Pandemia x Polarização


Professor Dirlei Bonfim

        (Prof. Dirlêi A Bonfim)*

É impressionante e ao mesmo tempo, espantoso, vergonhoso, como diante de temas tão relevantes, relacionados a pandemia mundial do coronavírus, quando deveria haver um esforço maior, na construção  de debates, discussões, ponderações, pesquisas e principalmente informações de qualidade para a população em geral, especialmente ao cidadão comum que não tem muitos elementos de acesso à informação, ou ainda uma compreensão mais ampla sobre o que está acontecendo neste momento de tantas incógnitas, pânico e incertezas.  Como algumas figuras políticas, no cenário mundial e nacional, se valem deste momento, de forma completamente inadequada, oportunista e até criminosa, para estabelecer uma polarização e tirar proveito político dessa situação de anomalia a que todos nós estamos submetidos. É necessário que façamos uma exposição dos quadros que se apresentam: desde o início da pandemia, lá na China, que a OMS- Organização Mundial da Saúde, tem se demonstrado através dos seus relatórios uma profunda preocupação, quando vai adverti a OMS, através dos dados de (30/01/2020), declarando o estado de emergência global em razão da disseminação do coronavírus. A entidade fez o anúncio à imprensa internacional em sua sede, em Genebra, na Suiça, após uma reunião com especialistas. Naquele momento, em que foram contabilizados 7,7 mil casos e 170 mortes na China, na cidade de Wuhan principal local de multiplicação do vírus. Uma emergência de saúde pública de interesse internacional (PHEIC, na sigla em inglês) é uma declaração formal da Organização Mundial da Saúde (OMS) de “um evento extraordinário que pode constituir um risco de saúde pública a outros países por meio da disseminação, e que requer uma resposta internacional, rápida coordenada e pelo maior número de países e governos possíveis”. De acordo com o diretor-geral da OMS, o coronavírus (2019-nCoV) atende aos critérios da declaração de emergência. Essa é a sexta vez em que o recurso é usado. A declaração de emergência havia sido emitida no surto de síndrome respiratória aguda grave (Sars), em 2002/2003; na pandemia de 2009 de H1N1 (também chamada de febre suína); na declaração de emergência de poliomielite, em 2014; na epidemia de ebola na África Ocidental, também em 2014; no surto de microcefalia em decorrência vírus Zika, cujo principal foco de infestação foi o Brasil, em 2015/2016, e na epidemia de ebola em Kivu, no Congo, em 2019. Das vezes em que foi instituída, apenas a declaração de emergência sobre a epidemia de Kivu continua ativa. Assim, com o passar dos dias a pandemia, foi se disseminando e multiplicando a infecção e contaminação mundo afora. Pois bem, no cenário internacional, o presidente dos EUA, o Senhor Donald Trump, em mais uma das suas ações e atitudes espalhafatosas, inconsequentes e desastrosas, vai acusar a OMS e o seu Diretor, o Senhor, Tedros Adhanom,  acusando-o de dar muita atenção à China e de conselhos ruins durante o surto do novo coronavírus. As declarações foram feitas na conta do chefe da Casa Branca no Twitter. A OMS, por sua vez, nega ser sinocêntrica e diz que pior da pandemia está por vir. Segundo o Senhor Trump, “A OMS estragou tudo. Por alguma razão, embora [a organização] financiada em grande parte pelos Estados Unidos e o Grupo do G7, ela está muito centrada na China. (…) “Nós daremos uma boa olhada. Felizmente, rejeitei o conselho deles de manter nossas fronteiras abertas à China desde o início”. Por que eles nos deram uma recomendação tão falha?”, escreveu Trump na rede social.  Para o secretário-geral Antonio Guterres, é claro que a OMS, sob a liderança do Dr. Tedros, está fazendo um grande trabalho no combate à Covid-19, apoiando países com o envio de milhões de equipamentos, ajudando com treinamento, fornecendo diretrizes globais. A OMS está mostrando a força do sistema internacional de saúde, mesmo enfrentando, críticas e acusações de alguns governos e representantes de estados. O Senhor Guterres, chama a atenção de todos os governos sobre a necessidade de se criar o espaço para o diálogo e a união de todos os povos em torno da resolução dos grandes problemas causados pela pandemia. Vai dizer não é hora de que as pessoas troquem farpas ou acusações ou estejam pregando a desunião, muito pelo contrário, é um momento em que o mundo necessita de muito mais união e esforço de todos os governos, de todos países no combate à pandemia. Mas, não apenas é chegada a hora de se revisar uma série de conceitos… Especialmente no que o sistema econômico atual oferece de contribuição a “redução da miséria e da pobreza em todo o mundo”, mais ainda, no que diz respeito a imensa desigualdade social a que a sociedade humana está submetida, esse profundo fosse social, em que vive, ou sobrevive, pelo menos 2/3 da sociedade mundial, em condições sub-humanas, que nos envergonham a todos enquanto raça humana. No nosso caso brasileiro, a pandemia veio revelar também, o tamanho do nosso fosso social, na medida em que o governo federal, estabelece um auxílio de emergência e se percebe, que há um contingente gigantesco de excluídos, mais de 20 milhões de pessoas, que em tese não receberão o auxílio emergencial, por não se encontrarem no cadastro do governo, no banco de dados dos governos, são os invisíveis. 

