Solidariedade… nem na dor


        (Prof. Dirlêi A Bonfim)*

A sociedade humana, vive um momento bastante difícil, difuso, tempos sombrios e, como se já não bastasse o quadro desalentador da mais profunda desigualdade social, vivemos nesse limiar do século XXI, um fenômeno que o Professor Bauman (2001), vai classificar como o paradigma da individualidade. Em seu livro “modernidade líquida”, o autor Zygmunt Bauman (2001) reflete sobre o período pós-moderno, e como este trouxe consigo drásticas mudanças tanto na economia, quanto na política, que por sua vez alteraram radicalmente a forma do homem se relacionar. Para tanto, o autor traça um paralelo histórico passando por uma transição da pré-modernidade para a modernidade, e da modernidade para a pós-modernidade. Começando com o processo da pré-modernidade para a modernidade, o autor se refere à solidez de ambas as épocas, mas enfoca que o plano de uma sociedade moderna necessitava de uma solidez duradoura, o que não se encontrava na época pré-moderna. O plano primeiramente era acabarem com as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros, e as obrigações que imobilizavam a ordem econômica, impediam os movimentos e restringiam as iniciativas (BAUMAN, 2001). De uma maneira original diz o Professor: (…) “libertar a empresa de negócios dos grilhões dos deveres e amarras, impostos pelo sistema neoliberal, impor a sociedade uma relação cruel de desigualdade econômica-social, deixando as instituições a mercê, como, para com a família e o lar e da densa trama das obrigações éticas que vão se arrastando (…) deixando restar somente o ‘nexo dinheiro’. Por isso mesmo, essa forma de ‘derreter os sólidos’ deixara toda a complexa rede de relações sociais no ar, desarticulada, desestabilizada, a deriva…” Há uma crise sistêmica nas relações, nos valores, a sociedade atônita, mas ao mesmo tempo vazia, arrogante, vaidosa e perversa, não consegue se perceber assim, por conta do individualismo irracional, caminhando a passos largos para o caos, ou mesmo para um processo de desintegração social brutal e completamente imprevisível. Pois bem, além de todos esses tormentos causticantes, a raça humana, vem sendo, assolada por uma pandemia global a Covid-19, o novo coronavírus, uma peste que se alastra aos quatro cantos do planeta, deixando para trás um rastro de destruição e morte, sem precedentes na história da humanidade. Nunca tivermos tanta informação e ao mesmo tempo tanta angústia, por conta, do que fazer, ou não fazer, ou ainda como fazer, se é, que é possível fazer alguma coisa, ou apenas remediar e administrar as perdas… O que me chama, muita atenção, num momento de tantas dúvidas, incertezas e fragilidades é exatamente a frieza do sistema econômico, que não se manifesta, ao não ser para trazer os dados analíticos sobre os prejuízos causados aos mercados financeiros especialmente, sem nenhuma preocupação ou sentimento de culpa pelas vidas ceifadas pelo vírus no meio dessa pandemia. Vejo algumas manifestações de ONG´s de algumas instituições acerca de se tomar providências imediatas no sentido de conter a pandemia, ou ainda, buscar um processo cooperativo dos cientistas de todo o mundo na busca de um antídoto, uma vacina, enfim, um alento a todos os sofrimentos causados pelas vidas e perdas humanas. No entanto, não vejo, os banqueiros, os grandes conglomerados econômicos se mobilizarem para tomar providências rápidas de abrigar, consolar, contornar, proteger, resolver, enfim, ajudar a sociedade humana a sair desse fosso gigantesco nesse momento tão sombrio. Como sempre, estão muito preocupados, com quanto deixarão de lucrar, ou ainda, quanto serão as perdas. Assim, parece-me não deixar dúvidas como se retro alimenta esse sistema econômico, e ao mesmo tempo, como eles se “preocupam” com a humanidade…Penso que é chegada a vigésima sexta hora, chegou o momento de se questionar fortemente, qual é o papel dos grandes banqueiros e conglomerados econômicos nessa sociedade da pós-modernidade…? Qual é o verdadeiro significado da responsabilidade social, tão propalada em versos e trovas, por todo o mundo das corporações…? Qual o papel dos governos, que se arrastam para tomar resoluções tão elementares…? Pois, com todos os colapsos éticos e morais, todos absurdos cometidos por governos e corporações contra a sociedade e as inversões de valores, a que estamos submetidos cotidianamente. Podemos questionar que tipo de sociedade humana, tão desumanizada é essa que estamos ajudando a construir…? Essa pandemia do coronavírus, vem apresentar definitivamente, nesse tabuleiro da geopolítica mundial, a colocar os sistemas financeiros, políticos e econômicos, contra a parede. Quando afeta de morte a saúde de toda a sociedade, a permanência e a continuidade das empresas e seus acionistas, o destino dos operários e trabalhadores, a indigência e a precarização dos empregados, desempregados e subempregados, enfim, de toda a cadeia de relações e dos processos produtivos. O sistema econômico como está definido, não possibilita sociedades igualitárias e mais justa, ele acredita sim, nos indivíduos, na concorrência entre eles de forma desumana, no livre mercado, sem marcos regulatórios, onde ele o mercado, seja o senhor soberano e a ele caiba todas as decisões sejam pelo bem, ou pelo mal da humanidade. 

