Sexta-feira negra : esquizofrenias consumistas


(Prof. Dirlêi A Bonfim)*


Tenho argumentado com alguns amigos que de fato estamos vivendo tempos estranhos, fico a me questionar, o que leva centenas de milhares de pessoas, a ficarem ensandecidas, com as tais ditas promoções, desta chamada “black friday”, ou sexta-feira negra como queiram… Onde as pessoas ficam se atropelando nas portas das lojas para comprarem objetos os mais diversos, numa festa ao consumo exacerbado… A promoção das lojas que ficou conhecida como a black friday que conhecemos hoje surgiu nos EUA, também é comum que o Dia de Ação de Graças – e as datas próximas – sejam marcadas por partidas de futebol americano. Nos anos 1960, os policiais da cidade de Filadélfia usavam o termo black briday para se referir à sexta-feira após o Dia de Ação de Graças. A cidade ficava abarrotada ainda na sexta, já que vinha gente de carro do país todo – o trânsito virava um caos e os policiais não tinham descanso na sexta. Black Friday. Quem se aproveitava da confusão eram os comerciantes. Eles usavam o movimento para fazer promoções e atrair os clientes. Começava a tradição. Mas o termo, e as promoções pós-ação de graças, só se popularizaram no resto dos EUA, a partir dos anos 1980. Por aqui, a black friday começou pela internet. Em 2010, um site chamado busca descontos fez promoções por aqui no dia da sexta-feira negra dos americanos. Sobre o consumo é um dos conceitos usados para caracterizar a época contemporânea, que é a era das massas. Os Estados Unidos da América foram o primeiro país em que se verificou a sociedade de consumo, já após a Primeira Grande Guerra (numa euforia que foi fortemente abalada pela Grande Depressão), mas sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Enquanto durante um século de Revolução Industrial o consumo e o tipo de vida não haviam modificado profundamente as sociedades em vias de industrialização, desde o fim do século XIX ao fim do século XX, e não obstante as crises e as guerras, o consumo sofreu uma grande mudança. A economia de mercado, apoiada pelo marketing, é definida pela produção e pelo consumo de massas. O consumo pessoal desempenha um papel central. Uma parte do orçamento doméstico é consagrado a compras de bens e serviços, por vezes, menos utilitários do que simbólicos ou carregados de significação cultural: lazer, informação, educação, saúde, moda, etc. A publicidade é um dos pilares da sociedade de consumo. As suas imagens representam a época em que vivemos. A realidade mostrada é um reflexo dos desejos dos indivíduos. A publicidade cria-lhes novas necessidades, de consumo e mais consumo e consumo de forma irracional, apresenta-lhes paraísos inacessíveis, contribuindo, por outro lado, para manter uma sociedade estereotipada. O apelo da publicidade leva principalmente os mais jovens a adquirirem produtos que não vão ser utilizados. A cultura do consumo recusa a profundidade, vivendo pelas aparências. A velha dicotomia entre o SER x TER, como se fóssemos uma sociedade de Teres Humanos e não de Seres Humanos. Ao mesmo tempo, mitifica o efémero e uniformiza valores. Segundo Bauman(2012), “Algum tipo de sofrimento é um efeito colateral da vida numa sociedade de consumo. Numa sociedade assim, os caminhos são muitos e dispersos, mas todos eles levam às lojas. Qualquer busca existencial, e principalmente a busca da dignidade, da autoestima e da felicidade, exige a mediação do mercado.” A sociedade industrial, que criou o mundo do consumo, é também responsável pela desorganização dos laços coletivos que deixa os membros da sociedade separados uns dos outros. A fragilidade das sociedades industrializadas modernas conduziu a uma espécie de sociedade de massas atomizada. A família perdeu uma parte das suas funções de socialização e foi ameaçada pela dispersão. Sofrendo um processo idêntico, as relações de vizinhança das comunidades rurais têm sido substituídas pelas relações muitas vezes impessoais das grandes multidões. Segundo Galeano (1971), “A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo”. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar. O império do consumo: esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa em coisas fúteis e supérfluas. Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e todas as formas midiáticas e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado.
