Quem vai reeditar o AI-5


Jeremias Macário

Há 51 anos, no dia 13 de dezembro de 1968, o Brasil fervia com os movimentos políticos encabeçados pelos estudantes (a UNE), em conjunto com lideranças da reforma agrária, professores, uma ala mais progressista da Igreja Católica e operários, contra o regime ditatorial militar implantado com o golpe de 1964. O clima era tenso nos quartéis (generais da linha dura) e nas ruas, com prisões, torturas e cassações de parlamentares. O Rio de Janeiro pegava fogo com a “Marcha dos 100 Mil” depois da morte do estudante Edson Luiz, no restaurante Calabouço.
Naquele dia fatídico, a cúpula do governo Costa e Silva se reuniu com seus principais ministros e resolveram decretar o Ato Institucional número 5, o mais perverso e o pior de todos, significando um golpe dentro do golpe de 64, com o fechamento do Congresso Nacional, mais cassações, censura dura contra a imprensa e às artes em geral, proibição de reuniões e outras medidas opressivas contra a liberdade de expressão. Foi o início dos anos de chumbo quando logo mais o general Médici assumiu a presidência da República.
O resto não é preciso dissertar porque muitos já sabem da história, especificamente os mais velhos (a maioria dos jovens, infelizmente, desconhecem os fatos). Ao completar 51 anos, aparece um deputado maluco de extrema, antidemocrático, de ideias retrógradas, pregando a reedição do AI-5 num Brasil já arrasado, dizendo que se a esquerda engrossar o caldo com manifestações do tipo chilena, a história pode se repetir.
Quem está por trás disso tudo?
Uma pergunta que não quer calar: Quem está por trás do recado ameaçador feito à nação pelo deputado Eduardo, filho do capitão-presidente, que já disse de certa feita que para fechar o Supremo Tribunal Federal bastaria um soldado e um cabo? Ele mesmo vai reeditar o AI-5, dando um golpe no próprio pai, ou tem um grupo linha dura ligado à presidência, na espreita para decretar o terror no país?
A sua fala dá a impressão que ele é o porta-voz de um grupo carrancudo, carrasquento que não vai tolerar uma convulsão social no nível do Chile que reuniu nas ruas mais de um milhão de pessoas. Soa como se fosse um aviso aos brasileiros para que não se atrevam a fazer o mesmo, porque senão o pau vai comer. Soa também como uma afronta às instituições que já não são tão sólidas assim.
Muita gente, principalmente os nossos jovens de hoje, pouco entendeu do seu recado atrevido, porque não sabe o que foi esse tal sujeito tirânico AI-5 de 1968, daí a importância de que cada um deve conhecer sua história passada para que ela não se repita. Quem acha que a terra é plana, que o homem não pisou na lua, também não acredita que houve ditadura, nem inquisição e nem tortura.
É muita ousadia o cara pregar em público a volta do AI-5, e num tom como se ele estivesse sendo respaldado por uma ala golpista, tendo em vista que o pai quando era deputado declarou que se fosse eleito presidente da República fecharia o Congresso. Vale salientar, e é bom que se leve em conta, que hoje os generais, coronéis, majores e capitães ocupam os maiores cargos do governo.
Atentos e vigilantes
Entre esses militares, não há dúvida que muitos pensam como o deputado, e outros mais sensatos não comungam da mesma ideia malvada e tirânica. Diante disso, todos, especialmente as entidades e instituições, devem sempre estar vigilantes e não subestimar, deixando de levar a ameaça a sério, ou afirmando que não passa de uma fantasia da cabeça dele. Pouca gente também acreditava que a extrema-direita chegaria ao poder, e que o Bolsonaro seria eleito.
Culturalmente, o povo brasileiro sempre foi submisso, cordeiro e de pouca reação e, no momento, está dividido entre vermelhos e os de camisas amarelas, que se odeiam entre xingamentos e intolerâncias de todo tipo. Essas ideologias desorganizadas se revezam e se alternam nas manifestações, tornando até monótonas e chatas, com os chavões de sempre. Não existe um alinhamento, e cada um, de cartaz na mão, se apresenta com seu pedido individual, sem agir e penar coletivamente.
É uma realidade bem diferente de outros povos latinos, se bem que com sofrimentos e injustiças sociais do mesmo quilate e, em algumas questões, até pior. Tudo já aconteceu aqui nos últimos anos para que houvesse uma convulsão social, mas tudo na vida tem o seu limite, e uma panela com muita pressão pode explodir a qualquer hora. Não há tampa que resista e tudo pode ir aos ares,