Há 52 anos… outros tempos, outras mortes


Meninos, eu vi, eu estava ali. 28 de março de 1968: há exatos 52 anos foi assassinado o estudante Edson Luís de Lima Souto, 18 anos recém completados.

Paraense, ele vivia no Rio e se alimentava no Restaurante Estudantil Calabouço, no centro da cidade. Só que não era comida o que era oferecido, era uma lavagem!

Com frequência a juventude fazia manifestações por uma refeição melhor, organizadas pela FUEC (Frente Unida dos Estudantes do Calabouço), liderada pelo meu amigo Elinor Brito.

A ditadura não admitia e a PM do governador Negrão de Lima, supostamente de “oposição” ao governo militar, baixava o cacete.

Nesse dia chegou atirando. E matou o Edson. Os estudantes, indignados, não permitiram que os repressores se apoderassem do corpo, e o levaram até o Palácio Pedro Ernesto, então sede da Assembleia Legislativa da Guanabara.

Eu lembro como se fosse hoje: estava na Tijuca (onde morava e estudava) quando a notícia chegou (“Mataram um estudante!”). Peguei um ônibus (escondido de minha mãe viúva) e fui pra Cinelândia. Numa folha de caderno espiral rabisquei meu cartaz: “Ditadura mata!”.

Dia seguinte, 50 mil pessoas levaram Edson para sepultá-lo no São João Batista. Fomos a pé da Cinelândia a Botafogo. Depois, ainda naquele semestre, sucederam-se muitas e crescentes passeatas contra o regime.

A ditadura, por um tempo, recolheu sua carranca, que voltaria terrível no fim daquele ano, com o AI-5 (esse que o bolsonarismo insano quer de volta). Oficializavam de vez as prisões, banimentos, execuções, tortura, censura. Necroestado.

Hoje, passado mais de meio século, o vírus histórico e letal do autoritarismo e da violência repressiva do Estado continua entre nós, ainda que não tão escancarado. Ontem e hoje, segue necessário e urgente o clamor por justiça e democracia sem fim.

A arte eterniza: Milton Bituca Nascimento e Ronaldo Bastos fizeram, à época, uma canção chamada “Menino”, muito linda, que retratava nossa lágrima semeadora de esperança: “Quem cala sobre teu corpo/ consente na tua morte/(…) Quem grita, vive contigo!”