O Cesosl também faz cultura


 

Não vivemos só de economia, empreendedorismo e finanças. Cultura também é essencial para a mente e a alma humana. Pensando nisso, o Cesol de Vitória da Conquista (Centro Público de Economia Solidária da Bahia) diversificou suas atividades e realizou, ontem, (dia 14/11-quinta-feira), um sarau cultural que reuniu um grupo de artistas, escritores e estudantes em sua sede, na rua Santos Dumont, no bairro São Vicente, culminando com o lançamento do livro “Anésia Cuaçú, de autoria do professor jequieense Domingos Ailton.
Foi um final de tarde prazeroso e descontraído, com o acompanhamento musical do violeiro, cantor e compositor Walter Lajes que interpretou várias canções que falam do nosso povo do agreste sertanejo, como “Retrato Falado do Sertão” (melhor interprete num festival de São Paulo) e “Na Espera da Graça”, uma composição em parceria com o jornalista Jeremias Macário, que também discorreu sobre suas obras como escritor e declamou o poema “Senhora Parteira”, de sua autoria.
Na eliminação dos atravessadores
Entre os produtos artesanais expostos na loja do Cesol, o pessoal foi se achegando para ouvir também as palavras do coordenador geral do órgão em Conquista (abrange 25 cidades da região), Andrersom Ribeiro, do coordenador de Articulação Política, André Lúcio Alves, que abriu os trabalhos, e do autor do livro Domingos Ailton. Estiveram presentes também o presidente do Instituto Casa da Cidadania, Moisés Andrade, Tiago Santos Ribeiro, técnico do Cesol Região Sudoeste e demais convidados.
Andresom falou da importância do Cesol como agente da economia solidária, o qual atua na área da comercialização direta dos produtos feitos por associações de artesãos, eliminando a ação dos atravessadores que adquirem os objetos por preços bem baixos para revender no mercado por um valor bem maior. André Lúcio acrescentou que o Cesol também é cultura e pretende ajudar os artistas locais através de encontros dessa natureza, como o realizado com sucesso na última quinta-feira (dia 14/11).
“Anésia Cuaçú”
O escritor Aílton fez uma explanação detalhada sobre seu livro “Anésia Cuaçú, que foi uma das obras indicadas para o vestibular 2020 da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb. Disse que se sentia muito prestigiado por ser um escritor regional incluído na lista de outros escritores considerados os cânones da literatura brasileira.
O livro trata de uma mulher da região de Jequié (Maracás) chamada Anésia Cuaçú, que entrou para o cangaço no começo do século passado e se tornou a líder de um bando. De acordo com o autor, Anésia foi a primeira mulher no Nordeste e no Brasil a liderar um grupo de cangaceiros, bem antes da turma de Lampião e Maria Bonita.
Foi também uma mulher valente e avançada para o seu tempo, por volta de 1915/16, sendo a primeira a vestir calças e a montar no cavalo como homem. (as mulheres montavam de lado). Era exímia na pontaria com sua arma, considerada uma figura mística e temida por todos na região. Na ausência da justiça, ela e seus seguidores procuravam fazer a justiça com as próprias mãos.
Para combater estes cangaceiros, o Governo do Estado da época (1916) mandou para Jequié três expedições de soldados que foram derrotados, mas aproveitaram a ocasião para fazer atrocidades e aterrorizar a população. Nesse aspecto, Ailton fez um paralelo com a Guerra de Canudos que terminou no final do século XIX, quando o povo de Antônio Conselheiro foi massacrado.
Jornal A Tarde e a Felisquié
Ainda em sua descrição sobre a obra, Domingos citou a importância do jornal A Tarde que mandou para Jequié um repórter e um fotógrafo para registrar historicamente os acontecimentos em sua viva realidade, inclusive com uma entrevista com a líder Anésia. Com a perseguição dos soldados, o grupo da família Cuaçú se dispersou para outros estados, inclusive norte de Minas Gerais.
Agora, na IV Edição da Felisquié (Feira do Livro), de 28 de novembro a 1º de dezembro, o escritor Ailton vai trazer membros dos Cuaçus para serem homenageados e contar a história de seus antepassados. O evento vai ter também as presenças da atriz Ana Cecília, da cineasta Carolina Assis e da escritora Cristina Serra, entre outros escritores, intelectuais e artistas.
Depois do evento cultural, realizado na sede do Cesol, cinco livros de “Anésia Cuaçu” foram sorteados para estudantes que participaram das atividades culturais e vão fazer o vestibular da Uesb. Os dirigentes do Cesol de Conquista, que reúne associações e artesãos de 25 cidades, prometeram realizar outros encontros culturais de saraus com artistas para exporem seus trabalhos no órgão de economia solidária.

Jeremias Macário