Assim, caminhamos todos, pelas encostas, deste penhasco íngrime, da mais absoluta sucumbência humana e social, vidas e vidas destroçadas, jogadas na sarjeta, sem piedade, sem remorsos ou solidariedade ainda que na dor… jamais registrada em todos os tempos. Para enfrentar a pandemia, hospitais são segregados, não há espaço para todos, mas, como sempre o fator determinante, entre a vida e a morte, será o fator econômico. A pandemia do coronavírus pode ser catastrófica para os mais pobres, expostos a condições precárias, sub humanas. Será preciso seguir o exemplo espanhol, acabar com todos os privilégios dos planos de saúde, integrando hospitais privados ao sistema público, transformando numa só rede para salvar vidas, independente de quem tenha dinheiro e plano de saúde ou não e, ainda contar com a sorte, para que possa conseguir atender a todos de forma humana. Vejam como o sistema econômico é cruel, as cadeias e corporações de planos de saúde, não querem se responsabilizar pelos custos dos seus pacientes acometidos pelo vírus, como se as pessoas pudessem escolher e se livrar do contágio desenvolvido pela pandemia. E aí, sabiamente vem afirmar o Professor Bauman (2001, p.64), os efeitos de toda essa panaceia social, é a responsabilidade que recai sobre os ombros dos que escolhem, cabendo ao próprio indivíduo arcar com a consequência de suas escolhas. Assim, diz o autor : (…) “se ficam doentes, é porque não foram resolutos e engenhoso o bastante ao seguirem o regime de saúde. Se ficam desempregados, é porque falharam ao aprender as habilidades para se saírem bem numa entrevista e nos seus desdobramentos, porque não tentaram com afinco ou porque estão, pura e simplesmente, envergonhados de trabalhar. Se não estão seguros a respeito de suas carreiras futuras e se angustiam quanto ao futuro, é porque não são bons o suficiente em fazer amigos e influenciar pessoas, e porque falharam em aprender como deveriam ser melhores para se manterem no dito mercado”. Portanto, o tratamento sempre muito frio, irônico, calculista e desumano oferecido aos trabalhadores das diversas áreas, esse tem sido o cenário e a trajetória desse sistema econômico. Enquanto isso, no mundo todo os jornais discutem a pandemia, os grandes prejuízos já causados e os que virão ainda causar, que são imprevisíveis e incalculáveis, o que a situação do vírus tem provocado aos mercados financeiros globais e as diversas situações de pânico e medo de uma nova depressão econômica global de proporções bem maiores do que a de (1929) e a mais recente recessão de (2008). No entanto, entre nós, na sociedade brasileira, há uma preocupação, não muito acentuada, sendo que a tempestade econômica, não está a figurar entre as manchetes principais dos jornais, assim, em volta, com a crise na saúde mundial e como é praticamente impossível prever o que poderá acontecer com os desdobramentos da pandemia global. Por aqui, o que percebe-se também, é que as redações dos jornais, são orientadas para tentar sempre de forma dissimulada a dizer que a economia vai bem, ou pelo menos estava a trilhar um caminho bom, antes da pandemia e com as reformas já efetuadas e as que virão, que as metas e objetivos serão cumpridos. Agora, começam a refazer as contas e demonstrar alguma preocupação, pois, como o vírus, não estava previsto, ele aparece de forma arrebatadora e afeta não apenas a saúde das pessoas, mas a saúde financeira da sociedade mundial.  A população como sempre é orientada a lavar as mãos com álcool gel, ficar em casa e cumprir a quarentena, mas jamais, ler, analisar, interpretar ou examinar o que está acontecendo, especialmente sobre os atos, ações e omissões dos governos. Assim, nesse cenário de aparente descontrole econômico, é que acontecem as grandes e tenebrosas transações, envolvendo bilhões de dólares… Em princípio para que as grandes corporações sejam resgatadas e preservadas, adentrando em grandes negociatas realizados pelos bancos centrais dos países ricos, em operações para salvar os bancos privados e grandes empresas da crise e da falência, tudo isso financiado com os recursos públicos e, ao mesmo tempo, a redução drástica dos investimentos, nas áreas da saúde, educação, segurança, habitação, nos programas sociais, deixando uma gigantesca camada da sociedade jogada à própria sorte, em situação de profunda beligerância e indigência social, relegados ao submundo da fome, da miséria absoluta, do desengano, à morte. Voltemos ao Professor Bauman quando vai dizer, que (…) “o mundo na pós-modernidade caminha para o vale dos enganos, do individualismo brutal, doentio e criminoso, do egoísmo vaidoso e sinistro, do egocentrismo desmedido e funesto, transladado de dores, dores e dores…” Na história do planeta, nunca se acumulou tanto capital… Segundo os últimos relatórios da Oxfam (2020), existem nos paraísos fiscais, nos quatro cantos do planeta, uma quantia inimaginável de mais de U$ 26,3 trilhões de dólares, depositados em contas não identificadas de pessoas físicas e jurídicas, do outro lado, o mundo nunca passou por tanta desigualdade social, miséria e infortúnio, no entanto, toda essa fortuna, em geral, fruto da evasão de divisas, corrupção, do tráfico e crimes de toda natureza, jamais foi capaz de salvar vidas, de se colocar a serviço da sociedade, em nobres causas, solidárias, humanitárias, nem mesmo agora nesse momento tão difícil e assombroso, não se ouve uma voz, uma atitude, ou um gesto de nobreza por parte dos detentores do capital. Portanto, que reflitamos : solidariedade… nem na dor. Mas afinal, onde foi parar a nossa humanidade…?

**contribuição do Professor DsC. Dirlêi A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental,  Professor da SEC/BA**Sociologia**Cursos/FAINOR de ADM/CONTÁBEIS/ENGENHARIAS/FAINOR/2020.1**