No tempo da roda consumista e as tristes desigualdades sociais


Jeremias Macário

A roda girou outra vez tão rápida no gigante Brasil das profundas desigualdades sociais, que só fazem aumentar, com mais gente pobre e na extrema linha da pobreza, e chega o impetuoso tempo consumista das compras supérfluas e dos banquetes comedeiras de final de ano! É o Natal com suas cores alegres e tristes, das lojas enfeitadas de presépios e papais noéis que não são nossos, dos garotos arrumados fazendo seus caros pedidos e de outros maltrapilhos de pés no chão que descem de seus casebres e ganham o asfalto para angariar uns trocados na desigual realidade da vida.
Será por isso que muitos entram em depressão e dizem que a festa natalina é triste, e outros nem curtem a data? Acho que não seja tanto por este motivo. Por que, então, ela bole com os sentimentos pessoais e é o período das campanhas de doações, de se pedir desculpas e perdão; ter compaixão e de ser mais gentil com os outros? Não é uma hipocrisia, remorso, ou uma forma de se redimir de seus erros e pecados contra seus semelhantes? Não poderíamos ter o lado bom durante todo o ano e sermos mais humanistas?
Certa tristeza na alma
Nesta época do ano, gostaria de fazer um texto falando de coisas boas e agradáveis, mas a situação em que se encontra o nosso país, com os desastres ecológicos, mais de 13 milhões de desempregados e um governo de extrema direita que pouco respeita os direitos humanos e a liberdade de expressão, só me permite que eu sinta, como tantos, certa tristeza na alma nesta data de trenós carregando presentes no gelo, ou melhor seria de velhas carroças neste sol tropical.
As notícias são más, como o julgamento do Supremo Tribunal Federal que vota contra a prisão dos corruptos de “colarinho branco” quando condenados em segunda instância e leva os processos para recursos “ad infinitum” até a prescrição, e ainda vem de lá o IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, justamente neste templo consumista do Natal, nos dizer que nos últimos quatro anos as desigualdades sociais no Brasil só fizeram crescer.
Nos informa que a Bahia, em termos absolutos, é o pior estado da Federação neste item, com mais de sete milhões de habitantes, dos mais de 14 milhões, “vivendo”, ou vegetando com menos da metade de um salário mínimo, o qual não alcança os mil reais mensais. A mídia faz sua média e ganha com a fome e a fartura do comprar.
Num país tão injusto, de enorme concentração de renda, que só faz aumentar através do seu capitalismo selvagem e devorador, onde poucos têm em abundância e muitos não têm quase nada, como falar de um Natal feliz cheio de realizações e sonhos conquistados? Como falar de amor, de poesia doce e de felicidade onde prospera a fome, a falta de educação, de saúde, de habitação digna e de igualdade social para todos?
Vamos ser bons só agora e fazer de conta que tudo vai bem daqui pra frente, dando uma cesta básica, uns brinquedos para umas criancinhas sujas e meladas, uma camisa, um vestido, um sapato ou um cobertor, para apaziguar nossa consciência de tanta indiferença no tempo da competição e da ganância? Poderíamos ter sempre durante todo ano o mesmo olhar e a mesma mão estendida que se abre mais emotiva no Natal do empanturrar e beber.
Em suas castas de panças cheias
Só um tempo de doações e solidariedades não basta para reduzir as mortais desigualdades sociais. No outro dia a barriga volta a roncar, se os homens malvados e capitalistas burgueses lá de cima só pensam em encher suas panças, encastelados em suas castas. Noites de festejos piscinais, banhados aos vinhos, uísques e aos champanhes, enquanto lá fora uma massa ignara lambe os restos das migalhas numa noite quente de suor e lágrimas.
Feliz Natal e uma boa entrada de ano novo, meu amigo camarada! Já comprou o seu presente de papel? É sempre assim todos os anos até que a morte nos separe. E assim segue a roda do consumismo estonteante do jogar mais lixo e sujeiras no planeta; do comprar e comprar, para o mais produzir e produzir sem parar.
O maior presente seria o desconstruir para construir um amanhã mais limpo, mas ninguém quer saber disso. Coisa de idealista utópico, ou poeta sonhador da distopia. Um dia pode não haver mais Natal e fim de ano para comemorar. Só o tempo e o vento num deserto de poeiras, sem gente, sem vida, sem flora e sem fauna, numa eterna escuridão. Não é nenhum filme de terror.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *