centros de compra e de lazer. Os grandes atacados, o comércio de rua e os shoppings centers têm nos “forasteiros” uma parte considerável dos consumidores, que para aqui se dirigem com o objetivo de abastecer suas casas e pequenos comércios locais ou, simplesmente, para satisfazer seus desejos de consumo.
Diariamente passam pela cidade centenas de estudantes de municípios vizinhos que, em ônibus e vans, muitas vezes em situação de absoluta precariedade, procuram, nas instituições de ensino públicas e privadas que funcionam na cidade, uma profissão, um caminho para melhoria da condição de sua própria condição de vida e dos seus. Esses estudantes dão vida às faculdades e universidades e contribuem, por conta própria ou por meio de sistemas de financiamento estatais, para manter os ganhos do setor privado da educação superior.
Mal amanhece o dia, as vans e ambulâncias de outros municípios distribuem, em consultórios, clínicas e hospitais, pacientes que vêm em busca de diagnósticos e soluções para os seus problemas de saúde e que aqui deixam papéis ou recursos, muitas vezes subtraídos da pequena renda familiar, com os quais pagam as consultas, exames e tratamentos. Retornam aos seus lugares no fim do dia, não sem antes deixar algum dinheiro nas farmácias e outros pontos comerciais.
A propalada pujança da economia de Conquista está, pois, estreitamente associada à presença das pessoas que moram em outras cidades, mas que passam por aqui diariamente.
Hoje, quando enfrentamos uma grave crise sanitária, social e humanitária em decorrência da pandemia de Covid-19, querem alguns estabelecer distinção, nos números indicativos de uso dos leitos destinados ao serviço público de saúde, entre os que são da cidade e os que vêm de fora. E pretendem sustentar o projeto de retorno à “normalidade” na pequena presença de moradores da cidade nesses leitos. Escondem, para dar sustentação aos seus argumentos, que o número de leitos foi ampliado exatamente por conta da centralidade de Conquista na oferta de equipamentos e profissionais de saúde.
Atribuir a ocupação dos leitos disponíveis a uma ingerência política externa é ignorar a história do município e a contribuição, constante e importante, dos nossos vizinhos para o funcionamento da economia local e para a vida da cidade. Mas é, principalmente, ignorar o princípio da universalidade que orientou a estruturação do Sistema Único de Saúde (SUS) desde a sua criação.
Seria demais esperar outro posicionamento por parte daqueles que apostam no retorno da normalidade como caminho para a retomada das suas atividades lucrativas. Mas a incorporação desse discurso por parte daqueles que nada têm a ganhar e cujas vidas serão colocadas a prêmio só aprofunda a minha descrença na capacidade de autopreservação da humanidade.
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Públicado no Facebook da autora.
Possui Licenciatura em História pela Universidade Federal da Bahia (1987), mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo (1996), doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (2003) e Pós-doutorado em História pela Universidade Federal da Bahia (2016). É docente do do Mestrado em Letras: Cultura, Educação e Linguagens da (Uesb) e do Mestrado em Profissional em Ensino de História na Uesb). Tem experiência de pesquisa e ensino nos campos da História Medieval, História, Leitura e Escrita e em História Social do Trabalho. É editora responsável da Revista Politeia: História.

Pedindo antecipadamente a permissão da professora, que tão bem descreve a necessidade de sermos humanos nesse  belo texto, devo avisar, os “ignorantes” que além das verdades, tão bem postas pela professora Rita,  o Grade Sertão da Ressaca tinha 24.732km2 na sua origem e começava onde hoje é o município de Floresta Azul, terminando na antiga Cachoeira, também conhecida como Imbuíra, onde hoje é o município de Manoel Vitorino e onde morreu João Gonçalves da Costa.

No entanto devo lembrar ainda que, como a professora fala, essa cidade foi formada por pessoas que vieram de outras plagas, através da  sua história, já que os natos foram dizimados  pelos portugueses, portanto pouco importa de onde vem o paciente do coronavírus ou  de qualquer doença, o sistema SUS é público e humanitário, não tem reserva de leitos para ninguém. Quando usei a palavra “ignorantes”, não foi em tom ofensivo, mas por entender que quem se coloca contra  a ocupação dos leitos de maneira universal, naturalmente é porque não conhece o sistema  e assim, ignora sua função.