Eles não têm, nenhum tipo de registro, seja de microempreendedor individual, nem contribuem de forma autônoma ao INSS; não tem nenhum tipo de cadastro. O governo estima de 18 milhões a 22 milhões de pessoas nessa situação de trabalhadores informais, que precisam se cadastrar no sistema, para poderem receber o auxílio emergencial de R$ 600 que será pago por três meses aos atingidos pela crise do novo coronavírus. Ou seja, estamos falando de um contingente de cerca de 54 milhões de pessoas, que representam 1/4 da população brasileira. Antes desse grupo de “invisíveis” começar a receber, o governo iniciará os pagamentos aos brasileiros inseridos no Cadastro Único de programas sociais. São cidadãos de baixa renda já registrados na base de dados e que podem ser elegíveis ao benefício. Agora vejam a situação em que se encontra a população brasileira. Milhões de cidadãos que foram abandonados, deixados para trás, ao longo de anos jogados a própria sorte, sem quaisquer perspectivas por uma sobrevivência mais digna nesse país. Sem falar nos  “moradores de rua”, ou pessoas em situação de rua, que no Brasil, são mais de 250 mil pessoas, nessa situação… “Há aqueles que dizem  até ‘eu sou pobre, nem essa doença vai me querer’, e há aqueles que já olham o contexto e se preocupam mais com a falta de comida, trabalho e segurança, do que mesmo com o vírus”. Estão todos em risco, uma vez que a possibilidade de higienização, alimentação e outros cuidados é igual a zero, não tiveram, não tem e não terão. Com todas essas mazelas sociais, os inúmeros problemas a serem enfrentados pela população. No meio de tudo isso, vamos encontrar ainda, agentes públicos, muito bem pagos com o dinheiro do público… E o que é pior nesse momento terrível em que passa toda a sociedade, os senhores, alguns mandatários deste país, sem nenhum tipo de escrúpulos, dignidade ou compostura, estão politizando a doença, portanto, a pandemia polarizada, algo com consequências imprevisíveis… Imagine que o atual presidente da república, por questões oportunistas, de insanidades e anomalias de toda ordem, disputas de espaços e egos, completamente aloprados, resolve confrontar e exonerar o Ministro da Saúde, no meio da pandemia. Não aconteceu ainda, por conta de várias intervenções…Quanto ao isolamento social, proposto pela OMS… Não é uma questão de opinião, é uma questão de determinação… Vejam a que ponto de banalização na gestão pública e o total desrespeito a população nós chegamos nesse país. A pandemia do coronavírus poderá deixar um rastro assombroso, de mais de 125 milhões de pessoas sem emprego e aprofundar a pobreza no mundo, com uma perda de renda para os trabalhadores, da ordem de US$ 6,4 trilhões em 2020. Os dados foram publicados pela OIT – Organização Internacional do Trabalho nesta quarta-feira (08/04)* em Genebra, que destaca que a crise atual, já é  maior que o colapso da economia mundial em 2008 e 2009. No caso dos países emergentes, o desemprego pode atingir entre 54,7 milhão a 78,4 milhões de pessoas extras, por conta da nova crise internacional. A pobreza na categoria de países dos quais o Brasil faz parte também poderá aumentar de forma substancial, com um volume extra, de cerca de 34 milhões de trabalhadores em situação de miséria absoluta. Nos últimos dias, entidades internacionais tentam decifrar o impacto que a pandemia terá para a economia mundial. A previsão, segundo a ONU, é de que o PIB do planeta sofra uma redução da ordem de US$ 6 a 8 trilhões, jogando a economia mundial em uma grande recessão. De acordo com a OIT, os “efeitos serão imprevisíveis de grande alcance, empurrando milhões de pessoas para o desemprego, subemprego e a miséria.  A entidade apela aos governos para adotar medidas no sentido de respostas rápidas, mais efetivas, coordenadas e imediata, a essa situação, o que poderia inibir um pouco as projeções catastróficas, ao quadro que se desenha e aponta para o cenário da economia mundial. E claro que estamos a viver um momento completamente novo, provavelmente num estágio anterior ao auge do desastre, portanto muito longe do distanciamento histórico necessário para entender o momento. Qual será o mundo pós-coronavírus? Que lições teremos aprendido? Como passaremos a lidar com a saúde? Como ficarão aspectos do cotidiano, como as relações de afeto, o mercado de consumo, a espiritualidade? Ninguém tem ainda essas respostas. O resultado vai depender de nossa compreensão dos acontecimentos, dos posicionamentos da sociedade civil, das atitudes socialmente responsáveis das empresas, dos caminhos adotados pelos governantes. Em resumo: vai depender de nós. Segundo o Professor Mario Sergio Cortella (2020), “estamos recebendo um sinal de que a natureza é maior do que o homem”. Segundo ele, a antropolatria, a adoração do humano, não tem sustentação fora de nosso entendimento”. Um efeito já observado é em relação ao clima. Imagens de satélites da Nasa mostraram redução da concentração de dióxido de carbono resultante da combustão em cidades da China, da Europa e dos Estados Unidos. Será que seremos capazes de dar realmente atenção ao meio ambiente depois desse processo todo…? Será que teremos a capacidade de nos humanizarmo-nos, lutando e buscando uma sociedade humana mais humana…? Mais justa, mais igualitária, mais digna, menos egocêntrica, mais cuidadosa, menos preconceituosa, arrogante, prepotente, racistas, intolerante, ética, enfim, verdadeiramente mais humana…? Ou ainda vamos continuar no processo da Pandemia x Polarização…?

**contribuição do Professor DsC. Dirlêi A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental,  Professor da SEC/BA**Sociologia**Cursos/FAINOR de ADM/CONTÁBEIS/ENGENHARIAS/FAINOR/2020.1*