Mas para que outro mundo vamos mudar-nos…? Segundo Leonard (2011), na História das Coisas, vai nos dizer que… “O consumo descontrolado e irracional da sociedade, tem causado sérios problemas na questão ambiental, a continuar a consumir como a sociedade está, precisaremos de 04 ou 05 planetas, acontece que só temos 01, o planeta não consegue dar conta de tanta produção, consumo e lixo”. A sociedade do consumo, segundo Bauman (2010), observa que o século 20 sofreu uma passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Isso não significa que não exista uma produção, mas que o sentido do ato de consumir ganhou outro patamar. Se as grandes ideologias, alicerces e instituições se tornaram instáveis, o consumo se tornou um elemento central na formação da identidade. Muito além da satisfação de necessidades, consumir passa a ter um peso primordial na construção das personalidades. O ter se torna mais importante que o “ser”. Temos inúmeras possibilidades de escolha e consumimos produtos que identifiquem um determinado estilo de vida e comportamento. Ao transformar tudo em mercadoria, nossa identidade também se constitui a partir da satisfação do prazer pelo consumo. Marcas e grifes se tornam um símbolo de quem somos. Sua compra também significa um status social, o desejo de um reconhecimento perante os outros. Satisfazer por completo os consumidores, na realidade, significaria não ter mais nada para vender. Consumir também significa descartar. Temos acesso a tudo o que queremos e ao mesmo tempo as coisas se tornam rapidamente obsoletas. Afirma o Professor Bauman (2012), “O problema não é consumir; é o desejo insaciável de continuar consumindo”. Tanto que o descarte do lixo é um grande problema na sociedade atual. As pessoas também precisam se reinventar para que não se tornem obsoletas. Elas precisam ter identidades fluidas. Segundo o Professor Bauman (2011), “na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável”. Assim, tudo é mercantilizado, futilizado, efêmero e descartável, para realimentar o sistema… Esse é o paradigma da pós-modernidade. A modernidade sólida e a modernidade líquida. O tempo em que vivemos é chamado por muitos pensadores como “pós-modernidade”. O termo foi popularizado em 1979 pelo pensador francês Jean-François Lyotard (1924-1998). Para Lyotard, esse é o período em que todas as grandes narrativas (visões de mundo) entram em crise e os indivíduos estão livres para criar tudo novo. O Professor Bauman se utiliza do termo pós-modernidade. Mas, ele cunhou o conceito de “modernidade líquida” para definir o tempo presente. Escolheu a metáfora do “líquido” ou da fluidez como o principal aspecto do estado dessas mudanças. Um líquido sofre constante mudança e não conserva sua forma por muito tempo… As motivações para o consumismo são as mesmas: o hedonismo (viver pelo prazer), estabelecer pelo fútil, etéreo, vazio, reconhecimento social e sentimento de pertencimento. Mas a oferta de bens muda de uma escala artesanal, como a perecibilidade de alimentos, por exemplo, para uma escala industrial e massificada. Para entender como nos relacionamos com o consumo, é importante entender a nossa relação com o meio ambiente. A abordagem que vemos predominante é a antropocêntrica, ou seja, o ser humano como elemento central de importância e a natureza e recursos naturais como meios para levar a nossa satisfação de necessidades e desejos. O antropocentrismo, apesar de guiar o ser humano desde a passagem da Idade Média para a Idade Moderna, é uma visão muito frágil se considerarmos que o ser humano depende da natureza para existir, enquanto não podemos dizer o contrário. Segundo Huxley (1932), “A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão”. Vai afirmar Proudhon, (1809-1865) “… A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas…” Ou ainda Huxley (1962), quando diz que “… A massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa e todos se iludem, com a falsa felicidade…” Em pleno século XXI, o consumismo acontece, predominantemente, em função do status social, estilo de vida este que está causando consequências catastróficas e irreversíveis ao meio ambiente. Nos preocupamos com a compra, e não pensamos no descarte. Não entendemos nem assumimos a nossa responsabilidade enquanto consumidores. Não há problema em comprar um item que você esteja precisando, é importante investir nossos recursos com consciência. Contudo, o que vemos é a maioria de nós, consumidores, fazendo compras por sermos levados por impulsos gerados pela indústria da propaganda. Precisamos tomar o controle das nossas escolhas, consumirmos conscientes da responsabilidade atrelada à compra de um produto, nos questionarmos se realmente precisamos desse novo item. Essa responsabilidade passa pelo indivíduo, mas ela é da sociedade como um todo. A cultura do consumismo é mantida por todos os atores sociais, portanto, a pauta do consumo consciente deve entrar para a agenda de todos os agentes: escola, família, políticos, artistas, influencers, formadores de opinião de todas as matizes.
**contribuição do Professor DsC. Dirlêi A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental, Professor da SEC/BA**Sociologia**Cursos/FAINOR de ADM/CONTÁBEIS/ENGENHARIAS/FAINOR/2019.2**

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